História

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) Parte 5 – A Paz dos Vencidos

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“Esta guerra tem as suas raízes no desrespeito pelo direito de pequenas nações e de nacionalidades com falta de união e de força para reclamarem o seu direito a determinarem as suas próprias alianças e as suas próprias formas de vida politica.”

Woodrow Wilson (1956-1924)

 

Há precisamente 98 anos, no dia 11 de Novembro de 1918, num vagão em Compiègne, os alemães assinam o armistício, que entrará em vigor às 11 da manhã desse mesmo dia. No espaço de tempo entre a assinatura, validada às 5 da manhã, morrem cerca de dois mil soldados. A Primeira Guerra Mundial termina finalmente, mas as suas consequências vão ecoar de forma tão profunda que a “Guerra Para Acabar Com Todas as Guerras” torna-se apenas numa guerra para começar muitas outras…

No início de 1918, o presidente americano Woodrow Wilson tinha elaborado um documento que apresentara ao Congresso, e que referia catorze pontos que permitiriam guiar as negociações de paz. Os Catorze Pontos de Wilson tinham como prioridade reforçar a paz mundial, evitar pactos secretos entre nações, motivar o comércio livre, reduzir do armamento de guerra e garantir a supremacia dos povos dos Balcãs e do Médio Oriente. O último ponto, e não menos importante, constituía a base de uma das organizações mundiais que hoje temos como garantida, visando a criação da Sociedade das Nações, antecessora da ONU, que supervisionaria e garantiria que todas as alíneas seriam cumpridas. Este documento é importante nas negociações de paz, não pela sua aplicação plena, mas pela animosidade que suscitou nos lideres europeus. Os quatro anos de guerra não foram suficientes para construir uma nova mentalidade.

O Império Alemão tentou ainda em Outubro chegar a uma negociação de paz com os EUA, esquivando-se às exigências da França e da Inglaterra, consideravelmente mais relutantes a negociações equilibradas. Os pontos de Wilson pareciam mais favoráveis, no entanto, para grande desilusão, o presidente americano pediu a cessação de todos os ataques navais e a retirada das tropas alemãs dos territórios conquistados. Apenas com a queda do governo do Kaiser, já sem nada para negociar, a nova Alemanha cederia às exigência, que cada vez mais pesadas, trariam instabilidade tanto politica como económica.

Os avanços do governo provisório de Friedrich Ebert trazem à Alemanha avanços importantes em termos laborais e sociais. Do sufrágio universal às 8 horas de trabalho, o novo governo aproxima o país da democracia. No entanto, Janeiro de 1919 traz consigo movimentos revolucionários que tentam derrubar este governo. O começo de uma revolução marxista, liderada pela Liga Spartacus é rapidamente reprimida pela força. Do extremo oposto, as vozes criticas surgem da extrema-direita, que culpam o novo governo pela situação precária, e pela aparente entrega às potências Aliadas do povo alemão.

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A 18 de Janeiro de 1919 começam as negociações de paz em Paris, com 32 nações convidadas. Apesar da preocupação em englobar a maior parte das nações participantes, a conferência ignora muito dos esforço dos países da periferia e do resto do Mundo. Os grandes decisores das conferências de paz são David Lloyd George, o primeiro-ministro inglês, Clemenceau, primeiro-ministro francês e Woodrow Wilson, presidente dos EUA. As grandes decisões estão nas mãos das principais potências do conflito, e isso causará problemas que ainda hoje ecoam na História Mundial.

A guerra causou de ambos os lados cerca de  8.5 milhões de mortes e 21 milhões de feridos. Muitas regiões francesas e belgas estão completamente destruídas juntamente com as suas indústrias, o que causa cerca de 750,000 desalojados. Devido a todos estes factores as nações da Triple Entente estão pouco abertas a negociações, e todos os dedos estão apontados directamente à Alemanha. Infelizmente para o novo governo alemão, os Aliados estão pouco dispostos a facilitar a sua situação precária, mesmo depois da mudança para a democracia.

David Lloyd George tenta alinhar-se com a opinião pública britânica, que quer vingança, especialmente porque ir contra ela prejudicará a sua reeleição como primeiro-ministro. Em contra-partida, outras das preocupações de George é a ameaça comunista, que considera ser ainda maior do que aquela que a Europa acaba de destruir. Se a nova ideologia se expande para lá das fronteiras russas, o território alemão é talvez o único que, devido à sua história política e posicionamento geográfico podem fazer frente a essa expansão. O líder inglês tem, por isso, grandes dúvidas sobre a maneira como deve penalizar a Alemanha, tendo em conta que deve ser uma barreira contra uma nova ideologia, mas ao mesmo tempo deve ser penalizada de forma justa. Clemenceau tem uma visão mais básica e dura, a Alemanha deve ser de tal modo punida que nunca terá qualquer maneira de se reerguer para começar um novo conflito. A apoiá-lo tem a maioria do povo francês, e a sua visão é inquestionável. Sobre Wilson exclama: “O Senhor Wilson cansa-me com os seus Catorze Pontos; porquê, se Deus Nosso Senhor só tem Dez?”

O presidente americano está chocado pela queda civilizacional que a Grande Guerra representou. Para o líder dos EUA, a Alemanha deve ser punida, mas de uma forma que permita criar um certo tipo de reconciliação entre nações. Os seus Catorze Pontos são trazidos para a mesa, mas a sua aplicação será na sua maioria ignorada ou mal aplicada. Para piorar a situação, a opinião pública americana quer isolar-se, deixando a Europa a tratar dos seus problemas sozinha.

As resoluções do futuro Tratado de Versalhes começam desde logo com a criação da Liga das Nações, o que compõe as primeiras 26 cláusulas do documento. O objectivo desta nova organização é aparentemente simples, manter a paz no Mundo e moderar períodos de tensão que possam ocorrer devido ao novo tratado. A Alemanha é, no entanto, excluída em primeira instância, e não será esta exclusão a única penalização direccionada à nação alemã.

A reorganização territorial levada a cabo em Versalhes afecta a Europa e o Mundo ecoando ainda hoje. A Alsácia-Lorena, alemã desde a Guerra Franco-Prussiana passa novamente a fazer parte do território francês. O cantão de Eupen-Malmedy passa a pertencer à Bélgica, e a Jutlândia do Sul à Dinamarca. Um dos novos estados democrático surgido da queda do Império Austro-húngaro, a Checoslováquia, recebe também parte da região da Morávia-Silésia aumentando o seu novo território. Também a Polónia recebe parte da Prússia Oriental, a província de Posen e a Alta Silésia. A Alemanha está a pouco e pouco a ser segmentada pelos vencedores, e nem mesmo as suas antigas colónias escapam. As resoluções territoriais do Tratado de Brest-Litovsk são também ignoradas, sendo que os territórios acordados e retirados à Rússia originam novos estados, a Lituânia, a Estónia e a Letónia. O que resta é entregue a uma nova e gigante Polónia. A Liga das Nações apodera-se também das províncias ultramarinas alemãs com o intuito de suscitar referendos que permitam dar a estes povos a escolha na sua permanência como colónias da nação vencida.

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Mas a humilhação alemã não acaba por aqui. Militarmente, a Alemanha deve também limitar os seus exércitos a 100.000 homens, não sendo permitida qualquer força aérea e apenas uma frota marítima de 6 navios (sem submarinos). Também a sua área ocidental deve ser totalmente desmilitarizada para evitar qualquer tipo de invasão ao território francês. Mesmo assim os Aliados insistem em deixar um exército na fronteira com a França, como modo de precaução. Também em termos financeiros a Alemanha está falida e a perda de território implica perda de indústria, especialmente a de carvão, situada maioritariamente nos territórios atribuídos à Polónia. Para rectificar ainda as penalizações, os Aliados proíbem a Alemanha de anexar a Áustria, seja em que circunstância, temendo que esta junção permitisse aos alemães recuperar parte da sua economia.

Sem escolha, o governo alemão terá de concordar com tratado e com todas as alíneas. Deve assinar a sua derrota, admitindo a sua culpa no conflito e a totalidade das reparações de guerra, que se estendem maioritariamente à França e à Bélgica. Recusar o tratado significará invasão do seu território pelos Aliados. Não há, por isso, margem para negociações. Algumas destas resoluções serão, no entanto, contornadas. Em termos militares a Alemanha, embora sem aviões e submarinos, treinará pilotos através de aprendizagem teórica. Também os soldados serão colocados a contracto, sendo direccionados para as reservas depois do seu período terminar, sendo englobados num sistema cheio de reservistas que, na sua essência, constituem mais soldados do que o oficialmente permitido.

Mesmo com todas estas lutas, a nova republica alemã mantêm-se no poder, através das primeiras eleições livres, proclamando um modelo de democracia liberal em Julho de 1919, historicamente referida como a República de Weimar, devido à localidade onde foi validada a sua constituição. Esta democracia liberal terá de lutar contra todas estas penalizações e, por consequência, contra forças politicas que criticam o novo rumo da nação alemã. A incapacidade do país em revoltar-se contra as alíneas de Versalhes, e a ferida aberta ao orgulho que estas representam, abrirá todo um novo caminho para os extremos políticos europeus.  Em 1923, um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial tenta um golpe de estado em Munique, mas é preso. Durante esse período de clausura escreve  Mein Kampf. Adolf Hitler sai da prisão um ano depois, e ganha popularidade devido aos seu ódio pelo Tratado de Versalhes, ao seu anti-semitismo, anti-comunismo e desejo de juntar todos os estados germânicos numa só nação. As sementes do ódio e de uma nova guerra estão lançadas…

E quanto ao restantes membros da Tríplice Aliança? Muitos são os tratados que servem de satélite ao pensamento de Versalhes. A Itália é tratada com desdém durante todas as negociações, embora tenha saído da Aliança com a Alemanha antes da guerra. A sua entrada tardia já em 1915, e a capacidade que teve em atraiçoar um antigo aliado torna a sua presença bastante indesejável. A sua importância no conflito foi, também, minúscula com algumas derrotas que certamente ecoam na consciência da Entente. O Tratado de Londres, que tinha legitimado em 1915 o compromisso da Itália em ajudar os Aliados, e que prometia largas porções de território na fronteira Austro-húngara, e inclusive no Médio Oriente, é ignorado e invalidado pelos Aliados devido à fraca performance no conflito. O povo italiano ferve, numa ira direccionada às nações Aliadas, e o resultado será devidamente aproveitado por um antigo apoiante socialista, que expulso do Partido Socialista Italiano, enveredará por uma via fascista. Logo em 1922, Mussolini torna-se no Primeiro-Ministro mais novo da história do país. O seu regime fascista influenciará uma nova era de extremos que, directa ou indirectamente, deixará a sua marca pela Europa.

O Império Austro-Húngaro, segmentado por revoluções, acaba por ser dividido formando algumas das novas nações já referidas. No entanto, a Áustria e a Hungria assinam documentos distintos, embora com objectivos bastante idênticos. Tal como a Alemanha, devem prescindir da sua força militar, contando com um exército que impossibilite qualquer tipo de anexação ou manobra vingativa no centro da Europa. Embora também tenham de pagar pelas reparações, as suas penalizações são claramente inferiores às aplicadas aos alemães. O mesmo acontece com a Bulgária, que perde território para o novo estado da Jugoslávia.

a3a93dc5-5bc3-4f02-8895-3c232ca6af01Já o Império Otomano terá punições mais severas devido às derrotas militares que causou aos Aliados na Batalha dos Dardanelos. O Tratado de Sèvres, assinado já em Agosto de 1920, e rectificado em 1923, tem como objectivo segmentar o Império Otomano, atribuindo os territórios não-turcos à administração da Entente.  O resultado é uma divisão do território que culminará com a criação de novos territórios onde a confusão étnica ainda hoje não tem fim. A Turquia, mantém-se como a principal sobrevivente do antigo império, com o sultão como figura de estado sem grande poder até ao seu exílio em 1922, no rescaldo da Guerra da Independência, que opôs nacionalistas turcos e nações vizinhas. A Grécia e a Arménia apoiada pelas potências Aliadas acabam por perder contra este movimento, que instaura um governo parlamentar secular e reclama o território da actual Turquia como seu. O califado é abolido definitivamente em 1924.

Dos 1,589,540 kmdo antigo império surge a Síria e o Líbano, sobre a alçada da França, e o Iraque a cargo dos britânicos. Estes novos estados não são, no entanto, o prometido inicialmente aos povos árabes, que viram nos Aliados uma hipótese de unificação e criação de uma nova e abrangente nação árabe. Com a Liga das Nações a sobrepor-se a qualquer promessa britânica, e a envolver decisões que têm de equilibrar diferentes aproximações e interesses políticos, o resultado é desastroso. O pan-arabismo acaba por sucumbir em prol de movimentos nacionalistas, que respondem pelo ódio aos Aliados e às falsas promessas. Povos divididos entre territórios e incapazes de lutar pela sua auto-determinação são perseguidos ou começam movimentos armados que destroem outras minorias. O legado da Primeira Guerra Mundial no Médio Oriente está ainda bem impresso na situação actual da Síria. As nações europeias encarregues da divisão do território cometem os mesmos erros do Congresso de Viena e da Conferência de Berlim.

A única nação a sair das conferências de paz com ganhos assinaláveis será os Estados Unidos da América. Embora sem ganhos territoriais, a sua intervenção no conflito e a sua ajuda com mantimentos e tropas faz com que muitas das restantes nações da Entente lhe devam enormes quantidade de dinheiro. Infelizmente, a teia de dividas na Europa faz com que o pagamento destas destas seja um processo moroso. Anteriormente, apenas uma nação mundial sem grande destaque, os EUA renascem depois da Grande Guerra como actor importante no panorama internacional. Com um território sem qualquer marca de destruição conseguirão fortalecer a sua economia. Infelizmente, a dependência europeia na bolsa americana criará uma mão cheia de problemas, especialmente em 1929, com o Grande Crash de Wall Street, que afectará a economia global. A Grande Depressão fomentará mais uma vez a procura por sistemas económicos alternativos.

Já a Rússia, não participa nestas negociações, não só por já ter assinado a paz com a Alemanha com o Tratado de Brest-Litovsk, mas porque o seu novo regime é considerado um perigo para as democracias europeias. O governo bolchevique não hesita em publicar os pactos secretos entre as nações Aliadas no pós-guerra enfurecendo ainda mais os principais líderes europeus. Em 1922, a Rússia torna-se na URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), depois de uma guerra civil sem precedentes. Embora com a ajuda dos Aliados, as forças democráticas russas são vencidas pelo Exercito Vermelho dos Bolcheviques. A morte de Lenine em 1924, obriga a uma mudança na liderança do destino russo. Através da mão de ferro de Josef Stalin e do seu modelo marxista-leninista, a URSS industrializa-se rapidamente, e os frutos desta nova abordagem serão importantes em guerras a haver, e na sua afirmação como potência mundial.

E Portugal? O que ganhou com esta Grande Guerra? É possível afirmar que, pertencendo a um país da periferia, e com uma intervenção mal sucedida e tardia, apenas perdeu! Sidónio Pais é assassinado em Dezembro de 1918 na estação do Rossio, e a sua “Nova República” morre com ele. Resistindo às pressões externas, que tentavam limitar a presença portuguesa a um delegado, o sucessor de Pais não terá vida fácil. O Almirante João do Canto e Castro terá de lidar com uma insurreição monárquica na cidade do Porto, que incendeia o norte do pais. A “Monarquia do Norte” obriga a uma união entre os republicanos, mas este jogo anti-monárquico não só é bem sucedido contra a insurreição, como favorece a ala republicana mais experiente, altamente critica da “Nova Républica”, que Sidónio Pais tinha idealizado na sua curta presença no poder.

Com todo o caos político, a delegação portuguesa tenta, ao máximo, manter-se dentro das decisões importantes, e consegue, inclusive, alguma representação em campos bastante específicos da conferência, nomeadamente em discussões sobre o futuro dos mares e dos caminhos-de-ferro. Tentando alinhar-se com delegação inglesa, de forma a proteger os seus territórios ultramarinos de apropriação externa, Portugal está interessado em receber compensação pelas mortes causadas pelos alemães, querendo parte da armada marítima confiscada ao antigo império do Kaiser.

Com a delegação portuguesa a falhar redondamente nas mãos de Egas Moniz, o médico e futuro Nobel da Medicina, é necessário uma nova liderança. A resposta é encontrada em Afonso Costa, antigo primeiro-ministro, caído nas boas graças dos republicanos no poder e conhecido da elite francesa. Costa quer, não só justificar o seu intervencionismo, como o sacrifício levado a cabo pelos soldados portugueses. Acredita que uma boa resolução para o país o trará de volta à vida politica activa, que tinha abandonado depois de ser preso pelo regime de Sidónio Pais, e de ter fugido para Paris. O novo representante não tem qualquer interesse na maioria das decisões tomadas nas conferências e, por isso, não só afasta os representantes da comitiva próximos de Moniz, como evita participar com a delegação em dimensões da conferência que pouco interessam a Portugal. O seu principal foco torna-se os territórios coloniais, tentando salvaguardar as colónias e adoptando uma postura agressiva. Para Costa, Portugal poderia expandir o seu território colonial, recebendo parcelas similares às atribuídas à Bélgica. Os ingleses respondem da pior forma, questionando a delegação portuguesa sobre os moçambicanos que tinham ajudado as tropas alemãs durante a guerra. O tema é tabu, e a diplomacia portuguesa pouco faz para responder.

As investidas de Costa passam também por garantir um lugar de destaque na nova Liga das Nações, cimentando a República Portuguesa como defensora dos povos. Outra carta trazida para a mesa era a questão de Olivença, retirada aos portugueses desde 1801 pela Espanha. Costa iria colher os frutos das suas exigências! Portugal não consegue qualquer bonificação ou ajuda para pagar os danos e a perda de vidas humanas. Para desmotivar ainda mais a República Portuguesa e a ala intervencionista, Espanha, neutral durante todo conflito, recebe a cobiçada cadeira na Liga das Nações. Os golpes caiem sobre Costa como facadas, e as criticas aos principais actores da conferência de paz fazem-se ouvir. O antigo primeiro-ministro critica os termos do Tratado de Versalhes, realçando a insignificância atribuída a Portugal e a outros países que com grande esforço das suas pequenas economias participaram no conflito. Para a integração espanhola da Liga das Nações o líder da diplomacia é ainda mais amargo: Eu peço que o meu país, que enviou os seus soldados para França, seja pelo menos tratado da mesma forma que outros, que apenas enviaram caixeiros viajantes.

00752p1_3Portugal sai da conferência vencido, mas Afonso Costa consegue manter o seu estatuto politico devido ao discurso patriótico que desafia as grandes nações ocidentais na conferência. O antigo primeiro- ministro vê também falhas no Tratado de Versalhes, que pode usar a seu favor. Uma das alíneas refere que, qualquer país Aliado pode reclamar propriedades, direitos e interesses a cidadãos alemães no seu território, bem como a sua venda e liquidação como pagamento por acções cometidas a partir de Julho de 1914, mesmo que estes tenham sido praticados antes da entrada desse aliado na guerra (Parágrafo 4 do Anexo ao Artigo 298). Tendo a guerra fustigado as colónias desde 1914, Portugal pode reclamar uma indemnização choruda. Escusado será afirmar que não verá nem metade do valor estipulado.

Novas negociações na Conferência de Spa acabam por dar a Portugal uma pequena soma para reparações, que, infelizmente, não salvará o país da crise financeira. Portugal terá de sobreviver no caos financeiro e económico, com lideres republicanos incapazes de salvar o país da constante instabilidade política. Em 1926, a ditadura militar é instaurada e, o período de transição que representa, dará lugar ao Estado Novo, suportado pela figura de António de Oliveira Salazar. Curiosamente, será este Estado Novo a receber a maior injecção monetária, destinada aos danos causados pela Grande Guerra.

A Europa está novamente em alvoroço. A “Guerra Para Acabar com Todas as Guerras” é, infelizmente, apenas a “Primeira Guerra Mundial”. O termo surgirá apenas com a existência de um segundo conflito. As penalizações vingativas de Versalhes criam novas animosidades e um novo ódio, que será devidamente aproveitado pelos novos agentes dos extremos do espectro politico europeu. Alianças improváveis, intolerância, crimes de ódio racial, a Europa caminha para um dos períodos mais negros da sua história: uma época que infelizmente já estivemos mais longe de replicar. De Hitler a Stalin, passando por Mussolini, uma nova caldeira europeia será uma bomba de curto pavio. 21 anos bastarão para um novo e mais mortífero conflito. E se a Grande Guerra mudou o mundo, a Segunda Guerra Mundial irá revolvê-lo e espezinhá-lo, mostrando os grandes podres da nossa Humanidade. Cidades destruídas pelas ogivas nucleares, milhões de pessoas mortas por serem  identificadas erradamente como uma raça e, mais uma nova geração de soldados sem futuro, mortos nos campos de batalha, que mais do que nunca se globalizarão.

Mas, e no intervalo, entre 1918 e 1939? Haverá algo de bom no meio da destruição que se avizinha? As mulheres lutam pelo seu direito de voto e pela sua emancipação, tentando viver a loucura e o despesismo dos loucos anos 20. A sua importância na guerra como médicas de campanha, e substitutas dos seus respectivos maridos nas indústrias ocidentais, enquanto estes morrem nos campos de batalha, abrem caminho para uma nova consciência e para um grande passo em direcção à igualdade.

O cinema passa do mudo para o sonoro, e do preto e branco para a cor. Charlie Chaplin terá de se adaptar! O movimento surrealista cria uma nova vanguarda artística com nomes como Salvador Dali e Pablo Picasso. A literatura está mais forte do que nunca, com Virginia Woolf, F. Scott Fitzgerald e T. S. Eliot. A ciência rende-se ao génio de Einstein, Alexander Fleming descobre a penicilina estudando bolor, imagine-se! E Freud revoluciona a psicologia, argumentando que tudo é sobre sexo!

No meio do caos há alguma luz, e o progresso não abranda, mas o mundo das grandes mentes, que vão contribuindo para o mundo melhor e para todos os avanços que temos hoje, encaminha-se para uma nova onda de destruição…

 

Algumas referências úteis:

Afonso, Aniceto & Gomes, Carlos (2010), Portugal e a Grande Guerra, Verso da História, Vila do Conde

Dockrill, Michael et al. (2001). The Paris Peace Conference, 1919, Palgrave, Nova Iorque

Hobsbawm, Eric (2002). A Era dos Extremos: 1914-1991, Editorial Presença, Queluz de Baixo

Gilbert, Martin (2014), The First World War, Nova Iorque, RosettaBooks

Keegan, John (2000) The First World War,  Nova Iorque, Vintage

 

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