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Os Atentados de Paris – A Ética do Café

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A 13 de novembro de 2015, terroristas dispararam sobre cidadãos em ócio nas esplanadas de Paris. O comunicado do bando que patrocinou os ataques refere que os locais foram “cuidadosamente escolhidos”. Vale a pena refletir na importância significacional da esplanada – porque se constituiram as esplanadas parisienses como um dos alvos simbólicos deste nefasto massacre? O filósofo francês George Steiner, em 2004, na conferência “A ideia de Europa”, publicada em livro pela Gradiva,  define o café como uma das “substâncias das coisas” em que se pode “ancorar a ideia de Europa”. “Desenhe-se um mapa das cafetarias e obter-se-à um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa»”, disse-nos.

O café é local de “entrevistas e conspirações”, de “debates e mexericos”, onde podemos encontrar “o poeta ou o metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos”. Local de encontros e desencontros, amores e desamores, diálogos ociosos ou transformadores. É, enfim, um local de liberdade. Por essa liberdade foram as esplanadas de Paris atacadas e por essa liberdade decidiram os parisienses a elas regressar.

Sempre que visito uma cidade, pequena ou grande, em Portugal ou no estrangeiro, o que mais gosto de fazer é o que faço em Lisboa quando o fim-de-semana mo permite: sem planos, caminhá-la, parar num café, ler e escrever. Num café da Mouraria, reli há uns dias o texto de Steiner e dei-me conta que o autor menciona uma “ética” associada ao café europeu, sem contudo a explorar diretamente.

Le Carillon, um do locais dos atentados de Paris

Le Carillon, um dos alvos dos atentados de Paris

O café não é um espaço privado como a casa. Mas também não é um espaço público como a rua. Naturalmente, não é como a casa, na medida em que há outros que não sabemos quem são. Mas também não é como a rua, pois no café exercemos a nossa intimidade, na palavra trocada, na palavra lida, na palavra escrita. Entrando  num café em que há quem leia o jornal, namorisque, discuta futebol, estude os seus apontamentos das aulas, ou planeie um projeto de férias com os amigos, percebemos: o café é um local onde exercemos de modo particular a nossa individualidade  mas em que concordamos fazê-lo na companhia de outros. Neste processo, certas normas delimitam um espaço individual inalienável – não posso ouvir música aos berros nem dançar em cima da mesa mas, à volta da mesma, com amigos ou solitário, é permitido a cada um dizer, ler, escrever o que lhe apetece. No café respeitamo-nos mas somos livres, estamos uns com os outros mas cada um na sua. A ética do café europeu é, assim, a ética do convívio, do respeito mútuo e da liberdade das palavras. Do estar com o outro não para que o outro faça o mesmo do que eu, não para encetar um comportamento coletivo comum, mas pelo simples prazer do convívio entre indivíduos iguais e livres e, por isso, inevitavelmente diferentes.

A ética do café é insuportável para quem vê no outro alguém que deve incorporar uma Verdade absoluta justificadora de qualquer violência. A ética do café é insuportável para quem hierarquiza os humanos entre quem já descobriu a Verdade e quem não vive de acordo com a Verdade. A ética do café é insuportável para quem não aceita que podemos estar juntos sem deixar de ser indivíduos. Por isso foram atacadas as esplanadas em Paris. Ainda bem que os parisienses a elas voltaram – porque onde houver cafés e a sua ética, o fanatismo terá ficado à porta.

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