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Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los (Review)

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Cinco anos depois de Harry Potter e os Talismãs da Morte Parte 2 (2011) o universo de J. K. Rowlings regressa, desligado de qualquer suporte literário, exceptuando um pequeno compendium em nota humorística sobre criaturas mágicas anterior ao finalizar da saga em papel. Desse livro pouco se pode extrair para argumento, mas é o começo do desvendar da figura de Newt Scamander, uma personagem apenas mencionada mas nunca explorada. Com argumento novo da própria autora J.K. Rowling, será esta personagem a figura certa para este recomeço americanizado? E será Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los merecedor do universo em que se insere?

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Título Original: Fantastic Beasts and Where to Find Them 

Ano: 2016

Realizador: David Yates

Cinematografia: Philippe Rousselot

Produção: David Heyman, Steve Kloves, J.K. Rowling, Lionel Wigram

Argumento: J.K. Rowling

Actores:  Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Alison Sudol, 

Música: James Newton Howard

Género: Aventura, Fantasia

 

 

David Yates é tudo menos desconhecido para os fãs de Harry Potter. Desde Harry Potter e a Ordem da Fénix (2007), Yates é o realizador de eleição da saga, e isso vem com todas as vantagens e desvantagens associadas. Certamente contribuiu para uma normalização da saga, que se reinventava a cada novo realizador de maneira por vezes inexplicável, mas essa normalização desproveu a franquia de um certo twist de originalidade a cada nova entrada. O realizador inglês não é, certamente, o melhor de todos os que já adaptaram o universo de Rowling no grande ecrã. Falta-lhe alguma da magia de Chris Columbus, realizador de A Pedra Filosofal (2001) e A Câmara dos Segredos (2002), a sensibilidade de Alfonso Cuarón, aliado à cinematografia de Michael Seresin no melhor filme da saga, O Prisioneiro de Azkaban (2004), e, sem dúvida, a abordagem rústica de Mike Newell em O Cálice de Fogo (2005). Yates normalizou, e até certo ponto, banalizou a ambiência única da saga com a sua abordagem moderna, que influencia ainda hoje outras franquias cinematográficas direccionadas a um público infanto-juvenil.

Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los é claramente um filme de Yates, insere-se perfeitamente nas suas abordagens anteriores, mas é auxiliado de forma estrondosa por este novo pedaço de universo americano dos anos 20 do século passado. Numa época em que a Europa se vê aterrorizada por Grindelwald, o feiticeiro que fez estremecer o mundo décadas antes da chegada de Voldemort, depressa se perde numa narrativa centrada em Scamander e na sua mala, um autêntico jardim zoológico de criaturas que, por descuido, saem e provocam o caos, numa Nova Iorque que parece viver um clima que nutre muita da sua inspiração nos famosos julgamentos de Salem do século XVII, o que a pouco e pouco vai moldando a situação política e social dos bruxos nesta nova encarnação da narrativa de Rowling. O filme demorará demasiado tempo a juntar ambas as peças, mas até lá, as aventuras de Scamander por um mundo de magia americano são bem-vindas e bem balançadas entre a comédia e o drama, e entre a seriedade de um filme adulto e a sempre presente despreocupação direccionada a um público mais novo. Da preservação da Natureza, às injustiças sociais, há muito por reflectir aplicado ao mundo real, especialmente depois de ver tudo nas entrelinhas.

Visualmente, Monstros Fantásticos é uma injecção de CGI, nem sempre da melhor qualidade, e à qual não escapam criaturas da saga outrora criadas com efeitos práticos. Nem os goblins, criados com o contributo de maquilhagem em filmes anteriores conseguem fugir à irrealidade do ecrã azul. No entanto, mantêm o seu visual característico, o que é mais do que se pode dizer dos goblins de The Hobbit, em relação aos apresentados em O Senhor dos Anéis. De louvar é a imaginação aplicada nas criaturas de Scamander, que conseguem causar as mais variadas sensações à audiência. Do adorável Niffler, ao majestoso Occamy (nomes da versão inglesa), há um pouco de tudo na zoologia dos bruxos de Rowling e são, com mais ou menos qualidade visual, transformados em criaturas que não transpiram uma sensação palpável, mas cumprem os requisitos da fantasia moderna e da vanguarda tecnológica.

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Em termos de personagens há alguma componente uni-dimensional. Todas têm o seu papel na narrativa, mas são em última instância pouco exploradas pela mesma. Newt Scamander quer a todo o custo salvar as suas criaturas de um mundo que não as vê com bons olhos, no entanto, o seu background limita-se a pequenos apontamentos sobre a sua vida pessoal que nunca ficam claros. Outras são um cliché da fantasia. Tina tenta fazer o bem mesmo perante as injustiças que a levaram a perder o posto de Auror, e a sua irmã Queenie parece a típica figura da mulher emancipada dos anos 20, determinada a uma vida de algum excesso enquanto tenta controlar os seus poderes telepáticos. Com todos os problemas que assolam as personagens do filme a audiência acabará por identificar-se mais com Kowalski, o muggle e comic relief, com simples aspirações de abrir uma padaria e que se vê envolto num mundo fantástico que desconhece, acabando por fazer a ponte entre a realidade que a audiência conhece e aquela que vai sendo revelada. 

Sobre os actores há pouco a dizer, cumprem o seu papel sem grandes destaques ou actuações transcendentes. Eddie Redmayne capta o lado estranho e despassarado do protagonista, mesmo quando o argumento não ajuda a construir uma ideia clara de quem é realmente. Já o papel de Johnny Depp é difícil de qualificar, porque dez segundos de screen time não são suficientes para analisar Gellert Grindelwald. Pela aparência é certamente mais um excêntrico papel para o actor, o que pode jogar a favor ou contra a sua personagem. Veremos que contributo poderá dar o actor ao universo com os filmes que se seguirão.

Com um vilão principal oculto e, aparentemente, ausente, cabe a Percival Graves (Colin Farell) e Mary Lou Barebone (Samantha Morton) balançar os papéis em volta de Credence Barebone (Ezra Miller), enquanto a história tenta juntar Scamander (Eddie Redmayne) à grande narrativa do filme através de uma criatura misteriosa que de alguma forma serve de cola para todas as camadas de Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los. Infelizmente, nenhum dos vilões se destaca, pois parece haver um problema de foco. A culpa não é dos actores, até porque Samantha Morton transparece com alguma genialidade a personagem que interpreta, com todo o seu ódio aos bruxos e à magia. O problema está no desenrolar da narrativa, que vai passando o papel de aparente vilão entre duas ou três personagens, devido a twists que têm como objectivo surpreender a audiência, o que acaba por ameaçar a integridade de um “vilão clássico” comum. Embora de forma discutível, o verdadeiro vilão só se revela tardiamente no filme, acrescentando pouco a um filme a cinco minutos do fim.

Quanto à música, James Newton Howard é o compositor escolhido e não dispensa alusões à banda sonora de John Williams dos primeiros três filmes. A nostalgia é uma estratégia musical que é bem-vinda, mas há também boas peças originais inspiradas pela musica de época. A banda sonora adapta-se perfeitamente ao universo já criado e devidamente implementado.

Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los não é de todo um mau filme. Não é uma aventura transcendente, mas mantém o registo de Harry Potter, com alguns picos de originalidade que, infelizmente, se perdem pela estrutura da sua narrativa que, devido a falta de algum ritmo e constantes mudanças de foco, só tardiamente consegue juntar todas as camadas e dimensões que a completam. Scamander não é Harry Potter, mas isso joga a seu favor, especialmente porque estava na hora de sair do registo da “criança messiânica” e abordar novas personagens e outros sectores do universo de J.K. Rowling. Servindo certamente como introdução a uma nova linha narrativa, Monstros Fantásticos só poderá ganhar com novas sequelas, que ajudarão a completar aquilo que ficou por descobrir. Podia ser um melhor começo, mas é mesmo isso, um começo para algo ainda melhor…

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Volto para o próximo mês com mais cinema…

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