Sociedade

Bullying

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Lembro-me perfeitamente. Um dia, sentada num dos bancos de granito do recinto da escola, adiantava os trabalhos de casa, enquanto esperava a chegada da minha mãe. De repente, e sem grande explicação, fui abordada violentamente por um dos meus colegas de turma. Entre a dúvida, a vergonha, estupefação… e após longas e rápidas voltas à cabeça, consegui contar o sucedido a uma funcionária. Depois tudo aconteceu muito rápido. O agressor foi levado pela orelha ao director e institucionalmente punido. Infelizmente os seus pais nunca compareceram. Nessa altura, nunca ninguém ameaçou processar a funcionária, ou o director ou até mesmo a minha mãe. Com esse agressor, nunca mais nada do género se repetiu.

E agora, pergunto antes desta forma: quem NÃO tem uma história semelhante? Quem não foi o elo mais fraco ou a larva bem lá no fundo da cadeia alimentar? Ou então, quem é que não se importou de humilhar e espezinhar “moscas-mortas” para se vangloriar e tentar desesperadamente fazer parte de um dos maiores grupos da escola? Quem não esbofeteou e roubou, caso contrário, “iria ver, lá fora”?

Crescer, todos crescemos. Mas fazermo-nos Homens e Mulheres, já não é trabalho simples, muito menos simplório.

Não é por acaso que os estádios de desenvolvimento das crianças existem. Um bebé não nasce com a estrutura cerebral de um adulto. Essa estrutura vai amadurecendo e desenvolvendo-se nas mais complexas capacidades emocionais, gradualmente.

Erro nº1: Por favor, por momentos, esqueçam se os meninos pesam mais dois ou três quilogramas. Esqueçam se deveriam medir mais três ou quatro centímetros. Por favor, avaliem se as crianças se estão a desenvolver emocionalmente! Se se vê centímetros também se tem de ver actos e padrões sociais.

Erro nº2: Também há quem pense que a vítima é que tinha de aprender a se defender. Quem sabe, não vá a vítima, uns anos mais tarde, tornar-se ela o “monstro”. Sinceramente, espero que a cultura portuguesa reconheça este gravíssimo erro da sua mentalidade social. Uma sociedade não pode ser feita de leões na qual as ovelhas, temos pena, que tivessem nascido leões.

Erro nº 3: Quem espancou não pode ser responsabilizado porque tem mil e um factores de desajuste socio-económico em casa. Quem espancou, coitadinho, tem uma auto-estima muito frágil e sofre de rejeição, por isso tem de ser compreendido.

Então, tudo isto no fundo se trata de uma projeção da mentalidade instaurada de atenuação e despenalização de tantos actos criminosos de adultos como a violência doméstica e a violação. Afinal, se a vítima não morreu é porque ainda não é grave… Ou então, coitado do violador porque depois não se insere na sociedade. Já a criança, paciência, se não ultrapassar o trauma, será mais um dos muitos adultos depressivos.

Brincamos?

Mas é este o ciclo que estamos a nutrir! Além de uma sociedade falida economicamente, afundamo-nos numa sociedade em falência de valores! Oh, que combinação extraordinária, impulsionadora de um brilhante futuro: uma sociedade de leões estúpidos, destruidores e disfuncionais.

Aquela película de violência que guardamos nas nossas recordações de escola hoje em dia tem nome. É bullying. Se já tem conceito, portanto, já não é abstracto nem intangível. Contudo, a responsabilização permanece utópica.

Brincamos?

Desde os três anos que a criança tem a capacidade de começar efectivamente a perceber o seu lugar na sociedade. É aqui que se vinculam conceitos como a partilha, o respeito, a cooperação…

Onde estiveram os adultos nesta fase? E depois?

Como se permite a vinculação do sadismo em vez do respeito?

Como é possível jovens vangloriarem-se nas redes sociais de comportamentos repressivos e violentos?

E já agora… em que século é que a cultura portuguesa vai reconhecer o desenvolvimento emocional das crianças e parar de espelhar comportamentos agressivos no seio familiar?

Pais, Educadores, Professores, Médicos, Familiares, Cidadãos… Temos a obrigação de nutrir uma sociedade fértil. Há mentalidades para ser trabalhadas. Há crianças para ser educadas emocionalmente. Há comportamentos e personalidades a ser travadas e punidas.

Onde estamos?

Para onde vamos, afinal?

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