Humor

Vida De Um Fraco Playboy

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Se tudo for igual até ao fim da minha vida, cada chamada com o meu amigo e editor deste espaço, Bruno Neves, começará sempre com um “Como está o senhor?” e acabará sempre com um “Já sabia, mas tu és um playboy! Essa é a tua vida. Enquanto a humanidade inteira espera ter um dia sem história, tu esperas ter sempre uma história nova! Quando é que assentas?!”

Se é certa a razão que ele tem, na minha insana busca pela nova epopeia, erra redondamente na parte do playboy. Insiste na ideia de eu ser um playboy porque sabe que eu não gosto, porque é só isso que o motiva. Playboy que se preze, todos dias tinha mais uma conquista para contar, eu só tenho histórias tristes. Mas ele decidiu ir longe com a brincadeira. Escreveu, para esta mesma casa, um texto sobre “Os 5 tipos de amigos que todos temos”, nesse mesmo texto decidiu evocar toda a opinião que tem sobre mim, com o sentido de humor que lhe foi entregue. Como é óbvio, todo o lisonjeio que senti foi mais que apenas a honra de ter servido de inspiração para um amigo. Foi o reconhecimento do meu papel na vida dele. Por isso, hoje decidi contar um pouco da minha vida. Para isso, vou contar a história de como conheci uma miúda espetacular, que resume um pouco o papel de todos no meu micro-cosmos.

Era quinta-feira à tarde, na faculdade havia mais do mesmo: Imperial a 50 cêntimos. Eu e o meu companheiro de vida, ficámos mais uma vez para fazer história. Como cenário tínhamos o jardim da Assembleia, caras bonitas, música ambiente. Perdidos entre snaps e copos de Ice Tea de Cevada chega a conclusão que os dois sabíamos desde início, tínhamos que ficar por Lisboa. Para nós era mais uma tarde/noite que tínhamos para recordar. O cuco cantava as 9 badaladas e isso significava que era hora de irmos para casa. Casa de um meu, e agora dele, grande amigo. É ele que nos dá guarida nestes dias. Mas até casa o caminho é ainda longo. Encontramos o espanhol mais português que existe. Um metro e meio de sangue galego e portuñol era a nossa companhia até ao Saldanha. Ele e mais um tropa, duzentos e tal centímetros de um bom tropa.

À boleia do 27 da Carris, versão noturna, começa a escalada da D. Carlos. No último banco daquela lata de Sardinhas, completamente vazia, quem reinava éramos nós. Nós, e mais duas raparigas. Uma delas, miúda tímida, pele muito clara. Respostas secas e curtas, poucas palavras. Ria-se mais da nossa boa disposição, do que do que dizíamos. A outra. Uma Pocahontas, tímida, poucas palavras também ela. Fala em monossílabos polifónicos. Um “iiiiimmmm” é um sim, um “nononono” é um não. Difícil entender o dialeto, mas mesmo assim fez-se um esforço. O meu companheiro de armas pergunta: Como te chamas? Ela responde “…Ia” “Mia?” “Não, Bia, Beatriz.”

“Mas pareces Indiana”, (risos) “Sou de Setúbal!”. Digo eu do alto do meu estado de sobriedade “É a Bia que Mia” “Para mim será sempre a Mia” repele.

Saímos do Autocarro, umas dez paragens antes do que se devia. Vimos um senhor, no alto de uma rotunda, com um leão de baixo do braço. O destino era a Alameda D. Afonso Henriques, e na vez disso, tínhamos o Marquês como companhia. Subiu-se ao Saldanha. Um par de correrias, um par de gargalhadas, mas a história é sobre o par de miúdas. Ainda se brincava com o nome da Tasca, era Ibérica em honra aos nuestros hermanos, e isso fazia o ego do pequeno espanhol estar ao dobro da sua altura.

Surge a ideia “vou-lhe pedir o número!”. Naquele preciso momento o meu cérebro achou que seria boa ideia. A minha consciência estava acorrentada a um canto escuro e isolado. Não havia o Anjo no ombro esquerdo. O Diabo parecia bastante convicto da genialidade da ideia. A boca reproduz o conselho do pobre Belzebu, e os ouvidos recebem a informação óbvia, que qualquer rapariga devia de dar naquela situação. Mas com uma diferença, veio em monossílabo e em formato polifónico. “Nonononono”. Com a ausência do anjo, a ausência da vergonha, alheia e própria. Simplesmente ausente. Sorri. Ri. Não fazia mal. Eu tinha aulas com a caloira em causa. A possibilidade de voltarmos a falar era mais que certa.

Já em casa, depois da paragem no Mc, a massa com queijo de cabra e polpa de tomate, resgatou a consciência do bunker onde estava. Primeiro passo: mandar mensagem ao nosso amigo em comum para pedir desculpa. Não podia faltar. Não ia conseguir olhar a rapariga nos olhos outra vez. Sóbrio, aquela ideia parecia-me ridícula. Não a conhecia de lado algum. Não tinha nada que nos ligasse. Apenas uma festa, uma viagem. Mais nada. Veio então a contenção de estragos. Podia resumir aquilo a uma piada. Era o mais sensato a fazer.

No dia seguinte houve aquilo que era inevitável, a “so about last night conversation”. A miúda percebeu perfeitamente a brincadeira que aquilo era, que eu tinha a melhor e única desculpa que um homem tem naquelas ocasiões. Eu estava bêbado! Tornou-se rotina. “Biiiia, dás-me o teu número?” era o dia-a-dia das vezes em que nos cruzávamos. Foi um mote. Um mote para ficarmos amigos, ou pelo menos conhecidos. Com esta brincadeira, ganhei mais um amigo. Margem Suliano, único. Faz parte da classe da cadeia alimentar que não assalta. É como as zebras na savana. É assaltado.

Não faltou muito até à próxima festa na faculdade. Mais do mesmo, diferença: era praxe. Eu não trajo. Não me sentia sequer confortável em vestir aquele fato com casaca de grilo. Mas isso não impedia que não fosse à festa. Nem a mim, nem ao meu compincha. Qualquer um deles. Estávamos à conversa, agarrados à loira que nunca nos trai, quando sinto um toque no ombro. “Eduardo posso falar contigo?” Olho, era a tal Bia que Mia. A probabilidade dela ter alguma coisa a dizer-me, que não fosse um estalo era demasiado baixa. Respondo prontamente, “Diz, precisas de alguma coisa?”,  “Sim, gostava que fosses meu padrinho…”. A resposta do meu cérebro era fácil: Não! Da boca para fora sai um “Sim…” Acreditem em mim, é impossível dizer que não. Ela é pura e simplesmente demasiado fofa para que isso seja possível. Ninguém diz que não a um gato bebé, a um golfinho, a um Panda, à Bia.

Como sempre, no dia seguinte, há uma chamada para Azambuja. “Como está o senhor?”, digo eu ao meu grande amigo Neves, conto tudo isto. Acontece a conversa do costume, mas com uma diferença “Isso vai-te fazer bem!”.

E agora digam-me, alguma vez um playboy tinha uma história destas?! Mas ao que parece, pela primeira vez, este fraco playboy tem uma história feliz para contar. E, no meio disto tudo, ainda não tenho o número dela…

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