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Quando os Videojogos Se Aproximam do Cinema – Em Apenas Dois Trailers

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Dois trailers apenas. Dois trailers de dois videojogos distintos contribuíram para que o meu lado gamer voltasse a despertar de um longo período de sono e para que me lembrasse o porquê, de outrora, ter sido tão fã de videojogos. Aquilo que me “acordou” (e recordou) da velha paixão, foi ter voltado a percepcionar as semelhanças que este medium tem com outro que ocupa um lugar (mais especial) no meu coração: o cinema.

Com dois fantásticos trailers que, diga-se, conseguiram a enorme proeza de não se basear em meros espalhafatos visuais repletos de tiroteios, explosões e outros clichés do entretenimento contemporâneo, e que preferiram focar-se na estética (entender, não meramente nos gráficos), nos actores (sim, actores), na condução da câmara e no ambiente, apoiados por belas bandas sonoras de fundo, o “bichinho” voltou e a tremenda ansiedade  de agarrar  um comando também. E que trailers foram esses? Pergunta e bem.

O primeiro trailer visualizei-o no passado dia 1 de dezembro, quando acompanhava a cerimónia dos The Game Awards 2016 (o mais aproximado aos Oscars do meio) e me foi mostrado (a mim e a milhares de pessoas) o segundo vídeo do mais recente trabalho da mente iluminada por detrás da mítica saga Metal Gear, Hideo Kojima. O projeto em questão dá pelo nome de Death Stranding e tem um aspecto verdadeiramente espectacular. Sim, mas “espectaculares são a maioria dos videojogos nos dias de hoje”, pensará você. E pensa bem. Sobretudo se pensar apenas no aspecto visual exposto nos tão aclamados gráficos.

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Aquilo que eu vi, e que me despertou tanto interesse, foi muito mais do que o mero grafismo apresentado no trailer. Embora fosse, também ele, maravilhoso. Foi ver um ambiente futurista de um mundo destruído num cenário de guerra, de aparente ameaça da raça humana e de outras espécies, de um jogo sobre o qual pouco ou nada sei. Foi ver animais marinhos mortos em terra, bebés bizarros (que nem sei serem naturais ou artificiais), forças militares surreais e uma natureza muito pouco “natural” em todo o ambiente observável. Foi ver o realizador de cinema Guillermo del Toro virar uma personagem (sim, leu bem), segurar um recém-nascido colocado dentro de um recipiente estranho e saber que o mexicano se está a associar a Kojima. Foi ver o actor Mads Mikkelsen, cujo trabalho conheço do filme Jagten (2012) e da série televisiva Hannibal (2013-2015) virar uma outra personagem e ver o quão real e bem-apessoado ele está “pixelizado”. Foi ver isto tudo, sem ver um único tiro (embora seja expectável que venha a fazer parte do jogo no futuro), sem ver nenhum elemento gameplay e sem saber rigorosamente nada sobre o jogo que me maravilhou. O acentuar da banda sonora ajudou (e de que maneira). Sobre o que é este jogo? Que história conta? Quem é quem? Como se joga? Que estilo de jogo é? Tantas perguntas e tão poucas respostas por detrás de tanto entusiasmo mostram o quão bem feito e enigmático é o trailer em questão, que pode ver abaixo. Já o primeiro, com a presença de Norman Reedus (actor conhecido pelo papel de Daryl em The Walking Dead), me tinha deixado de queixo caído e totalmente intrigado. Este seguiu a mesma linha e manteve o mesmo nível de interesse.

Este trailer de Death Stranding deixou a internet em delírio.

O segundo trailer a encantar-me num curto espaço de tempo foi o anúncio da sequela de um jogo que foi, logo ele, uma tremenda aproximação ao cinema do inaudito estúdio Naughty Dog quer pela relação humana entre os dois protagonistas, Joel e Ellie, quer pela maravilhosa escrita e condução da narrativa: The Last of Us. O último jogo a conseguir encantar-me de inicio ao fim da sua história. E já lá vão três anos. A história não é propriamente inovadora nem conta algo nunca antes visto – um mundo apocalíptico com pessoas infectadas, que cliché não é? – mas a verdade é que foi contada de uma forma muito adulta para aquilo que é habitual num videojogo.

The Last of Us – Part II, nome que faz logo lembrar uma das maiores e mais bem conseguidas sequelas da história do cinema, The Godfather Part II, foi então anunciado no final do evento Playstation Experience e deixou a internet em delírio. Não só por ter consagrado a continuação da aclamada obra-prima que foi o primeiro, como também pela excelência (e simplicidade) que é o próprio trailer em si. O mundo pós-apocalíptico e desolador do primeiro capítulo regressa. A protagonista Ellie regressa também, visivelmente mais velha e dotada musicalmente. Joel aparentemente também está de volta (será mesmo?). Estes são acompanhados por uma banda sonora (à base de guitarra) que é mesmo capaz de deixar uma lagrimazita no canto do olho daqueles que se deixaram apaixonar pela primeira incursão. Pura nostalgia…de um videojogo de 2013.

O anúncio da segunda parte do muito aclamado The Last of Us confirmou o regresso da dupla Ellie e Joel ao mundo apocalíptico trazido pela Naughty Dog em 2013.

Ingredientes para o sucesso do trailers aqui referidos? O enigma. A incerteza. Os sentimentos. Estes últimos transmitidos pelas personagens em tão pouco tempo e que podiam ser perfeitamente conseguidos por actores e uma câmara de filmar, mas não é o caso. São bem transmitidos o nervosismo da personagem do Guillermo e a confiança do Mads Mikkelsen em Death Stranding. A raiva e determinação da Ellie em The Last of Us. A pouca espectacularidade visual, mas sobretudo o realismo e o lado humano. Estes aspectos conquistaram-me e fizeram-me lembrar que há cinema que pode ser participativo. Esta é a “vantagem” dos videojogos face à Sétima Arte. Isto só acontece quando os bons criadores de videojogos têm a capacidade (e liberdade) para tornarem os seus produtos suficientemente adultos para se tornarem verdadeiras obras de arte e não mero entretimento. Bem sei que os videojogos têm de apostar na sua jogabilidade para atrair os jogadores contudo, aquilo que por vezes acontece, é um grande foco na jogabilidade e pouca profundidade no storytelling. Se tivesse de destacar alguns exemplos de jogos que joguei e que conseguiram estar acima da média no que toca ao storytelling falaria dos exemplares Heavy Rain (2010) e The Walking Dead: The Game – Season 1 (2012), ambos jogos que apostaram forte na narrativa e personagens acabando, infelizmente, por descurar as mecânicas de jogabilidade. A indústria dos videojogos teima em não conseguir entregar tudo num só produto na maioria das vezes.

Nesse aspecto, The Last Us foi dos mais equilibrados que joguei nos últimos anos, daí ficar bastante satisfeito com o anúncio da sua segunda parte. Espero, sinceramente, que se mantenha tão equilibrado e grandioso como o primeiro. Da mesma forma, espero que o Kojima consiga algo grandioso com o seu Death Stranding. Para já resta-me esperar por novas e verdadeiras informações sobre ambos os jogos ou então procurar pelas teorias (algumas bem instigantes), que começam a aparecer por essa internet fora.

Até 2018 ambos os jogos não deverão ver a luz do dia.

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