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Mas afinal, o que se passa no Sudão do Sul?

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Caro leitor! Estou de volta (sim, eu sei que ando atrasada e a escrever fora de horas, mas compromissos académicos têm falado mais alto)! Este mês decidi inovar, fugir ao Médio Oriente e Norte de África e ao mundo Ocidental. Fevereiro é tempo de visitar a África Subsaariana, nomeadamente o Sudão do Sul.

Sudão do Sul? Mas não havia só “um” Sudão? Haver havia. Até 2011.

A região tem sido palco de conflitos desde o século XIX. Na década de 1870, o Egipto tentou, em vão, colonizar a região sul da antiga República do Sudão. Em 1885, rebeldes Mahdistas invadiram a zona, permanecendo por lá até 1898, quando as tropas britânicas derrubaram o regime Mahdist.[1] Para tentar estabilizar a região e trazer paz à população, foi instaurado no Sudão um governo de influência anglo-saxónica e egípcia. No entanto, a região mais a sul do Sudão, Equatoria, ficou ao abandono e entregue a si mesma ao longo de várias décadas. Apenas alguns missionários cristãos permaneceram em Equatoria, disseminando entre os restantes nativos a língua inglesa e convertendo-os ao cristianismo.

Em 1956, quando o Sudão se tornou independente, tinha ficado acordado que os habitantes sulistas iriam participar plenamente no sistema político, apesar das diferenças culturais, linguísticas e religiosas. Não aconteceu: o governo árabe de Khartoum não cumpriu as suas promessas, despoletando um motim que se dividiu em duas fases de conflito prolongadas: a primeira entre 1955 e 1972 e a segunda entre 1983 e 2005[2], causando a morte a mais de dois milhões de pessoas (na sua maioria civis).[3]

Em Janeiro de 2005, e depois de várias tentativas de negociar a paz, é assinado o Comprehensive Peace Agreement[4]. Parte deste acordo ditava que o Sudão do Sul receberia autonomia por um período de seis anos, período após o qual se convocaria um referendo para se decidir sobre o estatuto final da região. A 9 de Julho de 2011, o Sudão do Sul tornou-se independente da República do Sudão.

Mas não tem sido um percurso fácil: o Sudão do Sul tem tentado construir uma nação, controlar as melícias rebeldes que operam na zona e regrar-se por uma boa governação. Aliam-se a isto a instabilidade económica desde o início de 2012, após a decisão do governo de acabar com a produção de petróleo, uma vez que houve desacordo com o governo do Sudão.

O Sudão do Sul tem sido casa para vários migrantes. Existem cerca de 241 mil refugiados provenientes do Sudão e mais de 15 mil da República Democrática do Congo.[5] O problema agravou-se com os combates em Abyei entre as Forças Armadas do Sudão e o Exército de Libertação pelo Sudão em Maio de 2011. Após Dezembro de 2013, e depois da tentativa de um golpe de Estado e início de um conflito étnico, o Sudão do Sul viu quase 1,6 milhões de habitantes internamente deslocados, 50 mil mortos e o despoletar de uma guerra civil: os soldados do grupo étnico Dinka (um dos maiores do Sudão do Sul) aliaram-se ao presidente Salva Kiir e os soldados do grupo étnico Nuer (o segundo maior da região) apoiavam o líder rebelde Riek Machar. Machar foi acusado de promover um golpe contra Kiir e de instigar à violência nos estados de Jonglei, Upper Nile e Unity. Desde o início do conflito, os grupos armados que operam na região têm feito dos civis os seus alvos (atacando sempre grupos étnicos opostos ao seu), cometido violações e raptos, destruído propriedades e recrutado crianças e jovens para milícias armadas.

Depois de vários meses em negociação, o presidente Kiir assinou um tratado de paz com o líder rebelde e antigo vice-presidente Machar, a 26 de Agosto de 2015, sob pressão da comunidade internacional face à possível imposição de sanções.

Para além destes problemas, o Sudão do Sul tem um grave problema de tráfico de seres humanos, tanto para a indústria sexual como para a indústria laboral, passando pelo recrutamento de crianças para milícias. A população do Sudão do Sul é maioritariamente jovem (45.34% dos habitantes têm entre os 0 e os 14 anos), sendo que pouco mais de 5% da população tem mais de 55 anos e a média de idades do país não excede os 17 anos.[6]

Grande parte dos países que fazem fronteira com o Sudão do Sul (Sudão, Etiópia, Quénia, Uganda, República Democrática do Congo e República Centro-Africana) têm problemas sociodemográficos, bélicos e económicos semelhantes, não esquecendo a fome e a pobreza extrema que assolam grande parte da população.[7] Para tentar manter a calma na região, as Nações Unidas destacaram, no final de 2013, 7.600 “capacetes azuis” (soldados da paz) e 6.000 soldados de forças especiais, para uma missão de “nation building”. Em Maio de 2014, a missão[8] foi alterada para “civilian protection”, dado o rápido desenvolvimento do conflito.

Toda a gente sabe o que se passa no Sudão do Sul. Mas ninguém quer saber. Ninguém parece preocupar-se. É longe do centro do mundo. Está longe o suficiente dos olhares da comunidade internacional. Sudão do Sul, eu sei o que se passa contigo. E a partir de hoje, mais pessoas vão conhecer a tua história.

Volto para o mês que vem (mais cedo, caso a tese me dê tréguas!) para um especial sobre Mulheres.

Até já!

[1] Durante o século XIX, deu-se uma guerra colonial entre sudaneses Mahdistas, egípcios e, mais tarde, britânicos, que ficou apelidada de Guerra Mahdista.

[2] Considerada a mais longa guerra civil do continente africano.

[3] A fome e a seca agravaram o conflito e foram as principais causas de morte dos mais de dois milhões de pessoas.

[4] Acordo de Paz Global.

[5] Dados de 2015.

[6] CIA – The World Factbook.

[7] Dada a violência dos conflitos, os agricultores não têm cuidado das suas plantações, provocando a fome a mais de quatro milhões de pessoas (1/3 da população do país). Em Julho de 2014, o Conselho de Segurança das Nações Unidas declarou a crise de fome do Sudão do Sul como a pior do mundo.

[8] A deterioração da situação tem trazido graves problemas de segurança e desafios extremos para o Sudão do Sul, uma vez que nem o governo nem os rebeldes conseguem chegar a um acordo.

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