Entretenimento

Kurt Cobain – Montage of Heck

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(Vasco Wilton)
Lembra-se dos Nirvana? Lembra-se daquele jovem loiro de camisas de flanela que cantava de uma forma muito intimista, como se estivesse a tocar apenas para si e para os seus amigos? Pois bem, desta vez aqui estou eu, numa crónica muito especial. A primeira crónica conjunta do Ideias e Opiniões! Eu e o meu caro colega e amigo, Luís Antunes, trazemos-lhe uma crónica onde abordamos a biopic do emblemático Kurt Cobain, Montage of Heck.

Como fã dos Nirvana, não podia ficar indiferente a um filme tão especial que aborda a vida e a obra do guitarrista e vocalista da banda, que morreu no dia 5 de Abril de 1994, com apenas 27 anos. Os Nirvana foram um grupo que abalou o Mundo de uma forma que não se via desde os anos 60, com os Beatles. Conseguiram mexer não só com o Mundo da Música, mas também com outros mundos, ao influenciarem uma geração inteira que se revia naquele grupo e que os considerava a sua voz. Estilos de vida mudaram devido ao que os três rapazes faziam, cantavam, vestiam, mas era sobretudo Kurt que era visto como um ídolo.

O frontman dos Nirvana era visto como a voz daquela geração, o que o irritava, como é possível ver no filme. Cobain queria ser simplesmente músico, não queria a fama e se ainda não fosse perfeitamente esclarecedor, o filme demonstra que, de facto, ele se importava mais com a música que fazia, do que com a popularidade que obteve, sobretudo após o lançamento do Nevermind. Embora quisesse ser reconhecido pelo seu trabalho!

Antes de avançar já para uma análise do filme, considero importante que o/a caro/a leitor/a saiba um pouco de história desta banda tão popular. Vamos então a isto.

Os Nirvana foram criados em 1987, quando Kurt Cobain e Krist Novoselic decidem criar uma banda, juntamente com o baterista original da banda, Aaron Burckhard. Kurt e Krist já se conheciam há algum tempo e tinham, inclusivamente, tocado juntos noutras bandas.

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Em 1989, os Nirvana editam o seu primeiro disco, Bleach, já com o estilo grunge que lhes foi característico durante o período de actividade. Desse primeiro álbum destacam-se grandes canções como School, onde se pode ouvir Kurt a gritar “No recess!”, ou About a Girl, ou mesmo a Love Buzz, que até foi o primeiro single da banda! Em 1993, Kurt Cobain disse que não queria saber sobre o que eram as letras deste primeiro álbum. Ele disse que se limitou a escrever umas letras negativas, desde que não fossem sexistas, nem embaraçosas.

A 25 de Setembro de 1990, entra para a banda um rapaz chamado Dave Grohl. E foi com Grohl na bateria que a banda continuou a fazer discos e concertos fantásticos. Após muitos concertos, os Nirvana conseguiram uma fama desmedida, com o single do 2º álbum e talvez a música mais conhecida da banda, Smells Like Teen Spirit. Mas, antes do lançamento do Nevermind e do próprio single, já tinham dado um concerto em Reading, como banda de abertura dos Sonic Youth. Este concerto foi um êxito e foi inclusivamente filmado para um documentário com o nome The Year Punk Broke.

Foi com Nevermind (1991) que os Nirvana atingiram o estrelato graças às músicas e ao estilo de rock alternativo com que a banda ficou rotulada. Canções como Lithium, Come as You Are, Polly ou In Bloom fizeram a banda ser considerada a voz da geração, algo que Kurt, como já vimos, não queria, nem nunca quis. Aliás, as letras para este álbum foram retiradas de dois anos de “poesia” que tinha sido acumulada por Kurt e que, posteriormente, escolheu as partes de que mais gostava. Quando em Novembro de 1991, foi gravado o videoclip do Smells Like Teen Spirit, a música já era um hino. Curiosamente, o Nevermind foi lançado dia 24 de Setembro de 1991, ou seja, praticamente um ano após a entrada de Grohl na banda de Seattle.

Já em 1992, os Nirvana lançam um terceiro álbum, Incesticide. Este disco foi propositadamente feito de com raridades e não é considerado por muita gente como um álbum de originais, apesar de todas as músicas serem novas para o público. Este disco conta com músicas como Stain, Been a Son, Molly’s Lips, Dive ou Aneurysm.

Passado mais um ano, é lançado o 4º álbum dos Nirvana. Foi a 21 de Setembro de 1993 que In Utero sai para as lojas com músicas como Dumb, Heart Shaped Box, Rape Me, All Apologies ou Pennyroyal Tea, em que se ouve Kurt a cantar, “I’m anemic royalty”. Neste disco as letras foram feitas de forma mais focada.

Ainda nesse ano, os Nirvana fazem o MTV Unplugged, um dos concertos mais populares que a MTV fez nesse estilo. Este concerto passa pela primeira vez na MTV a 16 de Dezembro de 1993, menos de um mês depois do concerto ter acontecido.

No dia 7 de Janeiro de 1994, fazem aquele que seria o último concerto em solo Americano, na Arena de Seattle. Embarcam, menos de um mês depois, para uma digressão pela Europa que, curiosamente, começa em Cascais, no Pavilhão do Dramático de Cascais. Neste concerto estiveram com os Nirvana, Pat Smear (actual guitarrista dos Foo Fighters) e Lori Goldston, violoncelista.

Pouco tempo depois Kurt Cobain morre a 5 de Abril de 1994. Foi o adeus de um mito que se juntou ao afamado Clube dos 27. Foi o adeus de um talento nato, puro, mas muito perturbado e alterado, pelo uso de drogas. Deixou uma filha, Frances Bean Cobain nas mãos de Courtney Love, a sua mulher, que conheceu já quando estava nos Nirvana. Agora que já sabe um pouco mais sobre os Nirvana, vamos à análise ao Montage of Heck.

(Luís Antunes)

Cobain_montage_of_heckTitulo Original: Kurt Cobain: Montage of Heck

Ano: 2015

Realizador: Brett Morgen  

Argumento: Brett Morgen 

Musica: Nirvana

Género: Documentário

Ficha Técnica: http://www.imdb.com/title/tt4229236/

Montage of Heck  encerra no nome uma das suas particularidades mais evidentes, é de facto uma montagem, um aglomerar de peças de um puzzle que forma uma narrativa coerente, não só a nível de guião mas também a nível visual. É um conjunto de depoimentos sem qualquer tipo de narração que devidamente organizados criam uma peça completa e única. Desde a mãe de Kurt Cobain à controversa Courtney Love “a montagem” revela a infância do vocalista lendário passando pela sua relação conflituosa com pais e padrastos, passando pelo seu processo criativo e claro, os seus problemas com as drogas. Todos estes depoimentos contam também com alguma criatividade por parte de artistas gráficos que embelezam cada gravação da voz de Cobain com uma representação desenhada, trabalhada e colorida onde o vídeo real não era possível.

O documentário vive de pedaços de vídeo, gravações de áudio, cartas e documentos que cobrem parte da vida do artista, e muitos deles inéditos e exclusivos. Este facto cria um documentário com algum intimismo, com a audiência a presenciar directamente as pequenas peças do gigante puzzle que percorre os 27 anos da vida de Cobain. Estes pedaços são memórias ligadas entre si com animações, com paginas de apontamentos e canções a aparecerem á frente dos nossos olhos, animadas e acompanhadas por testemunhos áudio e música.  Muitos destes momentos são interessantes mas também hilariantes. Pensar que Nirvana poderia ter sido chamada de “The Reaganites” ou “Fecal Matter” não só nos provoca um sorriso como é um raio x que mostra o processo mental do artista.

Nirvana e Cobain confundem-se, e isso está presente no documentário que é seguido musicalmente por músicas da banda (quer tocadas pela própria como retirada de um dos seus álbuns ou através de covers ou instrumentais). É a verdadeira ponte ou vínculo que demonstra o génio que Cobain através de peças como Smells Like Teen SpiritAll ApologiesSomething in the Way entre outras que ajudam a ilustrar cada momento mesmo que em termos líricos, passados tantos anos, ainda procuremos o significado de muitas delas.

Tem também a sua dose de polémica, embora tente esconder muitos dos escândalos que abalaram a banda e o próprio Cobain na sua relação com os média não esconde os dramas pessoais, a luta contra a heroína e a sua relação amorosa com Courtney Love, num nível de intimidade desconfortável tanto pelas questões que envolve a nível das causas para o seu suicídio como pela exposição que esta relação tem ao nível do documentário, que ultrapassa por vezes os limites da privacidade.

Embora o documentário seja enriquecido pelos depoimentos de inúmeras pessoas parece-me que só ficaria completo com o contributo de Dave Grohl, que está presente em muitas das memórias visuais mas não tem qualquer entrevista associada. Perde-se assim uma parte relevante e significativa que poderia revelar um pouco mais sobre a lenda.

Também a morte de Cobain é quase omitida do documentário embora todo o processo que o levaria ao suicídio seja explorado na ultima parte. Parece que Montage of Heck quer focar-se na vida do artista afastando-se da morbidez e da exposição excessiva já devidamente explorada por outros documentários e media, isto funciona a favor do documentário mas deixa um vazio na parte final que poderia ter sido mais trabalhado.

Kurt Cobain: Montage of Heck é um documentário obrigatório sobre uma figura que embora dispense apresentações vive na sombra da banda que criou e na penumbra do seu fim trágico. Montage tenta afastar a cortina e dar a conhecer uma das grandes figuras da música mundial. Os pormenores íntimos podem por vezes ser demasiado explícitos e esta exploração sobre a mente de Cobain pode levar-nos a pensar que se calhar estamos a ir demasiado longe, que o próprio artista não gostaria que a sua vida privada fosse revelada desta forma tão crua. No entanto, é provavelmente uma das melhores maneiras de conhecer um dos grandes génio e ícone do grunge.

(Vasco Wilton)

A meu ver, o filme tem qualidade. Vale bastante por ser um filme que mistura entrevistas a pessoas que conviveram com Kurt, vídeos caseiros, reportagens televisivas de entrevistas à banda, diários, desenhos e gravações áudio. É um filme que tem tudo para agradar aos fãs de Nirvana, na medida em que descobrem alguns detalhes novos sobre Kurt, como as várias hipóteses de nome para a banda, por exemplo, mas também as canções da banda em manuscritos.

É um documentário razoável no sentido em que peca pelo reduzido número de entrevistados. Apenas aparecem a mãe, o pai, o baixista Krist Novoselic, a mulher Courtney Love, a madrasta e a antiga namorada. Embora gostasse de ver uma maior presença de Krist no filme, pois foi com ele que Kurt Cobain começou os Nirvana. Faltou pelo menos Dave Grohl, o baterista que aparece várias vezes no documentário e amigo de Cobain que está ausente do filme porque o realizador apenas o entrevistou após a edição do filme estar concluída.

Considero que outra das falhas é a total ausência de referências à morte de Cobain, como que ignorando toda a polémica que está em volta deste acontecimento. Podiam por exemplo mostrar a carta que ele deixou ao seu amigo imaginário de criança, Boddah.

Mas o filme tem também pontos positivos, a banda sonora do filme é magnífica ou não fosse ela da autoria dos próprios Nirvana, dado que a história dos Nirvana é a história de Kurt Cobain. Nirvana e Cobain confundem-se e interligam-se ao longo de toda a sua vida. Gostei igualmente de terem começado no início de tudo, desde o nascimento de Kurt e de terem feito o filme de forma cronológica, passando da infância para a adolescência, altura em que passou a consumir drogas. Aliás, o facto de terem falado disso demonstra que não quiseram esconder as partes negativas da vida dele. Gostei também de terem mostrado o lado humano de Kurt, em imagens dele com a filha e as entrevistas onde mostrava que não queria ser um ídolo, nem a voz de uma geração.

No geral é um bom filme sobre a vida e a obra de Kurt Cobain, onde de todas as polémicas apenas deixam de fora a sua morte. É um excelente trabalho do realizador ao montar (sem trocadilho) o filme de modo a que todos os entrevistados tenham o seu momento. Embora um dos melhores amigos de Kurt Cobain, Buzz Osbourne tenha dito que 90% do filme é mentira, dado que segundo Osbourne, Kurt nunca teve tendências suicidas e que não se devia acreditar nas palavras de Courtney Love.

Para mim, que sou fã de Nirvana, considero que há falhas no filme como já referi, mas que nem tudo é mau. Há pontos positivos no filme e isso é importante. De facto o filme foi feito com a aprovação de Courtney e de Frances, por isso terá de passar de certeza uma perspectiva que lhes agrade. Permitiu-me conhecer melhor um dos meus artistas preferidos e gostei do filme, embora estivesse à espera de um pouco mais.

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