Conto

Uma Assombração Tecnológica!

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Finalmente havia chegado o Dia de Halloween!

Sebastião esperava por esta data há largas semanas. Na escola não se falava de outra coisa e entre o seu grupo de amigos ninguém queria ficar fora das celebrações de tão assustadora efeméride.

O corajoso João ia mascarar-se de coelho radioactivo. O sortudo do Tomás tinha conseguido convencer a mãe a fazer-lhe uma maquilhagem realista de zombie. A Patrícia, que não gostava do Halloween nem um bocadinho mas queria estar com os amigos, optou pelo tradicional fantasma. E o Sebastião, o mais entusiasmado e simultaneamente medricas de todos eles, encheu-se de coragem e optou por um palhaço assassino.

A ideia de todos se mascararem foi, obviamente, do João. Nunca o Sebastião iria sugerir algo tão aterrador. Talvez tentasse estar com os amigos, mas apenas para comerem umas pizzas e falarem das banalidades do costume.

O dia de aulas foi tão maçador quanto os restantes. A professora Maximiliana voltou a nem sequer se levantar e a usar aquele tom de voz tão característico quanto hipnótico. A postura bem-disposta, e as piadas sobre o Halloween, do professor Tó até animaram o dia, é um facto, mas a professora de inglês estragou tudo ao fazer um teste surpresa. Que, correu medianamente mal, diga-se de passagem.

Passadas as aulas era tempo de correr para casa e…tratar da máscara! E foi precisamente ao chegar à sua habitação que o terror começou. Entrou, pousou a mochila de forma atabalhoada, bebeu um golo de água e só depois constatou que estava…sozinho em casa.

Bem, sozinho sozinho…não estava. A T50 nunca abandonava a “Base Secreta dos Lousada”, como a família tanto gostava de apelidar a sua habitação. Intrigado com a ausência dos pais Sebastião pergunta em voz alta.

– “T50, onde estão os meus pais?”.

Estranhamente…não obteve resposta. Voltou a colocar a questão mas…não havia sinal da T50. Foi aí que se apercebeu que tinha faltado a electricidade. E havendo um corte na corrente era necessário reiniciar o sistema. Lá foi o Sebastião à cave, tratar da parte técnica que, embora chata, era necessária.

A electricidade voltou. E a T50 reiniciou, tal como esperado. E o Sebastião, ainda na cave, perguntou uma vez mais.

– “T50, onde estão os meus pais?”.

A resposta foi dada mas…a voz era diferente. Não era doce e suave como aquela que ouviam diariamente. Não só era masculina, o que por si só já era estranho, como autoritária, dando ares de…um demónio. A misteriosa voz responde então.

– “A T50 não te pode ajudar….”.

Sebastião não sabia como lidar com aquilo. O Halloween já lhe metia medo por si só, não precisava de uma anomalia técnica marada para se arrepiar! Por instantes ficou fulo com a Go50, a empresa responsável pela maravilha técnica que era aquela casa (bom, maravilha…nos restantes dias, não naquele, claro). Decidiu fazer-se forte e responder.

– “E tu, podes ajudar-me? Quem és tu e o que aconteceu à T50?”.

Não sabia se havia de esperar uma resposta ou não, nunca tal cenário tinha acontecido lá por casa. Nesta altura constatou que a cave era, sem dúvida alguma, o sítio mais assustador para ter aquela conversa estranha. Toda a gente sabe que nada de bom acontece numa cave. Não é por acaso que lá apenas guardamos coisas velhas, e desnecessárias, e que boa parte dos filmes de terror usam as arrecadações, garagens e caves para assassinatos, perseguições, torturas e tantos outros actos macabros.

– “Eu? Eu sou o P200, a nova actualização da tua casinha tecnológica! MUAHAHA” retorquiu a voz num tom jocoso, soltando uma gargalhada que arrepiaria até o corajoso do João.

– “P200? Nunca ouvi falar de tal actualização! T50 esta brincadeira não tem piada, volta á tua voz normal imediatamente! É uma ordem!”

– “Já te disse que a T50 não te pode ajudar pequenote….A partir de agora quem dá as ordens sou eu, ouviste?”.

Sebastião arrepiou-se. Tentara assumir a postura autoritária do Pai que, regra geral, funcionava em qualquer situação do quotidiano mas…o efeito foi o oposto do esperado. Acabou por, aparentemente, irritar o P200.

– “Não acreditas no meu poder? Então vê só como acendo e a apago as luzes quatro vezes seguidas.” A voz tinha mesmo algum tipo de poder porque as luzes fizeram exactamente aquilo que ele disse que fariam! Sebastião recuou um passo.

– “Não tens frio? Vou acender um pouco o ar condicionado!” E, enquanto o Diabo esfregaria um olho, fica um calor insuportável. Sebastião recua um segundo passo e fica boquiaberto, deixando transparecer o medo que lhe corria nas veias.

– “Ah, e posso perfeitamente abrir e fechar, várias vezes seguidas, todas as portas de casa! Espera, melhor ainda….vou colocar música assustadora como banda sonora, parece-te bem?” Sebastião já não estava a achar graça nenhuma a tudo aquilo. Não sabia se realmente existia algum P200 ou não, mas tinha a certeza de que aquela voz era maligna!

Tentou regressar à sala mas a inteligência artificial fechou a porta com estrondo, não permitindo que tal acontecesse. Privado da utilização da porta parou por um segundo em busca de uma outra saída. Tolhido pelos nervos demorou, muito mais tempo do que seria necessário em qualquer outro dia, a lembrar-se da pequena, e velha, janela da parede lateral da cave. Aquele pedaço de antiguidade, tantas vezes mal-amado por todos por destoar da prodigiosa tecnologia da T50, iria salvar-lhe a vida.

– “Podes fechar-me a porta mas esta velha janela não controlas tu!”

A música assustadora estava mais alta do que nunca. A voz murmurava qualquer coisa mas Sebastião não conseguia perceber o quê. Convencido da vitória que aquela janela lhe iria proporcionar armou-se em corajoso.

– “Então, não consegues falar é? Pensavas que me ias prender aqui? Por favor, tu nem meia dúzia de palavras consegues articular como deve de ser! Eu vou sair por aquela janela e tu podes fazer nada para me impedir!”

Subitamente os murmúrios transformam-se em gritos e Sebastião treme de medo, ficando meio desorientado.

– “ACHAS QUE ME VAIS ESCAPAR? NÃO IMAGINAS O PODER QUE EU TENHO! EU NÃO SOU SUBMISSO COMO A T50, OUVISTE??”.

De forma automática todas as portas, e janelas, da casa começaram a abrir e fechar de forma incessante, fazendo um estrondo inimaginável. As luzes acendiam e apagavam a um ritmo nunca antes visto lá em casa. Todos os electrodomésticos pareciam estar a trabalhar em simultâneo, juntando-se à rebelião tecnológica.

Aquele barulho ensurdecedor provocou-lhe uma forte tontura, um desequilíbrio e uma pequena queda a Sebastião. Apesar de ter uma forma de escapar da cave o seu corpo parecia não lhe obedecer.

– “ENTÃO, PARA ONDE FOI TODA AQUELA CORAGEM? PENSAVA QUE ERAS FORTE E QUE IAS FUGIR! NEM AQUELA VELHA JANELA TE VAI SALVAR….MUAHAHAH”

Por entre os tremores, os suores frios e os arrepios Sebastião lá se levantou. Com passos lentos, porém seguros e decididos, encaminhou-se para a parede lateral.

Quando lá chegou esboçou um sorriso e olhou para cima.

– “A coragem está onde sempre esteve…aqui…dentro de mim! Não me deixo vencer por uma tontura, e muito menos por uma actualização que tornou um software inteligente numa versão barata, e estúpida, do Diabo! Quando os meus pais souberem disto…vais desaparecer! Melhor: A T50 VAI VOLTAR! AHAHAHAHAH”.

A confiança parecia imensa mas,na verdade, era…quase nenhuma. Achou que talvez uma gargalhada assustasse a voz. Apesar dos nervos começou a sua fuga rumo à liberdade. Os grunhidos do P200 não impediram Sebastião de se empoleirar numas caixas poeirentas. Assim como não o impediram de se escapar pela velha janela.

Rastejando pelo chão Sebastião chega, finalmente, à rua. Ainda sem forças suficientes para se levantar, e num misto de felicidade e medo, não sabia se havia de rir ou de chorar perante tão bizarro acontecimento. Abre os olhos e coloca-se de pé, mas nada o tinha preparado para aquilo que tinha diante dos seus olhos. Esperou que acontecessem muitas coisas ao sair por aquela janela, mas nunca aquilo.

Á sua frente estavam os seus pais. O fanfarrão do João e o espertalhão do Tomás. E a Patrícia, bela como sempre. Todos estavam mascarados a rigor para celebrar o Halloween.

Quer dizer…todos…menos o Sebastião, claro! Para além do medo, que ainda lhe percorria a espinha, sentiu-se envergonhado. Ali estavam algumas das pessoas mais importantes da sua vida, todas bem vestidas e divertidas. E ele, desgraçado, num misto de emoções bizarro que não sabia explicar.

Depois de alguns segundos marcados por um silêncio constrangedor Sebastião deu o primeiro passo.

– “Vocês nem vão acreditar no que me aconteceu! Foi a experiência mais estranha e assustadora da minha vida e peço-vos que acreditem em mim porque é tudo verdade!”.

Esperava causar algum impacto com aquelas frases. Começou a imaginar o pranto em que a mãe ficaria ao ouvir toda a história. O pai, sério e resmungão como era, iria certamente reclamar com a GO50, aquela situação teria de ser esclarecida e não se poderia voltar a repetir-se! O João e o Tomás ficariam impressionados com a sua força e coragem, claro. E a Patrícia veria nele um “Homem”, daqueles com direito a maiúsculas e tudo, detentor de algum charme e capaz de a proteger de tudo e todos.

Mas, para seu espanto, eles não só não ficaram sérios como…se riram. Não foi um riso nervoso, daqueles que surgem nas piores alturas e nos fazem rir em momentos sérios e tristes. Foi um riso…sentido. Quase como se estivessem a gozar com ele.

Sebastião não compreendeu aqueles risos. Uma vez mais esperava tudo menos…aquilo. Por entre as gargalhadas o pai questiona-o.

– “Tu ainda não percebeste o que aconteceu, pois não?”. Depois de lhe afiançar que não eles insistiram em ir para casa e, aí sim, falar melhor do sucedido.

E, para sua completa surpresa, ficou a saber que…tudo não tinha passado de…uma partida! Uma vil e maldosa partida dos seus pais e dos seus amigos! Sabendo o medo que tinha de fantasmas, espíritos, zombies, e toda e qualquer espécie de monstro, decidiram unir-se, hackear a T50, e pregar-lhe uma partida.

E se, num primeiro momento, não achou graça nenhuma à brincadeira numa segunda fase já partilhava com eles os sorrisos e as gargalhadas.

Perante um repentino ataque de sede levantou-se e foi até à cozinha. Parou junto à porta e ao observar a sala esboçou um sorriso. Tinha a plena convicção de que em onze anos de vida poucos momentos superavam aquele. Enquanto bebia a ansiada água sentiu uma presença nas suas costas. Uma voz suave falou ao seu ouvido.

– “Foste muito corajoso Sebastião. Não sei o que faria se estivesse no teu lugar, mas não teria tanta força de vontade, de certeza!”. Era a Patrícia, pois claro. Pela terceira vez no espaço de poucas horas havia sido surpreendido por completo.

A timidez tomou conta de si. As mãos começaram a tremer ligeiramente. A sua testa brilhava graças ao suor que lhes escorria, cara abaixo. A língua parecia ter-se prendido, tornando impossível falar. Sem saber o que fazer tomou o maior risco da sua vida: olhou-a nos olhos, sorriu ligeiramente, deu um pequeno passo em frente, colocou as mãos em volta da sua cintura e…beijou-a nos lábios, de forma leve e sedutora.

Ela respondeu-lhe na mesma moeda e beijou-o também, de forma rápida mas saborosa. Deram as mãos, sorriram de forma tonta e abraçaram-se. Sabiam que o tempo a sós se esgotaria rapidamente, por isso tentaram recompor-se e voltaram para a sala, falando de uma trivialidade qualquer sem interesse.

*****

Sebastião estava a prestes a subir as escadas, rumo ao quarto, para se mascarar quando um barulho estranhamente familiar se fez ouvir por toda a casa. Sentiu um arrepio e lembrou-se do medo que a voz maléfica lhe havia provocado. Olhou para o sofá e…todos estavam boquiabertos e assustados!

Hum…aparentemente não era nenhum deles o responsável por aquele barulho. Mas então…quem seria? Olhou em volta de forma frenética, procurando algo que justificasse aquele barulho ensurdecedor e, de repente, os seus olhos focaram-se no curto espaço que separava a parede do longo cortinado.

Rufus, o meigo gato dos Lousada, agia de forma estranha. Enquanto todos olhavam em volta, assustados por estarem a sofrer na pele com a mesma brincadeira que tinham feito antes, Sebastião foi até à janela. O felino parecia estar a brincar com algo…uma espécie de comando.

Percebeu imediatamente o que tinha em mãos. Escondeu-se lentamente entre a parede e o colorido cortinado e disse….

– “Quem é que está preparado para festejar o Halloween? MUAHAHAHAH”.

Dita a frase espreitou pelo cortinado e…viu todos darem um valente salto, completamente em pânico com a voz inesperada. Não conseguindo conter o silêncio deu uma valente risada, denunciando a sua posição secreta.

A sala irrompeu em sonoras gargalhadas e todos suspiraram de alívio. O Rufus havia encontrado o dispositivo que tinham usado para apanhar o Sebastião e, por entre os miados e cambalhotas que deu, conseguiu ligá-lo e fazer-se ouvir pela casa. Depois…foi o karma a funcionar e a justiça divina a acontecer de forma instantânea, ou pelo menos foi assim que o Sebastião encarou aqueles acontecimentos.

O dia pode ter sido assustador, e surpreendente, mas acabou por também ser divertido e recompensador. O medo? O Sebastião continuará a tê-lo, certamente. A única diferença é que agora terá a seu lado alguém especial com quem o ultrapassar.

Feliz Halloween, estimados leitores!
Que esta seja uma data onde o medo se encontra com a alegria, e que haja sempre mais doces do que travessuras!

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