Política

Migrações – O Cemitério dos Sonhos

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“O sonho comanda a vida”. Estas são palavras de António Gedeão que, para nós europeus, exprimem uma multiplicidade de significados próprios à nossa condição de “ocidentais”. Frequentar um curso superior, exercer a profissão desejada, criar o nosso próprio negócio, ter uma boa casa, um bom carro, constituir família, ter um telemóvel de última geração… Enfim, aspirações legítimas que caracterizam uma sociedade livre, desenvolvida e de consumo. Sonhar faz parte do quotidiano, sonhar é vencer. Mas nem sempre é assim. Muitas vezes, quando as condições assim não o propiciam, a vida “trama-nos” e os projectos, os desejos, os sonhos, têm de aguardar por um momento melhor.

Não faço ideia do desespero que é ter um sonho e não o poder perseguir. Felizmente nasci num país onde, apesar de tudo, me dão as condições necessárias para poder materializar os meus objectivos e, por isso, sei bem que o meu sucesso apenas depende de mim e das oportunidades que eu procurar. Pobres são aqueles que não têm essas oportunidades. Pobres são aqueles que se vêm obrigados a abandonar a sua pátria, a sua família e os seus sonhos.

Na Líbia é assim. Por essas bandas a guerra é senhora. Ceifa vidas e semeia caos, destrói património e cria precariedade. O migrante africano confronta-se então com um dilema complexo: ficar e ser morto ou partir e esperar sobreviver? São estas duas opções que pautam a vida de milhares de pessoas que todos os dias tentam atravessar o mediterrâneo para chegar aos portos da Europa. Umas vezes, as coisas resultam e o sacrifício é recompensado, outras, simplesmente não. São muitos e vêm em barcos, se assim lhes podemos chamar. Não trazem bagagem e estão à mercê da sorte. Quem os traz, é movido pela ganância, autênticos gangues de criminosos que cobram preços exorbitantes por um “passe” para o pedaço de céu que é o continente europeu. O imigrante ocidental deixa o seu país para concretizar o sonho de uma vida melhor, o imigrante africano deixa o seu país para fugir da morte.

Estima-se que cerca de trinta milhões de pessoas em todo o mundo estejam deslocadas dos seus próprios países devido à violência, guerra, perseguição religiosa e falta de emprego e oportunidades. Desses trinta, cerca de dezasseis milhões provêm de África. Os motivos da instabilidade deste território são globalmente conhecidos e variam de país para país. Têm nas suas raízes históricas um conglomerado de factores que impediram um desenvolvimento pleno, autónomo e auto-sustentado.

Em primeira instância, temos as barreiras da xenofobia, do racismo, da ausência de um Estado de Direito democrático representativo, da falta de segurança e coesão social, dos baixos níveis de escolarização, da distribuição desigual dos recursos e dos rendimentos. Por acréscimo, vêm as pragas, as doenças, e a fome. A ajuda é muita e necessária mas insuficiente para satisfazer as necessidades das pessoas.

A comunidade internacional nem sempre consegue estar à altura. Por conveniência política ou económica, a recente posição adoptada por alguns países da União Europeia face às tragédias humanitárias do mediterrâneo é escandalosamente repudiante.

A Europa adoptou uma posição proteccionista e territorial para combater a entrada de migrantes nos seus solos, para salvaguardar o que é “nosso” e deixou para as Organizações Não Governamentais (ONG´S) e voluntárias o cuidado destes apátridas. Escusado será dizer que a partir do momento em que a falta de meios humanos ou financeiros se acentuar e impulsionar a desordem e o descalabro, o já de si escasso sentimento de solidariedade para com os migrantes africanos acabará. Nesse momento, os partidos de extrema-direita anti-imigração europeus poderão gozar de alguma ascensão devido à sua eterna propaganda demagógica e xenófoba o que constitui um perigo não só para os que chegam como para os próprios cidadãos europeus. O ser humano é tolerante, mas apenas até certo ponto.

Migração

Há muito trabalho a ser feito, sem dúvida. A operação Mare Nostrum, levada a cabo entre 2013 e 2014 pelo governo italiano, resultou na chegada de 150.000 refugiados. Tinha um orçamento de cerca de 9 milhões de euros e revelou-se uma autêntica salva vidas. De seguida, a missão foi substituída pela operação Tritão com metade do orçamento e da área da patrulha de fronteira (até 30 milhas das costas de Itália e Malta). “Fracasso” continua a ser a melhor palavra para a definir. O problema não pode ser apenas resolvido à chegada, há que intervir na fonte. Propiciar o restabelecimento de um regime estável e cessar, de imediato, a violência e barbárie na Líbia, e na Síria, deveria ser uma das prioridades da União Europeia (UE). Abrir as fronteiras terrestres, negociar uma política de asilo viável, aumentar os postos de chegada e realojamento e propiciar uma abordagem humanitária para a recolha de fundos são também estratégias importantes para suprir tais carências.

Creio que o sucesso desta operação humanitária dependerá de dois factores: da consciencialização dos governos da UE e da mobilização da opinião pública. O primeiro acontecerá quando os valores da democracia e da Declaração Universal dos Direitos do Homem prevalecerem sobre a política económica, o segundo, dependerá sempre das campanhas de sensibilização dos media, das próprias instituições políticas e do bom senso de cada um. Enquanto os membros da UE não caminharem juntos, de forma a garantir uma operação de busca e salvamento conjunta e firme, muitas vidas se perderão nesse mar que é hoje um verdadeiro cemitério de sonhos.

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