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Capitão Falcão – Super-Herói à Portuguesa

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Este mês trago algo diferente e com o seu grau de originalidade , um filme feito em Portugal para portugueses! O cinema português está um pouco estigmatizado porque existe a sensação que oferecem uma experiência longe da acção vibrante de Hollywood ou da qualidade de outras produções internacionais. Nos últimos anos as coisas têm mudado, combate-se a velha piada de que não se deve rir ao visionar um filme português. Têm surgido algumas comédias, por vezes falhadas, outras com um humor simples que vive de pouca reflexão, nada que fizesse lembrar a grande Era de Ouro do Cinema Português com O Pátio das Cantigas (1942) ou o Leão da Estrela (1947), o que também seria impossível. Também os filmes de super-heróis são escassos pois no geral envolvem orçamentos milionários que a nossa industria não possui. Capitão Falcão é por isso uma aposta ambiciosa, mas será que vinga?

CF

Titulo Original: Capitão Falcão

Ano: 2015

Realizador: João Leitão, Gonçalo Waddington

Produção: Manuel Barbosa, Bárbara Dias, João Leitão, Joana Montez

Argumento: Nuria Leon Bernardom, João Leitão

Actores: Gonçalo Waddington, David Chan Cordeiro, José Pinto, Miguel Guilherme

Musica: Pedro Marques

Género: Comédia

Ficha técnica completa em:

http://www.imdb.com/title/tt1941478/?ref_=ttfc_fc_tt

As peripécias de Capitão Falcão começam muitos antes da sua estreia. Inicialmente uma série, teve o seu episódio piloto em estreia no MotelX 2011. Embora não tenha estado presente relembro com bastante agrado o trailer que parecia levar as produções portuguesas numa nova direcção. Depois de inúmeros percalços em relação à sua difusão e formato surge o filme em 2015, parece tempo excessivo mas nem por isso se perdeu a curiosidade de tentar perceber quem é de facto Capitão Falcão. A resposta não é simples, e muito menos consensual, e existem bastantes reacções à saída do cinema, que cobrem a Internet com os mais variados artigos de opinião.

Em primeiro lugar, este filme vem quebrar tabus desconstruindo uma época ainda na penumbra na mente da sociedade portuguesa, o Estado Novo. Não só o faz falando sobre o assunto como brinca com ele, ridiculariza-o e inverte os papeis entre heróis e vilões. Aqui Capitão Falcão (Gonçalo Waddington) é um super-herói do Estado Novo e recebe ordens directas de Salazar (José Pinto) enfrentando comunistas barbudos munidos do simbólico martelo e foice, “comuninjas” e o maior mal de todos, os Capitães de Abril em jeito de equipa de Power Rangers. A história parece fragmentada talvez porque nem sempre é possível disfarçar o que na realidade o filme teria sido, uma série, mas isso não lhe tira o brilho ou a inspiração. Nota-se claramente que o filme junta várias inspirações, desde a série de Batman dos anos 60 até a Green Hornet, que também se faz acompanhar de sidekick asiático com pinta para as artes marciais.  Juntando a tudo isto estão enormes referência à nossa pop culture, que tornam o humor num mecanismo inteligente e numa ode ao nosso país começando logo por um discurso nacionalista que marca o inicio do filme e onde a historia de Portugal é contada a jeito de propaganda e também ao jeito de uma época de ditadura. Este inicio embora com um certo grau de cómico é capaz de emocionar alguns patriotas sem grande esforço.

Do mesmo modo que a complexidade do filme advém de várias inspirações também o humor depende da nossa compreensão sobre os mesmos. Nem todos perceberam certamente a piada do “Major Al…berto” (Ricardo Carriço) ou até mesmo a pequena peça musical que acompanha a sua revelação, uma adaptação respeitoso do tema principal da série produzida pela RTP1 no final dos anos 90, Major Alvega, protagonizada também por Ricardo Carriço. Muito do filme passa pela noção do ridículo, mas sabe aproveitar essa particularidade para criar momentos de humor bastante bem conseguidos em parte pela noção de timing que vive do contributo de vários elementos, desde os actores, passando pelo guião e chegando até a musica. Seria insensato admitir que todas as piadas funcionaram e que Capitão Falcão não exagera por vezes na sua abordagem cómica mas é um filme que percebe as suas limitações, ridiculariza-se até no que toca ao seu orçamento e com isso quebra a quarta parede. A cena final é também um exemplo desta quebra, com um pormenor particular que fará algumas pessoas rirem durante minutos ou apenas protestar que se calhar o humor foi demasiado longe, quer pelo ridículo ou pelas implicações que partem do preconceito. Mais uma vez o filme faz-nos reflectir…

Capitão Falcão é marcado por uma grande entoação de cores que lembra uma banda desenhada que marca o filme do inicio ao fim. Gostando ou não somos rapidamente obrigados a regressar ao nosso Portugal quando os créditos finais aparecem, seguidos de E Depois dos Adeus de Paulo de Carvalho juntamente com fotos do dia 25 de Abril de 1974. É talvez uma chamada a realidade mas também mais uma maneira de perceber e interpretar que o filme foi apenas uma desconstrução de uma época e não uma ovação a um regime tão detestado por várias geração.

O filme vive também das interpretações do actores, num elenco que embora mínimo é rico em diversidade. Embora com alguns problemas de interpretação por parte de acores mais secundários isso não destrói a experiência. Gonçalo Waddington interpreta Capitão Falcão com o seu discurso e tom de voz radiofónico mas irritante, que assenta perfeitamente no perfil da personagem que embora seja o suposto herói quebra totalmente o perfil que seria esperado com uma personalidade egoísta e por vezes machista. É talvez em algumas ocasiões a caricatura perfeita à mentalidade do regime. Já o seu sidekick silencioso é David Chan Cordeiro, o Puto Perdiz, que protagoniza algumas cenas bastante hilariantes embora em total silêncio.  Outro dos destaques é sem duvida José Pinto como Salazar. Melhor e mais parecido seria certamente impossível nesta completa desconstrução do “maior português de sempre” para uma figura afável e descontraída que transmite uma grande empatia. Destaque ainda para Miguel Guilherme, o Capitão Gaivota, que serve como mentor a Capitão Falcão.

Por ultimo e não menos importante está a musica, que tem o seu grau de genialidade quer na contribuição para o humor como na sua capacidade de se integrar na narrativa. A musica sofre mudanças e vai buscar algumas inspirações. Ia jurar que ouvi algo inspirado em John Williams mas que depressa mudou para algo mais Danny Elfman. Há também pormenores menos perceptíveis, por exemplo, os súbitos arranjos orientais na composição quando Puto Perdiz aparece em frame lutando contra os seus inimigos.

Em suma, Capitão Falcão é o que aconteceria se o Green Hornet caísse num caldeirão de cozido à portuguesa. Embora com as suas falhas é um filme visionário que abre portas a futuras sequelas. O humor é perspicaz, o grau de ridículo pode ser por vezes demasiado mas quebra os tabus de uma época, questiona os valores do Estado Novo desconstruindo-o e tornando-o num bicho menos complicado de domar na consciência de um povo. É um filme que se apercebe dos seus erros, goza com eles e mostra-se no geral uma experiência que diverte mesmo quando pensamos que a experiência está a ser excessiva.  Capitão Falcão não era o herói que queríamos, mas é o herói que precisávamos…

Golpada Americana e Gravidade7.0

Volto para o próximo mês com mais cinema…

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