Música

Indústria Musical – Uma Reflexão sobre o Streaming

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Este mês proponho-me a efectuar uma pequena reflexão sobre a nova forma de ouvir música hoje em dia: o streaming. Antes de mais convém definir a expressão streaming: é um termo relativo à informação que é transmitida via internet, em tempo real. Neste caso concreto centrar-me-ei no streaming musical, ou seja, na transmissão de conteúdos musicais.

Recuando alguns anos no tempo, poucos poderiam imaginar que a era digital iria assolar a nossa vida, como acontece hoje em dia. Se nos idos anos 60 o Vinil reinava, nos anos 70 a cassete possuía um espaço considerável, nos anos 80 e 90 o CD viveu no auge, actualmente apesar do ressurgimento do Vinil, a música “virtual” torna-se cada vez a primeira opção para quem quer ouvir e descobrir novas músicas e novos projectos.

No final da década de 90, assistimos a um crescimento exponencial e massificado da internet e com ele a pirataria musical atingiu patamares históricos. Uma geração inteira deixou de querer pagar pela música que consumia, mas no fundo de quem é a culpa? Acredito que todos têm uma percentagem da culpa. Em primeiro as editoras, que cada vez pagavam uma menor fatia das vendas aos artistas. Em segundo dos produtores e managers que propunham contratos cada vez menos rentáveis, e cujo foco se situava em tudo menos no incentivo da liberdade criativa. Em terceiro do público que não entende que se a música que gosta é consumida de forma gratuita, essa tende a desaparecer. Mas os próprios artistas também têm uma quota parte de culpa, na medida em que algumas vezes descuraram e muito a originalidade e qualidade do objecto físico que apresentavam ao público.

Para quem, como eu ainda hoje compra música (através de cd e vinil), é extremamente frustrante por exemplo encontrar um booklet sem as letras das músicas. É que euem gosta de comprar música em formato físico gosta de uma certa exclusividade, assim a minha sugestão passa pelo lançamento de cada vez mais edições limitadas e de objectos físicos que sejam autênticas obras de arte. Podia encontrar diversos exemplos de artistas que ainda hoje não descuram o “aspecto físico” da música que apresentam, mas refiro apenas alguns exemplos: os canadianos Of Montreal; os islandeses Sigur Rós e Björk e o português Noiserv. Posso assegurar que jamais efectuaria um download de um destes artistas!

Recentrando a reflexão no streaming, o mesmo, segundo os fundadores das maiores empresas do ramo, surgiu como forma de combater a pirataria. É certo que as empresas megalómanas de streaming pagam uma quantidade irrisória aos artistas por cada audição, esse pagamento é calculado através de diversas varáveis, entre elas: os royalties negociados com o artista, a percentagem do editor(a), o país em que a música foi escutada e ainda se o utilizador é ou não assinante pagante do serviço.

Em média, por exemplo, o Spotify paga meio cêntimo por cada canção ouvida, (entre 0,006 e 0,0084 dólares), é certo que é pouco, no entanto se falarmos de artistas de renome o valor ao fim de um ano poderá atingir milhares de euros. As empresas de streaming defendem-se afirmando que a alternativa era a pirataria, onde cada artista recebe zero, por exemplo quando uma música passa na rádio vezes intermináveis o artista também recebe a módica quantia de zero. Não defendo a música gratuita e muito menos os downloads ilegais, mas também consigo analisar que diversos artistas, menos conhecidos e mais alternativos, sem espaço habitualmente nas rádios e nos restantes meios de comunicação social dificilmente teriam chegado ao patamar onde actualmente se encontram. E não nos podemos esquecer que actualmente a maior fonte de rendimento de um músico são os concerto ao vivo e as actuações em festivais. Coloco agora a seguinte questão: seria possível os Arcade Fire serem uma das maiores bandas do mundo, sem a internet, sem o download ilegal e sem a pirataria? Será coincidência que o fenómeno do indie rock tenha atingido um sucesso comercial no fim dos anos 90, início de 2000?

Actualmente existem diversas empresas de streaming, que contam com catálogos extensos de milhões e milhões de músicas, entre todos os nomes destaco alguns que operam em Portugal:

Spotify: sem dúvida o grande dominador do mercado de streaming. Formado na Suécia e lançado em 2008, conta com mais de 30 milhões de músicas em catálogo, mais de 75 milhões de utilizadores, dos quais 20 milhões são pagantes. É importante referir que desses 20 milhões que pagam, a grande maioria são jovens que cresceram na era digital e na era em que o download ilegal, era demasiado fácil e mesmo assim decidem pagar pelo serviço. Possui uma versão gratuita que contém publicidade, e uma versão paga por €6,99/mês.

Apple Music: o serviço mais recente de todos. Lançado em 2015, conta com um catálogo de mais de 30 milhões de músicas. Inclui três meses experimentais e gratuitos, após os quais assume o valor de €6,99 mês (possui ainda um plano familiar até seis pessoas por €10,99). Conta com mais de 15 milhões de utilizadores, dos quais 6,5 milhões têm a referida assinatura mensal.

Tidal: fundada em 2014 pelo músico Jay Z, assume-se como a plataforma dos artistas para o público. Jay Z assumiu numa conferência de imprensa que o Tidal era dos artistas, afirmando que se trata de uma parceria entre o próprio e outros nomes de relevo, como Beyoncé, Rihanna, Kanye West, Daft Punk, Madonna, Jack White, Arcade Fire, Alicia Keys, Usher, Chris Martin e deadmau5 entre outros. A grande vantagem do Tidal é a qualidade do som, assumindo o slogan “Streaming com qualidade sonora de um cd”. Possui duas versões pagas, após um período experimental de 30 dias, por €6,99, e €13,99, onde a grande diferença entre ambas, assenta precisamente na qualidade sonora. Contam com mais de 3 milhões de utilizadores e também 30 milhões de músicas.

Meo Music: O serviço de streaming do Meo, viu a luz do dia em 2010. Possui milhões de músicas, é gratuito para clientes Meo com pacotes unlimited, top total, moche. Os restantes clientes Meo pagam €4,99 e os não clientes €6,99. O número de utilizadores não é conhecido, mas a nível nacional é com certeza relevante.

deezer

Deezer: Formado em França no ano de 2007, podemos assegurar que possui um catálogo ecléctico repleto de diversidade. Conta com mais de 35 milhões de músicas, mais de 6 milhões de subscritores pagos, de um total que conta com mais de 16 milhões de utilizadores. Tem três versões: uma gratuita, com publicidade; uma versão premium+ por €6,99, sem publicidade e uma versão ELITE, por €14,99 com qualidade de som melhorada. Em 2012 o Deezer estabeleceu parceria com a Last.fm, encontrando-se actualmente ambos os serviços integrados.

Groove Music: em actividade desde 2012 era anteriormente conhecida como Xbox Music, propriedade da Microsoft. Conta com um vasto catálogo de mais de 40 milhões de músicas. Em Portugal conta com um período experimental de um mês, a partir do qual se pode optar por uma subscrição mensal no valor de €9,99 e por €99,90 podemos assinar durante um ano. A Groove Music permite interacção com a plataforma One-Drive, o que lhe permite ouvir a sua música em todos os dispositivos móveis.

Google Play Music: abriu as suas portas em 2011, e como seria de esperar a gigante Google não podia ficar de fora do mercado do streaming musical. O catálogo é extenso e similar aos principais rivais: 30 milhões de músicas. O número de utilizadores não é conhecido. Prevê um período experimental de 30 dias sendo que após o mesmo a assinatura mensal fixa-se nos €9,99. A grande vantagem é a “ligação directa” ao site de partilha de vídeos You Tube, que no ano passado reinventou-se com o You Tube Red, serviço pago de subscrição mensal que permite aos usuários a visualização de vídeos/música sem publicidade e em modo offline, bem como o acesso a conteúdo exclusivo. O serviço deverá possuir ainda uma versão premium destinada por exemplo a utilizadores da Apple e do seu sistema operativo iOS. O serviço ainda não chegou ao nosso país, mas os preços deverão rondar os €9 e os €11,50 por mês. Uma das mais valias é que os assinantes do You Tube Red terão acesso ao Google Play Music e vice-versa.

Nota para o facto de alguns serviços de streaming/lojas online de música ainda não operarem no nosso país, como é o caso da Pandora Radio, Amazon Music e Raphsody.

Apesar da oferta ser diversificada muitos são os artistas que continuam renitentes e críticos ao Streaming. Actualmente é difícil assegurar quais os artistas que não possuem o seu catálogo em nenhuma plataforma, porque simplesmente este aspecto muda constantemente. Posso, isso sim, enumerar alguns nomes que sempre se manifestaram contra a exploração, que os artistas sentem relativamente às empresa de streaming. Entre as vozes dissonantes, destacamos o malogrado Prince, que chegou a ter a sua música unicamente disponível no Tidal e mesmo ainda hoje a sua discografia e videoteca não se encontram no Youtube. Taylor Swift, chegou a retirar a sua música do Spotify e mais recentemente incompatibilizou-se com a Apple Music. Bob Seger, Garth Brooks, King Crimson, Thom Yorke (a solo mas também com o seu projecto Atoms for Peace) e os Tool continuam a não disponibilizar a sua música em qualquer plataforma de Streaming. E só muito recentemente podemos encontrar a música dos AC/DC e dos The Beatles nos serviços de streaming.

Apesar de todas as críticas apontadas às empresas de streaming, tenho que desmistificar este “Adamastor”, na medida em que existem algumas plataformas de streaming, que muito aprecio e que desenvolvem um enorme trabalho de divulgação de novos artistas, num panorama mais alternativo.

Em primeiro destaco o Soundcloud. Formado em 2007, na Alemanha, é uma plataforma de publicação de audio e que originalmente se destinava à partilha de ideias e de sonoridades entre músicos. Hoje em dia o Soundcloud é usado pelo público em geral. Apesar de se ter massificado, continua com um ênfase acentuado e centralizado nos artistas. Recentemente apresentaram um “upgrade”, através do Soundcloud Go (ainda não disponível em Portugal), um serviço pago, similar ao seus concorrentes como Spotify, contudo o seu catálogo além de algumas editoras Major, como Sony, Warner e Universal, conta ainda com 20 mil editoras independentes.

bandcamp

Bandcamp é sem dúvida uma das minhas aplicações predilectas. Lançada em 2007, o seu foco sempre foram os músicos independentes. Assim cada músico/banda, tem direito a um micro site onde pode partilhar a sua música para escuta online, para download, ou para a aquisição da discografia em formato físico. Os artistas portugueses estão representados e podemos encontrar diversos projectos emergentes do panorama nacional. Relativamente aos downloads, os artistas podem estipular um preço mínimo, que muitas vezes pode ser igual ou superior a zero euros, ou seja há a possibilidade do usuário pagar o que quer pela música que lhe agrada. Se existir um valor mínimo, nada impede o ouvinte de pagar mais por determinado produto se achar que o músico merece. O serviço de “streaming” é gratuito e após a primeira compra através da Bandcamp, passamos a ter a possibilidade de ouvir toda a biblioteca ilimitadamente.

tradiioFinalmente não podia esquecer um dos maiores orgulhos nacionais, o Tradiio, plataforma portuguesa, lançada em 2014 e que já conta com mais de 100 mil utilizadores, e uma oferta superior a 25 mil artistas. O Tradiio, é uma ideia simplesmente brilhante, destinada a quem, como eu,  adora desvendar nova música, e que permite ao utilizador descobrir e investir em novos artistas, ganhando prémios pelas melhores apostas. Assim o papel principal é assumido pela díade artista/ouvinte: o artista divulga a sua música e o ouvinte utiliza moedas virtuais para “patrocinar” os futuros talentos. Ou seja é um jogo para tentar adivinhar “The Next Big Thing”.

No final desta reflexão, posso concluir que o streaming, tal como tudo na vida, apresenta vantagens e desvantagens, no entanto não acredito que vá ser o responsável pelo funeral da música e dos artistas. Agora não tenho dúvidas que está a mudar mais um vez e quem sabe, definitivamente a indústria da música que deixará de ser como a conhecemos até há poucos anos atrás. Apesar disto tudo, permanece uma grande incógnita no ar, na medida em que tudo pode mudar quando menos se espera. Vejamos, por exemplo, o Vinil, que já teve os dias contados, mas afinal citando alguém “O Vinil vestiu-se de preto para enterrar o CD”.

Regresso no próximo mês, até lá não se esqueçam de ouvir boa música.

 

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