Música

Lemoskine: A Simplicidade do Extraordinário

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Ficou curioso com o nome presente nesta crónica? Soa-lhe a mistério e ressoa-lhe a sentimentos que pulam pelas suas orelhas e o fazem delirar? Não? Bom, mas foi assim que nós, no Ideias e Opiniões, nos sentimos ao longo do concerto a que fomos convidados a assistir pela nossa excelente parceira, a Music in My Soul, no passado dia 18 de Maio. Não sendo a primeira passagem de Lemoskine (Rodrigo Lemos) por Portugal, algo que poderá ler na entrevista exclusiva que nos foi concedida, foi a primeira de toda a banda. E, devemos acrescentar, deixam um misto de saudade e ansiedade… Mas já lá iremos.

Em primeiro lugar, deveremos referenciar o espaço: o Music Box, no excelso espaço do Cais do Sodré, Lisboa. Com uma área razoável no dance floor (onde é possível assistir a concertos e, com o avançar da noite, arrasar para o ambiente de discoteca), eu e o meu estimado colega, Bruno Neves, fomos invadidos por um sentimento de expetativa, à medida que as pessoas iam entrando, e tomávamos lugares para assistir ao concerto. Apesar de a sala não ter as caraterísticas acústicas mais adequadas, tal é facilmente contornado com uma excelente montagem de aparelhos de som (e de imagem!) que complementam a imagem edgy e alternativa do mesmo. Em adição, não podemos deixar de referenciar a equipa técnica do Music Box Lisboa: a iluminação adequou-se, constantemente, ao estilo musical de ambas as bandas, com a imagem projetada em cada um dos momentos, músicas e interações, em quase perfeita sintonia com os atores principais.

Não sendo, para nós, uma surpresa, foi um ótimo ingresso a uma casa que tantas noites memoráveis tem dado a Lisboa. E que noite foi…

Aqui, devemos fazer uma nova referência: desconhecíamos, quase por completo, a banda de abertura, não obstante, metemos mãos à obra, e bisbilhotámos por essa internet fora quem eram os GUME. Bem, como podem ver na sua página de Facebook são uma banda relativamente recente que irá, muito brevemente, lançar o seu primeiro álbum (pelo qual estamos ansiosos, e vocês também ficarão, dentro de algumas linhas, acreditem!), cujos membros são, ou foram, estudantes da Escola Superior de Música de Lisboa. Confessamos que os desconhecíamos, mas o seu impacto auditivo foi imediato, a começar pelos longos tempos de utilização instrumental, com a complementação dada pela voz principal, com mensagens de intervenção, permitem uma aliança entre o jazz, o improviso, um experimentalismo, apaixonando o rap da voz desta banda, Yaw Tembe e, consequentemente, passando a mensagem anti-exploração, contra a intolerância e a insegurança económica que se vive nos dias de hoje.

Foi, para nós, habituados à cena musical portuguesa, onde a voz tem um impacto tão gritante, uma surpresa ver uma banda a produzir música (e muito boa!) cujo destaque é, quase todo, atribuído ao elemento instrumental, cujo ritmo nos remete para os pensamentos inequívocos da mensagem. Nós, tal como o público, algo tímido, no início, fomos arrebatados pela descontração da banda, e, apesar da inexperiência da mesma (que se denotou na forma como agia na passagem entre músicas), acabámos a pedir por mais, com uma enorme vontade de conhecer os protagonistas.

Após cerca de uma hora de concerto, faltava a peça principal: Lemoskine. As expetativas eram altas. A música dos álbuns deixavam antever algo extraordinário e, com a satisfação de uma criança, vimos as nossas expetativas cumpridas. Na verdade, estas foram ultrapassadas: Lemoskine é daqueles conjuntos musicais que nos impressionam no Youtube, mas nos apaixonam ao vivo.

Como começar? Em primeiro lugar pela harmonia visual (quer das t-shirts dos elementos da banda, todas iguais, quer dos efeitos visuais, no background), que se uniam numa simplicidade perfeita, com a sonoridade com que fomos bajulados (aqui, mais um louvor ao trabalho técnico de Lemoskine e da Music Box). Depois, de referenciar a homogeneidade estilística da banda que, apesar de tocar uma enorme variedade musical, desde músicas originais mais estilo pop, ao rock mais pesado, passando por uma homenagem aos enormes Ornatos Violeta, e uma canção em inglês, consegue nunca perder a identidade que a carateriza. Em terceiro lugar, algo que me arrebatou: a lírica. Muitas bandas acabam por recorrer a processos de produção musical capazes de imiscuir, nos nossos cérebros, simples palavras-chave, que as projetam para o sucesso, já Lemoskine recorda-nos os tempos áureos da música da significância, cujas letras impactam pelas memórias e referências de cada um de nós, apelando à nossa emocionalidade e pensamento. Referências, essas, que apenas podemos classificar como deliciosas!

Por fim, referenciar a voz de Rodrigo Lemos: extraordinária, dominando o palco e levando o elevado número de pessoas que, por esta altura, assistia ao concerto, a aplaudir a cada nota final. A aparente leviandade com que estava em palco faz deste músico uma potencial estrela, alimentada pela luz dos sóis que gravitam em sua volta, tornando-o ainda maior, e brilhando intensamente (saltando ao ouvido o enorme solo de fecho por parte do baterista).

Foi um sentimento avassalador de felicidade que nos arrastou em direção ao carro que nos aguardava, de volta a uma vida que nos leva a suspirar por mais concertos destes. Mas tal vida irá retornar… Isto, caros leitores, podemos prometer-vos.

 

 

Notas Finais

 

A Reter: A presença em palco, tanto de Lemoskine, como dos restantes elementos da banda. A lírica das músicas de Rodrigo Lemos e dos GUME.

 

Um Conselho: Vejam os vídeos das atuações de Lemoskine e perguntem-se “quando é que eu posso ir vê-los ao vivo?”. E, já agora, deveremos prestar mais atenção à qualidade das bandas da Escola Superior de Música.

 

Positivo: A extraordinária voz de Rodrigo Lemos, que deu projeção às líricas, o enorme desempenho dos restantes elementos da banda, o repertório musical apresentado e, claro, a presença em palco. De referenciar a surpresa que foi a actuação dos GUME.

 

Negativo: O som instrumental estava, na nossa opinião, apenas ligeiramente mais alto do que devia, realizando um ligeiro overpower às vozes. Ligeira falha técnica, com duração inferior a alguns segundos, prontamente solucionada pelos técnicos, no que diz respeito à exposição dos efeitos visuais, nos ecrãs.

 

Um Desejo: Um encore pela noite dentro! Mas contentamo-nos com um regresso de Lemoskine, assim como ouvir os projetos dos restantes elementos da banda.

 

Agradecimentos Especiais: À Bárbara Delgado e ao Gonçalo Dias, da Music in My Soul, pelo convite, aos GUME e, finalmente, a Lemoskine.

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