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A Minha Vida Num Cruzeiro – 10 Factos!

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Numa altura em que estou muito próximo de completar o meu primeiro ano a trabalhar em navios de cruzeiro, decidi assinalar a data com uma crónica muito particular acerca do estilo de vida único e especial de quem anda nestas andanças. Embora a minha experiência esteja intimamente ligada com uma companhia em particular (a maior do mundo no ramo), o meu contacto com gente de diferentes empresas desta área leva-me a crer que aquilo que lhe estou prestes a contar é algo que se aplica perfeitamente à quase todas as companhias de cruzeiros pelo mundo fora.
Não haja dúvida que viver e trabalhar num navio desta dimensão tem muito que se lhe diga e a realidade é bem diferente daquilo que a estamos habituados em terra. Tendo muitos (espero que todos) pormenores em conta, o objectivo desta crónica é relatar as minhas micro-aventuras pelos sete mares, ao mesmo tempo que lhe revelo alguns dos segredos a bordo! Acredite ou não, muito se passa nestas pequenas grandes aldeias em alto mar e as histórias são mesmo aos milhões.
Aos caros leitores: preparem-se para um verdadeiro inside scoop acerca deste mundo bem frenético dos cruzeiros. Pode ser que o convença a mudar de vida e a embarcar numa nova aventura, tal como eu fiz… há um ano atrás. E que ano esse! Preparados para navegar? Conheça 10 factos interessantes acerca da minha vida num navio de cruzeiros: uma espécie de mistura entre universidade e prisão – ao sabor do mar.

É um ambiente extremamente multicultural.

Consegue adivinhar o número de nacionalidades da minha primeira equipa? (o seu caro cronista aparece no canto inferior esquerdo)

Não existe outra maneira de começar esta crónica. É completamente impossível incluir a mesma quantidade de nacionalidades em qualquer outro sítio no mundo. Se tivermos em conta que, no navio em que actualmente estou, temos tripulantes de 45 nacionalidades diferentes (sem contar com os nossos queridos passageiros), é de esperar que o ambiente seja completamente fora do normal. Apesar de ter uma boa posição, partilhei (e partilho) quarto durante vários meses, tendo conhecido algumas das pessoas mais interessantes da minha vida. Para ter uma ideia caro leitor, o meu actual colega de quarto é do Zimbabué. Do Zimbabué, meus amigos!
Na companhia em que trabalho está bem vincada a cultura de simpatia e hospitalidade para com os passageiros e entre a equipa em si. Quase toda a gente se cumprimenta a toda a hora, algo que se torna de tal maneira um hábito que acabamos a fazê-lo fora do navio (o que deve ser um pouco estranho para quem está do outro lado…).
Viver num navio é igualmente útil para aprender novas línguas. Mas sempre as piores palavras primeiro. Que ser humano seria eu se não começasse pelos palavrões? O mais engraçado é que a cultura dos navios trouxe-me momentos únicos (e parvos) que nunca esquecerei: como dois filipinos a discutirem bem agressivamente em romeno. E quantas pessoas podem dizer que estiveram a jantar à meia noite numa mesa com 7 nacionalidades diferentes? Único, não tenho mesmo vocabulário suficiente para descrever a situação. É claro que por vezes é complicado gerir este caldeirão cultural, mas o bom português tem muita paciência… não tem? Pena que sejamos tão poucos nestas aventuras!

Wi-Fi Grátis = Santo Graal!

Este ponto é particularmente simples: a internet nos navio deixa muito a desejar (e estou a ser amigo). Com base em satélites localizados em Plutão e paga a preço de ouro (8 euros para 100 minutos, e esta é uma das pechinchas a bordo…), é uma tarefa díficil manter-me online com consistência. Dada a minha posição, tenho acesso à internet nos meus computadores de trabalho (fixo e portátil), mas não tenho qualquer tipo de acesso a redes sociais, o que é sempre um inconveniente.
Escusado será dizer que nos tornamos conneisseurs dos ponto de wi-fi grátis em cada porto a que vamos. Se quiserem descobrir onde há internet grátis basta seguir a multidão de tripulantes por aí fora. Raramente desiudimos! Mas para ser sincero, não deixa de existir um lado extremamente positivo nisto tudo… porque menos internet significa fugir à dependência galopante que afecta a nossa geração, o que não é nada mau. Nada mau mesmo.

É fácil perder a noção do tempo…

Isla Roatan, Honduras

Oh se é… com contratos de 6 a 9 meses, seguidos de 2/3 meses de férias, o díficil é não perder a noção das horas e dos dias. Para nós, que trabalhos todos os dias (uns menos outros mais, mas poucos escapam), não existem dias de semana. Existem dias de embarcar/desembarcar, dias de mar e dias de porto. Somos pagos de duas em duas semanas e os dias costumam ser bem longos. Os meses e as semanas, no entanto… passam bem depressa. Porque é bem evidente que tudo é mais intenso dentro do navio (eu que o diga). Para alguns de nós que temos telemóvel, podemos ser chamados para resolver um problema a qualquer momento, tornando o tempo um bem muito precioso.
Nos dias de porto o tempo é ou(t)ro. O navio está geralmente vazio e quase todos conseguem sair para aproveitar o dia. Dependendo dos portos, estamos geralmente atracados durante 8 e 10 horas, algo que permite uma “saidazinha” a uma boa parte da tripulação.

Training, a palavra de ordem do primeiro contrato.

Oh god. Eu quase que sinto que já poderia ser profissional em muitas outras áreas. São milhentos os trainings nas primeiras semanas de contrato, e volta e meia, todos somos chamados para treinos adicionais nos mais variados temas (ainda há dias foi um novo acerca da reciclagem e poluição dentro dos navios).
Para os novos recrutas (quase que parece!) a vida fica ainda mais complicada, porque ao seu trabalho têm de juntar todos estes treinos, infernizando os horários para alguns dos nossos trabalhadores.
Devido ao enorme foco na segurança dentro do navio, cerca de 90% da tripulação tem um chamado safety duty, uma espécie de segunda posição que faz com redobremos a atenção em questões de segurança e emergência. E tudo por causa do Titanic…

O nível de promiscuidade é elevado.

Um ponto bem polémico, mas bem verdade. Esta é a parte universitária da coisa: temos muitos eventos para a tripulação (nas nossas áreas restritas), um bar só para nós e muitas festas. Como ninguém paga renda, comida e afins, o dinheiro sobra para muitos vícios, nomeadamente o alcool (not me!), o que naturalmente aproxima muitos tripulantes uns dos outros.
Existe uma certa promiscuidade nas chamadas crew parties, nas quais as pessoas se conhecem num estalar de dedos, e a magia acontece! São inúmeros os casos de adultério (para não lhe chamar outras coisas) e com tanta gente a entrar e a sair em todos os cruzeiros, há sempre gente nova para conhecer. O que pelos vistos é muito importante para alguns membros da nossa equipa!

A hierarquia está bem vincada.

Sem dúvida! A hierarquia nos navios tem muitos vértices, sendo que um deles está directamente ligado com o tipo de uniforme utilizado abordo. Existem vários departamentos que vestem de branco, recebendo a denominação de oficiais (não só o capitão e a sua equipa, mas outros departamentos).
Eu, o chamado Media Manager, pertenço uma linha de mid-management que está intimamente ligada ao Entretenimento. Somos provavelmente o departamento com mais tolerância no que toca à roupa e aos uniformes que usamos, desfrutando de mais liberdade que a maioria dos nossos colegas, algo essencial para os criativos da equipa.
Existem 3 divisões: Officers (Oficiais), Staff e Crew. Eu pertenço ao staff, o que corresponde a uma média de 200 tripulantes por navio, num total de 1000 team members. Oficiais são cerca de 50 a 70 e o resto da tripulação é considerada crew. Diferenças? Algumas e bem visíveis: cada divisão tem o seu refeitório e apenas oficiais e staff podem andar pelas áreas destinadas aos nossos passageiros. Os membros da crew só podem usar o seu refeitório, os membros do staff podem usar o seu próprio refeitório e o refeitório da crew e, assim sucessivamente.
As regras são muito importantes e têm mesmo de ser cumpridas. Existe tolerância zero para diversas situações, mesmo havendo um ambiente de grande liberdade e boa disposição na maioria dos departamentos.

As oportunidades de crescimento são imensas.

Mais um ponto essencial, especialmente para quem ainda tem dúvidas acerca de se candidatar aos navios. Embora não seja necessariamente fácil começar numa boa posição (tive muita sorte, eu sei), trabalhar em navios de cruzeiro pode ser uma porta aberta para uma nova carreira em diversas áreas. Dando o exemplo da minha mãe: nos últimos cinco anos tem trabalhado para esta mesma companhia e já foi promovida 3 vezes (e dado o seu fantástico trabalho, acho que não vai ficar por aí) e em diferentes departmentos.
As promoções e o crescimento pessoal e profissional são mais que uma realidade aqui e o bom trabalho é bem reconhecido na maioria das vezes. É claro que ajuda estar no sítio certo à hora certa para conseguir algumas posições, mas é também importante estar atento. Porque tudo no navio é bem rápido… é mais fácil encontrar oportunidades caso tenhamos a esperteza “no sítio”.
A única posição para a qual posso subir neste momento é Director de Entretenimento, por exemplo. Algo que, embora não seja uma realidade para o futuro próximo, é possível e vem com muitas regalias (e muito, mas muito trabalho!).

Dá para ver muito, mas nunca dá para aproveitar tudo…

Moorea, Polinésia Francesa

A minha família e os meus amigos têm acompanhado bem de perto esta minha aventura que começou em Port Canaveral, nos Estados Unidos em Outubro de 2016. Em apenas um ano foram quase 20 países visitados, um extra único que só se consegue a trabalhar nestas condições. Apesar dos maravilhosos sítios que temos o privilégio de visitar, muitas das vezes o tempo é limitado, o que faz com que nunca consigamos aproveitar a 100% os portos que nos acolhem todas as semanas. Mas atenção, não deixa de ser uma experiência excelente e que não tem preço! A simpatia e a ternura dos locais é muitas vezes tão ou mais bonita que as paisagens e faz-me sentir uma humildade que não consigo mesmo explicar.

Dá para poupar muito dinheiro.

Este é outro grande atractivo para a maioria das pessoas aqui trabalham. Como já referi, existem muitas coisas “de graça” dentro do navio. É literalmente possível trabalhar um contrato inteiro sem gastar um cêntimo (a excepção dos produtos de higiene pessoal), dado que temos tudo à nossa mercê e diversas horas de refeição. Pena que a comida nem sempre seja a melhor…
O dinheiro poupado ao fim de cada contrato é muito importante e ajuda famílias por todo o mundo. Somos tantos e de tantos sítios diferentes que os níveis de vida são completamente distintos. Os caros leitores ficariam impressionados com algumas das histórias de vida de pessoas da Índia, Indonésia, Sérvia, Colômbia ou Turquia, e de muitos outros amigos e colegas que conheci durante as minhas aventuras. E qual é o denominador comum para muitos deles? A sua presença nos cruzeiros para ajudar para as contas da casa!

Uma experiência sem igual!

Mesmo que voltasse para Portugal amanhã e nunca mais voltasse a esta vida, poderia facilmente dizer que não sou a mesma pessoa que embarcou pela primeira vez há um ano atrás. Apesar de apenas estar a meio do meu segundo contrato, posso dizer que foi uma das melhores decisões da minha vida! Trabalhar num navio de cruzeiros é um óptimo trabalho para uma geração que quer ver mais e quer ser mais. Que não se contenta com uma monotonia que não leva a lado nenhum, e com uma vida que não passa das 9 às 5.
Trabalha-se bem e todos os dias? Sim. Mas todo o retorno não tem preço e vale cada segundo investido. Seja com um começo aos 23 (o meu caso) ou aos 45 (a minha mãe), tudo é possível dentro destes fantásticos hotéis flutuantes que fazem desta vida viciante e completamente diferente de qualquer outra realidade.
É muito díficil estar longe de quem mais gosto, mas as circunstâncias que nos são oferecidas são uma grande ajuda para crescer e uma ainda maior oportunidade para verdadeiramente potenciar o talento de muita gente pelo mundo fora.
Mas sem o constante apoio dos meus amigos e família (em especial a minha mãe), não seria possível apreciar este estilo de vida muito especial. Saudações do Pacífico Sul. Pelos sete mares me despeço! Vemo-nos em Janeiro, mesmo a tempo do Carnaval!
A segunda estrela do mar junior, Miguel Saraiva, signing out

Chichén Itzá, Yucatán, Mexico

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