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Quando Rio Tinto era o Maracanã. Ou quando éramos felizes sem dar por isso

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Era mil novecentos e oitenta e nove. Rio Tinto. Um sítio com o mundo todo lá dentro. Cabia tudo. Havia bouças onde íamos aos grilos. Havia crianças. Muitas. Que iam a pé para aqui e para acolá. Que andavam a pedir para o Santo António. Que faziam dos paralelos da rua o Estádio do Maracanã. Que faziam de duas pedras desalinhadas uma baliza. A bola. Um tesouro com remendos. Tinha falta de gomos. Às vezes cheia, às vezes com falta de ar. Um era o Maradona. Outro o Futre. Jogávamos ao bota-fora. Quem perdia saía. Mudava aos dois e acabava aos quatro. Havia joelhos esmurrados. Uns diziam que era falta. Outros que não. Não havia árbitro. Como na vida!

As regras de trânsito da vida estavam todas ali. No nosso Maracanã. Dois ou três meninos nunca jogavam. Ou porque tinham sufeca. Ou porque era Agosto e podiam ficar com gripe. Eram a plateia. Duas ou três almas que berravam por duzentas mil. Quando era golo, fazíamos cara feia e saltávamos muito alto. Ou, pavões, abríamos as asas, mas eram os outros que voavam para cima de nós. Um a um, caíamos como dominós. Mas não fazia mal. O chão era como se fosse o céu. Depois benzíamo-nos. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Como os grandes.

Lá, em mil novecentos e oitenta e nove, éramos crianças. O senhor Artur cortava-nos o cabelo duas ou três vezes por ano. Por cento e vinte escudos. Curto à frente, cheio dos lados e grande atrás. Mais curto no Verão. Mais comprido no Inverno. Andávamos a pé. Enchíamos os pneus da bicicleta com bombas de ar. Corríamos muito. Tínhamos pulmões para sete vidas. Escalávamos macieiras. Aliás, trepávamos pomares inteiros, empoleirados uns nos outros. Pintávamos muros. Escrevíamos  Toninho ama  Zeza para sempre. Às vezes mudávamos de ideias. Fazíamos parênteses à Zeza e escrevíamos Carolina. Depois Sara. A seguir Julieta. Mas era sempre para sempre. Tínhamos polegares e mindinhos que cheiravam a laranja. E a tangerina.

De lápis na orelha, éramos arquitectos, também. Das cabanas que trazíamos ao mundo. Um pau para aqui, outro para ali, um lençol para cima, outro para baixo. E pronto. Lar doce lar. Onde sonhávamos com a Dora.

Éramos felizes sem dar por isso. Que é a única forma de ser feliz. Éramos amigos sem dar por isso. Que é a única forma de ser amigo.

Era tudo para sempre. A vida fazia claque por nós. Havia fogo-de-artifício e tudo. Nunca estávamos sozinhos. Nem quando estávamos.

Em mil novecentos e oitenta e nove, éramos criativos. Inventávamos margens. Só para a seguir construirmos pontes. Sabíamos tudo, caramba! Tudo! Tínhamos o cheirinho a terra molhada na ponta da língua e sabíamos, tintim por tintim, que o colo de uma Mãe valia mais que infinitos. Nunca fomos tão grandes como quando éramos pequeninos. Nunca! Era o que faltava!

Éramos do tamanho da Torre dos Clérigos. Ou do nariz do Pinóquio. Ou do tamanho de um aplauso, de pé, à Amália. Obrigada, obrigada!  Ou mais!

Depois veio a vida. Com os números decimais. Com as cedilhas. Com a interpretação de texto. Com a regra de três simples. E deixámos de saber tudo. Quando veio a vida.

Era quando tínhamos os olhos mal acordados para a vida, que os tínhamos mais abertos. Tínhamos um aquário nos olhos. Com um arco-íris de peixinhos. Que bonito!

Hoje preciso do mundo. Ou de mundo. De me perder em Barcelona, perto da Catedral, para me encontrar comigo em Notting Hill, a ler, com o coração, o Pina. Que não gostava de viajar. Porque viajar era perder amigos! Lia-o com o coração. Nunca com os olhos.

Hoje preciso de subir os trezentos e tal degraus da Pirâmide de Chichén Itza. Quando chegar lá acima dou um berro e o eco manda embora os meus fantasmas. Hoje preciso de descer o morro da Babilónia, para ver a vida como ela é. E de ir a Monte Carlo, para ver a vida como ela não é.

Dantes não. Era o mundo que precisava de mim. Dos meus olhos. Dantes havia bouças. E grilos. E pardais. E rãs. E crianças a pedir meia dúzia de tostões para o Santo António. Havia joelhos arranhados. E cotovelos mal amanhados. E uma Rosa dos Ventos. Que não deixava os amigos fugir.

Hoje, não. Hoje, o vento sopra-nos os amigos para longe. Bufa-os para muito longe, mesmo quando eles continuam perto. Já sou grande. Já não sou do tamanho da Torre dos Clérigos. Já não vou aos grilos. Já ninguém pede tostões para o Santo António. Já não há pontapés de bicicleta no Maracanã. Não há golos. Não há Maracanã. Nem abraços. Nem camisolas de manga curta, besuntadas de Callippo de limão. Hoje engravatamo-nos. Temos um cartão multibanco a dizer Doutor. Ou senhor. Temos bicos de papagaio. E riscos na testa. Mais isto e aquilo. Não há tempo. Nunca há tempo. Para nada. Já não nos lembramos como é o Verão.

Amigos, um dia destes vou ao Maracanã. E sento-me lá. À espera que apareçam. Com o tesouro. E com o aquário nos olhos.

A dizer que muda aos dois e acaba aos quatro.

Crónica de João Nogueira
Fonte:http://www.maisopiniao.com/quando-rio-tinto-era-o-maracana-ou-quando-eramos-felizes-sem-dar-por-isso-joao-nogueira/

3 Comments
João Nogueira diz:

Olá, Ana Marcelino Cruz. Muito obrigado por ler. Continuação de boas crónicas.

Ana Marcelino Cruz diz:

Adorei… revejo-me em tudo, mas o meu corte de cabelo era “à tigela” e o sotaque do Ribatejo.
Excelente texto, parabéns!

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