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Michael Keaton – De Batman a Actor

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Hollywood já nos tem habituado ao “renascer das cinzas” de uma ou outra fénix que ganha vida quando menos se espera. Uma fénix que se consegue reinventar enquanto actor quando nada apontava para tal. Uma fénix que era dada como morta ou acabada e que volta com toda a força e resplandecência para ninguém conseguir ficar indiferente à sua ressurreição.

Se na mesma Hollywood a juventude pode estar associada a uma maior oportunidade e também variedade de papéis, a experiência pode valer a certos actores, a oportunidade de brilharem no grande ecrã onde outrora não tiveram grandes experiências. Ou se as tiveram e não as souberam aproveitar da melhor forma. O que não raras vezes acontece. O caso mais recente deste fenómeno digno de associação ao pássaro lendário da mitologia grega e também aquele que me levou a escrever esta crónica é o do actor Michael Keaton.

As razões partem, sobretudo, da visualização e do meu enamoramento pelo filme Birdman (2014) há cerca de um ano e, mais recentemente, com O Caso Spotlight (2015). Dois excelentes filmes protagonizados pelo actor de 64 anos de idade que há muito tempo se encontrava afastado das luzes ribalta, após ter a sua imagem e carreira associadas ao papel de Homem-Morcego em Batman (1989) e Batman Regressa (1992), ambos dirigidos pelo excêntrico Tim Burton. Papel que deveria ter despido mais cedo principalmente quando demonstra o talento que tem para a representação.

Não me levem a mal, Batman é uma das minhas personagens de ficção favoritas e os filmes de Tim Burton, não estando ao nível da trilogia realizada por Christopher Nolan sobre a mesma personagem, até tinham uma certa piada dentro do género. Simplesmente a carreira de um actor de 64 anos, não pode nem deve, estar associada apenas ao papel de uma mítica personagem quando existe talento para mais. Até porque quando falamos de Michael Keaton, falamos de um actor com vários filmes no currículo no pré e pós-Batman. Ele esteve em Turno da Noite (1982), Os Fantasmas Divertem-se (1988), Muito Barulho Por Nada (1993), The Paper – Primeira Página (1994) e Jackie Brown (1997) entre outros e construiu uma carreira ligada à comédia onde nem sempre conseguiu ser o protagonista dos filmes onde entrou. Essa falta de protagonismo levou imensa gente (onde eu me incluo) a associá-lo sempre ao Batman de Tim Burton.

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Michae Keaton como “Batman”

Uma vez que nos filmes (de qualidade duvidosa por vezes) em que entrava e as personagens a que Michael Keaton se prestava, o intuito principal passava por entreter o público, este foi deixando cobrir a sua apreciável capacidade de representar com camadas humor e feitos heroicos que não deixavam transparecer o grande actor que ali estava. Isto ao ponto de pouca gente (como eu outra vez) saber daquilo que ele era capaz de fazer em papéis mais sérios e dados à representação propriamente dita. Depois de vários filmes menos conseguidos e de participações em longas-metragens de animação e videojogos, onde emprestou a sua voz a diversas personagens, a oportunidade de mostrar realmente o que valia lá apareceu…22 anos depois de ter participado no primeiro Batman.Foi o ano passado e pela mão de Alejandro G. Iñarritu que Michael Keaton largou física e espiritualmente o fato e a capa preta do herói de ficção para encarnar, imagine-se, um herói da representação.

Em Birdman, assistimos à preparação de uma peça de teatro protagonizada por actor que tenta afastar-se de uma personagem de acção que representou nos tempos mais gloriosos da sua carreira, o Homem-Pássaro. Sim, a história do dito filme confunde-se com a própria carreira de Michael Keaton que tentou nos seus últimos papéis afastar-se da imagem que tinha enquanto herói acção e da participação em filmes comerciais, para se poder dedicar a uma representação mais adulta e em filmes com maior seriedade e, na minha humilde opinião, qualidade também. O seu papel em Birdman foi tão bem conseguido que lhe valeu a sua primeira nomeação para um Óscar da Academia. Infelizmente para Keaton, o jovem Eddie Redmayne apareceu (de forma justa) para lhe roubar uma estatueta que noutro ano poderia não lhe ter escapado. Ainda assim, Birdman venceu 4 Óscares, incluindo o de melhor filme do ano. Anos antes, seria impensável existir um filme protagonizado por Keaton nomeado para Óscares, quanto mais vencê-los. Agora parece perfeitamente normal para este actor.

Michael Keaton

 

Este ano, em O Caso Spotlight, repetiu-se a gracinha de uma longa-metragem encabeçada por Michael Keaton vencer o principal prémio da noite dos Óscares. Para além de melhor filme, esta história que conta a investigação de uma pequena equipa de jornalistas do The Boston Globe acerca de uma rede de abusos sexuais a crianças envolvendo a Igreja Católica, venceu também o prestigiante Óscar para melhor argumento original, tal como sucedeu o ano passado com Birdman. Amostras de que Michael Keaton estará, certamente, mais atento àquilo que escolhe, aos papéis a que se presta e focado em limpar a imagem de uma carreira que até aqui não tinha sido brilhante, mas que pode abrilhantar-se na sua recta final. A idade está a fazer-lhe muito bem. Com Spotlight o actor não conseguiu nenhuma nomeação, mas nem só de nomeações se fazem grandes papéis ou carreiras não é verdade? Michael Keaton voltou a encantar (-me) e pela segunda vez consecutiva em dois anos, está ligado a filmes que mais prazer me deram ver. Não só por serem duas óptimas obras no seu todo como por serem filmes que subiram o seu nível de qualidade devido à presença de Michael Keaton no seu elenco.

Se até aqui a presença de Michael Keaton em determinado filme era quase uma das desculpas que eu apontava para não ver o dito filme, agora, a sua presença em determinado filme é uma das razões que eu aponto para o querer ver. Como as coisas mudam quando um homem com grandes capacidades de representação decide deixar o papel de herói para se assumir como um actor. Michael Keaton é a personificação do Homem-Pássaro no filme Birdman e na vida real, ele e a sua carreira, poderiam bem ser a representação do renascimento da fénix. Ainda o vamos ver de estatueta dourada na mão? Se continuar assim é bem possível que sim. Para já os convites para papéis de relevo parecem não abrandar e já se sabe que Michael Keaton irá interpretar o papel de Ray Kroc, o fundador da mundialmente conhecida cadeia de restaurantes fast-food McDonald’s no filme The Founder.

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