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Warcraft (Review)

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Poderá ser a frase mais hipócrita, mais irónica e mais contra producente alguma vez escrita numa review de cinema, mas por favor, não acreditem nos críticos!

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Título Original: Warcraft

Ano: 2016

Realizador: Duncan Jones

Produção: Stuart Fenegan, Alex Gartner, Jon Jashni, Charles Roven, Thomas Tull

Argumento: Duncan Jones, Charles Leavitt, Chris Metzen

Actores: Travis Fimmel, Paula Patton, Ben Foster, Dominic Cooper, Toby Kebbell, Daniel Wu

Música: Ramin Djawadi

Género: Acção, Aventura, Fantasia

Ficha Técnica Completa

 

 

Warcraft é um nome sonante para qualquer gamer e, uma saga com mais de 20 anos de história, desde a suas mais modestas origens como RTS, até à sua ascensão através de um dos MMOs mais populares e influentes de toda a história, World of Warcraft. Se todo este universo criou um conjunto de histórias e narrativas, que se perderam na complexidade do mundo que a saga tenta reproduzir, explicar a origem de toda esta fantasia épica era de um esforço hercúleo para um único filme, sendo por isso necessário uma simplificação assinalável de forma a tornar a experiência numa abordagem simples, familiar e mesmo assim respeitadora, tanto para quem conhece como para quem é alheio ao fenómeno da Blizzard.

A análise dos críticos, nas semanas anteriores ao lançamento do filme sofrem de problemas, que são desde logo evidentes. O primeiro prende-se ao elitismo inerente à profissão de critico de cinema. Se virmos alguns órgãos de comunicação social proeminentes na nossa sociedade, o termo blockbuster não é visto como parte do “verdadeiro cinema” e é por isso, apenas, uma maneira de movimentar milhões com fitas, supostamente, sem substância. O que está no grande livro do cinema é para estes críticos, a abordagem paisagística e melancólica onde não entra a palavra “entretenimento”, nem nada que saia de um certo registo. Um filme como Warcraft é desde logo posto de parte, porque não obedece às regras daquele outro, onde alguém olha para o horizonte durante quatro horas e reflecte sobre a vida em grandes planos. O critico elitista tem dificuldades em perceber que, ambos os filmes têm a sua própria análise e abordagem e obedecem a regras muito diferentes, mas válidas.

O segundo problema é o síndrome Senhor dos Anéis (2001-2003) e o síndrome Avatar (2009)Desde que a adaptação de Tolkien surgiu no grande ecrã, no inicio do milénio pelas mãos de Peter Jackson, que se torna difícil analisar outras obras de fantasia sem estabelecer uma comparação directa com a mesma. Isso cria um fosso e uma barreira difícil de ultrapassar. A mesma regra se prende em termos de efeitos especiais e motion capture a todos aqueles que visionaram Avatar de James Cameron. A verdade é que Avatar é, na sua essência, um filme moderado, embora tenha uma boa dose de entretenimento e deva ser louvado, sobretudo, pela sua inovação em termos de efeitos especiais. A história não é particularmente original ou especialmente bem articulada, reproduzindo conceitos já mais que vistos, ao ponto de ser apelidado de Pocahontas no espaço, ou outro tipo de comparações que envolvem Smurfs.

Passando à frente da explicação, que levou críticos a negarem qualquer tipo de qualidade ao filme, passamos à analise do mesmo. Warcraft é… um filme razoavelmente bom! Não é o melhor filme de sempre, mas é talvez uma das melhores adaptações de um videojogo até à data, não sendo um feito difícil, tendo em conta a oferta dos últimos anos. Se o leitor ficar com má impressão de Warcraft, não aconselho nenhum dos títulos de Bloodrayne (2005-2011) ou Far Cry: O Filme (2008), pois não ultrapassam as 3 estrelas e meia no IMDb, e por razões bem evidentes! O único termos de comparação possível seria com Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (2010), talvez uma das melhores adaptações até ao momento.

Warcraft, conta a história dos primeiros confrontos entre humanos e orcs no mundo de Azeroth, mantendo muita da história original, mas simplificando ou modificando, levemente, alguns aspectos de forma a não bombardear a audiência com com demasiada informação. Os orcs tentam desesperadamente sair do seu planeta em destruição, organizando todos os clãs numa única bandeira, a Horde, guiados por Gul’dan (Daniel Wu), o principal antagonista, cuja historia foi omitida para poupar à audiência um fastidioso bombardeamento de nomes estranhos como Kil’jaeden ou Sargeras. O resultado desta união de clãs é um êxodo de uma raça de guerreiros temíveis, que com a ajuda da magia de Gul’dan, que se baseia no controlo de uma substância poderosa chamada Fel, deve ultrapassar o Portão Negro directamente para um mundo onde as suas práticas barbaras não são bem vindas. Durotan (Toby Kebbell), líder orc do clã Frostwolf, condena as práticas assassinas de Gul’dan, e a sua oposição às mesmas terá um grande impacto em toda a história.

Em Azeroth, o reino de Stormwind encontra-se em perigo, devido à nova ameaça que a Horde de Gul’dan representam. O rei Llane Wrynn (Dominic Cooper) tenta controlar a situação exigindo o conselho do guardião Medivh (Ben Foster), enviando o seu mais poderoso campeão Anduin Lothar (Travis Fimmel) e o novo e promissor mago Khadgar (Ben Schnetzer), para contactar o mesmo, de forma a perceber que tipo de ameaça o reino enfrenta. O primeiro contacto entre humanos e orcs acontece pouco depois, culminando na libertação de Garona (Paula Patton), uma escrava meia orc meia qualquer coisa (humana possivelmente, mas na lore dos videojogos draenei), que acaba refém e mais tarde, aliada dos humanos na luta contra os seus anteriores captores.

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Visualmente, o filme é uma das experiências mais interessantes e mais fiéis ao seu source material. Quando a cidade de Stormwind ou Dalaran são introduzidas, não há qualquer dificuldade para audiência gamer em exclamar “Eu já ali estive!”. E de facto, o filme quer claramente introduzir um jogador de videojogos a componentes familiares, com recriações perfeitas de localizações icónicas da saga, e especialmente fiéis às suas representações em World of Warcraft. Este é o trunfo principal, a familiaridade visual que tenta ocultar muitos dos problemas do filme. Algumas destas localizações parecem, por vezes, uma espécie de fan service para suscitar alguma emoção nostálgica à plateia, mas acabam por não ter uma importância significativa no argumento, para justificar a sua introdução.

Os principais problemas com Warcraft prendem-se claramente com o argumento. Não é particularmente bem escrito e algumas frases parecem quebrar o clima medievalesco ou fantasioso, que o filme tenta impor. Infelizmente, a cavalgada frenética de ocorrências e a quantidade de personagens acabam por enfraquecer a história, e apresentar um argumento oco, num filme de fantasia que merecia mais pormenor e certamente “mais sumo”. Não há falta de substância na história que o filme tenta vender, mas falta algum esforço nessa materialização para o ecrã, o que lhe retira alguma qualidade ao filme. 

Se o argumento nem sempre se mostra o mais afiado, nada pode ser dito em relação aos efeitos especiais e às maravilhas técnicas da Industrial Light & Magic. Os orcs parecem criaturas reais aos olhos da audiência, com animações faciais do melhor alguma vez feito no género. Isso acaba por melhorar, significativamente, o contributo do elenco orc do filme, em comparação os actores que dão a cara como humanos e que se gladiam, com as suas linhas na tentativa de as inserir correctamente naquele universo e nas situações correspondentes. As cenas de combate são maioritariamente bem elaboradas, tendo em conta que personagens reais e virtuais partilham o ecrã em lutas frenéticas. Nem sempre humanos e orcs parecem fazer parte de um mesmo mundo, mas o esforço visual é bem evidente e, nesse aspecto é necessário atribuir o mérito devido a uma equipa atenta ao pormenor. O grande let down visual é Garona, que acaba por parecer uma intrusa, não em termos narrativos, mas visuais. Sendo meia orc e, presumivelmente, meia humana, deu azo a uma caracterização diferente e sem CGI, que a torna numa personagem estranha, ao ponto do ridículo.

Devido ao argumento pouco elaborado não há grande oportunidade para que qualquer dos actores brilhe. Todos tentam representar de acordo com a qualidade das suas linhas. Podemos destacar Toby Kebbell como Durotan e Daniel Wu como Gul’dan, mas estes actores estão obviamente, atrás de todo um aparato de CGI, que esconde a sua verdadeira face. No elenco humano, o conhecido actor de Vikings, Travis Fimmel, destaca-se pela sua já conhecida facilidade em adaptar-se a papeis de guerreiro. É, no entanto, difícil separá-lo do seu equivalente escandinavo e isso é, talvez, um problema derivado da familiaridade com o seu papel em televisão.

A música tem a composição de Ramin Djawadi, visionário por detrás da musica de Game of Thrones. Os motivos musicais, que ligam o filme aos videojogos, através de pequenos e subtis apontamentos são de uma mestria e causam uma familiaridade incrível. No entanto, a banda sonora não é efectivamente estrondosa o suficiente parar ficar no ouvido depois do filme ter acabado.

Warcraft, não é certamente o melhor filme de fantasia de todos os tempos. O seu trunfo são os efeitos especiais, mas a sua condenação está certamente no argumento. À saída do cinema, fica a tentativa de adaptar uma história épica, que não falha miseravelmente, mas que acaba por transmitir uma sensação agridoce, de que muito mais poderia ter sido feito com uma escrita cuidada. Os fãs terão menos dificuldades em aceitar o filme, mas quem é convidado a visitar Azeroth pela primeira vez poderá perder-se, ou mesmo desinteressar-se com personagens nem sempre tão inspiradoras, como seria expectável. Mesmo com todos estes problemas, uma adaptação moderada de um videojogo para a tela é certamente uma conquista e, embora tenha falhado por boa margem na qualidade que a saga merecia, deixa a sua marca e o possível espaço para sequelas, que podem contribuir para um aumento exponencial da sua importância como franquia.

 Warcraft 6.5

Volto para o próximo mês com mais cinema…

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