Política

O realismo de Putin

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Moscovo vive por estes dias doses de protagonismo mundial apenas comparáveis à queda do Muro de Berlim e ao desmantelamento da velhinha União Soviética (URSS). As saudades são poucas, mas os velhos hábitos, sobretudo aqueles que dizem respeito à política de alianças, perduraram e mantém-se vivos e de boa saúde. China e Coreia do Norte parecem não querer descurar a sua imagem junto de Vladimir Putin e fizeram questão de marcar presença nas celebrações do 70º aniversário da vitória soviética sobre a Alemanha nazi.

O “Dia da vitória da Grande Guerra patriótica” contou com um dos maiores desfiles militares de que há memória, característica imaculada da raiz autoritária do regime, e com a presença do Presidente chinês Xi Jinping e Kim Jong-nam, braço direito do líder norte-coreano Kim Jong-un. Não contou, todavia com os principais líderes ocidentais. Por via das comemorações, não podia deixar de me pronunciar sobre aquilo que considero ser o pilar estratégico do sucesso da Rússia, o realismo do seu líder (que é simultaneamente o maior desafio às potências ocidentais).

Rússia

Raymond Aron concebe a política internacional como “uma luta constante pelo poder material e imaterial”. O primeiro diz respeito aos factos concretos e mensuráveis que definem o poder (como a demografia, a economia ou a capacidade militar). O segundo refere-se às dimensões normativas, como a identidade ideológica dos Estados e as regras que determinam o que é, ou não, legítimo junto da ordem internacional. Magister dixit. Dito e feito, se operacionalizarmos a teoria do mestre constatamos essa mesma realidade. É evidente o conflito ideológico que separa o Ocidente do Oriente.

O desenvolvimento tecnológico e económico nem sempre termina na forma política que conhecemos como democracia liberal. Moscovo e Pequim querem impor o seu modelo anti-democrático e anti-liberal ao mundo, o chamado “Capitalismo autoritário”, um protótipo legítimo aos olhos de russos e chineses e ilegítimo para europeus e americanos.

O ano de 2014 foi fundamental para a Rússia se catapultar para a ribalta internacional. Primeiro com a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno na cidade de Sochi. Depois com a inteligente manipulação da crise ucraniana que resultou na “anexação” da Crimeia. As constantes violações dos direitos humanos (muitas vezes abafadas pelos media locais) e as abusivas operações militares que rompem com normas basilares do Direito Internacional (como o princípio da não-agressão, da coexistência pacífica ou até mesmo da autodeterminação dos povos) são exemplos da vertente autocrata e dominadora deste império silenciado.

Mas quais as causas do sucesso deste líder incontestável? Simples. Vladimir Putin assumiu as características naturais do seu país, ou seja, criou um Estado forte, fomentou o patriotismo e a grandeza nacional, apostou na solidariedade social e na estabilidade interna do regime. Foi com ele que se reiniciou a recuperação de uma economia amorfa desde a década de 1990 e que hoje atinge níveis bastante satisfatórios (resultado do investimento brutal no sector energético).

Reiniciou um programa de armamento e concentrou na sua pessoa as directrizes daquilo que são as relações internacionais da Rússia. É um Homem de Ferro à maneira antiga. A posição perante os seus inimigos é clara: “Não sou conduzido, conduzo.”

Rússia

Falar dos excessos de Putin é falar também da reacção da União Europeia, dos Estados Unidos da América e seus parceiros internacionais. Sanções económicas e diplomáticas pontuais não são suficientes para colocar um travão no expansionismo russo. A União Europeia tem cada vez menos peso no xadrez geopolítico devido à sua incapacidade militar e económica.

A definição daquilo que está certo, ou errado, na comunidade internacional já não é uma prerrogativa exclusivamente europeia, e a estratégia tem necessariamente de mudar. Talvez nos falte, a nós europeus, um pouco da arrogância de Putin. Esquecemo-nos que em democracia não tem de haver consenso e que a política vem primeiro que a economia.

O sonho de Jacques Delors, de criar uma Europa forte e unida, arrasta-se pelas ruas da amargura e o projecto europeu resume-se hoje ao pagamento de dívidas e ao controlo das finanças públicas dos Estados membros. Enquanto continuarmos a discutir sobre o aumento da dívida pública, a comportarmo-nos como Bancos e a aceitar tudo o que nos é imposto, mais tarde ou mais cedo veremos descer uma nova “cortina” sobre a janela do Ocidente. A lei não protege os que dormem, isso é certo.

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