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The Revenant: O Renascido (Review)

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Na crónica de cinema deste mês, o Ideias e Opiniões apresenta um dos principais candidatos aos óscares, mas antes de lá irmos não quero deixar de felicitar a jovem realizadora Leonor Teles pelo seu Urso de Ouro em Berlim, com a curta Balada de um Batráquio. Esta felicitação é muito particular uma vez que frequentámos a mesma instituição de ensino e eu próprio tive uma curta passagem pelo Parlamento Jovem onde tive a oportunidade de a conhecer brevemente há muitos anos.

Deixando esta nota estamos a um pé da cerimonia dos óscares, e é impensável deixar passar um dos principais candidatos a grande vencedor da noite sem analisar o porquê de estar nas bocas do mundo. Alejandro Iñárritu volta à corrida pela estatueta depois de Birdman (2014), e logo no ano seguinte, o que demonstra a especial mestria do realizador para cativar a Academia. Mas o que é The Revenant, e o que o destaca nesta corrida?

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Título Original: The Revenant

Ano: 2015

Realizador: Alejandro González Iñárritu

Produção: Alejandro González Iñárritu, Steve Golin, Arnon Milchan, Mary Parent, James W. Skotchdopole, Keith Redmon

Argumento: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu, Michael Punke

Actores:   Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson

Musica: Carsten Nicolai, Ryuichi Sakamoto

Género: Aventura, Drama, Thriller

Ficha técnica completa 

Há filmes que merecem especial atenção não só pelo resultado final mas também pela sua produção atribulada. Não será certamente ao nível de Apocalipse Now (1979) mas a produção de The Revenant dava possivelmente um filme só por si. Difícil de filmar devido a toda a preocupação com a integridade, realismo e natureza inóspita dos locais escolhidos, que se traduziram em doze localizações um pouco por todo o mundo, é preciso juntar também a natureza perfeccionista e altamente beligerante de Iñárritu, que entrou em conflito com Tom Hardy, actor que literalmente lhe apertou o pescoço devido à maneira horrível com que o realizador tratou a equipa técnica do filme. Juntando todos os problemas, é possível reflectir e aplaudir o facto de o filme ter sido levado a bom porto.

O ano é 1823 e a história é baseada em factos reais, mas excepto por alguns apontamentos tecnológicos, a natureza e a brutalidade de The Revenant poderiam passar por qualquer outra era da história humana. Baseada na historia de vida de Hugh Glass, membro de uma expedição de comércio de peles abandonado pela sua companhia em clima hostil depois de um brutal ataque de urso, torna-se depressa numa narrativa motivada pela sobrevivência e pela vingança. Seria arriscado dizer que o filme tem um argumento excessivamente complexo ou é focado totalmente nas personagens, nem uma coisa nem outra, e isso cimenta a sua singularidade, mas também as suas falhas.

Iñárritu dá ao filme uma atenção paisagística que acaba por absorver e ofuscar outros pontos importantes. Esta é uma escolha particular que contribui para um filme de excelência que deve ser bem analisado por futuros realizadores e críticos de cinema. Os planos longos, as técnicas de imagem que tornam muitas das cenas maiores do que a vida numa falsa sensação de 180 ou 360 graus, ou a atenção em aplicar ou esperar pela luz natural certa, tudo se resume a uma dimensão quase experimental ou de redescoberta num filme que podia em várias cenas ser apenas um filler para qualquer documentário na vida selvagem. A cinematografia de Emmanuel Lubezki, dá a todo o filme uma aura própria e as técnicas usadas ao detalhe em cada cena são uma luvada de ar fresco numa indústria congestionada com facilitismos de pós-produção.

Mas a integridade visual não esconde a falta de algum foco nos actores. Qualquer um faz o seu papel, e as nomeações de DiCaprio e Tom Hardy são justificadas, mas é preciso ter em atenção de que o filme oscilou entre ambos mas nunca se focou em nenhum. Não vi o suficiente de DiCaprio para lhe atribuir a possível estatueta, a não ser por antiguidade, e esse não é o objectivo dos óscares. Comparado com outra representações, DiCaprio oferece o seu melhor com o argumento disponível mas não se destaca particularmente em relação a outros actores da concorrência. Nós queremos muito dar um óscar a Leonardo DiCaprio mas isso não pode toldar-nos a visão de que o filme não se foca suficientemente no actor, e por isso mesmo, o próprio não consegue dar o seu melhor, por mais que o próprio admita que é um dos papeis mais difíceis da sua carreira. Já a personagem de Tom Hardy tem outro intuito, outras motivações e outra exposição. Enquanto DiCaprio pode muito bem ter construído a sua personagem com toda a perfeição e método, passa mais tempo com expressões de dor e sofrimento, em contraste com Tom Hardy, que brilha pela sua construção minuciosa de antagonista, que surpreende pela sua natureza quase diabólica e instinto animal de sobrevivência. Tenho poucas dúvidas que o óscar de actor secundário pode ser de Tom Hardy.

E se a falta de foco nas personagens principais é por vezes evidente, do resto do cast apenas é possível destacar Domhnall Gleeson e Will Poulter, jovens de outras paragens mas que se integram como uma luva num filme onde a sua presença é terciária mas relevante em dois ou três momentos.

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Se há algo que resta destacar é sem duvida a banda sonora, marcada por um sentido único de ambiência, que tem a contrapartida de não se elevar em nenhum momento, acompanhando, no entanto, a narrativa e dando coesão à imagem sem se intrometer, por vezes com longos e demorados silêncios. É um testemunho único em que imagem e música se fundem e nada parece deslocado. Podemos agradecer a Ryuichi Sakamoto, Alva Noto, Bryce Dessner pela banda sonora não intrusiva, que por vezes também faz falta num filme que tenta tanto atingir uma ligação com a natureza.

O que há a reter de The Revenant? Imagine-se que o esqueleto do filme é o seu argumento. Estão lá todos os elementos essenciais podendo ser um bom ou mau argumento, com bons ou maus diálogos mas é um guia para perceber e desenvolver a ideia que passará para a tela. Agora imagine-se que num momento qualquer da sua produção houve uma mudança brusca e o esqueleto do filme passou a ser a sua cinematografia. Confuso? Mas é a única maneira de explicar The Revenant. De repente é a imagem que governa o filme, e tudo o que a rodeia é apenas um prolongamento da sua influência. Por mais que haja desequilibro quando todos os sectores são analisados separadamente, quando ponderados na totalidade tornam a visão do filme muito diferente e muito coeso. O que falta em argumento é preenchido pela cinematografia, o que falta em actores é substituído por outro elemento, a imagem derivada mais uma vez da excelente cinematografia. Há filmes onde a banda sonora é quase um actor presente, John Williams é particularmente bom a transmitir essa ideia, o mesmo se pode aplicar em relação a cinematografia de Emmanuel Lubezki em The Revenant, respira a sua própria personalidade  e toma conta do filme ofuscando, mas juntando, tudo.

The Revenant mostra um regresso ao passado de Hollywood sem facilitismos e com a preocupação com a integridade. A coisa mais virtual do filme é sem duvida o urso, e mesmo esse urso é feito ao pormenor de forma a que pareça real e vivo. Na busca pelo pormenor e realismo, numa indústria cheia de efeitos especiais que facilitam tudo, é de louvar que Iñárritu tenha seguido o caminho difícil, que certamente irá influenciar a próxima geração de cineastas. É também bem possível que receba a estatueta de melhor realização, o que mostra que. optar pelo difícil compensa e destaca-se…

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Volto para o próximo mês com mais cinema…

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