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Musicas de Intervenção – Ditatura vs Liberdade

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Olá Caro/a Leitor/a! Que tal está a ser este início de Primavera por esses lados? Pois, eu sei, anda uma Primavera um pouco estranha: ora chove, ora graniza, ora faz sol, parece que está um pouco indecisa ainda. Seja bem-vindo/a a mais uma crónica de música no Ideias e Opiniões, desta vez e para recordar um pouco a crónica do ano passado, trago-lhe a Parte 2, ou o 2º Volume, como lhe quiser chamar, da crónica sobre as canções de intervenção. Neste caso não vai ser especificamente sobre uma canção de Abril, mas sim uma crónica sobre duas canções de intervenção, uma da altura da Revolução que este ano faz 42 anos e outra dos dias de hoje, que se aplica a situação que muitos portugueses vivem! Vamos a isto?!

Vamos pois!

Tal como eu lhe dizia caro/a leitor/a, este mês optei por fazer regressar um tema de uma crónica antiga, isto porque é sempre importante recordarmos o que aconteceu há 42, há 41 e há 40 anos no nosso país. Há 42 dava-se o restabelecimento da Democracia com a Revolução dos Cravos que depôs o Presidente do Conselho (o equivalente ao Primeiro-Ministro nos dias de hoje). Há 41 anos realizavam-se as primeiras eleições totalmente livres e democráticas, com a Eleição para a Assembleia Constituinte, da qual fez parte o actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Há 40 anos, foram as primeiras eleições para a Assembleia da República da qual saiu o primeiro Governo, liderado então por Mário Soares, figura histórica da luta contra o regime ditatorial e figura histórica do Partido Socialista. É preciso não nos esquecermos destas datas e que nos lembremos o que originou estas datas e estes marcos históricos do nosso país!

Bom, terminada a lição de história que para isso temos cá o nosso cronista Nuno Vicente, seguimos em frente para as músicas de que lhe falei no primeiro parágrafo da crónica. As músicas de intervenção que irei analisar nesta crónica são nada mais, nada menos que “Os Vampiros” de José Afonso, também conhecido por Zeca Afonso, e uma música “de intervenção” bem mais recente, de Tiago Bettencourt, “Aquilo que Eu Não Fiz”.

Comecemos por dar uma breve nota biográfica de Zeca Afonso. José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu em 1929, no dia 2 de Agosto, filho de um juiz e de uma professora primária. Viajou muito cedo para Angola, para junto dos pais, acompanhado por um tio que ia em Lua de Mel, mas cedo regressou para Portugal, nomeadamente para a cidade de Aveiro. Começa os estudos em Coimbra no ano de 1940, onde é matriculado no Liceu D. João III e passados 5 anos começou a cantar serenatas com a praxe de Coimbra, onde era chamado de “bicho-cantor”, recordo que nesta altura Zeca Afonso estava no 5º Ano do Liceu!!! O talento era já demonstrado em tenra idade, como se pode ver.

 

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Zeca Afonso chegou ainda a jogar pela Académica de Coimbra e em 1949 inscreve-se no 1º ano de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras. Passados 4 anos, em 1953 são ainda editados os primeiros discos com fados de Coimbra, mas que infelizmente não há exemplares no dia de hoje. Só conclui o curso na Faculdade de Letras de Coimbra em 1963 devido a ter cumprido serviço militar obrigatório. Porém durante este período de tempo ainda editou um EP, no ano de 1956 chamado “Fados de Coimbra”. É no ano de 1964, no mês de Maio, que Zeca Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense e é aqui que se inspira para fazer a famosa “Grândola, Vila Morena”. Um ano antes, em 1963 editava a música de intervenção sobre a qual me irei debruçar, Os Vampiros.

Vamos então direitos à análise da letra de Os Vampiros:

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhe franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

 

Zeca começa a sua canção por dizer “No céu cinzento/Sob o astro mudo”, ora a meu ver este início está a referir-se  à situação política e social do nosso país na altura, basta relembrar que vivíamos numa ditadura e que a repressão policial era enorme daí o “mudo”. Mas vale a pena analisar a letra como um todo, em vez de tirar conclusões de partes da letra , algo que pode bater completamente ao lado.

Conhecendo bem o clima que se vivia em Portugal na altura, consigo perceber bem o sentido desta música de intervenção de Zeca Afonso, um dos maiores artistas contemporâneos. É preciso recordar que vivia-se em Portugal um clima de tensão tal que tudo era tido em conta e até no recanto do lar, era preciso ter cuidado com o que se dizia, ou ouvia, tal era a desconfiança de que alguém pudesse estar a ouvir, aliás é um pouco isso que, a meu ver, Zeca Afonso quer dizer na parte onde se refere “Vêm em bandos/Com pés veludo/Chupar o sangue/Fresco da manada”. Os Vampiros nesta situação, tanto na altura como hoje, são todos aqueles que como diz na canção que “Comem tudo/E não deixam nada”, muitos associam aos políticos de hoje em dia, de quem se diz só quererem “tacho” e que não trabalham dentro do nosso Parlamento. Mas, à época, o que mais se associa, embora seja também, em parte, os políticos, são também todos aqueles que se aproveitavam como delatores ou como colaboradores da PIDE.

É de louvar as atitudes que Zeca teve ao longo da sua carreira musical, com letras especialmente cuidadas, arrisco-me até a dizer, pensadas ao pormenor, para que não fosse fácil entender, mas que ao mesmo tempo dissesse tudo. Afinal, temos de nos lembrar, naquela altura criticar o regime não era nada fácil. “Os Vampiros” são, ainda hoje, uma excelente música de intervenção e de crítica social, várias vezes se ouviu nos últimos anos em diversas manifestações, o que mostra a intemporalidade da canção. Afinal de contas, Zeca deixa-nos inclusivamente o aviso no refrão, quando canta “Se alguém se engana/Com seu ar sisudo/E lhe franqueia/As portas à chegada/Eles comem tudo/Eles comem tudo/Eles comem tudo/E não deixam nada”. É o aviso de quem sabe que a sua música é importante para todas as situações de crise social que se possam viver. No fundo, até esta própria crónica é de homenagem a Zeca Afonso, dado ser um artista sempre relembrado quando se fala do 25 de Abril e das canções de intervenção.  Por tudo o que nos deu, o meu Obrigado Zeca(!) e venham mais 5!

Seguimos agora para uma breve nota biográfica do outro cantor, cuja música irei analisar: Tiago Bettencourt.  Foi no ano de 1979 que nasceu Tiago de Albegaria Pinheiro Goulart de Bettencourt, em Coimbra. Mais conhecido apenas pelo primeiro e último nome, Tiago Bettencourt é um grande cantor e compositor, conhecido bastante pelo seu inicio de carreira musical nos Toranja, que fizeram um enorme êxito com a canção “Carta”. Tiago é filho de um advogado e de uma professora, o que não deixa de ser uma curiosa semelhança com José Afonso.

Apesar de todo o sucesso, os Toranja lançaram apenas dois discos e em 2006 anunciaram um hiato que ficou indefinido, por isso quem sabe se um dia ainda voltaremos a ver os autores de “Quebramos os Dois” de novo juntos? Desde então que Tiago Bettencourt se lançou mais a solo embora ainda tenha colaborado com a banda Mantha, onde ficaram conhecidos êxitos como “Canção Simples” ou “Se Cuidas de Mim”.

Depois disso Tiago seguiu a solo, para desde então nos entregar belas canções ou covers de músicas tornadas populares por outros artistas, mas a que o artista de Coimbra deu um toque pessoal brilhante, a meu ver. Não é por acaso que a música “Canção de Engate” fica tão bem na sua voz! Em 2014, lança Do Princípio, disco com que voltou para as “bocas do Mundo” graças ás músicas com muita qualidade. Músicas como “Sara”, “Maria”, “Morena” e especialmente “Aquilo Que Eu Não Fiz” são riquíssimas em qualidade musical! Seguimos então para a análise a esta última canção. Aqui fica a letra:

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei

Não fui eu que gastei
Mais do que era para mim
Não fui eu que tirei
Não fui eu que comi

Não fui eu que comprei
Não fui eu que escondi
Quando estavam a olhar
Não fui eu que fugi

Não é essa a razão
Para me querem moldar
Porque eu não me escolhi
Para a fila do pão
Este barco afundou
Houve alguém que o cegou
Não fui eu que não vi

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei

Talvez do que não sei
Talvez do que não vi
Foi de mão para mão
Mas não passou por mim
E perdeu-se a razão
Todo o bom se feriu
foi mesquinha a canção
Desse amor a fingir
Não me falem do fim
Se o caminho é mentir
Se quiseram entrar
Não souberam sair
Não fui eu quem falhou
Não fui eu quem cegou
Já não sabem sair

Meu sonho é de armas e mar
Minha força é navegar
Meu Norte em contraluz

 

Esta é uma música de intervenção com um forte cariz interventivo e de crítica política e social. O título da canção diz logo bastante sobre o que se segue pela letra fora.  “Aquilo Que Eu Não Fiz” demonstra desde cedo que é uma música de intervenção que vem sem medo da reacção que vai causar e isso é uma grande qualidade e uma das características mais representativas da qualidade e da força desta canção. Lançada num período importante da vida política e económica do nosso país, a força da canção é logo demonstrada nos primeiros dois versos “Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz/Não me fazem ver que a luta é pelo meu país”. Tiago Bettencourt diz logo no início aquilo que muitas das pessoas vêm dizendo, em manifestações e não só, desde que a Troika entrou no nosso país.

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Durante muito tempo os nosso governantes disseram algo como “gastamos acima das nossas possibilidades” e esta música é uma forte crítica a essa expressão utilizada. Aliás isso é muito bem dito e expressado por Bettencourt quando diz “Não fui eu que gastei/Mais do que era para mim/Não fui eu que tirei/Não fui eu que comi/Não fui eu que comprei/Não fui eu que escondi/Quando estavam a olhar/Não fui eu que fugi”. Logo aqui o cantor deixa bem presente a sua crítica aos governantes que gastaram mais do que podiam.

Como é perceptível na letra e na canção, a corrupção é um tema muito presente. Podemos vê-lo por exemplo nos seguintes versos: “Talvez do que não sei/ Talvez do que não vi/ Foi de mão para mão/ Mas não passou por mim”. E Tiago Bettencourt dá a melhor resposta que se podia dar neste contexto: “Não me falem do fim/Se o caminho é mentir/Se quiseram entrar/Não souberam sair/Não fui eu quem falhou/Não fui eu quem cegou”.  Por fim, o cantor deixa uma mensagem de esperança quando diz “Meu sonho é de armas e mar/Minha força é navegar/Meu Norte em contraluz”. No fundo, a canção de Bettencourt está muito marcada pela crítica política e é bastante interventiva como o/a caro/a leitor/a pode perceber pela letra.

Estas duas canções de intervenção cada uma no seu tempo criticam o estado a que o nosso país chegou ou está, no caso concreto da música de Zeca Afonso. É uma música de protesto, de inconformidade perante a situação económica e sobretudo política de Portugal. Curiosamente, partilham as mesmas origens, dado serem ambos de Coimbra e a mesma dedicação à música. Também é um facto que embora estas músicas sejam de temáticas semelhantes são ao mesmo tempo diferentes, ou não fosse a canção de Zeca sido escrita numa altura muito específica.

Na minha modesta opinião, considero estas duas músicas de intervenção das melhores dos últimos tempos, ambas criticam a ambição desmedida pelo dinheiro, ainda que Zeca o faça de forma mais dissimulada e aproveita ainda para criticar a PIDE e os seus seguidores. Facto é que a música de Zeca é intemporal e a de Tiago Bettencourt para lá caminha. A do cantor de “Aquilo Que Eu Não Fiz” talvez seja mais conhecida nos dias de hoje, tendo sido já utilizada para uma promoção na SIC Notícias. O facto de o videoclip da canção de Tiago Bettencourt ser uma montagem de vários vídeos amadores de portugueses em Portugal ou espalhados pelo Mundo, ganha uma força e um impacto brutal!

Sugestão do Mês

Mais um mês que passa, mais uma sugestão ligada a algo pessoal. No mês em que se celebra a liberdade no nosso país sugiro-lhe uma música que está em parte ligada ao tema da crónica. Afinal de contas, a situação económica e social do nosso país é tal que muitos jovens e adultos se vêm obrigados a emigrar como forma de arranjar trabalho. E muitos deles deixam para trás família, amigos, relacionamentos amorosos, memórias e tudo isso traz um sentimento que é muito bem definido pela palavra “Saudade”. Esta palavra tão portuguesa é a melhor maneira de exprimir o carinho que sentimos por alguém, sobretudo quando esse alguém está longe de nós, ou não o vemos há algum tempo.

A sugestão do mês de Abril é, como já referi, muito pessoal e embora o Dia da Mãe seja só em Maio, deixo aqui uma dedicatória à minha mãe, mas também a todas as mães que possam estar a ler esta crónica. Para todos aqueles que se encontram fora do país e com saudades das respectivas mães, aqui fica: Para Os Braços Da Minha Mãe!

Até para o mês que vem! E já sabe, até lá, cante e dance, ao som das suas músicas preferidas!

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