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Os 10 Momentos mais Marcantes da Carreira de Ayrton Senna

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Ayrton Senna! Qualquer pessoa já ouviu falar deste nome. Tem pouco (ou nenhum até) significado para boa parte das pessoas. No entanto existe um restrito número de indivíduos (grupo no qual me identifico) a que este nome quer dizer muito mais do que aquilo que é observável. Ayrton Senna era muito mais que um simples homem atrás de um volante. Para além de ser um piloto excepcional, o brasileiro tinha uma personalidade bastante forte. Considerado por muitos como “O melhor piloto de todos os tempos”, Ayrton levou consigo multidões graças ao seu carisma. Carisma esse que poucos líderes históricos possuíram noutros tempos. Senna era, e é, um exemplo de persistência, excelência, exigência e perfeição. Era (e é) um ídolo, um Deus, uma marca a seguir.

Era aquele tipo de piloto que faria o que fosse preciso para vencer, inclusive provocar um acidente como fez no GP do Japão de 1990. Senna era um homem de “preto no branco” – ou estavam com ele ou contra ele. Este tipo de atitude trouxe-lhe algumas vantagens quando o objectivo era vencer dentro da equipa. Quem entrava na luta com ele, geralmente saía lesado. A sua arma mais poderosa era a capacidade de fazer um jogo psicológico inigualável, segundo Nigel Mansell. Essa arma deixava nas mãos do seu rival o destino da sua corrida, onde Ayrton não iria ceder mesmo que isso implicasse um acidente e ter que abandonar a prova. Para ele este tipo e comportamento era um investimento a longo prazo, uma vez que esse mesmo rival não iria repetir o feito e cedia o espaço que fosse necessário para ser ultrapassado.

Ayrton Senna (BRA) Williams FW16 in action before his tragic fatal accident. San Marino Grand Prix, Imola, 1 May 1994.

Por outro lado Senna era um Homem com um coração singular. Nunca rejeitou as suas origens; o seu país marcado maioritariamente pela pobreza, violência e corrupção. No fim da sua carreira tinha planos para combater a pobreza entre as crianças e dar a oportunidade de lutarem pelo seu futuro, assim como ele teve. Meses antes de morrer, o piloto brasileiro falou com a sua irmã e deixou a ideia de querer ajudar a sua nação. Ficou combinado eles falarem mais tarde e começarem a trabalhar num futuro risonho para o povo brasileiro. No entanto essa segunda conversa nunca aconteceu, mas a ideia permaneceu e Viviane Senna fundou o Instituto Ayrton Senna, onde Alain Prost é um dos principais sócios.

Posto isto apresento-vos os dez momentos mais marcantes da carreira do piloto que fez o Brasil declarar 3 dias de luto após a sua morte:

10ª Posição: O primeiro sinal de grandeza!

Estamos no ano de 1984, no Grande Prémio do Mónaco. Neste fim de semana, “Beco” (uma das alcunhas pelo qual era tratado) fez a sua primeira marca no mundo do pináculo do desporto automóvel, enquanto lutava em condições atmosféricas adversas pilotando um carro pouco competitivo: o Toleman TG184. Partindo da 13ª posição, o “Rei do Mónaco” foi subindo na grelha até atingir o segundo lugar. Ao aproximar-se do seu futuro colega de equipa e líder da corrida- Alain Prost – com um ritmo médio de 3 segundos mais rápido por volta, Senna termina a 7 segundos de distância e com a certeza que teria vencido se a corrida não tivesse sido terminada prematuramente.

9ª Posição: Uma luta singular!

Neste ano o Grande Prémio dos Estados Unidos decorre na cidade de Phoenix. O primeiro destaque da corrida foi Jean Alesi, que na altura corria pela Tyrrell-Ford. O piloto francês partiu em 4º lugar e logo na primeira curva ultrapassou o então líder de corrida, Gerhard Berger. Ao longo de 34 voltas o piloto francês liderou a corrida. O problema começa quando Senna se aproxima de Alesi e percebe que o françês estava perder aderência nos pneus mais depressa que o seu McLaren. Posto isto o piloto com o capacete amarelo decide começar a pressionar de forma a aumentar esse desgaste e a tentar fragilizar Alesi. Foi um dos melhores momentos da corrida! O brasileiro intensifica a perseguição, conseguindo chegar à liderança. Posto isto o objectivo passou a consistir na construção de uma vantagem que permitiria chegar em primeiro sem grandes problemas. Houve nervos de aço, momentos de tensão, mas a luta entre os dois pilotos foi exemplar e nunca passou os limites do desportivismo. Neste Grande Prémio Alesi ganhou o respeito do ídolo brasileiro.

8ª Posição: O dia em que a virgindade passou à história

O Grande Prémio de Portugal (1985) tem o seu lugar na história, quer da história do Senna, assim como na história do automobilismo português. Neste ano, o piloto transfere-se para uma equipa bem mais competitiva, a Lotus, obtendo assim duas vitórias, juntando às constantes presenças no pódio.  O ponto fraco do Lotus 98T era o consumo do motor Renault, aliado a um estilo de condução bastante agressivo (estilo esse adoptado nas competições de kart, onde não existe preocupação com o desgaste e o consumo de combustível), levando assim o brasileiro a retirar-se em seis provas (num total de dezasseis). Felizmente, neste GP, Ayrton Senna venceu todos os obstáculos e obteve assim a primeira vitória num Formula 1, numa corrida nada fácil, marcada essencialmente pelas condições atmosféricas traiçoeiras, liderando logo a partir da primeira curva. Um Grade Prémio especial, pois o brasileiro gostava muito de correr, viver e passar parte das suas férias em Portugal.

7ª Posição: Uma boleia gratuita

Estávamos em pleno ano de 1991, ano esse em que Senna se iria consagrar pela ultima vez campeão do mundo. O Grande Prémio de Inglaterra não correu da melhor forma uma vez que o McLaren ficaria sem combustível logo na última volta. Desta forma, e uma vez que Senna estava longe do pit lane, o piloto da Williams pára o seu carro em plena volta de consagração e dá boleia ao futuro campeão, criando assim uma das imagens mais emblemáticas de toda a história do pináculo do automobilismo.

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6ª Posição: A sorte protege os audazes

Para ser coroado Campeão Mundial de F1, Senna precisaria de sair do Grande Prémio do Japão com uma vitória no bolso. Obteu a pole position com uma vantagem de 0,324 segundos do seu rival. Tudo correu da melhor forma até ser dada a partida quando motor do McLaren falha e o brasileiro cai para a 14ª posição. A partir daí tudo o que restava era “fazer das tripas coração” e tentar chegar à frente o mais rapidamente possível. Completa a primeiro volta em 8º; a segunda em 6ª; a terceira em 5ª; a quarta em 4º; a 11ª volta em 3º e chega em primeiro lugar no inicio da volta 27. Enquanto recuperava as chances de vencer aumentavam, ao mesmo tempo que começava a chover. Sendo Senna o melhor piloto do pelotão em piso escorregadio a vitória estava destinada. A partir do momento em que lidera, o objectivo passou a consistir na construção de uma diferença suficientemente grande para permitir vencer a prova em segurança e dar o primeiro campeonato ao menino que nasceu em São Paulo.

5ª Posição: Nem todo o animal é, unicamente, feroz

Todos sabiam que Ayrton se transformava num animal feroz quando este entrava num cockpit. O que nem todos sabiam era que esse mesmo predador tinha um lado humano nos momentos certos. Um dos melhores momentos da sua carreira que retrata isso mesmo foi no Grande Prémio da Bélgica, em 1992. Na sexta feira, Érik Comas despista-te na curva Blachimont e bate fortemente nos limites da pista. O impacto foi tão forte que o francês desmaia subitamente. Senna, que vinha numa volta rápida, foi o primeiro piloto a chegar ao acidente,encosta o McLaren e desliga o motor do Ligier, evitando assim um incêndio em plena pista ao mesmo tempo que segura a cabeça do seu colega. Mais tarde numa entrevista, Comas admitiu que Senna lhe salvou a vida. Dois anos mais tarde os papeis inverteram-se…

4ª Posição: Uma vitória inesperada

O campeonato de 1992 foi dominado pelos Williams. A verdade é que o FW14B era tecnologicamente mais avançado que os seus rivais. A suspensão electrónica (que mantinha o carro sempre a uma altura de 6cm, independentemente da irregularidade do piso) era uma grande ajuda, principalmente em circuitos irregulares como o Mónaco. No entanto a vitória fugiu para a McLaren. No decorrer da corrida, Mansell sofreu um problema na porca que apertava um dos seus pneus e teve que voltar à box. O infeliz incidente remete o inglês para a segunda posição, mas com pneus novos. Senna passa a liderar mas não iria ceder a liderança da prova tão facilmente. A distância reduz-se de sete para uns míseros milésimos de segundo num curto espaço de tempo. Com um carro mais lento e tecnologicamente inferior, o brasileiro usa todo o seu talento e a largura da pista a seu favor. Mansell faz de tudo e tenta pressionar o brasileiro de forma a que este cometa um erro que custasse a vitória. Apesar de todos os esforços nada muda e as ultimas três voltas do Grande Pémio do Mónaco de 1992 entram para a história da Formula1.

3ª Posição: O voo da fénix

A temporada de 1993 foi semelhante à anterior com o domínio completo da Williams. No entanto houve um Grande Prémio que negou tal domínio à equipa britânica. Donington Park foi o circuito em que Senna andou pela primeira vez num F1. Por outro lado o circuito britânico seria, também, o palco de uma das voltas mais belas que alguma vez o público já viu. O brasileiro arranca da 4ª posição atrás de Michael Schumacher e dos dois Williams. Com o piso escorregadio ele desce para a quinta posição mas rapidamente recupera. A partir da primeira curva do Grande Prémio da Europa, o Mclaren faz um “show de bola” e ultrapassa 4 dos melhores pilotos em apenas uma volta. A partir do momento que lidera a prova, o brasileiro voa pelo circuito vencendo com uma margem de 1 volta de avanço para os principais rivais, à excepção de Damon Hill que terminou na segunda posição, a 1:23.799.

2ª Posição: A perfeição existe

Durante a qualificação para o Grande Prémio do Mónaco, Ayrton Senna faz uma volta…daquelas voltas que raramente acontecem na vida de um piloto. Para quem já entrou em competição (mesmo que seja a nível amador) consegue imaginar o que o brasileiro sentiu naquele 14 de Maio de 1988. Naquela tarde, Ayrton e o MP4/4 fundiram-se como um só. Deixou de ser o piloto a conduzir um protótipo e passou a ser a harmonia total entre o homem e a máquina, como se fossem apenas um. Tal comportamento deu ao piloto da McLaren a pole position com uma vantagem de “apenas” 1,427 segundos. Pode parecer pouco, mas a verdade é que é uma eternidade. Se em Mónaco os pilotos quase que raspam os limites da pista, Senna beijou-os suavemente curva após curva.

“Eu já estava na pole, primeiro por meio segundo, depois por um segundo, e eu continuei baixando. De repente eu estava dois segundos mais rápido que todos os outros, incluindo meu colega de equipe com o mesmo carro. E repentinamente eu percebi que já não estava mais pilotando o carro conscientemente. Estava pilotando por um tipo de instinto, como se eu estivesse em uma dimensão diferente. Foi como se eu estivesse em um túnel, não apenas o túnel do hotel, mas todo o circuito era um túnel. Eu estava indo e indo e cada vez mais e mais e mais rápido. Estava bem acima do limite, mas ainda capaz de encontrar muito mais. Então eu acordei”.

De qualquer das formas, o fenómeno tem uma explicação cientifica e uma teoria própria: Hipnose da estrada. Apesar de toda a teoria e estudos científicos sobre o fenómeno em questão, o que aconteceu em 1988 foi pura e simplesmente uma das melhores single lap alguma vez já realizada.

1ª Posição: O realizar de um sonho

O Grande Prémio do Brazil (1991) foi o melhor momento da sua carreira. Foi o resultado de anos e anos de lutas intensas e infernas dentro das duas linhas. Após 7 anos de decepção, Senna venceu em casa. Era dos poucos feitos que lhe faltava fazer. Com o decorrer da corrida o MP4/6 desenvolveu um problema na caixa de velocidades, chegando ao ponto em que apenas a 6ª mudança era a única que conseguia estar engrenada. Nas curvas de alta velocidade não havia problema. As coisas complicavam-se nas curvas lentas, fazendo com que o piloto da casa fizesse ainda mais força para manter o carro em pista. Com o passar das voltas, o “Rei do Mónaco” começa a acreditar que a vitória é possível e faz de tudo para que a diferença nãos e reduza significativamente. O esforço (físico e psicológico) foi tão grande que sofreu constantes cãibras em todo o corpo. Mais tarde Senna declarou que este GP foi muito especial na sua carreira, não só por ser a primeira vitória no Brasil mas também pela forma heróica como a conquistou, e chegou a compará-la à sua primeira vitória na F-1 (Estoril 1985).

Faltando 20 voltas para o final, perdi a quarta [marcha]. Comecei a ter um desgaste muito maior, com dores no pescoço, nos ombros, nos braços. Daí perdi a quinta, a terceira e, faltando sete voltas, nada mais funcionava. Aí coloquei a sexta. Nas curvas lentas, era quase impossível guiar o carro. O esforço que eu colocava para segurar o carro era maior ainda, porque o motor empurrava o carro para fora nas curvas lentas. No finalzinho, começou a garoar e eu quase passei reto na reta dos boxes. Pensei comigo: lutei tanto… vai ter que dar, porque Ele é maior que todos. Deus me deu essa corrida.

Deixo assim uma série de vídeos para que o caro leitor se entretenha e conheça um pouco mais sobre este pequeno grande génio:

Depois de tantas discussões sobre “quem é o melhor do mundo” chego a uma conclusão muito simples: não há! Cada piloto foi “o melhor” do seu tempo. Houve bons pilotos e pilotos de outro mundo. Senna está nesta última categoria! Foi o piloto mais carismático que alguma vez passou no grid e dificilmente haverá alguém que lhe chegue aos calcanhares. Infelizmente partiu cedo demais mas deixou um legado e uma forma de estar na vida característica dele próprio. Pessoalmente, é mais que um piloto; é um símbolo de que o limite não existe; de que com esforço e dedicação tudo se consegue; é um símbolo de que devemos sempre lutar por aquilo que mais desejamos pois só assim a vida pode, realmente, ser vivida em plenitude!

Posto isto, só me resta desejar boas leituras…e da próxima vez que o caro leitor for acelerar não se esqueça de colocar o capacete!

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