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Luísa Todi – Ilustre Mezzosoprano Setubalense

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Não posso começar esta crónica sem revelar previamente a minha completa ignorância por aquilo que é a ópera. Mas também não posso dizer que ao longo do meu crescimento não contactei com este género musical, ainda que de forma um tanto quanto coloquial. Os meus pais sempre gostaram de ouvir música, algo que eu também cultivei desde cedo como um interesse pessoal. A minha mãe sempre gostou de coleccionar discos de vinil e mais tarde CDs, entre os quais Pavarotti e Andrea Boccelli, tenores de ópera. Sendo os meus conhecimentos em relação a este género musical, relativamente escassos, propus-me por isso fazer uma pesquisa para também enquadrar os leitores sobre o tema que decidi trazer neste início de 2019.

Ópera” em italiano significa trabalho. Em latim, representa o plural de “opus”, ou seja obra. Surgiu no início do século XVII, em Itália, inspirada nas tragédias gregas. A primeira obra considerada uma ópera data aproximadamente do final do século XVI, em Florença, chamada de Dafne. Esta obra está actualmente desaparecida, e por isso, um trabalho posterior intitulado de Eurídice, datado de 1600, é a ópera que resiste até aos dias de hoje. De Itália, a ópera difundiu-se pela Europa, passando por França, Alemanha e Suíça, que lhe aplicaram diferentes camadas, mas sem alterar a sua base. Em Portugal, não existe um registo exacto de quando se terá começado a cantar ópera mas antes de 1755 existia um teatro em Lisboa onde se reproduzia este género mas que, foi destruído pelo terramoto. Só em 1793, é que foi inaugurado o Teatro Nacional São Carlos, com a ópera La Ballerina Amante, do compositor italiano Domenico Cimarosa. Nessa mesma altura, foi igualmente inaugurado o Teatro Nacional São João no Porto.

A ópera é um género artístico teatral que consiste numa composição dramática combinada com música instrumental e canto. Pode ter a presença de diálogo falado e os cantores podem ser acompanhados por uma orquestra sinfónica. Ao drama apresentado, juntam-se os elementos típicos do teatro como cenografia e vestuário. A letra da ópera, designada de libreto, é normalmente cantada em vez de falada. Os cantores são classificados de acordo com os seus timbres vocais:

– os homens em baixo, baixo-barítono, barítono, tenor e contratenor;

– as mulheres em contralto, mezzosoprano e soprano.

Agora, meus queridos leitores, feitas as apresentações de uma forma sintetizada (pelo menos tentei) da ópera, está na altura de conhecermos a mulher que faz jus ao título desta crónica.

A iniciativa de escrever sobre Luísa Todi, surgiu por acaso. Como é hábito, quando se aproxima a época natalícia, gosto de ir sempre ver as iluminações de natal. Mas em vez de Lisboa, escolhi Setúbal. E fiquei bastante agradada com o que encontrei. A zona da baixa setubalense está requalificada; espaços que outrora tinham sido encerrados e estavam vazios, foram reabertos com novos negócios (sobretudo casas gourmet e restaurantes) que trouxeram uma nova alma e vida ao coração de Setúbal. Depois de ter atravessado a praça do Bocage que estava repleta de bancas com vários artigos, observei o edifício dos Paços do Concelho e percepcionei que estava aberto ao público. Não me enganei e decidi conhecer o seu interior absolutamente esplendoroso. Ao entrar, deparei-me com um enorme busto feminino em mármore. Em baixo, tinha uma inscrição com o nome daquela que é considerada a maior cantora lírica da história portuguesa. E foi assim que nasceu a vontade de trazer à luz do dia a vida e percurso daquela que viria a ficar conhecida como a cantora lírica portuguesa mais conhecida do seu tempo.

A 9 de Janeiro de 1753 nasceu em Setúbal, Luísa Rosa de Aguiar. Filha de Ana Joaquina de Almeida e do mestre de música Manuel José de Aguiar, cedo mostrou que o talento para a música lhe corria nas veias. Através de um contrato firmado em 1763, Luísa e as irmãs passaram a integrar a companhia do Teatro do Bairro Alto, tendo a família estabelecido residência desde essa altura, em Lisboa. Com apenas catorze anos estreou-se no teatro musical ao declamar numa peça de Moliére (dramaturgo francês do século XVII). Aos dezasseis anos casou com Francesco Todi, um violinista italiano, natural de Nápoles e foi pela mão do mesmo que, Luísa aperfeiçoou os seus dotes vocais através de aulas leccionadas pelo compositor David Perez, que se encontrava ao serviço da Corte Portuguesa. Em 28 de Julho de 1769, o casal mudou-se para o Porto, quando Luísa estabeleceu um contrato com o Teatro do Corpo da Guarda. Na cidade invicta permaneceu de 1771 a 1776, tendo a sua última apresentação em território português, sido em 1775.

Os Todi saíram de Portugal no ano de 1777, na sequência de pedidos que chegaram de Espanha, para Luísa cantar em recitais privados, algo que passou a ocorrer com relativa frequência em outros países vizinhos. A sua estreia pública fora da península ibérica, sucedeu em Londres, no King’s Theatre em Novembro de 1777 e, digamos que foi a partir desse momento que Luísa viu a sua projecção artística catapultada para o resto do mundo. Durante os vinte e dois anos seguintes, a cantora construiu uma brilhante carreira internacional, brilhando em inúmeras cidades estrangeiras cosmopolitas como Londres (já mencionado), Paris, Turim, Potsdam, Viena, Bona, Veneza, Pádua, Bergamo e São Petersburgo, onde esteve ao serviço da Imperatriz Catarina II da Rússia.

Ao longo de toda a sua trajectória profissional e por ter tido residência em várias cidades da Europa devido às suas actuações, foi mãe de seis filhos, todos eles nascidos em locais diferentes: João (Porto), Ana José (Porto), Maria Clara (Guimarães), Francisco (Aranjuez, Espanha), Adelaide (Versalhes, França) e Leopoldo (Turim, Itália)

Antes de concluir a sua carreira internacional, Luísa viajou até Espanha, para actuar num teatro madrileno por duas temporadas (1792-1793; 1793-1794). Entre estas duas temporadas, deslocou-se a Lisboa, por ocasião do baptizado de Maria Teresa, filha de Dom João VI para cantar.

O dia 12 de Janeiro de 1799 marcou o fim do périplo internacional. Luísa Todi actuou pela ultima vez numa sala pública, na récita que rematou três temporadas triunfais (de 1796 a 1799) no Teatro di San Carlo, em Nápoles, considerada uma das mais importantes praças de ópera da Europa.

Em 1799, os Todi regressaram a Portugal fixando residência no Porto e onde a cantora lírica decidiu cantar e encantar pela última vez. Em 1803, quando Francisco faleceu, Luísa com sessenta anos, aposentou-se de vez. Na sequência das invasões francesas em 1809, Luísa e os restantes membros da família tentaram uma fuga pela travessia no Douro, tendo sido capturados pelos franceses. No entanto, o General Soult que era quem comandava os exércitos de Napoleão no período em questão, reconheceu-a como “cantora da nação” e concedeu-lhe a ela e à família, protecção.

Em 1811, Luísa instalou-se em Lisboa onde viveu até ao fim dos seus dias. A partir de 1823 começou a perder a visão de um dos olhos, manifestação de uma doença ocular que se tinha começado a dar os primeiros sinais ainda durante a temporada veneziana. Pelo que se sabe, Luísa acabou por falecer aos 80 anos de idade, em 1 de outubro de 1833, devido às sequelas de um acidente vascular cerebral, no 2º andar do nº2 da Travessa da Estrela. Esta mesma zona viria a ser renomeada como Rua Luísa Todi, em 1917, uma artéria situada bem perto do local onde outrora se encontrava a casa de espetáculos onde fizera a sua primeira aparição em público, o Teatro do Bairro Alto. Os seus restos mortais encontram-se sepultados no cemitério da Igreja da Encarnação, perto do Chiado.

O seu papel na História da Música é loquaz e inestimável, uma vez que engrandeceu o nome de Portugal e enobreceu a cultura musical europeia. Tendo a capacidade excepcional de se expressar correctamente em francês, inglês, italiano e alemão, é considerada a mezzosoprano portuguesa mais célebre de todos os tempos.

Um documentário realizado pelo realizador português, Rui Esteves, foi exibido em 2009 para a série da RTP2 Figuras Relevantes da Cultura Portuguesa, com o seguinte título: “TODI – A segunda morte de Luísa Aguiar”. O contexto: no ano 2008 seguimos os passos de uma octogenária errante e solitária que percorre locais em Setúbal, Porto e Lisboa, procurando reconhecer esses mesmos locais, agora preenchidos por gentes, esplanadas e prédios. Um filme que é uma espécie de evocação de uma Luísa Todi, idolatrada nos palcos europeus que acabou longe das luzes da ribalta e no esquecimento. Não vi o documentário e ainda fiz uma pesquisa insistente para o tentar encontrar, mas revelou-se infrutífera. Já que estamos na era do boom das séries, porque não fazer uma série sobre a vida desta mulher? A TVI projectou-se com “Equador” e a RTP tem ganho bastante audiência com séries como “Madre Paula” e “Essas Mulheres”. Fica a ideia…

Actualmente, no centro de Setúbal, encontramos referências à cantora lírica nomeadamente um monumento com a sua estátua, e a Avenida que recebeu o seu nome (Avenida Luísa Todi) uma das principais artérias da cidade.

Também o edifício principal que acolhe regularmente eventos de natureza artística recebeu o seu nome: o Fórum Luísa Todi, bem no centro da Setúbal. Adquirido, em estado de ruína pela Companhia União Fabril (CUF), o edifício foi demolido na segunda metade do século XX, e em 1958 iniciou-se a construção do actual, pelo arquitecto Fernando Silva (responsável por outros projetos como o Hotel Sheraton e o Cinema São Jorge em Lisboa). Foi inaugurado no dia 24 de Julho de 1960, pelo então Presidente da República Américo Tomás. Ao longo dos anos, o Fórum Municipal Luísa Todi tem beneficiado de vários investimentos no sentido de se modernizar e divulgar a qualidade do serviço cultural prestado.

Hoje, dia 9 de Janeiro, têm lugar as comemorações em homenagem do 266º Aniversário do nascimento da cantora, com a deposição de flores no monumento localizado na Avenida com o seu nome. Também no dia 12, pelas 21h30, o programa comemorativo organizado pela Câmara Municipal de Setúbal contempla um concerto do grupo Duo Passione, composto pelo tenor João Mendonza e Carlos Barreto Xavier, ao piano, no Salão Nobre dos Paços do Concelho. Ficam aqui sugestões para visitar Setúbal, cidade onde a cultura se cruza indelevelmente com o legado deixado por Luísa Todi.

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