Música

“Nevermind” – O Disco da Minha Vida

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Este mês, mais que uma crónica decidi refletir sobre o disco da minha vida, “Nevermind” dos Nirvana, aproveitando o facto de o mesmo celebrar o 25.º aniversário da sua edição.

Contextualizando, actualmente tenho 34 anos de idade, o que significa que a minha infância, e grande parte da minha juventude, foi vivida sem internet, sem Tv cabo, sem algumas estações de rádio que hoje em dia se dedicam à música com um carácter mais alternativo. O que eu ouvia a nível musical era o que passava no “Top+”, alguns videoclips e a música dita mainstream que ocupava a quase totalidade da programação radiofónica. Não é de estranhar que entre as minhas primeiras paixões musicais se incluíssem os nomes de Michael Jackson, Bon Jovi, Xutos & Pontapés e Aerosmith. Anos antes na minha infância também ouvia os Ministars e os Onda Choc.

Um dia no Top+, decorria o ano de 1994, tinha doze anos acabados de fazer, quando ouvi, e vi, um videoclipe acústico, gravado ao vivo em Nova Iorque, nos estúdios da Sony e nunca mais me esqueci de três coisas:

A música: About a Girl”. O álbum: “MTV Unplugged in New York”. A banda: “Nirvana”

Kurt Cobain

“Fiquei tão maravilhado com a música, e com o ar frágil, delicado e amargurado do vocalista, que se apresentava com o olhar cabisbaixo, um casaco largo de malha, umas calças de ganga e umas “all stars”, que no natal desse ano a prenda que pedi foi esse CD.”

Fiquei tão maravilhado com a música, e com o ar frágil, delicado e amargurado do vocalista, que se apresentava com o olhar cabisbaixo, um casaco largo de malha, umas calças de ganga e umas “all stars”, que no natal desse ano a prenda que pedi foi esse CD. O fascínio foi de tal ordem, que na segunda-feira seguinte cheguei à escola e tive o seguinte diálogo com um amigo meu da altura, dois anos mais velho que eu e com quem era habitual falar sobre música.

“Eu: Hugo, tens que ouvir uma banda incrível! Chamam-se Nirvana e têm um disco recente o “MTV Unplugged in New York”, que é tão bom, acho que vais adorar!

Hugo: Estás a falar dos Nirvana? Do Kurt Cobain?

Eu: Sim, acho que sim. Não sei o nome do gajo, mas deve ser.

Hugo: Ouviste o “Unplugged”: uma coisa calminha, com guitarras acústicas, foi isso?

Eu: Sim, sim! Porquê, não gostas?

Hugo: Gosto (dito com um tom de desinteresse), mas isso não é Nirvana!

Eu: Então?

Hugo: Tens que ouvir Nirvana a sério e depois falas comigo! Amanhã trago-te umas cassetes para ouvires!

Eu: Obrigadão!”

No dia seguinte, tal como prometido, o Hugo trouxe-me as referidas cassetes (daquelas que a fita ficava presa no leitor, que havia sido oferta com uma colecção de clássicos da Disney, alguns vão-se lembrar). Entre as cassetes encontrava-se o “Bleach” (primeiro disco dos Nirvana), o “In Utero” e um tal de “Nevermind”, que por acaso foi o primeiro que ouvi.

Cheguei a casa e fui ouvir as cassetes que o Hugo me emprestou. Começo a ouvir o “Nevermind” e levei um estalo tão grande na cara, seguido de um valente murro no estômago que a minha vida havia mudado. Lembro-me como se fosse hoje! Ainda por cima o disco começa logo com a “Smells Like Teen Spirit”! Naquele momento sinto que tudo fazia sentido, tinha encontrado a banda da minha vida, o som que refletia o que sentia. Pouco percebia de inglês, mas não era preciso, a raiva, a desafinação, os gritos, os gemidos, as distorções na guitarra, as pancadas na bateria como se não houvesse amanhã, aquele baixo que harmonizava a música numa perfeita desarmonia, era tudo imperfeitamente perfeito.

Os Nirvana produziam um som completamente contra-corrente e “Nevermind” era o seu expoente máximo. Se há bandas e músicas que marcam gerações, talvez o “Thriller” do Michael Jackson tenha marcado a primeira fase da minha vida (década de 80), mas sem sombra de dúvida que a “Smells Like Teen Spirit” e os Nirvana marcaram a segunda década, a de 90.

Numa altura sem internet, sem o facilitismo de ouvirmos música dos quatro cantos do mundo, os Nirvana surgiram na minha vida como uma pedrada no charco, a “geração rasca”, tinha agora voz, ou pelo menos eu tinha-a.

Não tardou a que o CD me fosse oferecido nalguma época festiva, ainda hoje possui a etiqueta do preço, 1393$00 (escudos). Abri-o como se estivesse a abrir o baú do tesouro! A icónica capa de “Nevermind” representa um pouco o sentimento de Kurt Cobain e pode em certa medida ser entendida como uma metáfora: o dinheiro e capitalismo fazem parte da nossa vida, desde pequenos.

O booklet conta ainda com uma imagem distorcida da banda em que Kurt levanta o dedo do meio, mas o melhor e mais intenso fica a cargo do mais importante: da música. Não consigo escolher a minha preferida, todas me tocaram de forma única: da explosiva “Lithium” à incontornável “Come as You Are”, passando por “Breed”, “Polly”, “Drain You” e acabando em “In Bloom”.

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“O booklet conta ainda com uma imagem distorcida da banda em que Kurt levanta o dedo do meio, mas o melhor e mais intenso fica a cargo do mais importante: da música.”

O disco da minha vida foi editado originalmente em 1991, e conta com a produção de Butch Vig, baterista dos Garbage e que produziu entre outros, álbuns de Smashing Pumpkins, Soul Asylum e Sonic Youth. “Nevermin”, vendeu mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo, tendo alcançado o sucesso global que Kurt nunca procurou nem desejou. O grunge passou a figurar em todos os dicionários da história da música.

Kurt Donald Cobain, infelizmente partiu cedo de mais, juntando-se ao mítico grupo dos 27 (músicos que faleceram com 27 anos: Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, entre tantos outros). Sem o saber na altura Kurt, e os seus Nirvana, revolucionaram a história da música para sempre e marcaram uma geração, que se lembra perfeitamente da primeira vez que ouviu aquele som cru, intenso, desafinado, repleto de angústia, ironia e desejo de liberdade.

Os Nirvana sem querer chegaram ao topo do mundo, e pelo caminho revolucionaram a música e a minha vida que nunca mais voltaram a ser as mesmas. Perante a questão “Qual o disco da tua vida?” apercebo-me que muitos têm dificuldade em responder. Eu não tenho a mínima dificuldade: o disco da minha vida é o “Nevermind” dos Nirvana!

Se é o meu preferido da banda de Aberdeen? Não, esse lugar guardo-o para a compilação “Incesticide”. Mas é o que mais impacto causou na minha vida, até hoje nunca mais voltei a sentir por nenhum outro disco o que senti a primeira vez que o ouvi.

Regresso no próximo mês, até lá não se esqueçam de ouvir boa música…

 

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