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Middle-Earth – A Criação Segundo Tolkien

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Para leitores e cinéfilos, O Senhor dos Anéis é marco obrigatório em qualquer estante, no entanto, a parcela de história que cobre é quase irrisória, dentro de toda a cronologia e universo de J.R.R. Tolkien. O autor britânico deixou com a sua morte, um número gigante de peças soltas e pequenos resumos da sua visão para a Terra-Média, e inúmeras são as histórias que poderiam ser contadas, se o próprio autor fosse agraciado pelos Valar com mais umas centenas de anos de vida, tal como foram os Dúnedain, do outrora majestoso reino de Númenor. Felizmente Christopher Tolkien, um dos filhos do autor, compilou muito do que ficou escrito em várias obras de referência que passam ao lado do mais casual dos leitores devido à sua complexidade. Muitos leram O Hobbit e O Senhor dos Anéis, mas são obras como o O Silmarillion, ou até mesmos os Contos Inacabados de Númenor e da Terra-Média, que de facto trazem à tona todo um universo, e apresentam ao leitor uma nova perspectiva sobre a escala dos acontecimentos. Esta crónica será a primeira de uma série que, a seu tempo, analisará o mito de Tolkien de uma perspectiva não estritamente académica ou linguística, mas que servirá certamente como guia para leitores e apreciadores da obra de Tolkien.

A existência de uma história muito mais complexa do que a apresentada na trilogia de O Senhor dos Anéis está, sem dúvida, presente no decorrer da sua própria narrativa. Seria impossível explicar os acontecimentos da Guerra do Anel, sem contar uma parte da história antiga do mundo, especialmente o final da Segunda Era quando Isildur usa a espada do seu pai para cortar o dedo a Sauron separando-o assim do objecto demoníaco. No entanto, por mais que uma história desconhecida esteja escondida em nomes estranhos como Khazad-dûm ou Angmar, há uma passagem cinematográfica que contém uma frase que servirá como ponto de partida, até porque desperta um misto de curiosidade, que é benéfico para estabelecer uma ligação.

Depois de falhar a sua passagem pelo desfiladeiro de Caradhras, a Irmandade do Anel tenta escapar aos espiões de Saruman, que vigiam o Desfiladeiro de Rohan, através da grande cidade subterrânea dos Anões, as Minas de Mória. À sua chegada, encontram um massacre que vitimou a outrora grande cidade e todos os seus habitantes, e é fruto da crescente escavação dos anões, que buscam mithril, metal precioso que cobiçam mais do que tudo. Depois de dias sem interrupções, e alguns problemas em encontrar o caminho certo através da montanha, a sua presença deixa de passar despercebida. A cobiça dos Anões acordou algo, uma criatura poderosa, que depois da queda do seu senhor (Morgoth) dispersou e refugiou-se nas profundezas da terra.

New Line Cinema, 2001

No livro, a constatação parte de Legolas, que utilizando a sua visão élfica, vê mais além de qualquer um dos membros da Irmandade. No filme, cabe a Gandalf informar os presentes do perigo que correm.

“Um Balrog. Um demónio do mundo antigo. Este inimigo está para lá de qualquer um de vós. Fujam!”

De facto, a grande curiosidade por detrás de toda esta cena ultrapassa o leitor casual de Tolkien, e para perceber o porquê, é preciso recordar uma passagem importante de Legolas em Lothlórien, depois da morte de Gandalf na luta contra essa criatura. A Passagem é comum em ambos os formatos, mas aqui, para estabelecer equilíbrio, deixo a do livro.

 “Era um balrog de Morgoth – explicou Legolas – a pior maldição dos Elfos, tirando aquele que está na Torre Negra.”

Aqui começa o nosso elo de ligação e contextualização com o mundo antigo. Tanto o balrog, como Morgoth, fazem parte da mitologia de Tolkien, e ligam-se com o mito da criação do Mundo, segundo o autor. E é por isso que esta ligação é estabelecida, para que tudo o que vai ser relatado de seguida não pareça distante e sem contexto. Tolkien tem, para todos os efeitos, uma das peças sobre criação mais originais de todos os tempos, e que bebe de várias religiões e divindades, e até conjugar um certo elemento politeísta com outro monoteísta.

No começo havia Eru Ilúvatar, a entidade suprema e criador singular. Esta entidade surge, no entanto, na companhia de outras entidades fruto da sua criação, os Ainur, que, em acontecimentos futuros, se dividirão em dois grupos principais. Os Ainur, motivados por Eru orquestram uma música, a seu pedido e com a sua contribuição. Embora estes sejam a materialização do próprio Ilúvatar, têm o seu próprio livre-arbítrio, e a liberdade para juntar elementos individuais à grande sinfonia.

No decorrer desta música divina, os Ainur vão juntando as suas nuances à melodia, mas o mais poderoso entre eles, de seu nome Melkor, mais tarde apelidado pelos elfos de Morgoth, tenta subverter a canção de Eru e modificá-la tendo em conta as suas ideias, muito diferentes da vontade do seu criador e reflexo das suas travessias pelo vazio de antes da criação. Certamente que Tolkien não apreciava heavy metal, até porque na altura da sua morte nada tinha esse nome, mas ao ler esta história é bem possível adivinhar um concerto de new age a ser atacado musicalmente por uma banda qualquer de rock pesado. O autor define, no entanto, a melodia de Melkor como “alta e sem substância”. Eru Ilúvatar é obrigado a recomeçar com outro tema, que é novamente arruinado por Melkor. De forma paciente formula ainda um outro, antes do mesmo ser alvo do mesmo destino dos que já tinham sido entoados. Eru repreende Melkor, e embora elogie a sua força, relembra que tudo o que este fizer nunca poderá ultrapassar o seu poder.

Ilúvatar leva todos os Ainur a conhecer a visão do mundo que foi criado no meio do nada. Embora Melkor tenha interferido na melodia e criado muitas das lacunas do mesmo, a sua contribuição não é afastada, e enquanto as eras do mundo se vão desenrolando em frente dos Ainur, estes ficam maravilhados com aquilo que se avizinha, pois vêm a chegada dos “Filhos de Ilúvatar”, os elfos e os homens, que foram introduzidos na última canção pelo próprio sem que estes soubessem.  Eru decide, no entanto, ocultar o fim dos tempos do resto do Ainur, e não se sabe ao certo o quão longe terão eles conseguido ver. É também importante referir que, os Ainur não conhecem a canção na totalidade, uma vez que cada um estava focado na sua melodia e, ou não deram por algumas das consequências do seu contributo, ou não conseguiram detectar alguns dos contributos de outros. Só no fim dos tempos saberão verdadeiramente qual o seu papel na grande melodia e qual a sua ligação com os demais.

Eru Ilúvatar materializa a visão e o “tempo” começa. Os Ainur ficam fascinados com o novo mundo, apelidado de Eä, e muitos deles anseiam por visitá-lo. Os que descem ao plano terreno ficam para sempre ligados ao destino do mesmo. Dos Ainur que entram na recém formada Eä destacam-se quinze entidades superiores, os Valar. As restantes entidades são apelidados de Maiar, mais pequenos em poder, mas que mostram quase sempre filiação directa a um Vala (singular de Valar) específico.

Dos quinze Valar há três entidades importantes, fulcrais para a criação de Arda, a vasta terra criada dentro do mundo de Eä. Manwë é o Rei dos Valar, e assume a liderança destas entidades, embora não imponha a mesma sobre os seus “irmãos” sem lhes dar voz. É também o senhor do Céu e do Vento. De seguida temos Ulmo, senhor das Águas, é aquele que mais intervém e que mais aconselhará os Filhos de Ilúvatar nos tempos que se seguirão. A sua presença em todas massas de água torna-o numa espécie de mensageiro, a sua fúria é imensamente temida. Por último, Aulë, é o Senhor da Terra, a sua mestria com os metais, que são da sua criação, concedem-lhe o titulo de Ferreiro dos Valar.

As três entidades já faladas fazem parte dos oito mais poderosos dos Valar, que reúnem numa espécie de conselho, os Exaltados. Para além dos já referidos surgem também: Varda, Rainha dos Valar, Rainha das Estrelas e e esposa de Manwë, responsável pela criação das estrelas; Yavanna, a Dadora de Frutos e esposa de Aulë, criadora de todos os frutos existentes em Arda; Mandos, Senhor dos Espíritos e que julgará os espíritos dos elfos e homens em tempos futuros aquando da sua morte; Nienna, irmã de Mandos e apelidada de “Aquela que Chora”, pois é a representante da misericórdia e luto; e, por fim, Oromë, caçador dos Valar e Senhor das Florestas.


A amalgama de nomes torna difícil a leitura desta fase embrionária do mundo. No entanto, há um pormenor que, por vezes, escapa e só se torna importante muito depois de todos estes acontecimentos. Eä é plana, e só se tornará um esférico milhares de anos depois desta narrativa. Será preciso esperar por um grande cataclismo já na Segunda Era. Para referência todos os acontecimentos aqui descritos são anteriores à Primeira Era, que começa no ano da chegada dos segundos filhos, os humanos.

Mas, analisando o mito da criação até agora revela algumas particularidades sobre todo este panteão, e parece claro que há inspirações nas mitologias clássicas. A descrição de Ulmo em Contos Inacabados de Númenor e da Terra-Média é bastante explicativa:

Usava uma coroa alta, como de prata, da qual o seu comprido cabelo caía como espuma a brilhar no crepúsculo. (…) Vestia um casaco reluzente, justo como a pele de um grande peixe, e uma túnica verde-carregado que cintilava como fogo do mar (…).  

Ulmo é muito parecido com o que esperaríamos de Poseidon ou Tritão, usando os seus poderes maioritariamente ou para auxiliar navios a chegar a bom porto, ou para castigar aqueles que se aproximam demasiado de lugares que não devem ser explorados. No entanto, é bastante evidente que, durante toda a sua obra, Tolkien está bastante interessado em estabelecer ligações com a mitologia nórdica. Os elfos e o anões são invenções da mitologia nórdica, assim como os orcs e os trolls. Gandalf, vestido de cinzento, pode ser inspirado em Odin, que também se misturava entre os humanos viajando e guiando aqueles com quem convive. O próprio nome “Terra-Média” é utilizado na mitologia nórdica para nomear o plano de existência que Odin e os seus irmãos criam para os humanos, no início dos tempos.

No entanto, é Eru Ilúvatar que mais curiosidade desperta. Tolkien era católico e esta entidade está claramente de acordo com o representado nas religiões abraâmicas. É aparentemente incorpórea e dissociada dos elementos naturais e, por consequência, de uma abordagem pagã. O facto desta entidade ser superior a todas as outras divindades, que parecem ilustrar religiões politeístas clássicas, pode relevar duas coisas: Tolkien está a reforçar a superioridade das suas crenças em relação ao paganismo, ou simplesmente, arranjou uma maneira fabulosa de criar uma ligação plausível que motiva o diálogo e o respeito entre pagão e cristão. No entanto, o autor podia muito bem não estar a reforçar nenhuma ideia em particular.


Voltando à história da criação, os Valar começam a fazer um mundo à sua imagem, com grandes obras que reflectem cada um dos seus poderes. Mas Morgoth, cobiça este novo mundo, e cobiça também o segredo da luz, que é incapaz de criar. A inveja que tem de Iluvatar já era bastante forte antes da criação. Tinha procurado maneira de igualar Eru, procurando pelo vazio o “Fogo Secreto”, que para sua cobiça residia dentro do próprio, e era impossível de igualar.  A sua cobiça neste novo plano de existência transforma-o e converte-o à escuridão.

Incapaz de criar vida, resta a Morgoth converter as entidades mais fracas aos seus desígnios. Começa por seduzir e chamar a si diversos Maiar, que ao serem convertidos, transformam-se em criaturas aterradoras. Os balrogs são Maiar convertidos à causa do primeiro e mais poderoso Senhor das Trevas. Morgoth converte também um Maia (singular de Maiar), originalmente ligado a Aulë, que nas trevas se torna Sauron, um dos seus mais fieis tenentes.

A guerra entre Morgoth e os restantes Valar começa, e este é banido e nunca mais referido como parte dos mesmos! Dos catorze, o último Vala a entrar em Arda é Tulkas, forte guerreiro, e escorraça Morgoth, que é obrigado a fugir e a construir a fortaleza Utumno. A Primavera de Arda começa, e Yavanna aproveita a oportunidade para germinar as árvores e criar os primeiros animais, mas falta um elemento importante a este mundo. Não há luz, e esse é um elemento necessário para subjugar o poder de Morgoth. No esforço conjunto entre vários Valar surgem as duas lâmpadas, Illuin e Ormal, que iluminam parte do mundo. Os Valar, tomam como sua uma ilha central de Arda, a que chamam de Almaren, e que se localiza entre a luz de ambas as lâmpadas.

Embora Morgoth seja o principal Ainur a desrespeitar os desígnios de Eru, há também entre os Valar quem ignore a sua vontade, mesmo quando as motivações não são propriamente malévolas. Aulë, o ferreiro e Senhor da Terra, cansado de esperar pelos “Filhos de Ilúvatar” decide pôr mãos à obra e cria os anões. Criaturas resistentes, são imperfeitas e retorcidas, mas Aulë espera que consigam combater Morgoth. Com medo da desaprovação esconde esta criação dos seus “irmãos”, mas Eru toma conhecimento da sua criação e repreende Aulë por usar um poder que só lhe cabe ele. Este, desgostoso, prepara-se para os destruir. No entanto, perceber que estas criaturas têm uma voz e uma vontade, faz com que Ilúvatar se compadeça delas, sustendo a mão do Ferreiro. Recusa-se a corrigir as suas imperfeições e obriga-as a enveredar por um longo sono, pois nenhum novo ser deve acordar antes dos elfos e dos humanos.

Yavanna tenta estabelecer com Manwë uma regra que permita proteger todos os animais e plantas que criou, especialmente, depois de saber que os anões criados pelo seu companheiro Aulë são criaturas de grande engenho, que podem destruir as suas florestas. Teme pelas mesmas, incapazes de se deslocar e fugir. Mas, o seu receio é apaziguado ao recordar alguns dos motivos da Música dos Ainur, que referem que alguns espíritos chegarão com os “Filhos” e tomarão a forma de árvore defendendo a sua vontade. São os ents, os Pastores de Árvores, aos quais pertence Barba de Árvore de As Duas Torres. Também as grandes águias são referidas entre estes espíritos, tão fulcrais na polémica sobre a facilidade com que seria possível destruir o Anel de Sauron e reduzir a trilogia de O Senhor dos Anéis a poucas páginas. Um dia abordaremos a questão!

A paz na ilha de Almaren é, rapidamente, interrompida por Morgoth, que refugiado em Utumno procura uma maneira de contra-atacar os Valar. Para isso, começa a corromper as obras dos seus antigos “irmãos”, causando a destruição e a doença em todas as coisas vivas. Os Valar procuram por ele mas, sem saberem, Morgoth chega à ilha e destrói Illuin e Ormal, as lâmpadas que tinham criado tão cuidadosamente. Com a destruição da ilha, um grande mar abre-se, sendo que Arda fica dividida em duas massas de terra, Aman e a Terra-Média. Os Valar fogem e refugiam-se nas terras de Aman e aí fica estabelecido o reino de Valinor. Yavanna cria duas enormes árvores que serão o pilar do seu contributo na grande canção dos Ainur. Estas árvores são a principal fonte de luz em Arda. É difícil imaginar um mundo sem sol, mas levarão milhares de anos para a criação do Sol e da Lua no mito de Tolkien!

Este reino de Valinor, o “Reino Abençoado”, é minuciosamente modificado pelos poderes dos Valar, de forma a proteger as terras de um possível ataque de Morgoth, e lá esperam por muito tempo, com paciência e na indecisão do que fazer. Apenas Oromë e Yavanna viajam à Terra-Média para tentar convencer alguns Maiar a lutarem contra o Senhor das Trevas.

Morgoth continua a avançar sobre o mundo e cria a noroeste da Terra-Média outra fortaleza, Angband, onde o seu tenente Sauron reina. Este é o mundo que os elfos vão encontrar ao despertar. Varda, a Senhora das Estrelas, sabendo que os primogénitos vão chegar numa noite estrelada cria constelações brilhante para os guiar. Mas é Oromë que, por acidente, descobre os elfos. Alguns fogem do Vala, outros ficam espantados com a sua imponência e afabilidade. No entanto, Morgoth está atento e corrompe muitos dos recém chegados elfos, o resultado são os orcs, criaturas horrendas que todos aqueles que leram O Senhor dos Aneis reconhecem, e sim, no início eram elfos, tal como Saruman refere ao líder dos Uruk-hai no filme de A Irmandade do Anel.

O acordar dos elfos dá grande ânimo aos Valar, que decidem avançar em conjunto contra Morgoth. O cerco a Utumno é horrível, tão horrivel, que os elfos conseguem sentir a terra a tremer, embora não saibam o motivo de tal acontecimento.  Os Valar saem vitoriosos, e Morgoth é preso e levado a julgamento por Manwë. Pede perdão ao Rei dos Valar, mas de nada lhe serve, será encarcerado por Mandos durante milhares de anos. Quanto aos seus seguidores, muitos desaparecem, como é o caso de Sauron, escondido nos recantos mais escuros da Terra-Média. A guerra pelos futuro dos elfos está acabada, mas para os Primogénitos, a jornada só agora começa!

Os Valar decidem tornar-se amigos dos elfos, mas os “filhos” têm alguma desconfiança e decidem enviar embaixadores a Valinor. Os enviados apaixonam-se pela luz das duas árvores do reino e, por ordem dos Valar tornam-se os líderes do seu povo. Assim começa uma penosa marcha desde a Terra-Média até ao “Reino Abençoado”. Os embaixadores, agora líderes dos Eldar, os elfos que aceitaram o chamamento dos Valar, seguem Oromë. Destacam-se entre eles Ingwë, que lidera os Vanyar; Finwë, que governa entre os Noldor; e Thingol e o seu irmão Olwë, que guiam os Teleri. Aqueles que rejeitam o chamamento dos Valar por desconfiança optam por residir na Terra-Média, são os Avari.

Aqui começa também a grande confusão de nomes de Tolkien, o que para alguns está presente desde a primeira página de O Silmarillion. Dos Eldar apenas dois grupos chegam verdadeiramente a Valinor: os Vanyar e os Noldor. Os Teleri dividem-se em grupos e perdem-se entre desistências e motivações diversas durante a jornada. Alguns chegam a Valinor, mas os que ficam na Terra-Média irão edificar reinos que serão importantes em acontecimentos a ocorrer. Os poucos Teleri que chegam perto de Valinor são liderados por Olwë, pois o seu irmão Thingol perde-se e acaba por permanecer na Terra-Média no seu reino de Doriath, e toma como esposa uma sábia Maia, Melian, casal peculiar que dará os seus frutos.

A hoste de Olwë perde demasiado tempo à procura de Thingol e, por isso, a sua entrada em Valinor é dificultada. No entanto, através da boa vontade de Ulmo, é-lhes atribuída uma ilha solitária chamada Tol Eressëa, perto da costa de Valinor, e que tinha servido de transporte para as outras hostes vindas da Terra-Média. O resultado é uma diferença significativa na linguagem e na cultura entre elfos.

Enquanto os Filhos de Ilúvatar prosperam em Valinor, há uma sombra presa pelos Valar. Morgoth está à espera do momento da sua libertação para espalhar novo mal sobre Arda, mas serão precisos o equivalente a três eras para que recupere a sua liberdade e, para isso, terá de enganar os Valar, e seduzir os elfos com mentiras e subterfúgios. Mas essa é uma história para outra crónica…

Até lá voltamos à Ponte de Khazad-dûm, onde Gandalf defronta o Balrog para tecer uma última consideração que pode mudar a perspectiva que temos de todas as personagens da saga de O Senhor dos Anéis.

John Howe, 1995

Nesta crónica tornou-se claro que Sauron e os balrogs são ambos Maiar, mas há uma peça de informação escondida em toda a lenda da Terra-Média, e que o comum dos leitores desconhece. No ano 1000 da Terceira Era, um grupo de cinco Maiars são enviados para a Terra-Média de forma a ajudar os seus povos contra a ameaça de Sauron, que começa a fazer-se manifestar. Para situar tudo isto, O Senhor dos Anéis começa no ano de 3001 da Terceira Era, com a festa de aniversário de Bilbo Baggins.

Este grupo de cinco Maiar formam os Istari, os feiticeiros. Entre eles está um Maiar de Manwë e Varda, de seu nome Olórin. Para os habitantes da Terra-Média Olórin terá vários nomes, para uns Mithrandir, e para outros, Gandalf, o Cinzento. Sim, a companhia de feiticeiros que chega à Terra-Média é composta por Gandalf, Saruman, Radagast, e dois feiticeiros azuis que desaparecem pouco depois sem deixar rasto, Morinehtar e Rómestámo. Todos são Maiar, tal como Sauron e os balrogs.

Em Khazad-dûm, Gandalf está a enfrentar uma entidade semelhante a si, e isso muda totalmente a perspectiva de todo o acontecimento. Da mesma forma que a existência de Morgoth, como Valar, coloca Sauron como peça secundária e menos poderosa num universo onde não idealizávamos um mal tão grande quanto o seu. A história da criação, e em geral, todas as partes que compõe Silmarillion colocam a descoberto toda uma nova escala, que esta série sobre a Terra-Média, Middle-Earth, vai continuar a explorar em crónicas futuras…

Mae g’ovannen!

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