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Old Yellow Jack – “Cut Corners” (Review)

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O mundo da música está repleto de clichés mas, porventura, o maior de todos eles será o clássico “O Difícil Segundo Disco”. Não quero com isto dizer que lançar o álbum de estreia seja fácil, no entanto convencionou-se que por melhor que corra a primeira amostra de talento de um cantor, ou de uma banda, apenas quando a fórmula for repetida uma segunda vez é que podemos começar a levá-lo(s) a sério.

E por mais disparatado, e antiquado, que isto possa parecer a verdade é que…até faz algum sentido nos dias de hoje. É que por entre tantas promissoras bandas, projectos, cantores e afins que aparecem ano após ano em Portugal (e no mundo, evidentemente) só permanecem os melhores. E esses, por muito impacto que causem à sua chegada, apenas se tornam imortais com o acumular dos anos, dos discos e dos sucessos.

E serve esta introdução para vos preparar para a minha análise a um dos meus discos preferidos deste ano: “Cut Corners”, dos portugueses Old Yellow Jack. Nos últimos largos anos nenhuma banda lusitana passou com tanto sucesso o exigente desafio do “Difícil Segundo Disco” quanto estes jovens que respondem pelo nome de Old Yellow Jack!

Capa do EP "Magnus", registo de estreia dos Old Yellow Jack

Capa do EP “Magnus”, registo de estreia dos Old Yellow Jack

Esta não será uma review técnica, até porque os conhecimentos e o vocabulário não os possuo. Esta será uma crítica sentimental e emocional, vinda de um apaixonado por boa música que tem a sorte de ser locutor de rádio há sete anos e que acompanha os Old Yellow Jack desde o lançamento do seu EP de estreia. Portanto se procuram uma abordagem igual a tantas outras lamento, pois aqui a visão é completamente diferente do que esperam!

A Capa – Do 8 ao 80, Num Ano

Como jovem portador de uma alma velha que sou antes de ouvir um disco dou sempre a devida atenção ao artwork. E em “Cut Corners” temos muito que observar! É que logo aqui encontramos a primeira, de muitas, mudanças em relação ao trabalho de estreia dos Old Yellow Jack (“Magnus”, de 2015).

As cores fortes e garridas deram lugar a um branco, azul claro e verde que predomina. E a temática alienígena sucumbiu perante a força e a calma da mãe natureza, ficando à vista uma paisagem que tanto pode ser real como fruto da imaginação destes quatro prodígios.

E na contracapa…a vibe e o mood mantêm-se e a natureza continua a dominar! Para além da lista dos temas estão presentes ainda alguns agradecimentos (o que não só acaba por servir de ficha técnica como também se torna numa incrível demonstração da maturidade e agradecimento para com aqueles que tornaram este disco possível). É caso para dizer: tão crescidos que estão os nossos rapazes! Ainda nem tinha ouvido o disco e já estava a gostar do que via destes novos Old Yellow Jack.

Nota apenas para dois tópicos: primeiro, a ficha técnica mencionada não contem o nome do autor do artwork (e tal seria simpático visto ser um espantoso trabalho); segundo, seria benéfico o nome da banda e do disco estarem mais visíveis (na posição e tamanho em que estão correm o risco de escapar ao consumidor mais distraído).
O Disco –Uma Lição de Maturidade e de Evolução na Continuidade

Graças à parceria que o Ideias e Opiniões tem com a Raquel Laíns e a sua Let’s Start a Fire tive o privilégio de ouvir “Cut Corners” bem antes da generalidade dos consumidores. E por este gesto, pelo profissionalismo e pela amizade a Raquel merece um agradecimento especial e todo o respeito da minha pessoa e de todo o Ideias e Opiniões!

Comecemos pelo princípio: o single. “Glimmer” chegou até nós ainda decorria o Inverno. Estávamos em Fevereiro e nada fazia prever que os Old Yellow Jack nos trouxessem novidades tão cedo (afinal de contas haviam lançado um álbum no ano anterior…). A informação que acompanhava o single trazia notícias entusiasmantes! Porquê? Porque dizia-nos, literalmente, isto: “Este disco marca uma viragem no som da banda, deixando o psicadelismo de lado para explorar o indie rock americano de bandas como Pavement ou Real Estate”. E quem não fica entusiasmado e ansioso perante tal viragem na carreira?

  • Glimmer

Da faixa de abertura do disco, e que como já vimos serviu de primeiro aperitivo ao que aí viria, os Old Yellow Jack disseram em exclusivo ao Ideias e Opiniões que foi uma das últimas canções do disco a ser composta. Durante umas férias na Ericeira, criámos esta música e mais outra, quase em simultâneo. Ao início ficámos muito contentes com o potencial de ambas, mas no fim a Glimmer acabou por ser single e a outra acabou por não entrar no disco.”

Incrível como tudo está certo nesta música: o início calmo e aquele “salto” conquistam qualquer um de tão magnético que são; as guitarras na dose certa, subindo de tom e voltando ao ponto anterior nos momentos correctos e as vozes que sabem estar presentes e complementar as guitarras sem as anularem, criando uma melodia agradável e reconfortante.

Esta música transpira coolness meus senhores! Sem dúvida das melhores faixas do disco e uma excelente escolha como primeiro single!

Capa do novo álbum dos Old Yellow Jack, "Cut Corners"

Capa do novo álbum dos Old Yellow Jack, “Cut Corners”

  • Ten Tons

Mudamos de ritmo mas a companhia das guitarras aladas dos Old Yellow Jack permanece, e ainda bem que assim é! Uma vez mais somos conquistados à primeira audição (diria mais: qualquer apreciador de boa música estará a, pelo menos, abanar o joelho e bater o pé passados trinta segundos!).

A respeito desta faixa os elementos dos Old Yellow Jack afirmaram: “Foi a ideia de música mais antiga a entrar no disco. É talvez a canção com o refrão mais pop, e por isso achámos que fazia sentido para segundo single.” E não é que os rapazes tinham, uma vez mais, toda a razão? Ser rock é, muitas vezes, pisar também outros terrenos e aqui é indisfarçável o charme pop do refrão.

A mudança de ritmo entre a restante música e o refrão parece ligeiramente deslocada (naquele que é, para mim, um pequeno detalhe, apenas notado à terceira ou quarta audição), mas quem disse que misturar dois estilos tão distintos seria fácil?

“Ten Tons” foi o segundo single e, na altura, veio confirmar aquilo que já suspeitava: estava para breve um grande disco! Podia ser fogo-de-vista e as restantes músicas serem menos orelhudas, claro, mas algo me dizia que vinha aí a confirmação de todo o talento avistado em “Magnus”.

  • Inner City Sunburns

A mudança de tom é ligeira, o ritmo baixa um pouco e, se a realidade fosse perfeita, as luzes da sua sala de estar baixariam de forma automática quando a terceira faixa começasse a tocar. Ou seja, embora este seja um disco assumidamente rock estamos perante o equivalente a um slow. Nota para o facto de as vozes estarem novamente no ponto, o que é incrível e denuncia um grande trabalho de sincronização e afinação (que, quanto a mim, produziu grandes resultados dado que tornou as vozes confortáveis e acolhedoras).

Os membros da banda declararam que “esta é a música do Henrique do álbum, como a Luanda era no “Magnus”. Tem a vibe mais solarenga de todas as músicas. As vozes e a letra foram completamente alteradas no estúdio como as da faixa “Sailors Cellars Sellers”.

Se dúvidas houvesse aqui está a derradeira prova de que todos os elementos estão “na mesma página”. É que se os próprios não confessassem nenhum de nós diria que o autor desta faixa não é o mesmo das restantes!

Serei o único a ver esta faixa como banda sonora de um pôr-do-sol à beira-mar, rodeado de amigos, e partilhando memórias de tempos que não voltam mais?

  • Cut Corners

Comecemos por ouvir os protagonistas: “Esta é daquelas músicas que mais nos marca no disco. Talvez porque foi das primeiras a surgir, ou talvez porque já a tocamos ao vivo há mais de um ano. O que é certo é que é uma canção que, por estar connosco há tanto tempo mas ainda não a termos partilhado com ninguém, significa algo de diferente. E é uma das que estamos mais entusiasmados por partilhar com o público”.

Podem não acreditar mas quando ouvi esta faixa fiquei com a sensação de que esta música era especial. Não sei se foi a forma como as guitarras se complementam (criando uma harmonia cativante logo á primeira audição) ou se foram os períodos onde as vozes sucumbem ao poder das guitarras aladas, deixando o instrumental tomar conta do espectáculo, mas algo prendeu definitivamente a minha atenção.

Uma vez mais tenho muito pouco a apontar aos nossos amigos amarelos. Diria apenas que as transições poderiam ser um pouco mais suaves e que a letra podia estar mais presente e desenvolvida (não que o instrumental não seja de qualidade).

No fundo encaro esta faixa como se o puro rock se cruzasse na rua com uma balada super melosa e romântica e, naqueles acasos proporcionados pela aleatoriedade do universo, em vez de se odiarem instantaneamente (como manda a sociedade) tivessem…trocado dois dedos de conversa, e criado uma bela amizade (descobrindo assim que se complementam e que não existem motivos para se odiarem). Eu avisei que esta era uma review sentimental e emocional, não avisei?

  • Svenn

Para mim esta é o tema mais estranho do álbum, confesso (e o título a soar a nome do norte da Europa nada tem a ver com isso). As graciosas guitarras continuam lá, mas as vozes desapareceram por completo (quase como se tudo isto seguisse uma sequência lógica e, depois de, na faixa anterior, as vozes terem sucumbido ao poder das guitarras, agora se afastassem por completo para não ofuscarem o seu brilho).

O ritmo sofre algumas variações, como se tivesse vida própria e fosse tão inconstante quanto uma pessoa real (indo da calma completa e de um estado perfeitamente zen a um turbilhão de pensamentos que claramente o afectam, como se recordasse um mau momento da sua existência).

Ao ouvir este tema a imagem que se formou na minha mente (e acredito perfeitamente que seja caso único, fruto da minha prolífica imaginação) era a de um momento de aparente calma num daqueles filmes de terror de Série B. Quase como se todos esperassem que algo acontecesse mas nenhum soubesse bem quando, ou mesmo onde. Será que isto faz sentido para todos vocês ou apenas na minha mente? Enfim, tenham uma imaginação tão fértil quanto a minha ou não, o que é verdadeiramente importante é que oiçam esta grande malha dos Old Yellow Jack!

  • Jingle Jangle

Terei sido o único a pensar que o título deste tema era um qualquer trocadilho envolvendo o Natal? Bom, se calhar fui, mas que enrola a língua e parece “inglês inventado” isso parece! Mas indo a coisas sérias…se tinham ficado preocupados com a aparente viragem mais negra e dramática proporcionada pelo tema anterior tudo isso se esquece ao escutar “Jingle Jangle”.

O início catapulta-nos para um universo onde a felicidade impera e os problemas não entram. Incrível como me consegui alhear completamente de tudo o que me envolvia, navegando por entre os meus pensamentos e a minha imaginação (e antes que perguntem…não, não tomei substâncias ilícitas!).

O ritmo inicial é frenético e obriga-nos a acompanhá-lo (qual carrocel que entra em funcionamento sem nos apercebermos e nos leva a correr, a todo o gás, para apanhar o compasso e não cair redondo no chão); o tom sobe, dando mais atenção aos agudos do que em qualquer outra faixa; e a cadência vai baixando, baixando, baixando até…parar por completo….tudo para depois voltar a subir freneticamente e regressar ao refrão. Que turbilhão que é embarcar nesta viagem liderada pelos Old Yellow Jack!

Terminamos este tópico…ouvindo os próprios Old Yellow Jack: “Já a tocámos muito ao vivo, já a tirámos do set por estarmos fartos, e já a voltámos a incluir. Já foi para nós um single claríssimo, e já perdeu esse estatuto. Assim como “Cut Corners”, é daquelas que está connosco há mais tempo, e as nossas perspetivas sobre a canção já foram mais que muitas.” Parece que não somos os únicos a experienciar um turbilhão com esta música, mas vida de músicos é assim mesmo, não é verdade?

  • Sailors Cellars Sellers

Á primeira vista, e sem ouvir a música, diria que era sobre uma de duas coisas: trava-línguas (vocês, que se estão a rir, por acaso conseguem dizer o título desta faixa, em voz alta, à primeira e sem se enganarem? Bem me parecia!) ou sobre juntar palavras ao calhas para ver no que dá (vão-me dizer que já tinham visto escrito em algum lado “Sailors Cellars Sellers”, é?). Contudo, inexplicavelmente, os Old Yellow Jack não foram por nenhum destes dois caminhos.

“Título engraçado. De entre estas três palavras, nem o próprio Guilherme sabe qual delas canta no refrão. E assim ficará. O refrão e todas as harmonias foram inventadas no estúdio com uma guitarra acústica e ajuda do Diogo Rodrigues (da Cuca Monga, que gravou grande parte das vozes do álbum)”. O título é sem dúvida, engraçado, mas mais piada ainda tem o facto de nem os próprios membros da banda saberem qual das três palavras é cantada no refrão (e não há honestidade maior do que esta!).

As quebras de ritmo ficaram para trás, a aposta apenas na vertente instrumental também, e o resultado é uma das faixas mais consistentes de todo o disco. A paz reina novamente mas por mais que o ritmo acalme a cabeça irá sempre menear tal é a capacidade magnética do refrão. Não me importo nadinha de não saber qual das três palavras é cantada no refrão….estarei sempre demasiado ocupado a desfrutar do momento, tentando eternizá-lo em cada acorde e em cada agudo.

  • Beat Life

E assim, enquanto o Trum….Diabo esfregou um olho, chegámos à última faixa do disco. Procuram a derradeira faixa para acompanhar uns créditos finais? Tem de ser rock mas piscar um olho aos blues? Então tenho boas notícias: “Beat Life” é o tema que tanto procuram!

Chegados a este momento começam a faltar adjectivos para qualificar a mestria do trabalho dos Old Yellow Jack. É que quando pensamos que eles já deram tudo eles atingem novos limites, criam novas atmosferas, quebram ainda mais barreiras e voltam a levar o nosso queixo a embater com estrondo no chão e a nossa cabeça no tecto (de tantos pulos que damos e danças que fazemos, claro)!

 “A melhor maneira de acabar o disco. Só tocámos esta música ao vivo provavelmente uma vez, e foi há mais de um ano atrás. Também é uma canção antiga, mas que não costumávamos tocar habitualmente. Vamos apenas dizer que alguém vai ter de passar algum tempo a reaprender o solo completo do fim da música!”

Fazemos das palavras dos Old Yellow Jack nossas: é a melhor forma possível de encerrar o disco! Mantem-se a consistência e o ritmo, as guitarras parecem ganhar vida própria e as vozes aparecem a espaços, fazendo sentir a sua afinação.

Ao longo de todo o disco mantive um sorriso tonto na face, repetindo vezes sem conta para mim próprio: “estes rapazes cresceram mesmo muito desde o EP de estreia!”. É que tomara a muitas bandas consagradas conceberem um disco tão bem pensado, planeado, executado e afinado quanto o é este “Cut Corners”!

Arrisco dizer que se o colocássemos para aprovação numa prova cega (sem ter, portanto, acesso a qualquer informação dos membros da banda) muito poucos, ou mesmo nenhuns, diriam que se trata do seu primeiro álbum de longa-duração. E ganhar tanta vida e experiência em tão pouco tempo merece um grande elogio!

Estou plenamente convencido que haverá um “antes” e um “depois” na música portuguesa por causa deste disco dos Old Yellow Jack. Apesar de ano após ano se criar muito boa, e inovadora, música em Portugal não conheço nenhum outro projecto que, ao primeiro disco de longa-duração, demonstre tanta personalidade, consistência e potencial sem nunca cair em lugares-comuns e em ritmos gastos ou repetitivos. Se a todas estas qualidades juntarmos mensagens fortes e um conceito que acompanha todo o álbum sem nunca ceder à tentação do facilitismo temos os condimentos para um dos melhores álbuns do ano!

Se o rock é a vossa praia mas não estranham o universo pop e não querem ficar de fora do maior fenómeno da música portuguesa da actualidade então este disco foi criado, e gravado, a pensar em vocês!

 

Agradecimentos: Raquel Laíns e a sua Let’s Start a Fire; Old Yellow Jack (pelo talento, pela honestidade e pela boa onda com que descreveram cada uma das oito faixas do disco).

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