Conto

O último filme de Manoel de Oliveira…

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Manoel abriu os seus cansados olhos e deparou-se com um estranho cenário. Esfregou os olhos por duas vezes, na tentativa desesperada de tentar perceber se estaria a sonhar. Rapidamente constatou que não se tratava de um sonho, mas sim da realidade. Inspirou profundamente, tentando acalmar-se o suficiente para tentar descortinar que cenário idílico era aquele. “Calma velhote, que isto pode ser apenas uma brincadeira de mau gosto…”, pensou Manoel, depois de mais uma inalação prolongada de oxigénio.

À frente dos seus olhos, Manoel avistava algo como nunca tinha visto na sua já longa vida. O chão que pisava era de um branco muito límpido, assim como as roupas que usava. Olhou para cima, na esperança de ver o azul do céu, mas não existia sequer um céu. Existia sim, uma espécie de cobertura da mesma cor do chão e das suas roupas. “Onde raio estarei, caramba?”, voltou a pensar, Manoel de Oliveira.

Subitamente, duas filas de pessoas vestidas de forma desigual surgiram no seu raio de visão — como se tivesse dentro de um filme, e tivesse mudado de cena. As pessoas que se encontravam no lado esquerdo da fila ostentavam roupa esbranquiçada, igual à que estava a usar. Eram na maioria jovens, e todos sorriam de uma forma graciosa, como se tivessem acabado de ganhar o primeiro prémio do Euromilhões. E, nas suas costas, ostentavam algo que Manoel não conseguia descortinar à primeira vista, mas que, uns segundos depois conseguira perceber que se tratavam de pequenas asas brancas. Ao mesmo tempo que os jovens sorriam, as asas abanavam e pequenas penas brancas soltavam-se pelo ar.

Na fila do lado direito, as pessoas estavam vestidas de forma completamente diferente. Na verdade, à primeira vista, Manoel pensou que se tratavam de grandes corvos, devido à roupa negra e bastante velha que usavam. Mas não — eram pessoas tal e qual como ele. Mas, na sua maioria, não se tratavam de pessoas tão jovens como os que compunham a fila da esquerda. Eram pessoas de mais idade, e todos ostentavam um semblante muito triste. Como se todas elas tivessem acabado de perder um ente querido. E não tinham asas…

“Mas que raio… O que será que se passa aqui? Mas quem são estes figurantes, e que raio de filme é que estamos a filmar aqui?”, pensou Manoel em voz alta. Manoel tinha a consciência que o seu pensamento quase tinha soado como um grito, mas ninguém das duas filas que estavam à sua frente, se virou ou mostrou sinais de o ter ouvido. O que o deixou um pouco perplexo, e a pensar se não estaria realmente a sonhar. Então, não se fez rogado e dirigiu-se a alguns dos jovens que se encontravam no fim da fila do lado esquerdo, e começou a interrogá-los sobre o que estavam ali a fazer. E melhor ainda: que raio de filme seria aquele que estariam ali a filmar.

— Tu, jovem, onde é que posso encontrar o produtor deste filme? — perguntou a um jovem ao calhas que estava na fila da esquerda.

O jovem estava a sorrir, abanou a cabeça em jeito de resposta, e voltou a olhar para a frente. Atitude que deixou Manoel um pouco irritado. Como era possível que aquele jovem não soubesse responder-lhe? Mas não perdeu a esperança de obter uma explicação e dirigiu-se a uma pessoa da fila da direita, que aparentava ter cerca de cinquenta anos. Era um homem de cabelo escuro, com uma barriga proeminente, e parecia que tinha estado a chorar — pelo menos foi o que pensou Manoel, quando lhe viu as marcas das lágrimas no seu rosto um pouco sujo.

— Meu caro senhor! Por favor, diga-me: onde posso encontrar o responsável por este cenário? — perguntou Manoel.

O homem virou a cara para Manoel, mas não articulou qualquer palavra. Apenas soltou um pequeno esgar, e uma lágrima começou a escorrer-lhe do olho direito, sobrepondo-se à marca que as anteriores lágrimas tinham deixado no seu rosto. Manoel assustou-se com aquela reacção e cambaleou para trás, tentando afastar-se o mais possível daquele pobre e triste homem.

“Mas que raio… Bom, eu não sei que raio de filme é que estamos a filmar aqui, mas de uma coisa tenho a certeza: estes figurantes são do melhor com quem já tive o prazer de trabalhar.”, pensou.

Manoel ficou estático a olhar para as duas filas durante uns breves minutos, até que começou a juntar todas as peças que se apresentavam à sua frente. Do lado esquerdo, uma fila de jovens vestidos de branco e com pequenas asas. Do lado direito, pessoas mais velhas, vestidas de preto e com caras infelizes. E imediatamente surgiu-lhe uma ideia para um filme. Uma espécie de confronto entre o bem e o mal. Do lado esquerdo, pequenos anjos com asas, enviados por Deus. E do lado direito, estavam os discípulos do Diabo, prontos a atacar os jovens anjos com a sua tristeza.

— É isso mesmo! Uma espécie de confronto inimaginável! Uma espécie de “Anjos versus Demónios”! Mas que ideia maravilhosa para um filme! Finalmente, aos cento e seis anos de idade, tenho uma ideia para um filme que irá arrebatar o mundo inteiro e consagrar-me como o melhor realizador de sempre! — exclamou Manoel de Oliveira, com todas as forças que o seu já frágil corpo idoso permitia.

Rapidamente começou a circular de um lado para o outro, e a imaginar os confrontos. “Aquele jovem loiro vai correr em direcção àquele adulto de cabelo escuro e, no último instante, levanta voo com as suas pequenas asas, enganando assim o seu adversário. Aquele adulto de cabelo castanho claro vai correr em direcção àquela jovem de olhos azuis e vai surpreendê-la pelas costas, agarrando-lhe nos braços e chorando para cima dela: derrotando-a com as suas lágrimas de infelicidade!”, eram os pensamentos que iam fervilhando na mente do realizador.

Subitamente, um homem de estatura elevada, cabelos castanhos escuros que lhe caíam até ao pescoço e extensa barba, aproximou-se de Manoel. Trazia vestido uma túnica igualmente branca, mas com um fino cinto em tons dourados à cintura, a prender a túnica. O homem esboçou um pequeno sorriso, e disse:

— Meu caro amigo, por favor, queira colocar-se na fila correspondente às suas vestimentas.

Manoel ficou espantado com tal afronta. Por quem se tomava aquele ser, ao desrespeitá-lo no exercício do seu trabalho?

— Ó amigo, deixe-me trabalhar! Não vê que está a perturbar as gravações? — ripostou Manoel.

— Gravações? Mas que gravações, meu filho? — perguntou o homem.

Manoel sentiu imediatamente que algo não estava bem. Ainda não tinha começado a gravar, e já alguém estava a importunar as gravações.

— Desculpe, mas pode dizer-me onde está a pessoa que organizou aqui este pequeno cenário? Quero falar com ele imediatamente! — disse Manoel, colocando-se numa postura hirta para demonstrar alguma robustez perante aquela pessoa que estava a importunar o seu trabalho.

— Meu filho… Se tudo correr bem, tu irás conhecê-lo brevemente. Basta ires para a fila, e esperares pela tua vez…

— Mas que ultraje vem a ser este? Mas você sabe quem eu sou? Eu sou o realizador Manoel de Oliveira! E, já agora: qual é o nome do senhor, para eu apresentar queixa de si por estar a importunar as gravações do filme! — gritou Manoel, já um pouco irritado com toda aquela situação.

— O meu nome é São Pedro, meu filho. Eu sou o Guardião dos Céus, e sou eu que vou decidir se tu vais ver o Criador, ou se vais juntar-te ali à fila da direita para ires para o Inferno! Agora vá, coloca-te na fila da esquerda, e espera pela tua vez…

Manoel ficou imóvel. Mil e um pensamentos passaram pela sua mente, mas não conseguiu proferir uma palavra que fosse. Fez o que lhe mandaram, e colocou-se na fila da esquerda à espera que chegasse a sua vez para confrontar São Pedro, o Guardião dos Céus. Quando faltavam apenas três pessoas para chegar a sua vez, decidiu interrogar a pessoa que estava à sua frente, para saber mais pormenores sobre o que se estava a passar.

— Desculpa, amigo… Isto é mesmo aquilo que eu estou a pensar? Estamos mesmo no Céu? — perguntou, depois de dar uma ligeira palmada no ombro da pessoa.

O homem virou-se para trás, e Manoel ficou surpreendido por verificar que não se tratava de um jovem, mas sim, de um homem de idade já avançada.

— Manoel de Oliveira! Quanto prazer! Que felicidade de estar aqui consigo! — proferiu o homem com bastante veemência.

— Desculpe, amigo… mas eu conheço-o? — perguntou Manoel, surpreendido por tal reacção.

— Isso não sei… Mas o meu nome é Silva Lopes, e fui um economista de alto gabarito em Portugal! E deixe-me dizer-lhe que estou muito feliz de ter chegado o meu dia, precisamente no mesmo dia do grande realizador Manoel de Oliveira. Oh, que tremenda felicidade. — começou por dizer. — Ah, parece que chegou a minha vez! Boa sorte! Espero que consiga entrar no Paraíso! — O homem avançou em frente, subiu os cerca de dez degraus que estavam à sua frente, para assim alcançar São Pedro, que estava sentado num enorme cadeirão. Ao seu lado estava um enorme portão em tons de dourado, onde se podia ler a palavra “Paraíso” em letras grandes e em tons de azul bebé. Passados alguns instantes, o portão abriu-se e o homem entrou, sorrindo para Manoel de Oliveira.

São Pedro chamou Manoel, e ele subiu os degraus ao seu encontro. Na verdade, Manoel fez de tudo para se impedir de subir aqueles degraus, mas uma força inexplicável parecia o empurrar pelas costas.

­— Ora, Manoel de Oliveira… — começou por dizer São Pedro, sem retirar os olhos de uma lista que tinha no seu colo. — Sim, senhor. Claro que não é preciso estarmos aqui com muitas burocracias… É óbvio que o seu lugar é no Paraíso. E parece que é um pedido especial do Criador, que o quer conhecer o mais rapidamente possível. Aqui para nós, meu filho, eu acho que ele anda com umas ideias estranhas em fazer um filme sobre o Paraíso, para calar os mentecaptos dos ateus que abundam a Terra. Faça o favor de entrar, meu filho…

O enorme portão abriu-se e Manoel sentiu um calafrio na espinha.

— Mas eu não quero ir para o Paraíso! Eu tenho tanto ainda para fazer! Eu tenho ainda tantos filmes para realizar! Eu tenho apenas cento e seis anos, por Deus! Sou ainda muito novo para ter morrido, caramba! — cuspiu Manoel de Oliveira, em pânico por ter finalmente constatado aquilo que mais temia: que tinha finalmente chegado o seu dia. A morte tinha-o assombrado durante largos anos, mas ele tinha sempre conseguido esquivar-se-lhe.

— Meu filho… A tua hora já devia ter chegado há imenso tempo. Mas o Criador teve misericórdia de ti, e das pessoas que irias deixar sem trabalho por desapareceres, mas agora chegou a tua vez… Faz o favor de entrar e manda cumprimentos meus ao Criador.

Manoel não queria acreditar naquilo que estava a acontecer. Não podia ser verdade. Ele não podia ter morrido. Caramba, ainda era tão novo… De repente, um pensamento absorveu-o por completo e deixou-o a pensar que, provavelmente, aquilo seria apenas um filme. Toda a sua vida teria sido apenas um filme, e que ele poderia acabar com aquilo sempre que quisesse — bastava para isso proferir uma simples e curta palavra para que aquela espécie de pesadelo terminasse. E sem esperar mais, exclamou bem alto:

­— CORTA!

Mas já era tarde demais. O enorme portão já se tinha fechado, e ele já tinha sido absorvido pelo Paraíso…

FIM

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