Conto

PAN – Missão Canídea!

loading...

         Spike levantou as orelhas assim que ouviu, para lá da porta da rua, o barulho característico de umas chaves. Aquele barulho, para além de ser sinónimo de que alguém iria abrir a porta de casa a qualquer instante, era também a confirmação de que o seu fiel amigo estava a chegar a casa. Finalmente, e depois de várias horas em casa simplesmente à espera, o seu dono estava de regresso a casa. Durante os últimos meses, para Spike, todos os dias tinham sido assim: solitários, tristes e de enorme ansiedade. Não se tratava de ansiedade por passar tanto tempo sozinho em casa, mas sim por causa da forma como o seu fiel dono chegava a casa todos os dias ­— cansado, triste e desanimado. Como se, todos os dias partisse para a guerra, e todos os dias retornasse da guerra completamente vencido.

         O dono abriu a porta, e entrou rapidamente em casa, cabisbaixo, apressando-se a fechar a porta. Colocou as chaves dentro de um pequeno cinzeiro que se encontrava em cima de um móvel que estava estrategicamente colocado ao lado da porta — como se ali estivesse apenas para servir de apoio ao pequeno cinzeiro — e despiu o casaco que se encontrava húmido devido à chuva ligeira que caia lá fora, na rua. Spike, apesar de ser um cão rafeiro, tinha um olfacto bastante apurado e, antes de o dono entrar em casa, já ele tinha farejado que o casaco se encontrava húmido. Para além do odor a suor misturado com um ligeiro odor ao perfume que o seu dono usava.

         Ao ver, uma vez mais, o seu dono entrar cabisbaixo em casa, Spike decidiu que tinha de fazer algo para animar o seu fiel amigo. Então, ainda o homem estava a despir o casaco, e já Spike estava a saltar para cima dele, obrigando-o a um arriscado e perigoso movimento de cintura para o conseguir agarrar. Foram milésimos de segundo em que o pobre dono de Spike teve de decidir se agarrava o casaco ou Spike, o seu cão rafeiro. Para o bem de Spike, ele optou por si, deixando cair o casaco húmido no chão para segurar Spike no seu colo. Spike não perdeu tempo e começou logo a trabalhar, aplicando valentes lambidelas nas fazes rosadas do seu dono.

         — Oh Spike, só tu! Só tu, fiel companheiro, para me fazeres rir numa altura destas!  — disse André Silva, líder do PAN — Partido dos Animais e da Natureza, e dono de Spike.

         Deslocou-se até ao sofá, e sentou-se de forma desequilibrada e pesada, como se as forças o tivessem abandonado de forma repentina. Spike continuou na sua demanda de lambidelas, na tentativa de alegrar o seu dono — que, uma vez mais, chegava a casa completamente esmorecido.

         — Oh Spike, se eu soubesse que isto ia ser assim, não me tinha metido nisto! — disse o homem, ao mesmo tempo que fazia festas na cabeça do seu cão.

         Spike olhou para ele, e sentiu uma enorme tristeza a crescer no seu interior. Se o seu dono estava triste, ele também ficava triste. E daquela vez, sentia que ele estava mais triste do que nunca…

         — Ninguém quer saber de vocês, amiguinho… Todos falam, mas na verdade ninguém se importa com os animais, Spike. Porquê? Por que será que é assim? Vocês fazem parte deste mundo, caramba! E vocês estão sempre indefesos… Por que raio as pessoas tinham de ser assim, Spike? Podes explicar-me? — O homem olhava para o seu cão, na esperança que o animal pudesse responder-lhe e dar-lhe as respostas que ele buscava. Mas em vão. Tudo o que Spike fazia era olhar-lhe nos olhos, ostentando uma expressão triste, mas, de certa forma, os seus olhos pareciam demonstrar que o cão estava a perceber tudo o que ele dizia.

         — Oh, que parvoíce a minha… Aqui a falar com um cão, como se tu pudesses responder… Estou a ficar louco com isto das eleições, Spike… Se eu não conseguir eleger pelo menos um deputado, vou desistir de tudo! Não sinto forças para lutar mais por vocês, num país em que existem pessoas capazes de vos ignorar por completo. Bom, vou tomar um belo banho e vou para a caminha que amanhã é um dia bastante duro, amiguinho. Dorme bem, Spike! — O homem debruçou-se sobre o seu cão, e afagou-o com alguma veemência. Spike soltou um ligeiro ganir, e deixou-se ficar naquele momento, aproveitando ao máximo aquela demonstração de carinho que o seu dono, o seu fiel companheiro, partilhava consigo.

         Segundos depois o homem levantou-se e dirigiu-se ao quarto, deixando o seu cão estatelado no sofá a observá-lo, de focinho ligeiramente inclinado para o lado direito.

         Spike ficou, por breves momentos e até que o seu dono desaparecesse do seu campo de visão, a observar e a pensar o quão ridículo era toda aquela situação, visto que, segundo o seu dono, ele não o poderia compreender nem responder. Mas isso era errado. Spike conseguia entender tudo o que o seu fiel dono dizia. E tinha vontade de responder, de dar a sua opinião, ou mesmo pequenos conselhos ao seu amigo. Mas como, se ele não falava a língua humana?

         Apesar de tudo, ele sabia que tinha de fazer alguma coisa para ajudar aquele pobre e desanimado homem que ele tanto adorava e venerava. Todos os dias em que ele chegava naquele estado de espírito a casa, deixavam em Spike uma enorme vontade de mudar o mundo. De gritar bem alto a sua revolta, embora, aos humanos, isso soasse apenas como uma cacofonia desenfreada de latidos. Mas algo tinha de ser feito, porque as coisas tinham mesmo de mudar. Ele não aguentava ver mais o seu dono assim — isso causava-lhe uma lancinante dor no seu pequeno coração canídeo.

         Spike deixou-se ficar alguns minutos no sofá, a ouvir o seu dono a tomar banho, ao mesmo tempo que tentava descobrir o que será que podia ele fazer para mudar toda aquela situação. Até que… e depois de se coçar atrás da orelha, fez-se luz no pequeno cérebro de cão rafeiro. Ele já sabia como iria ajudar o seu fiel dono. Mas, para isso, teria de reunir todos os seus amigos canídeos do bairro. Algo que estaria em primeiro lugar na lista de tarefas do dia seguinte… porque naquele dia só restava uma coisa: correr para a cama do seu dono, para tentar ganhar o seu lugarzinho ao pés da cama, fingindo estar a dormir para que o seu dono tivesse pena dele e o deixasse passar lá a noite. Um pequeno truque que um animal doméstico com patas podia usar de vez em quando…

***

         Eram sensivelmente nove horas da manhã, quando o dono de Spike saiu de casa, depois de levar Spike a passear — para assim fazer as suas necessidades fisiológicas. Spike, durante o pequeno passeio matinal, aproveitara para, à medida que ia encontrando os seus compinchas canídeos, marcar uma pequena reunião para as nove e meia da manhã daquele dia, no beco atrás da igreja, onde eles normalmente se encontravam sem serem incomodados.

         Spike fora o último a chegar ao local, visto ter perdido algum tempo em casa a tentar alcançar o raça de uma pulga que o incomodava há já vários dias. Quando chegou ao beco por detrás da igreja, já todos os outros cães esperavam impacientes por ele.

         Fofinha, a caniche e única fêmea do grupo, era a cara da insatisfação, apressando-se a repreender Spike assim que o viu a aproximar-se ao longe.

         — Isto é que são horas? Que eu saiba, quando alguém combina uma reunião, normalmente, esse alguém deve ser sempre o primeiro a chegar! Sabes o que tive de desmarcar para estar aqui a horas? Uma sessão de manicura! Logo agora, que tinha finalmente convencido a minha dona a pintar-me as unhas com aquele cor-de-rosa lindo de morrer que vi no catálogo da AVON! Espero que tenhas uma boa explicação para este atraso, Spike!

         — Hum… tenho, sim senhor: uma pulga! — disse Spike, esboçando um pequeno sorriso de troça na direcção de Fofinha.

         — Ui, uma pulga! Porra, como eu odeio pulgas! Odeio! Odeio! Se eu pudesse, passava o dia inteiro a persegui-las e a erradicá-las deste mundo! — disse Kikas, o Pastor Alemão do grupo.

         — Mas isso é o que tu fazes o dia inteiro!  — rosnou Mike, o Pitbull.

         — Pois é! Eh, eh! — disse Kikas — Adoro a minha vida! Eh, eh!

         Trovão, o Buldogue do grupo, assistia impávido e sereno a tudo, sem proferir uma palavra que fosse, enquanto um espesso fio de baba escorria pela sua boca em direcção ao chão, respeitando assim a lei da gravidade.

         — Bom, caríssimos amigos! — avançou Spike — Tenho uma missão para nós!

         Ninguém falou. Por breves momentos todos olharam uns para os outros sem proferirem qualquer palavra. Até que Kikas, num estado de exaltação extrema diz:

         —  Yes! Uma missão! Oh yeah! Uma missão! Uma missão! Finalmente, uma missão! Eh pá, o que eu adoro missões! Eu fui treinado para missões! Eu nasci para ser um espião! Não, não! Eu nasci para ser um cão-polícia! Isso! Para perseguir os mauzões e prendê-los a todos!

         — Vê lá se te acalmas um pouco, sim? — disse Fofinha. — Spike, que missão vem a ser essa? Não é nada em que eu tenha de estragar as minhas unhas, pois não?

         — Não, que disparate!  — disse Spike.

         — Temos de apertar com alguém? Por favor, diz que sim! Já tenho saudades de dar uns apertos! E conheço uns cães que estão a precisar de uns apertos… Ai se conheço! — disse Mike, mostrando a sua assustadora dentição de Pitbull.

         Trovão continuava impávido e sereno, não se importando com o facto de a baba já ter chegado ao chão, mais propriamente a uma das suas patas dianteiras. Spike prosseguiu:

         — Malta, a missão é muito simples. O meu dono precisa da nossa ajuda.

         — Quem é que lhe fez mal, que eu vou lá e parto o gajo todo! — disse Mike.

         — Calma, Mike… Ninguém lhe fez mal… Mas ele precisa muito da nossa ajuda.

         — Em que medida, Spike? — disse Fofinha, ostentando um ar impaciente.

         — Ya, meu! Deixa-te de rodeios! Vai logo direito ao assunto, pá! — disse Kikas.

         Spike respirou fundo, e disse:

         — Como vocês sabem, o meu dono é o líder do PAN — Partido dos Animais e da…

         — …Natureza! Sim, sim… sabemos. E…? — A impaciência de Fofinha era por demais evidente. Spike prosseguiu:

         — Ele tem chegado todos os dias muito desanimado. Até dá dó vê-lo assim. Ele precisa que o PAN singre nestas eleições, para assim conseguir defender-nos…

         — Eu não preciso que ninguém me defenda! — disse Mike, voltando a mostrar a sua assustadora dentição.

         — Nós sabemos disso, Mike… — disse Fofinha. — Mas, ó Spike, nós somos apenas cães… Nós não podemos votar!

         — Ya, meu! Não dá! Nós não podemos votar! — reforçou Kikas.

         — Pois não. Têm razão. Têm toda a razão… Mas podemos fazer com que os nossos donos votem… — disse Spike, piscando o olho.

         Trovão parecia distraído com a pequena poça de baba que já se estava a formar no chão, à frente dos seus olhos.

         — E como é que podemos fazer isso, Spike…? — disse Fofinha.

         Spike prolongou-se um pouco a olhar para cada um dos seus amigos, e finalmente disse:

         — Fazendo-os ver que somos bons cães. Que somos os seus melhores amigos. Que eles têm de votar no PAN, para que nós fiquemos a ganhar. Para que alguém possa, finalmente, lutar pelos nossos direitos.

         — Fixe! E quem é que vai lutar por nós, Spike? — disse Kikas.

         Spike fez-se desentendido e prosseguiu:

         — O plano é muito simples. Fofinha, tu costumas largar muito pêlo, certo? E o chão da tua dona costuma ficar sempre cheio de pêlo por todo o lado. Então, tu vais evitar isso! Vais apanhar todo o pêlo que fores perdendo diariamente. A tua dona vai ficar tão contente de não ter de apanhar pêlo que te vai abraçar e encher de mimos. E é aí que tu aproveitas e enfias o panfleto do PAN no bolso dela… Kikas, tu tens parar de roer os sapatos do teu dono! Eu sei que isso é mais forte do que tu, mas tens mesmo de evitar! Aliás, tens mesmo é de, pela manhã, acordar primeiro que o teu dono e levares-lhe os sapatos todos bonitinhos. Ele vai ficar radiante e vai abraçar-te. Não te esqueças é de enfiar o panfleto do PAN dentro de um dos sapatos. Mike…

         — Já sei! Tenho de parar de urinar pela casa toda do meu dono! E tenho de enfiar o raio de um panfleto no bolso das calças dele! — antecipou-se Mike, deixando Spike a sorrir.

         Spike olhou para Trovão e disse:

         — Trovão… acho que também já sabes o tens a fazer… Nada de baba espalhada pelo chão da casa. Ou então usa um pouco de baba como cola, para afixares um panfleto do PAN na porta do frigorifico. Mesmo ao lado da lista de compras, ok?

         Trovão limitou-se a afirmar com o focinho.

         — Bom, acho que estamos combinados. O que acham? Conseguem cumprir com a missão? — disse Spike, espalhando esperança a todos através do olhar.

         Todos responderam afirmativamente. Segundos depois, despediram-se uns dos outros e cada um seguiu o seu caminho em direcção a casa.

***

         Dois dias depois, Spike esperava impacientemente que o seu dono regressasse a casa. Estava preocupado, ansioso e só esperava que o seu dono chegasse a casa ostentando um sorriso ou uma expressão alegre na cara — pois isso seria sinal de que o seu plano teria resultado na perfeição. As horas passaram. Os minutos arrastaram-se até que, finalmente, Spike voltou a ouvir o som característico das chaves na rua. O dono estava de volta. Era a hora da verdade, e Spike sentia o coração a bater a mil. O dono abriu a porta e entrou a correr em casa, agarrando-o e abraçando-o como nunca o tinha abraçado antes.

         — Conseguimos, Spike! Conseguimos! Conseguimos eleger um deputado! Vocês não estão mais sós, amiguinho! — gritava André Silva, ao mesmo tempo que abraçava o seu fiel companheiro.

         Spike gritava de felicidade, embora isso, aos humanos, soasse apenas a uns latidos estridentes de pura felicidade canídea. O resto da noite foi alegre, passada ao lado do dono, em cima do sofá, enquanto passavam na televisão imagens das eleições daquele dia histórico.

         No dia seguinte, pela manhã, Spike ficou a saber que o seu plano não tinha tido grande sucesso. Pois, na verdade, todos os seus fieis amigos tinham fracassado as suas missões, não conseguindo resistir aos seus instintos canídeos. Mas isso não aborreceu Spike. Porque, afinal, isso demonstrava que sempre havia esperança na humanidade. Que, no fim de contas, nem todos os humanos eram más pessoas…

FIM

1 Comment

Mais Lidos

loading...
To Top