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A análise aos Óscares 2015

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E cá estamos mais uma vez, um ano depois, para mais uma edição dos Óscares. Como sempre tal cerimonia necessita do seu espaço maior neste magazine e por isso não poderia faltar uma especial e trabalhosa crónica. Primeiro falarei por alto sobre a cerimónia, de seguida falarei um pouco do que achei de cada filme, e por ultimo, e não menos importante, falarei sobre quais eram os meus prognósticos para a atribuição de prémios e quem de facto levou a estatueta para casa.

Em primeiro lugar passemos à frente na parte da passadeira vermelha porque moda não é propriamente o que me traz aqui. Gostei da apresentação de Neil Patrick Harris, teve no seu geral uma boa prestação com alusões a filmes, deixando o público mais ou menos expectante com a famosa pasta que teria os seus prognósticos de óscares. Faltou algo que rivaliza-se com a piada da pizza de Ellen DeGeneres o ano passado mas nem por isso deixou de ser uma cerimónia bem apresentada, com algumas piadas bastantes críticas e outras simplesmente parvas mas que com certeza suscitaram algum gracejo.

Neste ano, tal como o ano passado, a lista de filmes era variada e cheia de qualidade, no entanto, pareceu-me um ano mais renhido, onde o pico de qualidade foi mais elevado e consistente. Sendo impossível analisar todos os filmes de todas as categorias analisarei sucintamente os nomeados para Melhor Filme.

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Sniper Americano

Um filme do lendário Clint Eastwood mostra a passagem do soldado americano Chris Kyle (Bradley Cooper) pela guerra do Iraque, sendo este soldado um dos snipers mais mortíferos da história dos EUA. Embora tenha sido criticado devido a uma suposta mensagem patriótica, a qualidade do filme advém da capacidade de diferentes pessoas conseguirem ver diferentes mensagens. Para mim pouco houve de patriótico neste filme a não ser um homem assombrado pelo fantasma da guerra através do trauma e da mudança da sua personalidade. É um filme que não se debruça no heroísmo mas sim nas suas consequências, não dignificando a guerra, e até de certo modo criticando-a.

7.5

7,5

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Birdman

Há muito, e pouco, para dizer sobre Birdman. É certo que quem não esteve fechado numa gruta nas últimas semanas sabe que foi o filme que ganhou a noite. Debruça-se sobre um actor na decadência que luta para retomar o rumo da sua carreira mas sempre assombrado pela sua ligação à figura e à fama do super-herói que representou anos antes, o Birdman. O filme propõe uma reflexão sobre a indústria, a relevância de um actor e o ambiente de backstage que se vive, com problemas económicos, familiares, etc. Devido à sua cinematografia (numa ilusão de que todo o filme se passa num take), juntando motivos e diálogos que tocam o surrealista, Birdman foi sem duvida um justo vencedor, embora rodeado de concorrência com muita qualidade.

Her9.0

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Boyhood

Boyhood apresenta um enredo simples e pouco ambicioso em termos de história. É sobretudo na sua originalidade e paciência de produção que estão os seus pontos fortes e por isso mesmo chegou à lista de nomeados. Filmado durante doze anos com os mesmos actores do início ao fim apresenta um produto final coerente mas sem grandes brilhantismos. A história percorre a vida de um rapaz desde a sua infância até à entrada na faculdade, cheia de percalços e problemas familiares. A sua simplicidade pode ter encantado a academia mas no fundo parece-me a mim o mais fraco dos nomeados.

Nebraska7.0

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Grand Budapeste Hotel

Um filme que encanta ao nível visual de forma grandiosa através de uma história com uma boa dose de comédia, drama e acção. Assumindo uma postura descontraída mas com grandes representações parece por vezes que estamos a ver uma banda desenhada, quer pela cinematografia única quer pelos actores que vivem as suas personagens de forma por vezes exagerada, no bom sentido note-se. Um filme único e estranho na boa forma da palavra.

Clube de Dallas e 12 Anos Escravo8.5

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O Jogo da Imitação

Um registo biográfico do génio por detrás da tecnologia moderna de computadores. Contratado para decifrar o código secreto nazi durante a Segunda Guerra Mundial, Alan Turing (Benedict Cumberbatch) luta contra o tempo, procurando uma forma de descobrir este mesmo código que possibilitará antever posições e operações das tropas do Eixo. Turing luta também contra os seus colegas e contra a sociedade no geral devido à sua personalidade fechada e também devido à sua orientação sexual. Um filme bastante bem escrito com uma interpretação fabulosa de Cumberbatch.

Desolation of Smaug 8.0

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Selma

Acho que David Oyelowo devia ter entrado na corrida para Óscar de melhor actor com o seu Martin Luther King. Independentemente desta questão Selma é um filme que deve ser visto pela sua historia e pela mensagem que transmite numa luta que ultrapassa gerações e se prende com a historia recente dos EUA. Acompanhando a luta de Luther pela igualdade de votos em 1965 na celebre marcha entre Selma e Montgomery é um filme com uma mensagem forte, e actual, que mereceu ter o seu espaço entre os nomeados.

7.5 7.5

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A Teoria de Tudo

Já falamos sobre ele, um relato único da vida de Stephen Hawking e a sua batalha contra a Esclerose Lateral Amiotrófica. É uma historia de amor diferente do habitual e marcada por um excelente argumento. O trunfo é, e foi, a interpretação de Eddie Redmayne que lhe valeu o esperado óscar. Embora tenha passado ao lado do resto das categorias é um filme merecedor de corpo e alma do lugar de nomeado que conquistou.

Clube de Dallas e 12 Anos Escravo 8.5

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Whiplash

O filme tem um conceito original e faz-nos questionar até onde é possível ir para perseguir um sonho. A resposta a esta pergunta pode revoltar-nos, deixar-nos até consternados com as atitudes do protagonista, e por isso mesmo é um filme soberbo. Embora tenha passado ao lado da maior parte dos grandes prémios venceu com a atribuição de Óscar de Melhor Actor Secundário a J.K. Simmons, que interpretou uma personagem que nos causa ódio do inicio ao fim, e é por isso mesmo merecedor do prémio atribuído.

Clube de Dallas e 12 Anos Escravo 8.5

Agora que os filmes estão analisados da forma mais sucinta possível olhemos para os prémios mais importantes da noite ao qual juntei tal como no ano passado os meus prognósticos. As escolhas que fiz baseiam-se não só nos nomeados que achava que iriam ganhar mas também naqueles que quereria que ganhassem. A junção destes dois factores acabou por influenciar os prognósticos e por vezes direccioná-los para os verdadeiros vencedores. Este ano acertei num número considerável de categorias. Talvez a atribuição das estatuetas fosse mais previsível…

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Apostei forte em Birdman este ano, mas não na categoria de Argumento Original. Há algo de fabuloso na história surreal de Grand Budapeste Hotel que me cativou e que o tornava justo rival de Birdman. No meio de dois pilares cinematográficos onde o surreal acaba por ser um elemento de genialidade apostar num dos dois dava uma hipótese de 50% que eu humildemente perdi, sem querer destroçar os outros nomeados.

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Esta era sem duvida uma categoria mais difícil, e não estar familiarizado com as obras originais torna o prognóstico numa adivinhação pois apenas o produto final adaptado está a vista. Acaba por reinar a história biográfica de Alan Turing. Escolhi a Teoria de Tudo devido à publicidade em relação ao livro de Jane Hawking e à aceitação que teve por parte da autora o que acaba por revelar sucesso da adaptação.

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Birdman tem uma cinematografia única que o colocava na frente para Melhor Fotografia com pouco espaço de manobra para os concorrentes. Todo o filme parece um longo take e para isso é necessário algo de visionário e um trabalho incrível. Embora esse grande take seja falso, contrastando com filmes icónicos como A Arca Russa (2002) de Aleksandr Sokurov que consiste num filme gravado num só take de 99 min, Birdman continua a ser estrondoso até pela maneira subtil como a câmara nos transporta de situação em situação.

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Tendo em conta a cinematografia e a celebração prestada pela academia nos prémios um pouco por toda a cerimonia seria de esperar que Alejandro Iñárritu ganhasse a estatueta. Embora se fala-se de Richard Linklater como favorito nalguns media a complexidade e surrealismo do realizador de Birdman ganhou ao conceito simples e natural de Boyhood.  Ganhámos também um discurso em “espanholês”.

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A única estatueta de Boyhood, embora merecida. Uma interpretação de 12 anos com momentos intensos e grandes desafios para a actriz, numa personagem com a qual simpatizamos, nem que seja pelas escolhas erradas que faz ou pela ilusão que agarra na sua procura por uma vida melhor. Uma interpretação natural que merece o óscar.

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Penso que nunca odiei uma personagem de forma tão clara e física como odiei Fletcher. Quis partir algumas coisas em casa graças a interpretação de J. K. Simmons e é por este impacto que se detecta um bom vilão. A revolta que causa vai para além de todos os outros nomeados, ultrapassa os limites da interpretação e influencia-nos de forma definitiva englobando-se na mensagem que o filme tenta passar: até onde é possível abdicarmos da nossa humanidade para seguir um sonho.

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Tudo apontava para Julliane Moore, mas eu queria mesmo que fosse Rosamund Pike. Rezei para que fosse mas acabei derrotado. Mas porquê contrariar um facto certo? Na minha opinião a personagem de Rosamund Pike é muito mais instável do que o a de Julliane Moore. É certo que a academia tem a sua fraqueza quando se trata de representar pessoas com problemas mentais ou físicos e embora a personagem de Julliane Moore tivesse um problema de saúde muito mais reconhecível e apela-se a uma certa compaixão o papel de Rosamund não deixa de ser psicologicamente instável e até possivelmente mais difícil de interpretar. Há algo de controlador, de vitima e de querido em Amy Dunne de Gone Girl, e isso não é fácil de transparecer para o ecrã. Arranjar um meio termo no meio desta complexidade de personagem é de louvar. Embora o óscar fique bem entregue não nego que o daria a Rosamund Pike.

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Já nesta categoria a academia e eu temos o consenso. Mais uma vez se prova que a academia tem um certo fraquinho por actores que interpretam pessoas com doenças. Neste caso tal como em muitos outros o prémio é merecido e esperado. Em muitos momentos A Teoria de Tudo parecia retirada das memorias directas de Stephen Hawking, parecia por momentos que era ele e não Redmayne a representar e isso mostra uma grande perícia na construção, e de certo modo, na reconstrução da personagem. Embora Birdman tivesse um trunfo chamado Michael Keaton, a estatueta ficou entregue ao justo vencedor.

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Esperava que Birdman fosse o filme da noite. Para alguns é um filme chato, para outros é uma masterpiece. Para mim é sem duvida a última, apela a um lado humano do actor, uma reconstrução do backstage de uma celebridade em decadência dentro de um outro backstage surreal de uma peça de teatro que tenta ganhar forma. A mensagem pode não entrar na cabeça da audiência mais casual, mas quem vê para lá da tela poderá estar dois passos mais a frente para compreender a genialidade em curso. Não é para qualquer um, a expectativa de quem pouco conhece do filme pode ser arrasada por detrás de um filme com nome de super-herói mas a mensagem mantém-se dentro da surrealidade onde nos vemos envolvidos. Um excelente filme e uma peça única…

Volto no próximo mês com mais cinema….

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