História

Napoleão Bonaparte: De Imperador dos Franceses ao Exílio de Sta. Helena

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“Nas revoluções há duas espécies de homens: os que as fazem e os que delas aproveitam.” – Napoleão Bonaparte

Quem foi Napoleão Bonaparte? Como é sabido, de uma forma muito genérica, Napoleão Bonaparte, para além de ter sido um grande estratega militar, teve um grande peso na política francesa e, consequentemente, na política europeia. No entanto, às vezes, só é conhecido por pormenores que “escondem” os seus feitos, como por exemplo a sua baixa estatura, uns meros 1,68 metros. No entanto, para os padrões de época, em França, era alto! Em época de guerra era habitual denegrir a imagem dos rivais e o “mito” da sua estatura foi criado pelos rivais germânicos e ingleses.

Napoleão Bonaparte (1769 – 1821) nasceu em Ajácio (Córsega). Estudou nas escolas militares de Brienne (1779 – 1884) e de Paris (1784-85). Em 1793, distinguiu-se com mestria, tornando-se General de Brigada. O Directório (regime adoptado pela Primeira República Francesa, que era constituído por cinco Directores) mandou Napoleão Bonaparte reprimir a sublevação de Paris em 5 de Outubro de 1795. Consequentemente extingue a ameaça de insurreição e consolida as suas bases para um novo Directório. Napoleão Bonaparte enquanto General, para além de reprimir a sublevação, tinha fortes convicções políticas; o que reforçou e agraciou o seu estatuto na sociedade francesa. Foi promovido a comandante do exército do Interior e recebeu o comando do exército francês em Itália.

Assim, deixando, por um momento, a biografia da figura de Napoleão Bonaparte, refiro a particularidade destes feitos históricos, que mal ou bem, são falados e utilizados tanto como fonte de estratégia militar, como utilizados no mundo imaginário. Deste modo, dou ênfase ao fenómeno da série “Games of Thrones” (GoT), ou nos livros “As Crónicas de Gelo e Fogo”, para quem vê e acompanha ao pormenor, percebe que a Batalha de Summerhall, no início da Revolta de Robert Baratheon teve como inspiração a Batalha de Itália, em que Napoleão Bonaparte derrotou três exércitos! (Confesso o meu pecado de ter visto GOT só até à segunda temporada).

Agora depois de falar de um dos momentos de influência dos feitos de Napoleão, é tempo de relatar a passagem de General para Imperador. A 2 de Dezembro de 1804, foi consagrado Imperador dos Franceses, pelo Papa Pio VII, na Catedral de Notre Dame, na capital francesa. Nesta época, o General exercia as funções de Primeiro Cônsul Vitalício da República Francesa, foi colocado sobre a sua cabeça a coroa de Imperador dos Franceses. Este marco ritualizado marcou definitivamente a historiografia francesa, deu-se início a um novo regime absolutista. Durante 10 anos a França Republicana mudou drasticamente e alterou significativamente a configuração do quadro europeu.

Ora bem, contrapondo alguns factos biográficos de Napoleão Bonaparte, de uma forma muito sintética, entende-se de alguma forma, o quão marcante é esta figura durante o período da época contemporânea. Sobre isto, vou falar um pouco da Batalha de Nações, ou a Batalha de Leipzig, em Outubro de 1813. Porque será esta Batalha tão importante? Advém da particularidade de Napoleão Bonaparte decretar o chamado “Bloqueio Continental”, que pretendia aniquilar a economia inglesa com o fecho dos portos. Obviamente, não agradou a todas as nações europeias. Numa forma de provocação, a Rússia permite a abertura dos portos aos ingleses e seus aliados. Rompida a guerra, foram 3 dias de confronto, que envolveram 500 mil soldados. Napoleão Bonaparte venceu e incendiou Moscovo mas não estava a contar com a perspicácia do Czar, em atrasar as negociações de Paz, fazendo reter a sua presença no seu território até ao Inverno rigoroso. Teve uma importância fundamental no decurso do declínio do Império Napoleónico.

  “Já fiz demasiado enquanto Imperador; é tempo de voltar à guerra!” – Napoleão Bonaparte

Portanto, a privação das necessárias bases logísticas perante o inverno russo, durante a Campanha da Rússia, daria a ordem de retirada a 19 de Outubro de 1813 e a invasão terminou com perdas humanas gigantescas. No entanto, como é aclamado por Alan Axelrod, neste período ainda dominava o povo francês e continua a ocupar o trono, mesmo com a sua frustração e ódio ao exército russo.

O ponto culminante da queda napoleónica começa, precisamente, na Batalha de Borodino, em 7 de Setembro de 1812, marcada pelas enormes perdas humanas do exército russo. Napoleão era ambicioso, queria conquistar cada vez mais terras e consolidar o seu grande Império para fora de França. Esta batalha foi um duro golpe na Campanha da Rússia. Apesar das enormes perdas russas, os franceses também sofreram avultadas baixas. A isto tudo, acrescentava-se o facto de o exército francês estar dominado pela exaustão. Especulando um pouco, se os franceses tivessem em condições físicas e psicológicas fortes, muito provavelmente, o desfecho da campanha napoleónica na Rússia poderia ter acabado de outra maneira.  Assim, lembrando um acontecimento semelhante na época contemporânea, não esquecer do “Mito do General Inverno”, em que Hitler foi derrotado e o General Kleist afirmou: “A principal causa da nossa derrota foi o inverno ter chegado mais cedo, com grande intensidade.”

Por isso, não é de estranhar o recuo gradual do exército russo e que as forças francesas não tenham encontrado resistência à entrada de Moscovo. Com a razia militar dos russos na Batalha de Borodino, o Czar Alexandre I teve o espírito de “Perdi uma batalha, mas não perdi a Guerra”. Não fora uma decisão nova, já que sempre que os russos recuavam os generais davam ordens para se incendiar todos os campos agrícolas e aldeias que houvesse no caminho. Porquê? Para que os franceses não tivessem hipótese de se reabastecer; denomina-se por táctica de terra queimada. Foi, portanto, uma posição que Napoleão Bonaparte não esperava por parte de Czar e nem a forma como conseguiu feriu o seu orgulho. Quando pensava em negociar os termos de rendição, viu-se a braços com uma conquista de uma cidade vazia e completamente queimada.

Assim, depois de um mês em Moscovo, iniciou-se a marcha de regresso a França, enquanto o exército russo estava a ser reforçado. Em Novembro, o exército francês atravessava o rio Berezina, na actual Bielorrússia. Devido ao inverno rigoroso, exaustão e fome, o “grand armée” estava reduzido a 40 mil homens. Para o Exército Francês, e para a população francesa, o termo “Berezina” ficou, até aos dias de hoje, conotada como “catástrofe”.

Depois da tragédia no território russo, é interessante perceber que Napoleão Bonaparte conseguiu reconstituir o seu exército efectivo para 350 mil soldados, até 1813! Em tão pouco tempo reconstituir o seu próprio exército!? Uau, impressionante, não acham?

No entanto, a Europa estava contente com o declínio de Napoleão. Foi decidido organizar um contra-ataque, e a Prússia, a Áustria, a Grã-Bretanha, Espanha e Portugal, juntaram-se à Rússia e formaram a Sexta Coligação.

De exército reforçado, Napoleão enfrenta a nova aliança com uma atitude agressiva e impõe derrotas à Prússia (actual Alemanha). A mais conhecida dos confrontos, é certamente, a Batalha de Dresden de 26 e 27 Agosto, de 1813. No entanto, na Batalha de Kulm, na Boémia, em 29 e 30 de Agosto, o exército francês é derrotado pela nova aliança. Esta batalha não teve tanta importância apesar de ter sido vencida por um exército um pouco maior.

De forma cronológica, voltando a mencionar a Batalha das Nações: de seguida, aconteceu a Batalha de Leipzig entre 16 e 19 de Outubro de 1813, ou a chamada “Batalha das Nações”. Os franceses saíram derrotados, compostos por 195 mil homens, enquanto o lado da Coligação tinha 430 mil soldados. Ambas as partes registaram grotescas mortes, sendo considerada, até, como a maior batalha europeia, antes da Primeira Grande Guerra de 1914 a 1918.

Qual foi o grande resultado desta grande batalha europeia? De uma forma muito simples, Napoleão Bonaparte é recambiado para França e, automaticamente, sofre perdas territoriais a leste do rio Reno. E para ajudar mais a situação política, Espanha queria desvincular-se da França, sendo que foi um desvinculo progressivo também para os países satélites,

Dado ao seu imenso orgulho, na hora de admitir a sua derrota face à aliança, Napoleão voltou para Paris. Na capital encontrou adversários contra o seu regime nomeadamente o Marechal Ney. O Marechal liderou um motim a 4 de Abril de 1814. Napoleão não queria perder a todo custo, mas teve que ceder a favor do seu filho e abdicar incondicionalmente o trono a 11 de Março de 1814. Esta situação agradou aos Aliados da Sexta Coligação porque acreditavam que haviam vencido e, por isso, ordenaram o exílio de Napoleão para a ilha mediterrânea de Elba, próxima da costa da Toscana. Apesar de tudo, conseguiu manter o seu título de imperador, “governando” a pequena ilha de 12 mil pessoas.

De uma ascensão galopante em cargos militares, de denominação de Imperador pelo Papa, à constituição do império napoleónico, para Imperador de uma pequena ilha, parece que a história de Napoleão Bonaparte acaba aqui, confinado à derrota. Contudo, num golpe de mestria, consegue fugir de Elba, regressar a Paris com o apoio do exército francês e, novamente, tenta destruir a Prússia e a Inglaterra. Foi a famosíssima Batalha de Waterloo, na Bélgica. Napoleão sai derrotado e exila-se na Ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde morreria. Hoje encontra-se sepultado no Museu da Armada, na capital francesa. Simplesmente não há mais linhas para o decurso da beligerância de Napoleão e é imponente a influência do mesmo na história contemporânea.

Algumas referências:

Salvadori, Massimo L, (2005)  História Universal, Napoleão e a Restauração/ Os Movimentos políticos-sociais no século XIX, volume 12, Planeta De Agostini
Ana Cristina Araújo, “Napoleão Bonaparte e Portugal. Patriotismo, Revolução e Memória Política da Resistência”, Carnets, Invasions & Évasions. La France et nous; nous et la France, numéro spécial automne-hiver 2011-2012, pp. 13-28
Neves, Lúcia Maria Bastos Pereira das (2008) Napoleão Bonaparte: imaginário e política em Portugal (c.1808-1810), São Paulo: Alameda, 2008., pp. 364
 Como fazer a guerra / Napoleão Bonaparte ; introd., comentários e rev. da trad. António Paulo Duarte ; coord. ed. da col. Francisco Abreu ; trad. António Manuel Ferreira. – 1ª ed. – Lisboa : Sílabo, 2003. – 101 p. ; 24 cm. – (Clássicos do pensamento estratégico ; 2). – Bibliografia, p. 99-101. – ISBN 972-618-305-7

 

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