Desporto

Premier League – A Revolta dos “Pequenos”

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O futebol moderno é um futebol dominado pelo dinheiro. Tal como em outros desportos e outras áreas da sociedade, quem controla o poder económico tem (aparentemente) o acesso mais facilitado àquilo que pretende. É assim que o sistema funciona, goste-se ou não. Um pouco por isso temos assistido, sobretudo nos últimos 10/15 anos, à aquisição de clubes com pouco historial por parte senhores endinheirados que vêem nas conquistas futebolísticas o seu último capricho. Aquele que o dinheiro pode comprar. Mas será sempre assim? Será que o dinheiro se transforma automaticamente em títulos? Hum, nem sempre.

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Chelsea, Manchester City, Paris Saint-Germain e AS Mónaco serão, talvez, os casos mais mediáticos de clubes que foram adquiridos por “senhores do petróleo”, os novos milionários do desporto-rei. O russo Roman Abramovich ou Nasser Al-Khelaifi tornaram-se conhecidos do grande público de futebol por serem os donos do Chelsea e do Paris Saint-Germain, respectivamente. O primeiro já viu o seu clube ganhar diversos títulos em Inglaterra, muitos sobre o comando do “nosso” José Mourinho e também alguns títulos internacionais como a Liga Europa e a Liga dos Campeões. Este ano a coisa não correu propriamente bem. O Chelsea encontra-se em 10º lugar na Premier League, isto a poucas jornadas do fim da competição. O segundo é agora campeão de França pela quarta vez consecutiva, um feito histórico para o clube parisiense que continua, contudo, sem vencer a principal prova europeia de clubes. E não era este o grande objectivo e o motivo pelo qual se investiram milhões atrás de milhões em contratações? Era…

Mas talvez a maior prova de que o dinheiro não compra tudo nem venha de França, mas sim de um país que historicamente chegou a ser seu arqui-rival, a Inglaterra. Sim, a Premier League, o país de Sua Majestade está a assistir a uma das maiores surpresas da história do futebol moderno e quiçá, de sempre. Estou obviamente a falar da campanha de dois clubes na Premier League. A saber, o Leicester City e o Tottenham Hotspur. Qualquer pessoa minimamente atenta à realidade futebolística sabe do que estou a falar. Para os mais “alienados” eu explico de forma muito simples: A Premier League, o campeonato mais competitivo do mundo, será vencido ou por um clube com 132 anos  de história que nunca foi campeão ou por um clube igualmente antigo que não levanta o “caneco” desde 1961! Mas quem é que apostaria num desfecho destes no início da temporada? Penso que nem o adepto mais optimista do mundo e fã destes dois clubes!

Como é que num campeonato onde actuam os históricos Manchester United, Liverpool ou Arsenal e ainda os poderosos e já mencionados “novos-ricos”, como são o caso do Chelsea e do Manchester City, poderá vir a ser conquistado por um de dois outsiders? Primeiro, porque estes crónicos candidatos conseguiram dar muitos tiros nos próprios pés, com escorregadelas impensáveis para quem ambiciona ser campeão e segundo, porque os “milagres” podem mesmo acontecer, sobretudo quando o trabalho e a “fé que move montanhas” se encontram. A isto eu chamo a revolta dos “pequenos”. “Pequenos” entre aspas porque os atletas e equipas técnicas tanto dos Foxes como dos Spurs, têm sido, verdadeiramente, colossais na Premier League!

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O Tottenham até é um clube com uma história bastante respeitável e portanto pode surpreender menos esta sua campanha. Ainda assim pode vir a ser “apenas”, o seu terceiro título de campeão inglês e isto não deixa de ser muito assinalável. Já o Leicester, clube que ainda há duas temporadas se encontrava na 2ª Divisão Inglesa não poderá deixar ninguém indiferente, com a equipa “desconhecida” que tem à sua disposição. Imagine-se que até o seu treinador, a “Velha Raposa” Claudio Ranieri estava dado como acabado e agora pode alcançar um feito memorável, calando também, muitos dos seus críticos.

Se olharmos para os orçamentos de ambos os clubes poderemos constatar que estes não são nada reduzidos. Não estamos propriamente perante dois clubes pobres, até porque qualquer clube inglês ganha imensas quantidades de dinheiro só com a venda de direitos desportivos para as transmissões televisivas dos seus jogos (pertencer à Premier League tem destas coisas). Agora se compararmos com os habituais vencedores da Premier League e com as contratações que estes costumam fazer, aí sim, a diferença é abismal e podemos mesmo falar de “ricos” e “pobres”. E ainda bem que podemos estabelecer essa diferença e ver, pelos nossos próprios olhos, que aqueles que têm menos posses também podem vencer. Só dá mais credibilidade ao futebol, um desporto cada vez mais previsível por causa do dinheiro.

Nas fases mais adiantadas da Liga dos Campeões costumam estar quase sempre as mesmas equipas. Nas principais ligas europeias os campeonatos, há anos em que se sabe o vencedor demasiado cedo. Este ano o PSG tornou-se o campeão mais rápido da história de França. Na Alemanha o Bayern de Munique tem vencido campeonatos com “uma perna às costas”. Já em Espanha, o Barcelona chegou a estar com um avanço quase irrecuperável para os rivais de Madrid (embora o tenha perdido surpreendentemente nas últimas jornadas). Por isso, o que está a acontecer em Inglaterra só beneficia o futebol, isto na minha humilde opinião. E esta vale o que vale.

Quem é que não quer ver o Leicester ser campeão? Ou quem é que também não se importaria de ver o Tottenham repetir a época de 1960-61? Acho que qualquer adepto de futebol vê com bons olhos qualquer um destes cenários e ficará, certamente, a regozijar com tal surpresa. Tanto o esforçado goleador Vardy, o veterano Huth, o talentoso Mahrez ou o incansável Kanté merecem ser campeões pelo Leicester City! Tanto o maestro Eriksen, o impenetrável Lloris, o rapidíssimo Walker ou o promissor Kane merecem levar o Tottenham à glória! Por mim, venciam os dois clubes, mas como tal não é possível, resta-me esperar para ver qual das duas equipas consegue ser mais regular até ao final do campeonato. Ficarei contente seja qual for o campeão. Os Foxes parecem ter ligeira vantagem, algo que em Inglaterra não quer dizer nada. Os cinco pontos de avanço que estes têm sobre os Spurs permitem respirar, contudo o galo do Norte de Londres vai estar à espera para mostrar quem manda na capoeira mais competitiva da Europa, onde o milho já não está acessível a Arsenal e Manchester City, que terão de se contentar com lugares europeus.

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Sim, aqui também estão em jogo os lugares europeus e teremos todos nós, amantes de futebol, mais um motivo muito especial para seguir a Liga dos Campeões na próxima época. Nesta irão estar Leicester e Tottenham, novamente dois outsiders a lutar contra os ricos e habituais vencedores da prova milionária. Conseguirão estes dois antigos clubes, formados no final do século XIX, surpreender o mundo futebolístico mais uma vez, desta feita contra as maiores potências do Velho Continente?

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