Direitos Humanos

Refugiados – Os Números Que Não Contam

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O mundo vê-se a braços com uma das maiores crises humanitárias de sempre. A comunidade europeia fecha os olhos. O mundo trata-os como “apenas mais um”. Os telejornais portugueses não lhes dão a devida atenção. Muito menos os jornais ou a rádio. Eles lutam. Com pedras, com armas. Brincam com vidas. Fazem ameaças e são ameaçados. Não olham a meios para sobreviver. Afundam-se no Mediterrâneo. 219 mil, para ser precisa. Fogem. Correm. Choram. Não sabem os seus direitos. Eles são refugiados, os números que não contam.

De acordo com o Relatório Anual da UNHCR (United Nations High Commissioner for Refugees) existem, actualmente, 59,5 milhões de refugiados, a maior vaga a que o mundo já assistiu (todos juntos, seriam o 24º maior país do mundo ou, comparando com Portugal, seriam quase seis vezes mais do que nós). Destes, 38,2 milhões são deslocados internos (IDPs ou Internally Displaced People) devido a conflitos bélicos, violência e desrespeito pelos direitos humanos. Mais de metade são crianças. E a comunidade internacional? Ignora! O mundo desmarca-se e faz do Mediterrâneo um cemitério, a Europa paga aos países do Norte de África para conter o fluxo migratório. Entretanto, milhares de vidas perdem-se num “braço de ferro” que não vai terminar.

A Primavera Árabe revolucionou algumas sociedades muçulmanas. As pessoas perceberam que o poder está na multidão, nas massas, que é possível contornar um regime ditatorial e que há países dispostos a apoiar a oposição. Só não há pessoas suficientes para se aperceberem das perdas a que este braço de ferro tem levado. Vejamos o exemplo da guerra civil na Síria, onde já ninguém percebe quantas partes lutam, ou pelo que lutam, muito menos contra quem lutam. Resultado? 7,6 milhões de IDPs até ao final do ano de 2014. Em quase cinco anos, a Síria “trouxe ao mundo” 3,9 milhões de refugiados.

Aqui ao lado, na Europa, onde a democracia é o valor supremo, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia já conta com 230 mil pessoas que fugiram para o país de Vladimir Putin. Do outro lado do Atlântico, na Colômbia, a disputa entre as FARC e o governo de Juan Manuel Santos, que começou entre 1964 e 1966, apresenta um saldo de seis milhões de refugiados.

Os números não param de crescer. E nós não nos podemos esquecer. Falamos de vidas. De famílias. Homens, mulheres, crianças. Não só na Síria, na Ucrânia ou na Colômbia, mas também na Somália, no Congo, na Eritreia, no Sudão, no Iraque, no Afeganistão[1]… Talvez nem saibamos localizá-los no mapa. Alguns nem sabemos que existem.

Os refugiados, apesar de terem um estatuto especial, são renegados em grande parte dos países acolhedores, enfrentando dificuldades laborais, económicas, sociais, culturais, linguísticas e religiosas. Vivem na miséria, sem condições mínimas de trabalho. E é nesse sentido que é necessária uma intervenção, alterando o pensamento de sociedades conservadoras, racistas e xenófobas, centradas em umbigos maiores que a própria barriga. Sim, é impossível acolher os milhões de vítimas. Sim, os problemas sociais e económicos que advêm da inserção destes indivíduos são complexos. Mas são vidas. E eu não vejo uma mãe ou um pai arriscar a dos seus filhos “só porque sim”. A comunidade internacional bateu no fundo quando o Relatório Anual da UNHCR revelou que, em 2014, 126 800 refugiados conseguiram regressar a casa, o número mais baixo desde a década de 1980.

Os motivos para saírem dos seus países são vários. Perseguições políticas, religiosas e raciais, conflitos bélicos, catástrofes naturais. Abençoados aqueles que se queixam apenas de países corruptos. Abençoados aqueles que podem sair à rua. Abençoados aqueles que não precisam de se esconder. De rejeitar as suas crenças, valores ou ideais. Abençoados aqueles que não são só mais um número. Que contam. Que se fazem ouvir. E abençoados aqueles que não desistem, que não baixam os braços. Que correm atrás de uma vida melhor. Que atravessam mares e desertos. Que enfrentam a morte. Porque, na verdade, aquilo que deixam para trás é inimaginavelmente pior do que o futuro lhes poderá reservar.

[1] A Síria, o Afeganistão e a Somália representavam, em 2014, 53% do número total de refugiados (UNHCR, 2015).

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