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Sia – Genial ou Incompreendida?

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Antes de mais contextualizo o artigo deste mês, com uma notícia recente, que referia o facto de alguns fãs da cantora australiana Sia, terem pedido a devolução do dinheiro, despendido num concerto seu por, alegadamente, não ter correspondido às expectativas.

A cantora encontra-se em digressão. Digressão essa que passou por Portugal este mês no Festival MEO Sudoeste (falarei mais à frente do concerto), recentemente foi processada por fãs, que a acusaram de proporcionar um espectáculo impessoal. Estas reclamações aconteceram após um concerto em Israel e visam o facto da cantora ter actuado “apenas” 65 minutos e, praticamente, não ter falado.

Surgiu-me então a dúvida: será Sia genial ou incompreendida?

Antes de mais aviso desde já que tentarei ser o mais imparcial possível, no entanto, não prometo milagres porque há muitos anos que sou fã do seu talento.

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Para os mais distraídos, estou a falar de Sia Furler, multifacetada artista australiana, cantora, compositora, produtora e realizadora. Actualmente com 40 anos, conta já com larga experiência musical, muitas vezes na sombra de outros artistas. Como referi anteriormente, sou fã assumido de Sia Furler, fiquei rendido ao seu talento quando era uma das vozes mais fortes que acompanhava os brilhantes Zero 7 (antes já havia sido backing vocalist dos Jamiroquai). Juntamente com os Zero 7 (duo britânico de trip-hop), colaborou nos discos “Simple Things” (2001), “When it Falls” (2004) e “The Garden” (2006), álbuns que merecem ser ouvidos com atenção.

Estreou-se a solo em 1997, assinando ainda como Sia Furler, com o disco “Onlysee”, álbum que não alcançou praticamente nenhum sucesso. A partir daqui passou a assinar simplesmente como Sia e editou 4 discos entre 2001 e 2010, dos quais destaco “Colour the Small One” e “Some People Have Real Problems”.

Nos últimos 15 anos, Sia reinventou-se e teve a capacidade única de demonstrar que a força da sua música, está nas próprias canções e não na artista que está por trás.

Hoje em dia, atingiu o sucesso global, fundamentalmente com a edição de “1000 Forms of Fear” (2014), onde podíamos encontrar os singles “Chandelier”, “Big Girls Cry” e “Elastic Heart”. Foi precisamente após a edição deste álbum que Sia decidiu passar a cobrir o rosto, escondendo-se fundamentalmente atrás da já famosa peruca bicolor. Quando questionada sobre os seus motivos, afirmou que quer assumir o controlo sobre a sua imagem, ninguém deve estar subjugado à pressão da imagem e gostaria ainda de preservar a sua privacidade, mas não só, para ela a força da música deve estar nas próprias canções e não em quem as interpreta ou compõe.

Muitos não sabem que além de cantora e compositora, Sia compõem, produz e escreve músicas para outros artistas, do vasto rol de nomes fazem parte David Byrne, Fatboy Slim, Christina Aguilera, Rihanna, Rita Ora, Celine Dion, Oh Land, Katy Perry, Jessie J, Britney Spears, Kylie Minogue, Shakira, Jennifer Lopez, Maroon 5, entre tantos outros. Só para referir um dos exemplos mais famosos “Diamonds”, popularizado por Rihanna, foi escrito por Sia. No entanto, apesar disso há quem rejeite algumas belas músicas que escreveu, neste contexto surgiu o novo disco de Sia, “This is Acting” exclusivamente composto por canções que a própria escreveu para outros artistas, mas que foram rejeitadas. O título do LP, prende-se precisamente com esse facto, na medida em que não são inspiradas por si, tratando-se antes de um trabalho de se tentar colocar na pele de outra pessoa (de actuar). O disco conta com faixas rejeitadas por Katy Perry, Shakira, Demi Lovato, Rihanna, Beyoncé e Adele.

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Como não podia deixar de ser, mesmo não ouvindo o estilo de música que nos últimos anos preenche o cartaz do MEO Sudoeste, tive que fazer o “sacrifício”, porque não é todos os dias que Sia actua ao vivo e muito menos que dá um concerto em Portugal.

Sia, regressou a Portugal para o primeiro concerto em nome próprio, relembro que em 2007 havia actuado juntamente com os Zero 7, nesse mesmo festival. Dia 6 de Agosto no MEO Sudoeste, Sia arrebatou e conquistou aqueles que perceberam isso…

O Palco surgiu despido de qualquer artefacto, sem músicos, sem instrumentos musicais, sem confetis, sem nada, apenas um pano branco a servir de fundo e um pequeno degrau, onde Sia permaneceu praticamente imóvel durante todo o concerto.

Sia apareceu em palco com um enorme “vestido” branco de folhos que, lentamente, se desmembrou, num conjunto de brilhantes bailarinos que coreografaram e interpretaram os seus temas. “Alive”, tema inicialmente escrito para Adele, abriu o concerto, segiu-se “Diamonds”, tema que escreveu para Rihanna. Os bailarinos não se limitaram a dançar, interpretam e carregam com eles uma forte carga emocional, teatral e por vezes dramática. Sia permaneceu imóvel, com a habitual peruca bicolor a cobrir-lhe o rosto e um enorme laço branco na sua cabeça, a sua voz (o que realmente interessa), é absolutamente perfeita, sem falhas, o que ouvimos em disco é similar ao que ouvimos ao vivo. A cantora e compositora australiana não possui só um assinalável alcance vocal, carrega na sua voz um mundo inteiro de sofrimento, de alegria e de paixão, transmitindo verdadeiros sentimentos e emoções. O alinhamento foi certeiro e centralizado nos seus últimos dois discos, “Cheap Thrills”, foi um dos momentos da noite, mas não faltaram “Big Girls Cry”, “Bird Set Free”, “Reaper”, “One Million Bullets”, “Elastic Heart” e “Unstoppable”. Houve ainda um único momento “regresso ao passado”, ao som de “Breath Me”, tema extraído de Colour The Small One.

O momento mais efusivo da noite surgiu ao som de “Move Your Body”, tema inicialmente escrito para Shakira. “Titanium”, tema em parceira com David Guetta, foi recebido com alguma histeria, que se acentuou com a primeira vez que Sia falou com o público, dizendo qualquer coisa do género “vocês estão certos, eu é que me enganei”, a propósito de se ter enganado na letra. “Chandelier”, um dos seus maiores sucessos, encerrou com chave de ouro um concerto curto, mas intenso e brilhantemente diferente de tudo aquilo a que já havíamos assistido. Sia despediu-se, falando pela segunda vez, para dizer “obrigado”.

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Fiquei com a sensação que foi um concerto que dividiu opiniões, como seria de esperar não convenceu todos os presentes, houve quem ficasse rendido, quem ficasse indiferente, quem se maravilhou e quem se desiludiu, eu fiquei apaixonado por algo que foi muito, mas muito mais do que “simples” concerto de música…

É certo que não mostrou o rosto, mas também não fui assistir ao concerto para ver a sua face. Permaneceu imóvel, mas também não é conhecida por saber dançar e finalmente praticamente não falou, mas cantou que era aquilo que eu realmente queria, “ouvir ao vivo a sua voz”. Por vezes, fico com a sensação que a moda dos festivais faz com que os “pseudo-fãs” não tenham verdadeiro sentido crítico para com as actuações, dando mais valor à interacção, a um obrigado, proferido na língua de Camões, ou até mesmo um elogio repetido em todos os concertos. Para mim, Sia é genial mas, ao mesmo tempo, incompreendida por muitos.

Não há ninguém no mundo que dê um concerto como Sia. Ela é uma artista única, que conseguiu provar com o passar dos anos que na música, ou pelo menos na sua música, o que realmente importa não são os artistas ou os músicos, mas sim as canções, as letras, a voz e todo o sentimento que as palavras transportam.

Regresso no próximo mês, mas até lá não se esqueçam de ouvir boa música…

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