Direitos Humanos

Manual sobre refugiados para Totós!

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Olá caro leitor! No seguimento do Dia Internacional da Paz (21 de Setembro), estou de volta ao Ideias e Opiniões para um especial sobre refugiados. Nas últimas semanas ouvi, provavelmente, as piores coisas que um ser humano pode dizer. Visto que ninguém se importou com aquilo que diziam, eu também não me vou importar e vou ser crítica. A crise de refugiados a que o mundo tem assistido tem sido comentada e criticada por mentes fechadas, ignorantes e mal informadas. Tenho o hábito de pesquisar sobre o que falo; mas percebi que nem todos fazem o mesmo.

Como tal, decidi criar um manual para os “mentes fechadas” que habitam o mesmo território que eu. Apresento-vos o “Manual sobre refugiados para Totós”, onde me vou esforçar afincadamente para mudar pelo menos uma dessas mentes.

  1. Refugiado vs. Migrante

Um refugiado é uma pessoa que “temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país” (ACNUR). Distingue-se de migrante na medida em que estes decidem deslocar-se para melhorar as suas vidas e das suas famílias. Já os refugiados necessitam de se deslocar para salvar as suas vidas ou preservar a sua liberdade, não possuindo proteção do seu próprio Estado (muitas vezes é o Estado que os persegue). Caso os países signatários da Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados (daqui em diante descrita como Convenção de Genebra de 1951) não os aceitem, podem estar a condená-los a torturas físicas e psicológicas, violações de direitos humanos ou até mesmo à morte.

  1. Os vizinhos do Golfo Pérsico

Têm sido muitas as críticas apontadas aos países do Golfo Pérsico, como os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Irão, o Qatar ou o Kuwait ao não aceitarem refugiados, em especial da Síria. Na verdade, estes países não assinaram nem reconhecem a Convenção de Genebra de 1951, pelo que qualquer pessoa que não tenha a nacionalidade da Arábia Saudita ou do Qatar é, nada mais, nada menos, do que um estrangeiro. Não podem estar no país sem vistos. Quem foge da guerra não se preocupa em obter um visto, digo eu…. No entanto, os vizinhos do Golfo Pérsico têm ajudado monetariamente Organizações Não Governamentais (ONGs), sendo que só a Arábia Saudita já doou quase um milhão de dólares para esta causa.

  1. O patrocínio da União Europeia

A principal preocupação das “mentes fechadas” recai sobre a proveniência dos fundos que vão ajudar os refugiados na sua reinserção. A grande maioria vem dos cofres da União Europeia que, desde 2007, já gastou mais de dois biliões de euros a construir barreiras com tecnologia de ponta e guardas armados a cada metro de forma a travar o fluxo de migrantes e refugiados. Como podem ver, há dinheiro de sobra para tratar da questão uma vez que a contenção falhou.

  1. Xenofobia e Racismo

Este é o meu tópico favorito. Dizem não ser racistas ou xenófobos, mas já criaram histórias de violadores, de terroristas e de ladrões. Na verdade, esta questão era mais fácil de resolver se todos decidíssemos acolher a diferença. É preciso uma pitada de tolerância para viver em sociedade, e a questão aqui é que, muita gente (mesmo muita gente!) não faz a mínima ideia do que isso significa. Esperemos nunca precisar de fugir para o Médio Oriente e que ninguém por lá seja tão pouco tolerante como os ocidentais que têm cruzado o meu caminho.

  1. A crise na Grécia

Verdade seja dita, esta crise internacional veio mesmo a tempo de “esconder” a crise grega, tirando mediatismo às eleições. Dá sempre jeito…

  1. Os 3074 refugiados que vêm para Portugal

Em Portugal sempre se discutiu por migalhas. Existem no mundo inteiro cerca de 59,5 milhões de refugiados. Actualmente, por dia, cerca de 50 mil pessoas largam as suas vidas para fugir da guerra. No entanto, os portugueses discutem por 3074 pessoas que, quando divididas pelas 3091 freguesias em Portugal, cada uma receberá 1,54 refugiados. Talvez não sejam assim tantos… Além disso, não é a primeira vez que Portugal serve de abrigo: em 1993, durante a guerra nos Balcãs, o nosso país acolheu perto de 1700 pessoas. Algumas delas têm hoje nacionalidade portuguesa.

  1. Mais mulheres ou mais homens?

De acordo com a Organização Internacional de Migração, no que toca aos refugiados sírios, a sua maioria são mulheres (50,5%). Os restantes 49,5% são homens e desses, apenas 24% encontram-se em idade de lutar.

  1. A questão dos smartphones

Os refugiados têm smartphones e portáteis. Vêm televisão e até conhecem a Internet! Tal como nós, eles vivem no século XXI. Além disso, as redes sociais mostram quase em tempo real o que se passa nas rotas por eles usadas. Também seria estranho ver um migrante ou refugiado usar um mapa da Europa, quando pode traçar o seu destino usando o GPS dos telemóveis.

  1. Barco ou avião? Eis a questão!

Esta é difícil… Já dizia António Guterres, “quem quer pôr bombas vem de avião, não se mete em barcos que podem afundar”. Parece-me impossível que nenhuma alminha neste mundo consiga perceber o sacrifício que é ter de vender tudo o que se tem para pagar uma passagem de barco para fugir à guerra. Alguns dos refugiados que têm sido salvos no Mediterrâneo apresentavam cicatrizes recentes. Quando examinados pelos médicos, percebeu-se que alguns não tinham um rim ou partes de outros órgãos… Muitas destas pessoas têm vivido escondidas. Ora, pessoas que vivem fugidas à polícia não se metem em aeroportos, onde a segurança é apertada…

  1. A fonte

A fonte de refugiados, neste momento, é Síria. O país já deitou ao mundo perto de 4 milhões de pessoas, em parte graças ao autoproclamado Estado Islâmico (um dos grupos organizados mais violento e extremista da história da Humanidade), ao governo de Bashar al-Assad (presidente nascido na família al-Assad, que governam o país desde os anos 70 de forma ditatorial, ao não abdicar do poder, gerou uma guerra civil) e grupos rebeldes. Os crimes praticados por estas três facções contra os civis têm sido equiparados aos cometidos por Adolf Hitler contra os judeus durante o Nazismo.

  1. Os países fronteiriços

É lei na União Europeia (UE). Quem pede asilo tem de ficar no país onde o pediu. Isso faz com que os países limítrofes da UE estejam sobrelotados e não consigam dar resposta a todos os requerentes.

Refugiados

  1. A Alemanha e Schengen

A Alemanha decidiu acolher todos os migrantes e refugiados que atravessassem as suas fronteiras. Entre 800 mil a um milhão. E a Alemanha ia cumprir o acordo, não fosse ter-se dado o caso de, em pouco mais de duas semanas, terem recebido 63 mil pessoas. Qualquer país que seja (mesmo a Alemanha!) precisa de fechar fronteiras para se reestruturar e reorganizar de forma a poder “arrumar a casa”. Quem fala dos alemães pode também falar da Croácia, que seguiu a mesma linha de acção.

  1. O islamismo

Mesmo que a UE aceite todos os refugiados sírios (perto de 4 milhões) e que todos eles sejam muçulmanos (o que não é verdade), a taxa de islamitas na Europa subia de 4% para 5%. Com isto podemos todos dormir descansados, ninguém vem islamizar o velho continente.

  1. A taxa de natalidade

Uma vez que a taxa de natalidade na Europa é bastante baixa e que entre os muçulmanos esta é mais elevada, há quem afirme que os refugiados e migrantes do Médio Oriente vêm para cá em busca de subsídios e abonos, alargando o agregado familiar, com o fim de “substituir a população nativa”. A população síria é relativamente mais nova que a europeia, o que pode ajudar a dinamizar os países e a combater o envelhecimento demográfico.

  1. A educação

Grande parte da população síria é educada, sabendo ler e escrever. Os refugiados do país são, na sua maioria, licenciados. Fazendo um paralelo com a taxa de natalidade, na Síria, o número de nascimentos antes da guerra era cada vez menor e o número de pessoas inscritas no Ensino Secundário e Superior era cada vez maior, seguindo a mesma trajectória que os países europeus).

  1. A criminalidade

Quando um refugiado é devidamente integrado, torna-se num bem para a economia nacional, tentando melhorar a sua vida, adaptando-se à sociedade e contribuindo mais para o sistema social, ao invés de viver dependente dele.

  1. As ONGs

Nenhuma ONG, por mais bem preparada que esteja, podia conseguir lidar com os milhões de pessoas que aguardam asilo, com fome, sem condições para viver, sem trabalho e muitas baixas a registar. Estas organizações dependem, em muito, dos apoios de particulares, empresas, fundos e até mesmo Estados para se organizarem e poderem contribuir com comida, medicamentos, vestuário e soluções permanentes para melhorar estas vidas. Os campos de refugiados estão mais do que sobrelotados e sem condições mínimas para quem lá mora, sendo que, acima de tudo, estes são soluções temporárias.

Concluindo: esta crise deveria unir o mundo e dar asas ao lema “juntos somos mais fortes”. No entanto, cada um puxa por si. Ninguém olha para além do seu próprio umbigo. Prova disso foi a atitude do Reino Unido em querer acabar com a missão de busca e salvamento “Mare Nostrum”, que salvou milhares de migrantes e refugiados de morrerem afogados no Mediterrâneo. Era mais fácil deixar o “problema” morrer antes de entrar em território europeu. Talvez o mar se passasse a chamar Cemitério Mediterrâneo…

E assim me despeço. Volto dia 16 de Outubro com mais Direitos Humanos. Até lá, aconselho-o a ver o vídeo “The European Refugee Crisis and Syria Explained” (legendado em português) e esperemos que o mundo não tenha de voltar ver mais nenhum Aylan Kurdi numa praia da Turquia.

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