Conto

Um conto Místico de Samhain

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Jack era um espírito deambulante, que vivia no limbo desde há muitos, muitos anos atrás.

A sua história era antiga, originária da Irlanda das tradições celtas, já sob o jugo do catolicismo que tinha cristianizado aquela região. Tinha sido ele a dar origem à tão famosa abóbora de Halloween, aquela que, oca por dentro, ilumina as decorações da célebre Noite das Bruxas desde que os imigrantes irlandeses chegaram a solo americano, em busca de terras e de novas oportunidades.

Nessa altura, como hoje, este povo de antigas tradições celtas, jamais perdidas por completo, fazia justiça às suas origens milenares celebrando todos os anos, a 31 de Outubro, o festival de Samhain, o fim do ano celta que anuncia um novo ciclo de renascimento que há-de chegar.

Os irlandeses da época, levaram então para os Estados Unidos, a sua nova casa, a velha tradição do “Jack O’ Lantern”, o nabo com uma vela lá dentro, que sinalizava o caminho da alma perdida de Jack, um espírito do purgatório, segundo reza a lenda, rejeitado no céu pela sua maldade e vícios, e não aceite no inferno, pela desconfiança imensa que despertava no diabo, já por ele enganado duas vezes, em vida.

Jack era assim condenado para todo o sempre a deambular na” terra de niguém”, a terra onde almas perdidas permanecem até conseguirem encontrar um novo rumo…

A brasa que o diabo lhe dera quando o afastara da porta do seu reino de fogo, foi por Jack colocada dentro de um nabo para durar mais tempo, e desta forma, dava-se origem à “lanterna de Jack”, que nas noites de Halloween, passou a decorar casas e caminhos na região da Irlanda da altura.

A lanterna de Jack, parte da tradição levada pelos irlandeses para a sua nova terra, foi então substituída por uma abóbora, por um motivo perfeitamente prático: as abóboras eram muito mais abundantes do que os nabos.

Nasceu assim a abóbora do Halloween, tal como a conhecemos hoje, a “lanterna de Jack”…

Mas voltando a Jack…Ao “meu” Jack, aquele que retrato neste conto inspirado na lenda irlandesa e dedicado ao Halloween…

Jack deambulava há demasiado tempo sem ter onde ficar…Pior do que isso, não evoluía, não renascia das trevas para uma nova existência…limitava-se a deambular por aí…

A grande maioria das pessoas não o conseguia ver ou sentir, pelo menos não muito conscientemente.

A miséria de vida que Jack levara outrora, apesar de há séculos atrás, era para ele um mero “ontem” ao qual estava agarrado com as unhas que já não tinha, e os dentes que já não possuía… Possuía deles, tal como do seu corpo material, apenas um espectro, uma imagem de si, daquilo que tinha sido, que atravessava paredes e muros terrenos, e não era de facto visto pelos comuns mortais viventes.

No local onde Jack passara os longos séculos, o tempo era uma dimensão absolutamente diferente, onde o momento e a eternidade se tornavam um só, um espaço e um tempo que permitiam a alguns viajar entre galáxias, a outros renascerem para novas aprendizagens, e ainda a outros para dedicarem o seu novo tempo a ações auxiliares da evolução dos tempos e da própria Humanidade.

Jack via muitas almas como ele, perdidas por algum tempo, purgando as dores e as mágoas que na sua consciência permaneciam para além do cérebro pensante que em vida haviam tido…

Sozinhas, sem perceberem nem darem conta de que outros como Jack as conseguiam ver, traçavam o seu caminho nesta terra de ninguém, durante alguns anos terrestres, momentos de consciência para elas, antes de prosseguirem a sua jornada… O sofrimento era aquele que na justa medida haviam proporcionado a quem com eles tinha partilhado a existência, até ao derradeiro momento da partida.

Jack, no entanto, ria-se e escarnecia destas almas, muitas, ao longo de séculos, que para ele não passavam de uns imbecis arrependidos por terem feito isto ou aquilo, ou, antes mesmo de se arrependerem, a vivência dos horrores causados a alguns, nos casos mais negativos, e algumas mágoas, não mais do que isso, na maioria dos casos…

Ria-se sem se ouvir…apenas a sua odiosa consciência poderia olhar com escárnio aqueles que reconsideravam o seu trajeto de vida para poderem prosseguir o seu caminho…

Jack acreditava que a sua lenda era uma “idiotice pegada”…nem diabo, nem inferno…Não para ele, claro, que havia enganado aquele que assim se fizera anunciar…e inferno, pois não poderia jamais entrar…O inferno seria apenas a sua consciência…e essa, como se disse, era odiosa, de tal forma grotesca que tornava o “Inferno de Dante” leve e doce…

Onde não há consciência, não pode haver inferno…E onde a há, o inferno nada tem de tenebroso, apenas faz justiça de acordo com a consciência do próprio.

E Jack não tinha consciência… Jack era um espírito que na vida que deixara mais recentemente, tinha doses de maldade e violência que o tornaram odioso para todos os que um dia o tinham querido amar. Sempre agredira a mulher e os seus filhos, naquela Irlanda antiga, onde a gravidade da violência doméstica não era tida enquanto tal, despertando apenas algumas doses de piedade, sem no entanto ninguém se envolver na vida ou nos destinos daquelas famílias…

Tempos bárbaros, diria eu, onde era normal homens selváticos como Jack, descarregarem as suas frustrações, estupidez e bebedeiras, em atitudes que ultrapassavam o grosseiro e hoje seriam crime. Um crime perpetuado contra os mais frágeis da sociedade da época, que, sob o domínio de uma religião patriarcal instituída à maneira medieval, eram levados a reprimir as suas dores, aguentando-as, levando uma vida de tortura e de miséria às mãos de um qualquer asno como Jack…

Por vezes, por caridade, uma palavra do pároco da aldeia, numa qualquer missa de um qualquer domingo, para que os homens pudessem cuidar dos seus com zelo, exigindo repetidas vezes a obediência e a subserviência de esposas e filhos, perante comportamentos de uma imensa bestialidade e estupidez por parte daquele que consideravam o chefe de família.

Uma época de verdadeiras trevas, a de Jack, onde lhe era permitido ser um tipo de criatura que não deixaria saudades à sua partida…Nem alegrias à sua passagem pela terra.

Para além desta deformação de carácter, Jack tinha ainda um problema imenso, era viciado na bebida. Não era estranho ou raro, na Irlanda da época, nem estranho ou raro em muitos locais do mundo de então…

A bebida tornara Jack um homem sem consciência de si, em vida, como depois da sua partida.

Jack tornara-se aquilo a que se pode chamar de “beberrão”… um espírito imerso nas trevas do vício, onde a virtude e a rectidão de carácter são um mistério por descobrir…

Era isto, na verdade, que levava Jack a deambular há séculos. Precisava mais do que tudo de beber…

As suas trevas eram permanentes… o limbo, como lhe chamava a lenda, era apenas a miragem de onde havia de chegar um dia…Via os outros a passarem por ali, mas não ele…Ele nunca purgava a miséria que tinha causado a tantos…

A sua miséria era a de continuamente percorrer naquele corpo, outrora denso e agora apenas um espectro escurecido, a terra e os lugares onde os vivos bebiam…

Há séculos e séculos que percorria cidades e bares, para tentar sentir o simples odor da bebida…Encostava a cabeça e o rosto que niguém via, ao copo de alguém, desejando numa agonia profunda saborear mais aquele trago…Mas nada…não conseguia…

Pensava para ele próprio, se a isto se pode chamar pensamento, como gostaria de o experimentar outra vez… Ah o vício!….

Sempre à espera de uma oportunidade para matar o vício, o vício que o havia morto…

Jack morrera precocemente, segundo reza a história, e, sei eu, morreu de cirrose provocada diretamente pelo excesso de consumo de bebidas alcoólicas…Uma vida dedicada à bebida, uma morte perpetuada no álcool…

Ah o maldito vício… Jack podia ter sido diferente.

Mas não foi. A bebida tornou-o malvado, nefasto, agressivo e odioso, uma besta em forma de gente.

Nos primeiros anos, corado e de cores bem avermelhadas, gordo e forte, pela mesa…Jack, como tantos outros, bebia e comia tudo o que podia…

Alguns anos depois do vício instalado, e com uma cirrose que jamais poderia ser controlada se ele continuasse a beber, Jack ficava magro e seco, cores pálidas e andar cambaleante, tremores ao levantar, enquanto não bebia o primeiro trago…

Durante a vida, Jack, pela bebida, esquecera-se de si…perdeu-se de si mesmo e de todos quantos podia amar…O inebriante odor da bebida impregnara-se na pele e nas roupas, no hálito… Olhos sempre irradiados de sangue, e de um branco amarelecido à sua volta, olhar errante, apenas enfurecido ao chegar a casa, quando, paranóide pela bebida e com o aterrador ciúme provocado pelo vício, achava que a mulher certamente o traíra com um homem bom, e os filhos certamente o encobriam, estando todos envoltos numa farsa terrível para fazer dele um parvo, para o enganar…

Odioso e doente, tornava a vida deles um inferno vivente, ardia de raiva e de fúria pelos seus próprios pensamentos e delírios, que se tornavam cada vez mais reais perante juramentos e lágrimas das suas vítimas. de que nada disso era verdade…

Vítimas uma vida, da piedade e misericórdia por Jack, passaram a odiá-lo, e foi com imenso alívio que o viram partir no dia em que finalmente morreu. Não era por mal, mas os olhos enegrecidos da pancada, as feridas ensanguentadas no dia seguinte, as marcas horríveis que na pele e na alma que se perpetuavam há anos, não permitiam que desejassem a Jack longa vida…a sua longa vida seria possivelmente a morte deles…mais tarde ou mais cedo…

No dia em que a ceifeira, como se chama à morte, recolheu Jack para longe deles, sem que tal fosse por influência de ninguém a não ser do próprio e do vício que o matava, a paz foi restabelecida naquele lar…mas as marcas…essas eram perpetuadas no tempo, e em muitas vidas vindouras…

Jack acordou num outro estado…achou estranho, com o passar dos dias, deixar de sentir a dor física, os vómitos e a agonia de quando em vez, o frio ou o calor…nada…

Achou estranho mas não percebeu logo que havia morrido.

Tempo depois, e apesar de muitos o irem tentando alertar para que estava de facto morto, não tornou a querer ver ou falar com mais ninguém desse outro mundo que ainda não conhecia bem.

Queria, isso sim, beber. Não tinha tremores, o que era bom, pensava ele, mas isso ainda lhe dava mais vontade de beber.

Dirigiu-se rapidamente para um dos locais que em vida frequentara…Estranhou a forma como se movimentava primeiro…depois horrorizou-se…nas poças de água que a chuva deixava nos passeios, nada do seu reflexo…nada de molhar os pés…nada de ver a sua sombra debaixo das lanternas ténues que iluminavam as ruas da sua aldeia…

Depois o horror ainda maior…não conseguia beber, saborear um trago que fosse de um copo de uma qualquer bebida…

Olhava para ela, e agonizava-se de não a poder provar…cheirar…nada.

Durante alguns séculos este foi o seu “purgatório”, porque daqui não conseguiu partir para mais longe, para um lugar de consciência apenas reservado aos que deixam os assuntos pendentes como que “arrumados” e podem justamente seguir o seu percurso espiritual…

Jack não o podia fazer…A bebida, o vício, era demasiado forte e presente para poder sequer dedicar-se a outro assunto qualquer…Nunca pensou em ver família, amigos, ou se estavam ou não bem…Séculos depois permanecia unicamente na certeza de que precisava de obter a bebida que o levara à morte, que o deixara agrilhoado para sempre à vida terrena…

O verdadeiro morto-vivo… Não tinha ligaduras nem se levantava de campas na noite de Halloween, mas não era morto, nem vivo…

Numa certa noite de Samhain, noite do aniversário da morte de Jack, algures num dos séculos durante os quais Jack se arrastava, abertos os portais das trevas para este nosso mundo segundo a simbologia celta, Jack olhava nas ruas as abóboras iluminadas, sabendo que era a sua história, a lenda que criaram em torno da sua própria vida e morte, que lhes dera origem.

Já há muito tempo que tinha percebido que podia influenciar os vivos mais fragilizados em dado momento para os atacar pelo princípio do prazer, transmitindo-lhes o tenebroso desejo da bebida…Disto a lenda não falava, ria-se ele…

Ria-se com desprezo pela lenda que o colocava para sempre a deambular no espaço, de lanterna na mão, para encontrar um caminho que o levaria de novo ao mesmo local, eternamente…Ria-se porque sabia que não era verdade…Apaziguados ficavam os humanos que confortavelmente no seu ateísmo deveras inteligente. ou no seu credo deveras omnipotente, se achavam imunes aos mortos-vivos como ele, sem se aperceberem como poderiam eles ainda assim, ou por isso mesmo, influenciar desejos de humanos viventes.

Ria-se ainda mais, quando se tornara o chamado possuidor de almas viventes,para alguns, um espírito obsessor, em várias noites de Halloween ao longo dos séculos, levando os donos dos corpos a beberem até padecerem, alimentando o desejo de Jack sem darem disso conta, destruindo-se aos poucos até não mais lhe servirem…

De tanta malvadez, Jack ria e ria, grotesco, e ia mudando de vítima, de quando em vez…

Bastava que a vítima sucumbisse à doença, para a deixar entregue à sua sorte, habitualmente uma destruição imensa…vida afetiva, familiar, saúde física, psíquica, trabalho, carreira, enfim, uma miséria humana a todos os níveis…Quando tal sucedia, e por esse motivo a vítima não aguentava beber mais, o espírito beberrão de Jack abandonava-a e esperava pela próxima oportunidade, mais uma vida despedaçada…

Jack zombava em tempos remotos de tudo o que a igreja, aquela que conhecera bem na Irlanda do seu tempo terreno, tentava fazer a espíritos como o dele… Chamavam-lhe exorcismo, em tempos, alguns com rituais próprios mais tenebrosos do que muitos contos de terror …

Jack tinha sido muitas vezes chamado a esses rituais, quando algumas pessoas mais preocupadas com os seus entes queridos, os viam sucumbir à bebida, acreditando, com razão, que era algo do “Além” que os destruíra…

Jack, do “Além”, sabia perfeitamente que tinham razão…Mas também sabia que a importância que lhe davam nesses momentos ainda o deixava mais forte…

Bem ao contrário do desejado por quem o praticava e por quem o solicitava, os vários exorcismos, ao longo dos séculos de deambulação de Jack, levados a cabo pelas mais diversas crenças, que iam variando ao longo da história, muitas vezes evocavam o mal, bem mais do que o afugentavam e não conseguiam invocar auxílio…

Atos que poderiam ser em nome de uma qualquer fé, mas caracterizados pela superstição que perseguiu e vitimou muitos inocentes  ao longo da história, e evocavam-no sem tampouco saberem de quem se tratava, ria-se Jack maléfico, evocavam o mal em si mesmo, com a arrogância própria de quem o vai conseguir afastar…

Nunca conseguiram afastar Jack, ao invés, pelas suas evocações, ainda conseguiam muitas vezes trazer outras almas “penadas” para o meio dos viventes, disfarçadas, ora de entes queridos que haviam partido, ora sob um falso nome, escolhido de um qualquer demónio conhecido dos viventes que neles acreditavam, num deleite perpétuo em baralhar, confundir e emocionar aqueles e aquelas que recorriam a estas práticas.

Em alguns momentos de verdadeiro terror para as suas vítimas, Jack fortalecia-se cada vez mais… Algumas vezes também o tentavam evocar num sentido ingénuo, de acordo com o pensamento presunçoso e de escárnio de Jack, para o ajudar a ir não se sabe bem para onde, perguntando em sessões contínuas se precisava de ajuda…

Jack achava-lhes alguma graça…tão bondosos, pensava em tom de chacota, e tão palermas… Fazem a minha diversão…

E, com toda a sua malvadez, ia “brincando” com os humanos viventes, que se achavam muito espertos e,  já sem o medo supersticioso e paralisante outrora imposto por alguns credos, continuavam a alimentá-lo no entanto, a ele Jack, paradoxalmente, com as suas constantes evocações…

De uma forma ou de outra, Jack tinha aprendido que não era dessa forma que o conseguiam afastar, e ria-se, sorvendo dos copos que outros bebiam por ele, alimentando o seu vício, através dos corpos que não eram os seus, e que no entanto tomava para si…

Ia tomando para si corpos viventes, sempre à espera num qualquer bar, até que aparecesse a vítima perfeita…

Até um dia…Ou melhor até uma certa noite…

Foi em mais uma noite de Halloween, que tudo mudaria por fim…

Jack encontrava-se junto de um jovem rapaz vivente, a quem influenciara o bastante, através apenas do pensamento oculto que lhe foi passando a partir do mundo dos mortos. Mesmo sem ter tomado o seu corpo para si, os pensamentos e as influências dos mesmos eram tão reais no mundo ods vivos como nos mundos dos mortos, e apanhavam os mais desprotegidos, sem que disso dessem conta, levando-os por vezes a tomar como seu um pensamento que não era deles. Esta influência não seria por si só suficiente para o convencer a beber, mas podia imprimir no jovem um sentimento de desânimo, uma influência de forte negatividade.

Foi isso que sucedeu. Frágil e um pouco triste, o jovem caminhava nos momentos que tinha livres, noite fora, pelos parques da cidade junto ao Hospital onde trabalhava. Começara a sentir cada vez mais a solidão, e sem que desse conta, parecia apenas pensar em coisas que o desanimavam…

Jack ia caminhando ao seu lado, sem dar sinais disso, bebendo da sensação de que em breve aquele jovem iria certamente tomar a decisão aterradora que o levaria ao vício.

Era um jovem muito belo, olhos verdes, cabelos dourados, alto, cara de anjo, bom estudante, inteligente, que havia terminado o curso de medicina.

Jack não iria naturalmente aproximar-se de um jovem assim…À partida.

Mas todos temos as nossas fraquezas, e momentos de fragilidade…E Jack aproveitara sempre momentos destes, durante séculos, para se apoderar das suas vítimas…

Voltamos ao nosso jovem.

Este jovem estava a concluir o internato de medicina, na área de psiquiatria, quando um certo dia, consumido pela desgraça humana que se vivia nos corredores daquele Hospital, pelos bancos de horas e horas seguidas que tinha de fazer quando estava “de urgência” e durante os quais havia algum tempo que não conseguia sequer dormitar nos momentos mais calmos, levado pelo cansaço e a tristeza de não conseguir a cura para tantos e tantas doentes que ficavam subjugados ao hospício para o resto da sua vida, desabou.

Sucumbia assim ao desânimo e à tristeza…

Jack, que fora obrigado a abandonar a sua mais recente vítima por ela ter sido internada com doença grave crónica provocada pelo vício do álcool, que a levara a deixar de ter acesso à bebida e a um fim lento e doloroso que se fazia prever, começou à procura de um novo corpo… Foi nessa altura que observou aquele jovem no seu desânimo e tristeza, e passou a seguir os seus passos por uns dias, enquanto o jovem ia deambulando pelos jardins do Hospital, pelos parques da cidade, e também  nas horas em que ficava imerso em pensamentos de desesperança e depressividade… Durante as horas de  vigília, como durante as  poucas horas de sono, Jack ia procurando influenciá-lo negativamente, para criar uma oportunidade de entrada no seu corpo, depois de ter a certeza de que o vício iria fazer parte da vida do jovem… Era preciso ajudar o desespero e o desânimo a instalarem-se na sua mente e coração, para o poder levar até aí e tomá-lo depois para si.

Foi numa noite de Halloween, celebrada pelas ruas da sua cidade, que olhando as máscaras e cores que animavam num espectáculo de terror divertido as ruas da sua cidade natal, e onde fazia o internato, este jovem, que não era crente em nada que não fosse a ciência, pensou finalmente  em “beber para esquecer”.

A animação era plena, e as portas de muitos locais estavam abertas noite dentro, oferecendo bebidas e diversão a quem se quisesse juntar…

Este jovem era de uma extrema bondade, e quisera a vida e o destino que a sua vida fosse dedicada a ajudar os outros e a defender a ciência – a sua única religião e credo.

No entanto, acusava o cansaço, o esforço, e também uma perda recente que tivera na sua família, que o deixara sem chão…

A influência maligna de Jack só tinha sido possível pelo seu estado de desânimo…

De olhos tristes, entrou num bar da cidade, onde circulava a bebida de copo em copo, de mão em mão.

Jack que habitualmente observava ali as suas potenciais vítimas, na esperança de encontrar alguém com estrutura física suficiente para aguentar longos anos de muita bebida, sob o seu jugo e domínio, conduziu-o subtilmente até ao local que lhe era tão familiar quanto adequado aos seus objetivos.

Estava farto de tomar para si corpos viventes de homens envelhecidos pelo tempo, ou de mulheres que bebiam às escondidas e que aguentavam pouca bebida para a sede de Jack… Sucumbiam à doença rapidamente, não conseguiam suportar o vício imenso de Jack… Farto, Jack estava farto de ter de tomar para si corpo atrás de corpo, cansava-o estar sempre a mudar…

Queria poder beber muito, durante muito tempo, sem preocupações…

Claro está que viu naquele jovem saudável e de boa resistência, a fragilidade imensa que lhe abria uma porta…Primeiro iria influenciar o seu pensamento, subtilmente, depois, abriria a porta para tomar conta dos seus desejos, que seriam tão somente os de Jack, e que nunca mais iriam ser verdadeiramente os do jovem…A partir daí, a vida do  jovem seria transformada numa dádiva para Jack, e num inferno para o próprio. Perderia durante muito tempo, ou mesmo para sempre, o controlo sobre si mesmo, e estaria possuído pelos sórdidos desejos de Jack, o espírito que o possuíra.

Voltamos à noite de Halloween.

O jovem, de nome Joshua, olhou para um copo de bebida pousado no bar e pediu igual para si.

Não era grave ir beber, propriamente, pensava para si…

Mas, sabemos nós, que era grave a fragilidade e o sentimento que o levavam até ali, era o sentimento associado ao querer beber que era grave… Naquele bar, solitário, numa noite de Halloween, a desesperança e a tristeza, enfatizadas pelos pensamentos de Jack,  tomavam conta de Joshua, e a forma que encontrava de dissipar pensamentos e sentimentos desta negatividade era no fundo de um copo qualquer… Jack não iria deixar escapar uma oportunidade destas. Estavam reunidas as condições para o vício se instalar e ele poder finalmente beber dele, para matar o seu.

Apesar de ser uma boa pessoa, Joshua não tinha consciência de influências que não fossem a do seu próprio pensamento, não se protegia delas, e sucumbia ao desânimo e à negatividade sem dar luta.

Instalada a fragilidade, o portão de Halloween, o portão das trevas, abria-se também na sua alma, no seu corpo, sem que Joshua desse conta disso.

Jack estava animado. Aquele jovem era a resposta , um corpo a tomar por muito e muito tempo, uma porta aberta para alimentar o seu vício de forma duradoura… Pelo menos enquanto Joshua fosse vivo. Depois de tomar dele o seu corpo, Joshua jamais poderia deixar o vício que viria como um desejo seu incontrolável, quando na verdade era o desejo de Jack que dele tomaria conta. Muito dificilmente poderia escapar sem uma ajuda externa importante que Jack evitaria, como fazia sempre desde há séculos, a todo o custo.

Aproximou-se de Joshua… Colado ao seu ombro esquerdo olhava para ele enquanto Joshua se sentava.

Joshua bebeu de um trago o copo que tinha à sua frente. Pousou o copo. Pediu mais um.

Jack agitava-se, se conseguisse entrar nesta noite, era sucesso garantido… Aquilo que poderiam ser uns copos a mais naquela ocasião,e não passar disso mesmo,  passaria a ser o começo do alcoolismo para Joshua…o começo do seu fim a longo prazo, esperava Jack, e deliciava-se por brevemente poder beber ele mesmo todos os tragos que pudesse já nessa noite…

De repente,  uma jovem mulher, contrastando, pelo seu trajo luminoso e branco no meio dos fatos de bruxas, vampiros e lobisomens próprios do cenário de Samhain, aproximou-se de Joshua…

Olhou diretamente para Jack, olhou-o nos olhos, como se ele estivesse perfeitamente visível. Jack riu com ar rude e com o habitual escárnio…achava-se intocável…Mas ficou desconfiado.

A mulher olhou Jack fixamente enquanto Joshua bebia do segundo copo, de um trago novamente, pousando em seguida a cabeça na mesa, sonolento e cansado. Poderia ter sido o derradeiro momento…para Jack…Mas não foi.

Jack percebeu que ela de facto o via…e, sem saber bem porquê, ficou com medo… Olhou à sua volta e viu, com a mesma luminosidade característica, mais alguns homens e mulheres que se misturavam no meio do gentio, naquele bar. Seriam talvez três homens, mais uma mulher, contava ele, e mais aquela que o olhava.

A mulher caminhou e atravessou literalmente Jack, afinal ele não passava de um espectro de luz escurecida, opaca, sem brilho algum, à espera de uma oportunidade cobarde de tomar para si um corpo de um jovem de bem.

Joshua tinha adormecido.

Jack afastou-se a um novo olhar da mulher, e sentiu-se mal…de repente olhou à sua volta e deixou de estar ali…regressou no tempo às suas origens…à sua vida…foi revisitar o seu passado…

Lembrou-se dele próprio quando tinha a idade do jovem…Fez de repente uma espécie de viagem no tempo, conduzido pelas mãos de dois daqueles que vira naquele bar, pareciam-lhe anjos…mas sem asas…

Jack não tinha sido sempre mau afinal. Recordou-se com mágoa do tempo em que não fora mau.

Jack tinha nascido numa família abastada da antiga Irlanda cristã, e tinha um futuro promissor à sua espera. Tinha saúde, vigor, esperança e era um homem bom.

Uma noite, a tragédia abateu-se sobre a sua família. Um homem violento e alcoolizado entrara na propriedade onde vivia com os seus pais, e agredia brutalmente Jack, que o surpreendera no escuro, em busca de dinheiro para a bebida.

O seu pai, desceu entretanto, e acabou por matar o homem.

Apesar de ser em legítima defesa, e de estar muito escuro no momento da luta, quando viram o rosto do homem, perceberam que era um dos filhos de uma família vizinha, de uma propriedade muito próxima da deles.

Moralmente a sua família nunca mais voltou a ser a mesma. Foram olhados com desdém por muitos na aldeia, e a noiva de Jack, uma jovem bela e doce de uma família tradicional daquela localidade, foi impedida de o tornar a ver. Os seus pais romperam o noivado para preservar o bom nome da família, que não queriam ver unida à família de Jack, cujo pai tinha afinal morto um filho da terra…

Jack sucumbiu à tristeza, sentido-se revoltado com tamanha injustiça, com tudo o que estava a acontecer.

Como se não bastasse, culpado nos seus sentimentos mais profundos, o seu pai afastou-se e nunca mais voltou a ser o homem que era. A família próxima e a aldeia nunca conseguiram perdoar uma perda tão grande.

O pai de Jack começou a beber sem mais parar, até que a doença provocada pelo vício tomou conta do seu corpo finalmente, e acabou por o levar.

Depois da morte do seu pai, Jack, desgostoso, e sem saber porquê, começou a beber…muito…Desesperado com o desenrolar de todos os acontecimentos na sua vida, tornou-se viciado na bebida.

Abandonou a sua casa natal, para lá não mais voltar, e foi casar-se, só pela companhia de que precisava, com uma jovem de uma aldeia mais distante, onde a fama da sua família não tivesse chegado.

Jack tornou-se violento e passou a estar permanentemente alcoolizado…

Até à sua morte, que se tornou a lenda que todos conhecemos.

Jack lembrava-se de tudo de repente…

Subitamente deu conta de que havia regressado ao bar.

Apenas o olhar firme mas suave da jovem mulher, mesmo sem palavras, era suficiente para que Jack percebesse que algo estranho se passava…Nunca tinha sentido nada assim…

Jack deixou aquele bar naquela noite… Foi conduzido até à porta, com suavidade e leveza, por dois dos seres luminosos que ali estavam, e que saíram com ele… Para onde foi desconhecemos…

A partir daquele dia no entanto, diz esta história de Halloween, que Jack não mais tomou corpos para si e seguiu finalmente o seu caminho…onde quer que seja…

Joshua acordou apenas na manhã seguinte, ainda no bar, que continuava de portas abertas, já sem a euforia do ambiente, no meio das limpezas e das conversas normais que se ouviam no local. Joshua ouvia o toque do sino da Igreja que anunciava o Dia de Todos os Santos e chamava os fiéis à Eucaristia da hora do meio dia. O Sol brilhava no alto, por entre as escassas nuvens que se vislumbravam no céu azulado…Aproxima-se o Verão de São martinho, dizia a tradição cristã… E hoje era do dia em que se celebravam os mártires, todos os santos, todos os homens e mulheres de bem.

Joshua sentia-se estranhamente leve… bem, calmo, quase feliz…

Há tanto tempo que não se sentia assim…

Tinha tido um sonho… Nesse sonho um homem de ar tenebroso queria tomar o seu corpo e uma jovem mulher de rara beleza e de brilho incomum, acompanhada por três homens e uma mulher que irradiavam bondade, impediam-no.

O homem afastara-se por fim e Joshua tinha visto os olhos da mulher que o ajudava mais de perto. Um sorriso e um ar apaziguador…

Depois, depois não se lembrava de mais nada…

Sentia apenas uma energia renovada, uma esperança imensa, um pleno sentido para a sua própria vida e um desejo e espírito de missão como nunca havia sentido…

Voltou ao hospital onde alguns dos doentes ainda deambulavam pelos corredores…antes de recolherem aos refeitórios das suas enfermarias.

Joshua iria dirigir-se também ao refeitório dos funcionários do Hospital, onde aguardava seguramente a sua refeição vegetariana e o seu sumo natural de frutos, opção sempre reservada por ele nos dias em que o turno contemplava o horário do almoço ou do jantar.

Um dos doentes, que percorria o pátio na direção da enfermaria, eufórico mas com o medo e a surpresa estampados no rosto, foi ter com ele e contou-lhe como tinha saído por uns momentos à rua, na noite anterior, para um jantar de família… Tinham-no ido buscar, o que lhe causava grande alegria, e tinha lá passado a noite.

Contou-lhe então o que vira naquela noite, e de como afinal existiam entidades várias das trevas espalhadas pelas ruas da cidade, que o mundo das trevas existia e era real…Contou-lhe como os mortos-vivos tomavam conta dos corpos e mentes se os vivos permitissem…Contou-lhe que sonhara tudo isto…

Depois riu, com um ar meio infantil…meio puro…meio enigmático…meio a sorrir…e desafiou Joshua:

– Devo estar pior…não acha?… Vi mesmo bruxas pela rua…estou maluco!

– Eram pessoas mascaradas…sabe, foi noite de Halloween…Não lhe disseram?…

– Disseram sim…Mas e os mortos que vivem?… Que tomam conta de nós?…Isso foi sonho ou é realidade?…

– Não pense nisso…Está tudo bem…São só sonhos, pesadelos, descanse… Certamente não terá de se preocupar… Nós não deixamos que nada de mal lhe aconteça, esteja tranquilo –  (disse Joshua apaziguador e com um sorriso).

O doente, que andava sempre com um lindo pêndulo de cristal, e que achava que previa o futuro, o tempo, as notícias, e muito mais, sorriu para ele com um ar tranquilo e de agradecimento…enigmático ainda assim. Colocou a mão sobre o ombro esquerdo de Joshua, e subitamente o jovem médico pareceu ver no seu olhar, um olhar para além da visão…

Uma alma sábia…fechada num corpo doente…pensava ele, num rasgo de imaginação e sentimento…

O doente, de seu nome Joseph, seguiu o seu percurso despedindo-se com um ar divertido:

-Até logo Doutor, pode ficar também descansado…estava só a brincar consigo…Tenho tomado os medicamentos. Agora vou almoçar…sabe também sou vegetariano. (sorriu com ar cúmplice e seguiu o seu caminho).

Joshua ficou surpreendido…Como raio saberia ele da sua opção alimentar?…

Certamente que teria ouvido no refeitório ou por aí, pensou para si.

Joshua seguiu também o seu caminho.

Depois de almoço, e fazer a visita às enfermarias, foi sentar-se finalmente à secretária do gabinete que ocupava quando estava de “urgência”.

Ficou a pensar para ele mesmo como queria mudar os seus hábitos de pensamento…Não queria voltar a sentir o que havia sentido na noite anterior…Teria que aceitar que não podia  salvar todos, mas que daria o seu melhor e que a vida era feita de ilusões, desilusões e desafios…aprendizagens. Era importante, isso sim, não deixar que o medo e o desânimo tomassem conta de si, nem os vícios.

Fortaleceu-se e retomou, ainda com maior dedicação, a sua vida, fazendo sempre o seu melhor, e aceitando quando não podia fazer mais.

A vida é assim.

No entanto naquela noite de Halloween algo mais mudara em si. Joshua percebeu que havia algo além daquilo que se vê…

Que nem sempre era loucura…Que nem sempre eram superstições…Que no meio de tantas destas coisas havia um fundo de verdade…Uma verdade que decidiu abraçar a partir desse dia, perceber, clarificar…

Uma coisa era absolutamente verdadeira… Se bruxas existiam…também as fadas…

Se mortos-vivos haviam, também pessoas de bem viventes ou anjos existiam para indicar os caminhos…

Se havia dor, também havia amor… Se haviam as trevas, havia a Luz.

Vive-se num ciclo de morte e de vida, renascimento, sementeira e colheita, polaridades.

Para cada força do mal, há uma força do bem…Por cada força num sentido, existe uma força no sentido que lhe é oposto…

E é disto que é feita a Humanidade e o Universo. De um todo que era o Caos até que lhe fosse reposta a ordem e a organização…

De Estrelas e Galáxias, Sóis e Planetas que incessantemente morrem e dão lugar a outros que os substituem…

Num eterno devir…Um ciclo contínuo de morte e renascimento, a permanente expansão do Universo, das consciências, de tudo o que É…

E afinal não é o Samhain milenar dos celtas, o Halloween, um símbolo disso mesmo na Terra?…

Halloween não é terror ou diversão estupidificante.

É o fim e o começo de mais um ciclo, carregado de uma simbologia profunda.

Joshua percebeu claramente nesse dia que assim é.

E Jack, bem, Jack…Diz-se nesta história, que encontrou finalmente o seu purgatório, o lugar onde tomou consciência do mal feito… e que depois certamente encontrará mais caminho para trilhar, no sentido da evolução…

Joshua continuou o seu trajeto brilhante, médico devoto e dedicado, e, sim, foi feliz, como nos contos de fadas e histórias de encantar que deliciam os mais novos…Dizia-se a certa altura que Joshua curava de dia e de noite, e que até nos sonhos aparecia aos doentes para apaziguar a sua dor…

Naquela noite de Halloween não foi só Jack que se encontrou, ao fim de séculos…Foi também Joshua.

Acreditemos pois que nos contínuos ciclos de vida e morte e de renascimento, o significado profundo do Samhain, Halloween, há uma contínua oportunidade para todos os que se perderam…Uma oportunidade de reencontro consigo mesmo e com o Mundo.

Que assim seja.

Lúcia Reixa Silva, Halloween 2016

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