Música

Exclusivo – Entrevista a Tori Sparks

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O Ideias e Opiniões tem o prazer de trazer até aos seus leitores uma entrevista exclusiva com a cantora norte-americana Tori Sparks. Esta entrevista foi realizada por email, graças à disponibilidade e à ajuda da Music in My Soul.  Tori Sparks é, sem dúvida, uma cantora que ficará debaixo do olho do Ideias e Opiniões!

1 – Tori Sparks comecemos pelo princípio: como é que a música surge na sua vida? Sempre ambicionou ser cantora ou tudo aconteceu por acaso?

Sempre toquei música. Comecei por tocar piano aos 3 anos de idade, apesar de agora já me ter esquecido de quase tudo! Mais tarde toquei violoncelo, estudei guitarra clássica e bateria durante algum tempo. A música tem sido sempre parte integrante da minha vida, mas actuar ao vivo começou por ser só um hobby nos tempos da faculdade. Apenas depois de um ano a cantar em “open mics” em bares da Flórida é que comecei seriamente a considerar a hipótese de fazer uma carreira na música. Agora é difícil imaginar-me a ter feito outra escolha, mas houve sem dúvida uma altura em que estava a estudar negócios Internacionais e Teatro, e a música era só por diversão.

2 – A sua formação em teatro foi importante para, no início da carreira, se sentir mais à vontade em palco?

É uma boa questão, efetivamente. Sim, foi, porque quando comecei a cantar a ideia de estar diante de pessoas ou a falar em público era uma ideia assustadora. Além disso, o teatro ensina-nos os elementos básicos da encenação, iluminação, figurino, maquilhagem, ética de trabalho nos ensaios, realização e por aí fora…

3 – Apostou desde sempre numa carreira a solo. Nunca pensou em fazer parte de uma banda? Porquê?

Ao início tinha a ver com a forma como Nashville funcionava e com aquilo que inicialmente queria para a minha carreira. Nashville é uma cidade em que os melhores músicos são quase todos instrumentistas muito mais velhos que tu e que tocam consoante a procura. Não fazem um espectáculo a menos que haja qualquer tipo de budget envolvido. Portanto, sempre que tinha um concerto em Nashville contratava os melhores tipos locais que conseguia ou outros músicos norte-americanos ou europeus quando precisava da colaboração de uma banda e dava uma série de espectáculos a solo entre as datas, porque o que mais queria essencialmente era tocar ao vivo o maior número de vezes possível. Dito isto, aprendi imenso com os músicos de Nashville – mais do que poderia ter aprendido em alguma escola – e foi graças a eles que consegui desempenhar o papel de produtora e intérprete neste projecto (“El Mar”). A colaboração com os Calamento e com El Rubio assinala a primeira vez que tenho uma formação fixa comigo. Apesar de por vezes ser complicado em termos de logística, é extremamente recompensador a nível da experiência pessoal e artística colaborar permanentemente com um grupo específico de pessoas tão espantosas e criativas. Espero que possamos continuar com esta parceria durante os próximos anos.

4 – Como é que uma mulher que nasceu em Chicago e estudou na Florida se muda, de repente, para Espanha? Qual o motivo para uma mudança tão drástica? É que não deixa de ser curioso que enquanto milhares de músicos e bandas tentam a sua sorte nos EUA a Tori Sparks tenha feito o percurso inverso.

A versão curta da história é que eu queria sediar-me na Europa de forma a poder continuar em digressão por aqui. Fiz algumas viagens e gostei imenso. Pensei em Paris porque costumava falar francês e estudei por lá quando tinha 20 anos. Seis anos mais tarde regressei lá e decidi que aquilo não era para mim… foi então que me apaixonei pela cidade de Barcelona após visitá-la por acaso. Decidi mudar-me para lá e seguir o mesmo plano. As coisas correram de forma diferente à que esperava, das maneiras mais estranhas e positivas, mas acabou por ser uma das decisões mais importantes da minha vida. Este último álbum, por exemplo, nunca teria acontecido de outra forma. E ao viver aqui [Barcelona] tive tantas experiências que reformularam ou reforçaram aspetos da minha visão do mundo. Penso que aqui se aplica o ditado “ninguém é um profeta na sua própria terra”, tal como “a relva é mais verde do outro lado”. As pessoas sentem-se sempre atraídas pela noção das “outras possibilidades”. Os americanos costumam pensar que é cool o facto de viver na Europa, enquanto muitos europeus que conheço adorariam viver em Nova Iorque ou São Francisco. Acho que o melhor na vida, se tivermos oportunidade, é de experimentar ambos, independentemente de onde tu sejas.

5 – Quais foram as maiores diferenças que encontrou entre o povo norte-americano e o povo europeu e espanhol?

A América e a Europa são dois grandes territórios com várias culturas espalhadas em seu redor… por isso é difícil comparar ambos. A forma de se trabalhar em Nashville ou Barcelona é completamente diferente, por exemplo. Nova Iorque e Austin (Texas) são tão díspares quanto Milão e Berlim. É uma questão de tentares encontrar as pessoas com as quais te identificas, onde quer que vás.

Tori Sparks

6 – Voltando um pouco atrás: o que aproxima, e o que separa, a Tori Sparks de hoje da Tori Sparks que em 2004 lançava o seu primeiro EP (“Tidewaters”) e entrava oficialmente no mundo da música?

Tanta coisa! Uma vida inteira de experiências, na verdade. “Tidewaters” foi gravado quando tinha 18 anos. Já tinha tido uma vida um pouco alucinada, mas só há um ano é que vivia às minhas custas. Nunca tinha trabalhado com outros músicos ou viajado para fora dos EUA. Agora já estive pelo menos em 30 países, aprendi uns quantos idiomas, tenho dupla nacionalidade, lancei 5 álbuns, trabalhei com todo o tipo de músicos e homens de negócios de todos os níveis. Já estive esgotada, tanto pessoal como profissionalmente, por diversas vezes. Já tive fases em que odiei tudo e quis desistir, mas também tive experiências na estrada que só posso descrever como semi-transformações espirituais. Conheci algumas das pessoas mais inspiradoras que se possa imaginar, fiz jam sessions com nómadas do deserto do Sahara e muitas outras coisas incríveis. Aos 18 descobri os blues ainda sem saber o que o flamenco era. Tive que lutar bastante… a música é um lugar incrível mas é também uma indústria muito complicada. E, claro, amei, sofri, fiz erros e causei sofrimento a outros. Fiz imensos amigos fantásticos e vi atos de incrível generosidade. Já lá vão 14 anos… Muita coisa acontece em 14 anos, especialmente quando viajas bastante. E sozinha. Vês todo o tipo de coisas. Vês o pior e o melhor que as pessoas têm para oferecer. Aprendes muito sobre ti mesma.

7 – Como é que em 2005, embora estando a lançar apenas o seu primeiro álbum, teve a oportunidade de fazer uma tour em França e Inglaterra?

Estava a estudar em França quando decidi que enquanto estivesse no estrangeiro, agendaria espetáculos lá e no Reino Unido, uma vez que eram próximos e se tratava de um país com um idioma que dominava. Aos 20 sentia-me confortável em digressão, sozinha, pelos EUA, mas fazia questão de conseguir comunicar com as pessoas caso estivesse noutro país. Agora é diferente, sinto-me em casa em qualquer lado. A respeito do agendamento de concertos, conseguia-os eu mesma. Enviava e-mails para os recintos até que conseguisse uma semana preenchida com eles. Em retrospectiva talvez pareça uma loucura mas, à época, pensei “porque não?”. Aprendi com a experiência que quando abordas as coisas com uma atitude desprendida, as fichas caem onde é suposto caírem ou, pelo menos, divertes-te e aprendes algo com o processo. Foi uma jornada complicada, mas maravilhosa.

8 – Porque optou por criar a sua própria companhia discográfica?

A Glass Mountain Records foi criada por necessidade – estava a trabalhar com uma editora em Nashville imediatamente após ter acabado a universidade, com a qual me sentia infeliz a todos os níveis. Apesar de ter sido bastante difícil quebrar o contrato, consegui libertar-me e adquirir os direitos do meu primeiro álbum. Mais tarde, em 2007, quis lançar um segundo disco que tinha gravado em parceria com o engenheiro de som David Henry (“Under This Yellow Sun”, 2007) e precisei de uma editora para o fazer condignamente. Em vez de ir à procura de outra editora, decidi antes começar a minha própria. Por essa altura já lidava com distribuidores, assessores de imprensa e agentes de booking – essencialmente tudo o que uma editora faz. Fez todo o sentido que fosse assim na altura.

9 – No seu terceiro disco, “The Scorpion in the Story” (2009) todas as músicas são baseadas em histórias reais que lhe aconteceram durante a tour anterior. Como surgiu esta ideia? Por entre todas as histórias que compõem esse disco alguma a marcou particularmente?

Não foi uma ideia minha, de início. Acontece que à época andava constantemente em digressão, daí que a escrita de canções acontecesse na estrada. Por acaso fui inspirada em várias histórias que ouvi de estranhos nas viagens, tendo depois decidido experimentar e continuar nessa onda – a recolher histórias conscientemente e a tentar convertê-las em canções. A ideia do “The Scorpion in the Story” é retirada de uma fábula da natureza humana, e um verso de uma canção do disco chamada “Leaving Side of Love”. Ainda hoje é uma das canções que mais gosto de tocar ao vivo, e uma história emotiva de contar, apesar de não ser minha.

10- No seu quarto disco gravou uma versão da música cubana de 1947 “Quizás, Quizás, Quizás”. Porque escolheu esta música em particular? O que a cativou na língua espanhola?

Para o explicar, preciso de explicar o porquê de nunca antes ter gravado uma versão ou uma canção em espanhol. Enquanto trabalhava no meu quarto álbum de estúdio estava também a preparar-me para mudar de Nashville para Barcelona, e senti que a minha vida se estava a dividir em dois – metade em Nashville e a outra em Espanha – e o disco começou a contar duas histórias distintas. Então decidimos lançar o álbum como um duplo EP de sete canções cada em vez de um disco com catorze temas. A secção “Nashville” do EP (“Came Out of the Dark”) tem uma sonoridade mais folk e americana e liricamente é um pouco mais otimista. Já a secção “Barcelona” (“Until Morning”) é um pouco mais obscura, um pouco menos “doce” e soa mais a rock e blues. Quanto à canção em si [“Quizás, Quizás, Quizás”] parecia querer encaixar na história que queria contar na metade obscura do EP – fazia sentido incluí-la na coleção de sete canções. Mais tarde gravaríamos uma versão completamente diferente para o álbum “El Mar” com o grupo Calamento.

11 – Como surge a colaboração com os Calamento e El Rubio no seu novo disco (“El Mar”, 2014)?

Conhecemo-nos há uns anos atrás num concerto de beneficiência em Barcelona, quando estava a tocar em duo, e o trio Calamento também estava a atuar. Adorei-os desde o início! Tinha imensa energia em palco e não soavam a nada que tivesse ouvido. A música não era flamenco, rock ou jazz, mas algo no meio de múltiplos géneros musicais. É raro conheceres um trio que capta a tua atenção de forma tão imediata. Mantivemo-nos em contacto e mais tarde trabalhei com o percussionista Javi Garcia em repertório blues e rock. Eventualmente decidimos colaborar, todos os quatro, mais com a ideia de fazer alguns espetáculos do que gravar propriamente, mas os arranjos que resultaram dos ensaios eram algo que senti que merecesse ser registado em estúdio. Também perguntámos a El Rubio, um guitarrista incrível com quem andei em digressão em 2011, para colaborar em algumas das gravações e agora é também parte integrante do projecto. O que começou por ser um quarteto é agora um quinteto. Sinto-me extremamente afortunada pelo facto do disco ter sido feito tão bem. Gravá-lo foi mais um trabalho de amor do que uma decisão profissional, mas o “El Mar” acabou por se tornar também na melhor escolha que podia ter feito na minha carreira, naquela altura. É algo que nunca poderia ter feito se vivesse em Nashville, onde este tipo de fusão nem sequer existe.

12 – A Tori Sparks tem uma forte ligação a causas sociais, tendo inclusivamente realizado ao longo dos anos inúmeros eventos de solidariedade. Qual a importância que este tipo de causas e eventos têm para si?

Se tu já estás diante do microfone a promover-te e ao teu trabalho, porque não usar esse “poder” para um bem maior? Apesar de não me agradarem aqueles artistas que se associam a causas só porque os faz parecer bem, eu promovo organizações com as quais me preocupo – como a casa Ronald McDonald em Barcelona, que dá assistência às famílias de crianças com cancro. Há organizações como esta a fazer um trabalho importante e difícil para a comunidade local ou internacional, e que dependem maioritariamente de voluntários e donativos. Elas precisam e merecem muito mais atenção, e é tão fácil enquanto performer ajudar a divulgar causas como esta. Por essa mesma razão, para além de participar em concertos de beneficência, tenho também por hábito transformar cada festa de apresentação de um novo álbum num evento de beneficência. É algo que me faz feliz.

tori sparks

13 – A música e a cultura espanhola tem muitas semelhanças com a portuguesa. Considera a possibilidade de lançar um disco (ou algumas músicas) em português ou em colaboração com músicos portugueses?

Na verdade nunca considerei cantar em português até me colocar essa questão. Mas porque não? É uma língua muito bonita, para além de que adoraria colaborar com músicos portugueses. Gosto verdadeiramente da música que oiço do país, ainda para mais aprendes sempre algo quando colaboras com alguém. Estou sempre aberta a novas possibilidades musicais!

14 – Tori Sparks conhece alguns artistas/bandas portugueses? Se sim, quais?

Recentemente o Frankie Chavez andou em digressão por Espanha, e fizemos alguns duetos inspirados no seu último álbum (“Heart and Spine”) no seu concerto em Barcelona. Foi um período fantástico! Tanto ele como o baterista e o manager são pessoas muito amáveis e a música é puro rock ‘n’ roll. Adorava poder fazê-lo novamente no futuro! Além do Frankie não conheço outro artista português pessoalmente, apesar de ter ouvido alguns… Carminho, Mariza, por exemplo.

15 – Para quem está a ler esta entrevista e não conhece a Tori Sparks como define o seu estilo musical?

No passado lancei quatro álbuns que são uma mistura de rock, folk e blues. Este projecto, “El Mar”, trata-se de uma colaboração com o trio Calamento e o guitarrista El Rubio. É uma mescla das minhas origens de Chicago e Nashville com as raízes espanholas da banda. Costumamos descrever o projeto como uma fusão de flamenco combinada com rock e blues – apesar de termos tocado em festivais de jazz, flamenco e em clubes de rock. É engraçado tocar “palmas” num recinto rock e riffs de blues num festival de flamenco. Vem agitar um pouco as coisas.

16 – Onde podemos acompanhar mais de perto a carreira da Tori Sparks?

Está tudo online: Facebook, Instagram, Twitter, Google+, YouTube, etc. No canal de YouTube postamos vídeos ao vivo e de bastidores todas as sextas-feiras. E, claro está, no meu site pessoal (www.ToriSparks.com), onde constam também todas as datas da nossa digressão.

17 – Tori Sparks vai atuar pela primeira vez em Portugal. Quais as expectativas para os concertos em Lisboa, Porto e Coimbra? 

Sinceramente, não conheço grande coisa de Portugal. Nem nunca passei férias aí. Esta será a minha primeira vez aí, em qualquer recinto. Portanto estou entusiasmada por ver o país, ouvir a música local e experimentar a comida – só oiço coisas boas acerca das três cidades onde vou atuar (Coimbra, Porto e Lisboa). Profissionalmente o melhor que podes esperar em qualquer digressão, especialmente na primeira num novo país, é que existam pessoas que vão aos concertos e que estejam entusiasmadas por ouvir a música.

Agenda de concertos da Tori Sparks em Portugal:

13.04 | Murphy’s Irish Pub (Coimbra)

14.04 | Hot Five Jazz And Blues Club (Porto)

15.04 | Conservatório Nacional de Lisboa – Espaço Le Foyer (Lisboa)

16.04 | Fábrica do Braço de Prata (Lisboa)

17.04 | Pensão Amor (Lisboa)

Agradecimentos: Music in My Soul e Tori Sparks.

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