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Throwback a 2008 – As Canções

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Como assim 2008 foi há dez anos? Significa isto que Katy Perry e Lady Gaga davam os primeiros passos, que o rock ainda tinha alguma expressão comercial e que o download pago de canções estava na berra.

Não podemos voltar atrás no tempo, é verdade, mas podemos sempre ser transportados ao espírito de 2008 com duas dezenas de temas e artistas que tão bem recapturam tendências e emoções de então. É esse nostálgico exercício que vos proponho nos próximos minutos:

1) Madonna feat. Justin Timberlake & Timbaland- “4 Minutes”, Hard CandyÉ o drama, o êxtase e o pavor – há que adorar temas desenhados para o apocalipse. Madonna acertava pela última vez no jackpot há dez anos com uma muito bem conseguida parceria com Justin Timberlake e Timbaland, aqui a proporcionar-lhe um valente lifting sonoro à base de uma recontextualização urbana da dance pop do costume. Havia toda uma mensagem de consciencialização social por trás, mas a prioridade era dançar até ao derradeiro segundo – como sempre, como dantes.

2) Estelle feat. Kanye West- “American Boy”, Shine – Ah, de volta ao tempo em que era possível fazer um tema de R&B fantástico sobre um encontro fortuito com um americano encantador. O inesperado featuring de Yeezy terá ajudado, certamente, mas Estelle tinha em mãos um infalível single de recorte disco-funk cheio de groove e graça, que não soava absolutamente a nada que se assemelhasse à época. Will.i.am mostrava aqui a sua competência ao comando dos botões.

3) Leona Lewis- “Bleeding Love”, Spirit Possivelmente o melhor single de estreia de sempre de um vencedor de um talent show, “Bleeding Love” chegou na recta final de 2007 – um ano após a vitória da sua intérprete na terceira edição do The X Factor – mas tornou-se gigantesco em 2008, atingindo o nº1 em 35 países. Uma estelar produção pop/R&B da forja de Ryan Tedder e um majestoso tour-de-force vocal de Leona Lewis (ainda uma das melhores herdeiras de Whitney Houston ou Mariah Carey) ajudaram a que se tornasse num clássico dos anos 00.

4) Coldplay- “Viva la Vida”, Viva la Vida or Death and All His Friends Podemos todos concordar em como o quarto álbum de estúdio dos Coldplay assinalou o pináculo das suas faculdades criativas, sim? “Viva la Vida”, por conseguinte, foi a melhor das suas ofertas: uma belíssima e grandiosa composição pop de opulentas cordas e leves digitalismos acerca da queda (figurativa) de um monarca. A graça divina foi particularmente generosa com ela.

5) Duffy- “Mercy”, Rockferry Ainda se recordam de como em 2008 fomos invadidos por um fulgurante revivalismo soul? Pois é, os efeitos de Back to Black de Amy Winehouse faziam sentir-se como nunca: Gabriella Cilmi despontava nos Antípodas, enquanto Duffy e Adele discutiam entre si o título de melhor descendente em linha. A história, como é sabido, sorriu à segunda, mas a galesa Duffy teve um arranque fortíssimo com este híbrido soul/pop ancorado na tradição de vultos como Dusty Springfield ou The Supremes. Rockferry, o álbum de onde era nativo, fazia igualmente estragos nas tabelas um pouco por todo o mundo.

6) Ne-Yo- “Closer”, Year of the Gentleman Ne-Yo absorveu bem os ensinamentos de FutureSex/LoveSounds de Justin Timberlake, lançado dois anos antes, passando a incorporar elementos dance pop e house na sua tradicional ementa R&B. O resultado traduziu-se com estrondo na figura de “Closer”, um híbrido clubby forjado pelos Stargate e complementado por um vídeo estiloso, que lhe garantiu o seu maior êxito europeu.

7) Rihanna- “Disturbia”, Good Girl Gone Bad: Reloaded Bum bum be-dum, bum bum be-dum bum. Em 2008 o Halloween chegava mais cedo com o pequeno antro de horrores de RiRi:  3º single da reedição do bem-sucedido Good Girl Gone Bad (7º no geral) e de exoesqueleto electropop, “Disturbia” foi originalmente concebida por Chris Brown que em boa hora passou a canção à então namorada, exímia no momento de transformá-la num hit e proporcionar-lhe uma narrativa visual à altura da sua trepidação psicológica. Deixem a luz de presença ligada à saída.

8) Katy Perry- “I Kissed a Girl”, One of the Boys A crise dos dez anos de carreira chegou um pouco mais cedo para Katy Perry, mas isso não invalida o admirável arsenal de êxitos que ficou para trás. E tudo começou aqui, com um arrojado e infalível hino pop/rock de influências new wave acerca dos infindáveis encantos do sexo feminino e que veio colocar a bissexualidade no centro da cultura pop. Caíram monóculos, ergueram-se sobrolhos e aguçaram-se apetites – hummm, too good to deny it.

9) Jordin Sparks & Chris Brown- “No Air”, Jordin Sparks – Que dueto fabuloso, este. Ela vinha vitoriosa da sexta edição de American Idol, em 2007, e ele estava no pico da sua popularidade, um ano antes do Rihannagate travar a sua ascensão – e ambos contavam apenas com 18 anos, note-se. Tremenda balada R&B de apelo pop, “No Air” tornou-se no veículo perfeito para uma jovem que procurava afirmar-se na indústria musical e num apetitoso combo para Brown que somava êxitos atrás de êxitos.

10) Lady Gaga feat. Colby O’Donis- “Just Dance”, The Fame Ahh, a Lady Gaga sem cheta será sempre a melhor versão de Gaga. Tudo começava com “Just Dance”, uma simples mas imbatível construção synthpop que versava sobre hedonismo na pista de dança. O arranque não foi fabuloso: demorou-lhe uns bons cinco meses para se tornar num êxito monumental, mas a adversidade e resiliência apenas tornaram a história de sucesso mais saborosa.

11) Kanye West- “Love Lockdown”, 808s & Heartbreak Há uma década Yeezy entrava em ruptura com o passado e entregava-nos o seu álbum mais experimental de sempre. “Love Lockdown”, o titubeante cartão-de-visita, desviava-se do rap expansivo e rico em samples dos três álbuns anteriores e apresentava uma paleta pop/R&B revestida de elementos electrónicos e sons tribais, ao mesmo tempo que incorporava drum machines e auto-tune, recursos estilísticos-âncora de 808s & Heartbreak. West na sua expressão mais desolada e introspectiva, sem dúvida.

12) Kings of Leon- “Sex on Fire”, Only By the Night Depois de cinco anos no circuito e três álbuns discretos, o clã Followill irrompia em chamas no mainstream com um tremendo single rock de carácter hínico e um título demasiado chamativo para passar ao lado, que se fez muito também da (agora) inconfundível voz do frontman Caleb. Valeu-lhes o seu primeiro Grammy e um passaporte de estadia vitalícia entre nós.

13) Pink- “So What”, Funhouse A prova de que Pink é a derradeira underdog do burgo? Conquistar o seu êxito de assinatura uns bons oito anos depois de ter iniciado o seu percurso. Ninguém conseguiria defender uma canção tão destravada, furibunda e levemente ridícula como ela: inesquecível cartão de visita do seu quinto álbum, “So What” assumia de forma trágico-cómica os efeitos da separação do (agora) marido num vídeo absurdo de hilariante que só ajudou a propagar ainda mais o efeito estrondoso do tema.

14) Buraka Som Sistema- “Sound of Kuduro”, Black Diamond One drop, two drop, three drop, four: sound of kuduro knocking at your door! A memória colectiva reteve sobretudo o sucessor “Kalemba (Wegue Wegue)”, mas foi indiscutivelmente o predecessor “Sound of Kuduro” que representou o início da difusão internacional do kuduro progressivo praticado pela banda, aqui numa incrível aliança que reunia DJ Znobia, Puto Prata, Saborosa e M.I.A. Sem dúvida o projecto mais importante da música portuguesa da década passada.

15) Britney Spears- “Womanizer”, CircusSe 2007 foi um lugar cruel para Britney Spears, 2008 foi um ano de redenção. E não há nada que o showbiz adore mais do que um triunfante regresso das cinzas. “Womanizer” foi o retomar da actividade onde “Toxic” a deixou, não sendo de admirar por isso que partilhe muitas das suas heranças: começando pelo realizador do vídeo, passando pela urgência da produção electropop e terminando na capacidade de definir uma era e uma geração. Mas, claro, a sequela é sempre menos espantosa.

16) Adele- “Chasing Pavements”, 19  É já ténue a memória de um tempo em que Adele não tenha sido dona e senhora do universo, mas a estreia, apesar de majestosa, não fez resultados estrondosos por aí além. O que havia a retirar era que aos dezanove anos era um pequeno diamante em bruto de vozeirão considerável alicerçado nas melhores heranças soul e apoiado num timbre emotivo que ressoaria em tantos corações.

17) The Killers- “Human”, Day & Age E agora para a questão que a todos assiste: “are we human, or are we dancer?”. Os The Killers desafiavam as leis gramaticais e inauguravam um qualquer elo entre os Pet Shop Boys e Bruce Springsteen na sua contribuição mais dançável à data: sob a batuta de Stuart Price, o quarteto de Las Vegas revestia-se de tons new wave e synthpop, mas nem por isso abandonava a sua ambição de banda de estádio.

18) Beyoncé- “Single Ladies (Put a Ring On It)”, I Am… Sasha FierceOh-oh, aqui vamos nós. Na recta final de 2008, Beyoncé dava início à sua era discográfica mais bem-sucedida de sempre: de um lado a sua versão mais terrena e pacífica, do outro a destemida e fogosa Sasha Fierce apresentada ao mundo através de “Single Ladies”, frenético pedaço de dance pop e R&B celebratório da independência civil feminina. O icónico vídeo daria origem à primeira epidemia coreográfica da era digital e tornar-se ia parte integrante da cultura pop do séc. XXI.

19) MGMT- “Time to Pretend”, Oracular Spectacular Andrew VanWyngarden e Bem Goldwasser alcançavam o nirvana logo à primeira tentativa com uma das canções mais fenomenais da década passada, porta de entrada para um álbum de estreia igualmente robusto e memorável. Encharcado de influências indietronica e neo-psicadélicas, “Time to Pretend” ainda é um lugar mirabolante e crítico dos excessos da fama, mas extremamente apaziguador.

20) The Ting Tings- “That’s Not My Name”, We Started Nothing De volta ao tempo em que não conseguíamos parar de bater o pé ao som desta valente malha dance-rock de índole new wave e de sentir alguma compaixão pela aparente incapacidade da vocalista deixar uma marca duradoura nas pessoas. Kathie White e Jules De Martino incitavam a um pequeno grande motim com “That’s Not My Name”, apenas uma entre tantas pérolas da ginasticada estreia, We Started Nothing.

 

Como assim estamos de volta a 2018? Porque há um limite para o que este DeLorean é capaz e, convenhamos, ter Netflix, streaming e wi-fi à borla é bem mais engraçado.

Adeus nostalgia, até depois!

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