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“Reputation” de Taylor Swift: o Amor e a Sombra

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Passaram-se três anos desde que Taylor Swift fez o álbum da sua vida. Um que lhe permitiu manter a ligação com a imensa parcela country que a acompanhava desde o início da carreira e conquistar definitivamente o respeito da comunidade da pop a que cada vez mais desejava pertencer. Pelo meio, tornou-se no astro feminino mais bem-sucedido e valioso do seu tempo. E nada a parecia demover do topo da montanha.

Na verdade, a única coisa capaz de tramar Taylor Swift foi a sua reputação. Aquela que a perseguia desde o final da década passada avolumou-se em 2016 muito por culpa das disputas de rancor públicas com o ex Calvin Harris, o romance fugaz e mediatizado com o actor Tom Hiddleston e, sobretudo, o Kanyegate parte II. Um novelão de primeira que seria o bastante para dizimar por completo uma carreira.

Mas Swift não só sobreviveu praticamente incólume à sequência de assaltos difamatórios como ainda projecta toda uma nova persona e um conceito artístico em seu redor que volta a colocar em si os olhos do mundo – seja para a ver triunfar ou fracassar redondamente.

Vamos então descobrir Reputation faixa-a-faixa:

1) “… Ready For It?”- Tremenda canção de abertura que soa ao resultado do team-up musical entre o esquadrão dos Avengers e o dos X-Men. Tempestade sónica de electropop e pop industrial que cruza investidas de rap, sintetizadores,  drum machines e um bass drop insano, “… Ready for It?” identifica desde logo Joe Alwyn – actual namorado de Swift e inspiração para várias canções do álbum – como depositário das suas fantasias selvagens. A interrogação acaba por funcionar para os dois lados da facção: o público, que é convidado a conhecer a recém-descoberta badass Taylor, e Alwyn, que ao ter escolhido ficar ao lado da cantora é também arrastado para o circo mediático que é a sua vida. Decidimos todos entrar, claro. (9,5/10)

2) “End Game”- Juntar Taylor, Ed Sheeran e Future na mesma canção parece funcionar muito mal no papel, mas tudo alinhavado resulta num dos momentos mais irrecusáveis do disco. Composição trap-pop delineada para reinar na actual instituição urbana que governa o mainstream, versa acerca de como duas personalidades com uma reputação insuflada e uns quantos detractores podem cair de amores um pelo outro e assim permanecer para todo o sempre. Such a bop. (8,5/10)

3) “I Did Something Bad”- Não precisamos de esperar muito para o primeiro assalto a pés juntos a Kanye West, com Katy Perry e Calvin Harris a serem apanhados também na linha de fogo. Suportada pela engenhosa parafernália electropop de Max Martin e Shellback, Taylor lança a sua ira impiedosa sobre quem ousa mencionar o seu nome com malícia, banqueteando-se na satisfação que advém de derrubar esses mesmos detractores. Pensem em “I Knew You Were Trouble” munido de um taco de baseball e chegam à materialização de “I Did Something Bad”. (7,5/10)

4) “Don’t Blame Me”- O amor como substância abusiva e causadora de dependência é a tela que este quarto tema decide pintar em aguarela synthpop, com uma certa luxúria que não passa despercebida. “Don’t Blame Me” soa a um tema de Hozier produzido por Flume e entoado por Lady Gaga, arrancando uma das prestações vocais de Taylor mais arrebatadoras à data e prosseguindo a linha de encantamento profundo pelo seu novo namorado. (8/10)

5) “Delicate”- Todos os cuidados e as inseguranças são justificadas nos estágios iniciais de um relacionamento à luz do mediatismo e julgamento público a que Taylor Swift está sujeita. “Delicate” revela então o primeiro indício de vulnerabilidade no álbum, em que a cantora se questiona até que ponto a sua reputação condiciona o desenvolvimento da sua nova relação. Fá-lo suportada por um vocoder e uma toada tropical house para ser acompanhada com uma bebida com pedras de gelo e o pôr do sol no horizonte. (7,5/10)

6) “Look What You Made Me Do”- Nunca antes um single de avanço de Taylor Swift havia provocado tanta discórdia e genuíno choque quanto este. Tenebroso híbrido de dance pop e electroclash com uma acertada interpolação do clássico “I’m Too Sexy”, “Look What You Made Me Do” vê a intérprete a enterrar a sua antiga persona e a assumir sarcasticamente o papel de vilã que tantas vezes lhe atribuíram, colocando a sua agenda vingativa em dia e transformando as pedras no caminho em reluzentes medalhas transportadas ao peito. Será recordado como o maior statement e momento disruptivo da pop em 2017. (8,5/10)

7) “So It Goes…”- Please do not disturb. O romance vai bem lançado naquele que se pode considerar o início da segunda metade do disco. De novo o balanço pop/trap, versos sugestivos (“you know I’m not a bad girl, but I do bad things with you”) que fariam a Taylor de “Wildest Dreams” corar de vergonha e uma atmosfera lasciva que não destoaria da banda-sonora de Fifty Shades. É a versão mais madura e sexualizada de Swift – e até que lhe assenta bem. (8,5/10)

8) “Gorgeous”- É a primeira tábua segura de Reputation, no sentido em que estabelece uma ponte com a anterior discografia. Versão regressiva de “Blank Space” construída à base de 808 drums e polimento electropop, “Gorgeous” vê Tay Tay a personificar a rapariga petulante e mimada que não gosta de perder nem a feijões no campo amoroso. Ponto positivo para o charme da tirada lírica (“guess I’ll just stumble on home to my cats, alone”). Wink! (7/10)

9) “Getaway Car”- Outro retrocesso à era de 1989, desta vez com mais verve. Jack Antonoff proporciona a Taylor um “Out of the Woods 2.0” onde se escutam ecos do seu breve relacionamento com Tim Hiddleston, um que estava à partida condenado, ideia suportada pelo imaginário dos bandidos em fuga que acabam na alçada da polícia. Vivemos todos para a mudança de escala que conduz à apoteótica estrofe final pontuada por um retumbante ritmo cardíaco – escorrem lágrimas, voam pneus, quebram-se laços. Synthpop hollywoodesca no seu melhor. (8/10)

10) “King of My Heart”- Do carro em fuga, Taylor adaptou-se novamente à vida de solteira e aceitou que o amor genuíno e puro talvez fosse impossível de encontrar tendo em conta o estado degenerativo da sua reputação. Até que Joe Alwyn entrou em cena para conquistar o seu “coração, corpo e alma”. E “King of My Heart” é a prosa de agradecimento que lhe é dedicada, filtrada com vocoder e (novamente) embalo trap/electropop. (7/10)

11) “Dancing With Our Hands Tied”- O álbum volta a colocar-se num caminho muito auspicioso com um híbrido new wave/synthpop à la “Maniac” que relata os sentimentos conflituantes de Taylor para com um novo interesse amoroso. Trata-se possivelmente da crónica de como se apaixonou por Calvin Harris – de forma fulminante, mas com um “mau pressentimento” e de “mãos atadas”, com receio do que isso iria despoletar. Max Martin e Shellback, uma vez mais, irrepreensíveis na produção. Dedos cruzados para que se torne single a dada altura. (9,5/10)

12) “Dress”- Os vestidos sempre tiveram um lugar cativo no imaginário lírico de Taylor Swift. Até aqui quase sempre numa perspectiva algo feérica, mas na sua acepção badass a conotação do objecto é puramente sexual (“only bought this dress so you could take it off”). Ei-la na sua canção mais vaporosa e sensual de sempre, munida de uma entoação silábica ofegante que muito deve a “Two Weeks” de FKA twigs. Vai directo para a secção dos essenciais. (9/10)

13) This Is Why We Can’t Have Nice Things”- Companheiro de armas mais bobo e urbano de “LWYMMD”, versa de forma corrosiva sobre os efeitos depreciativos da fama e da sua relação com os media, duplicando pelo caminho a munição arremessada contra Kanye West –  é um declarado senhor bashing a Yeezy – mas sai-lhe um bocadinho mais infantil e teatral que o desejado. A canção brilha, no entanto, na parte dos brindes, nomeadamente quando parece desculpar Kanye. Ou talvez não, como a gigantesca gargalhada denuncia logo de seguida. (6/10)

14) “Call It What You Want”- O álbum dirige-se para um lugar diferente daquele em que teve início: um em que Swift se apazigua e fortalece com a relação que tem vindo a construir com Alwyn, fonte de fibra da sua realidade espinhosa. “Call It What You Want” é, pois, a recontextualização pop/trap midtempo de “Love Story” sob o mote us against the world – como todos os boatos, críticas e reprovação pública se desvanecem porque apenas ele importa. E é tudo o que basta para seguir em frente. (8,5/10)

15) “New Year’s Day”- A faixa de encerramento do disco pinta, um pouco à semelhança de “Sober II (Melodrama)” de Lorde, um cenário de desordem pós-festa, só que ao invés de se concentrar na sensação de vazio foca-se na pessoa que escolhemos para enfrentar o caos do dia seguinte. Construído à base de guitarra acústica e teclas dolentes, “New Year’s Day” tece um reconfortante universo globo de neve, concentrando em si versos tão pungentes quanto “please don’t ever become a stranger whose laugh I could recognize anywhere”. Taylor está finalmente preparada para esquecer o drama e seguir com a sua vida ao lado da pessoa que a faz feliz. (8,5/10)

 

Que odisseia esta. Reputation é um disco sobre rancor, perda, desejo e amor. E chega quase à prova de bala, com algumas das canções mais maduras e titânicas do percurso de Swift, superiormente costuradas pelas mãos de três artífices essenciais: Max Martin, Shellback e Jack Antonoff –  que já haviam deixado a sua marca em 1989 – responsáveis pela imersão da cantora numa pop cada vez mais electrónica, mas nem por isso destituída de coração.

É discutível se será o melhor disco do seu percurso ou não, devendo ser antes entendido como o álbum que necessitava de ser feito à luz dos acontecimentos dos últimos três anos. Tamanha revolução de carácter acaba por expandir largamente o seu universo lírico e sónico, com efeitos bastante interessantes, mas talvez o maior prodígio de Reputation seja a capacidade da sua autora conseguir transformar fraquezas em forças criativas e desarmar sem esforço o ror de críticas que lhe é dirigido.

Tão cedo, por isso, não deixaremos de orbitar em torno de Taylor Swift. E o panorama pop inteiro também não. A coroa e o ceptro permanecem aqui.

 

“We think we know someone, but the truth is that we only know the version of them they have chosen to show us. There will be no further explanation. There will just be reputation”.

 

Taylor Swift – Reputation (2017)

Editora: Big Machine

Classificação: 8,1/10

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