Conto

Na Pele de um Refugiado…

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         Rashid sabia que não precisaria de um despertador para acordar naquela manhã, visto que tinha a certeza absoluta de que não iria conseguir sequer dormir. Depois de milhares de quilómetros percorridos, finalmente estava perto de concretizar o seu sonho — que se tratava, simplesmente, da mais pura e tão desejada sobrevivência. A sua sobrevivência e a do seu filho, que dormia pacatamente no seu colo com o normal ar inocente de uma criança de cinco anos. Era intolerável, para Rashid, pregar olho naquela noite, pois isso poderia significar perder a única oportunidade que tinha de conseguir oferecer uma vida decente ao seu filho.

         O sol começara a surgir timidamente no horizonte, e Rashid sabia que estava quase na hora de se preparar para a concretização do plano que tinha elaborado durante os três dias que estava naquela praia situada na Líbia. Ele teria de conseguir entrar num dos barcos insufláveis que, volta e meia, surgiam na praia para carregar mais pessoas que, tal como ele e o seu filho, buscavam por uma vida melhor na Europa. Mas, lamentavelmente, Rashid não tinha dinheiro para comprar as caríssimas passagens para si e para o seu filho, que os traficantes cobravam. Para muitas daquelas pessoas, aquela passagem para a Europa significava a sobrevivência, mas para os traficantes tratava-se apenas de um negócio. E um daqueles muito bem pagos. Se eles conseguissem, por exemplo, preencher totalmente o barco insuflável, isso acabava por render aos seus bolsos cerca de um milhão de dólares. Ora, para esses traficantes, um milhão de dólares era dinheiro suficiente para arriscar a sua vida — e a dos muitos refugiados que transportavam — na travessia do Mar Mediterrâneo, até à tão aclamada e desejada Europa.

         De uma forma calma e bastante suave, Rashid acordou o filho dizendo-lhe baixinho ao ouvido que estava na hora de ir dar uma grande volta de barco. Essa fora a única forma que Rashid encontrara para convencer o filho a acalmar-me perante a possibilidade de virem a ter de passar vários dias dentro de um barco insuflável com centenas de pessoas desconhecidas à sua volta. Com a ajuda de alguns abanões, o filho lá acordou, saltando do colo do pai com um só pulo e sentando-se na areia, esfregando os olhos como que a tentar despertar.

         — Olá, papá. — disse Kurin.

         — Bom dia, filhote. Dormiste bem, meu anjo?

         — Sim, papá. Mas tive um sonho mau… — disse Kurin, olhando para o chão, e enterrando a mão na areia ainda fria.

         — Com a mamã…? — disse Rashid.

         — Sim, papá… Eu estava no colo dela, e ela estava a abanar-me e a sorrir para mim. Mas de repente, um dos homens maus apareceram e deram um tiro na cabeça da mamã. E eu caí para o chão e tentei fugir, mas o homem mau agarrou-me no pé e…

         — Chhhh, calma filhote. Era só um sonho mau. Não passou disso… Tu agora estás bem e em segurança. E o pai promete que, desde que estejamos juntos, nada de mal nos acontecerá. — disse Rashid, apertando o filho contra o seu peito.

         Na verdade, o sonho mau de Kurin não se tratava apenas de um pesadelo. De facto, a sua mulher — e mãe de Kurin — morrera exactamente da forma como Kurin descrevera no seu pesadelo. Fora um jihadista que matara a sua esposa, depois de esta se ter recusado a entregar o seu filho. A Jihad andava a recrutar todas as crianças que pudesse para assim conseguir garantir o futuro do Estado Islâmico. Se não fosse a intervenção rápida de Rashid, e Kurin andaria neste momento de arma em punho a combater pelo Estado Islâmico. Mas Rashid, no desespero de defender o seu filho das garras do jihadista, pegou numa pedra e bateu com ela na cabeça do homem até deixar de sentir a mão. Fora a primeira vez que matara alguém, e isso atormentava-o todos os dias. Mas tinha plena consciência de que fizera aquilo que tinha de ser feito. Nem tivera tempo de chorar a morte da sua esposa — logo teria tempo de o fazer, depois de ele e o seu filho estarem a salvo das garras do Estado Islâmico.

         — Papá… É hoje que vamos passear no barco grande? — disse Kurin.

         — Sim, filho. Vamos tentar que seja hoje, ok?

         — Ok, papá. Eu quero muito passear de barco. Sabes, a mamã disse-me que não gostava de andar de barco. Sabias que ela tem medo da água? Eu acho que é por ela não saber nadar. Não lhe digas que eu sei que ela não sabe nadar, está bom papá?

         Os olhos de Rashid começaram a fraquejar e as lágrimas começaram a surgir de forma abundante. Kurin não sabia que a sua mãe estava, de facto, morta. Rashid tivera de lhe mentir, dizendo que ela já estava na Europa e que eles iam lá ter com ela. Iria ser muito complicado contar-lhe a verdade assim que colocassem os pés na ilha de Lampedusa. Isto se conseguissem lá chegar…

         Ao longe, no horizonte, Rashid vislumbrou aquilo que viria a ser o transporte deles para a Europa — um enorme barco insuflável. E, subitamente, a praia começou a ser invadida por centenas de pessoas que, tal como Rashid e Kurin, tentavam fugir para a Europa.

         — Anda filho, temos de nos apressar! — disse Rashid, pegando no seu filho ao colo e correndo em direcção ao aglomerado de pessoas que já se tinham acumulado na margem da praia, à espera que o barco alcançasse a terra.

         Rapidamente chegaram à multidão e infiltraram-se bem no centro dela, para tentarem passar despercebidos. Rashid não tinha dinheiro para comprar as passagens para si e para o filho, então iria tentar passar despercebido por entre a multidão para, no momento certo, conseguir entrar no barco.

         O barco chegou a terra, e um traficante apressou-se a saltar do barco e dirigir-se à multidão, gritando o preço por cabeça que iria cobrar. Rashid não tinha um tostão furado, por isso não fazia qualquer diferença ouvir o preço. Esperou, calmamente, que as pessoas fossem pagando e entrando à vez no barco. As pessoas estavam nervosas e ansiosas e isso gerava muita confusão — o que era ideal para que Rashid conseguisse entrar no barco sem lhe pedirem o dinheiro.

         Rashid esperou, e esperou, e voltou a esperar pela oportunidade certa para avançar e entrar no barco. E, a dada altura, uma pequena discussão surgiu entre duas pessoas que tentavam entrar para o barco. E isso levou a que os traficantes tivessem de intervir para acalmar os ânimos. E foi nesse preciso momento que Rashid entrou no barco com o seu filho Kurin ao colo. Sentou-se imediatamente junto dos outros refugiados, e tentou ao máximo passar despercebido. Kurin olhava para o papá com um ar assustado, e Rashid, apercebendo-se disso, puxou-o de encontro ao seu peito e disse:

         — Não tenhas medo, filho. É agora que vamos dar a volta de barco. Vais gostar, vais ver!

         Kurin limitou-se a esboçar um pequeno sorriso, ao mesmo tempo que os traficantes gritaram algo entre si, e o barco se pusera finalmente em movimento.

         Meia-hora mais tarde e já estavam em alto mar. A viagem estava a correr sem problemas, mas afinal só ainda tinha passado meia-hora. Os refugiados, ainda assustados, mantinham-se todos em silêncio absoluto. Rashid pensou que o mais provável era todos eles estarem a rezar em silêncio. Reparou que, todos eles, tinham umas marcas escuras nos pulsos, uma espécie de carimbo. Só ele e o filho é que não tinham essas marcas…

         E Rashid fora lento demais a esconder o pulso dos olhares mais curiosos dos traficantes, pois, a dada altura, um deles levanta-se e caminha em direcção a Rashid e Kurin. De arma em punho, aproxima-se de Rashid e diz:

         — Tu! Mostra-me o carimbo!

O coração de Rashid parou. E só naquele momento é que conseguiu entender o que significava o carimbo no pulso: era a prova de que, quem tinha um carimbo, tinha realmente pago para fazer a viagem. Rashid não tinha nenhum carimbo, e isso eram más notícias para ele e para o seu filho.

         — És surdo?! O carimbo?! — gritou o traficante.

         — Eu… Eu… — Rashid não sabia o que fazer e entrou em pânico.

         O traficante não esperou que Rashid se decidisse a mostrar-lhe o pulso, e agarrou no pulso de Kurin constatando que não existia carimbo algum.

         — Sem carimbo! É bom que tu tenhas um carimbo, senão estás em maus lençóis! — disse, apressando-me a apontar a arma à cara de Rashid.

         Rashid olhou para o seu filho, depois em redor como que a pedir por auxílio aos outros refugiados, mas ninguém esboçou qualquer movimento para o ajudar. Olhou para o traficante com os olhos completamente marejados, como que a pedir por clemência. Mas não teve essa sorte, e o traficante decidiu bater-lhe com a coronha da arma na cabeça, o que o fez tombar para o lado.

         — Não façam mal ao meu papá! Nós vamos ter com a nossa mamã à Europa! — gritou Kurin, atordoado de pânico ao ver o seu pai ser agredido.

         — Vocês vão é ver os peixinhos ao fundo do Mediterrâneo! — disse o traficante, agarrando o colarinho de Kurin, e levantando-o no ar.

        Kurin desatou aos berros e a chorar compulsivamente. E isso foi suficiente para libertar Rashid da sua momentânea paralisação. Saltou num único movimento e empurrou o traficante pelas costas, obrigando-o a cair no chão e assim largar Kurin. Rashid apressou-se a correr para Kurin, e abraçou-o com tanta força que quase o sufocou. Quando se preparava para se levantar, já tinha dois traficantes armados atrás de si. Rashid pensou em fugir, mas depois lembrou-se que isso era estupidez, visto que se encontravam em pleno Mar Mediterrâneo, completamente rodeados por água. Pensou em derrubá-los, mas eles estavam armados.

         — Com que então, temos aqui um espertinho, hem?! — começou por dizer o traficante que Rashid tinha empurrado pelas costas — Está na hora de irem dar um mergulho!

         — Não! Por favor, não! — disse Rashid em desespero.

         — Sem carimbo, nada feito! Vamos, toda a mergulhar! — disse um dos traficantes, espetando o cano da pistola nas costas de Rashid.

         Kurin estava completamente em choque, pois não esboçava qualquer movimento.

         — Eu pago! Eu pago as nossas passagens! — disse Rashid.

         — Como? Posso saber?!

        — Quando chegarmos à Europa, eu tenho a minha mulher à nossa espera. Ela tem muito dinheiro! — disse Rashid, esperando que assim conseguisse safar-se do mergulho no Mediterrâneo.

         — Sim, a mamã paga! A mamã paga! — disse finalmente Kurin, chorando compulsivamente.

         — Nada feito! Ou pagas agora, ou mergulho! Escolhe!

         Rashid começou a chorar também, pedindo misericórdia.

         — Eu pago! — disse uma mulher que estava na outra ponta do barco.

         — Ai sim?! — disse um dos traficantes.

         — Sim… Mas… Só tenho dinheiro para pagar por um… Não podes fazer um pequeno desconto…? — disse a mulher.

         — Desconto?! Ah, ah, ah! Essa é boa! Aqui não há descontos! Se só podes pagar por um, então escolhe quem queres salvar! O pai ou o filho!

         — Eu… Eu… Por favor, não me faça isso… — disse a mulher, num tom que ostentava desespero.

         — Escolhe!

         Rashid olhou para a mulher, e ela percebeu imediatamente o que o seu olhar quis dizer. Trocaram um aceno de cabeça e a escolha ficou feita.

         — Escolho… a criança… — disse a mulher, desatando a chorar compulsivamente.

         Rashid agarrou-se a Kurin com todas as forças do seu ser. Olhou-o nos olhos e disse:

         — Aconteça o que acontecer, filho, quero que saibas que eu estarei sempre a zelar por ti, esteja onde estiver.

         — Papá… Não estou a perceber…

         — Quero que saibas que estou muito orgulhoso de ti, por seres um menino tão corajoso. Sabes onde foste buscar essa coragem? À tua mãe. Eu amo-te, filho. Agora vai! Vai ter com aquela senhora e faz o que ela te disser, está bem?

         — Mas, papã… Eu… Eu… Onde é que vais?

         — Eu vou apenas dar um mergulho e, quem sabe, pode ser que até venha a encontrar a tua mamã…

         O traficante não esperou mais e, num gesto cruelmente desumano, empurrou Rashid para fora do barco.

         Rashid ficou a observar, dentro de água, o barco insuflável a afastar-se lentamente, ouvindo o choro ao longe de Kurin que lhe cortava a alma em mil e um pedaços. Quando, por fim, deixou de ouvir o filho a chorar, simplesmente desistiu da vida e foi tentar encontrar o outro grande amor da sua vida: a sua falecida esposa…

FIM

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