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Joana D’ Arc – a Mulher, a História, o Mito, a Conquista no Feminino

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Joana D’ Arc é uma figura feminina crucial na história de França, que não poderia deixar de mencionar por estes dias nestas crónicas que vou escrevendo, pelo símbolo no feminino que constitui e também, porque fui lendo aqui e ali, algumas pessoas em redes sociais e afins, com absolutas certezas, daquelas que me causam real espanto, afirmando que tal personagem não existiu, tal mito como os mitos da Grécia antiga e da Grécia de Homero… É facto que Joana D’Arc foi tornada lenda, mito e símbolo absoluto do feminino, da pátria (francesa)…É certo também que a história, alegadamente, real da jovem Joana, foi tornada sagrada pela Igreja que a condenou outrora, pela sua beatificação em 1920, canonizando-a e tornando-a Santa, subsequentemente.

É verdade que há alguma dúvida se o mito foi “colado” à história desta jovem, sobretudo a partir do séc. XIX, tornando a história de uma jovem mártir, comum até então, numa lenda e num símbolo poderoso, ou se pelo contrário, Joana terá sido o “mito vivo”, ou seja, se a sua história foi realmente uma lenda viva, um mito real, se ela mulher dotada de especial força, coragem e dádiva, poderia ter sido um exemplo vivo daquilo que o mito representa, neste caso, fielmente.

No entanto, custa-me bastante acreditar que existam pessoas dotadas de especial sapiência e conhecimento, que possam contrariar todos os historiadores e dizer, simplesmente, que esta pessoa nunca existiu…Pasmo eu, que não sou de História e na minha imensa ignorância, que me torna prudente nestas coisas e humilde em aceitar aquilo, que quem estuda estas matérias me vai trazendo ao conhecimento…Posto isto resolvi ir ver um bocadinho da história, porque de facto não consigo entender que se confunda qualquer coisa, como “a história de Joana foi um real e uma lenda viva”, ou “a história de Joana é real, mas tornada mito posteriormente, romanceando a verdade histórica”, com uma qualquer aberração do tipo “ esta Joana D’ Arc não existiu´”, simplesmente. Somos portanto todos nulos de conhecimento, uma frase numa qualquer rede social e apaga-se a vida e a morte de um ser humano, de uma mulher, só porque sim.

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Como me causou alguma estranheza, que assim se possa “apagar” a vida de alguém, resolvi escrever hoje sobre alguém que, alegadamente, existiu mesmo. Bem haja por isso! Não haja qualquer confusão entre se a vida foi, exactamente, como é descrita aqui ou ali, se foi um mito vivo, ou tornada mito mais tarde, se tinha 19 ou 21 anos, quando morreu e outros dados deste tipo… Agora que Joana existiu, parece ser real e verdade, mesmo. E que foi tornada mais tarde símbolo e um mito, sem dúvida.

Vamos apurar então alguns factos:

Foram a literatura e a historiografia que maior responsabilidade tiveram na transformação da imagem lendária de Joana D’Arc, numa panóplia de tons e visões bem diferenciados, de acordo com os seus autores. No século XIX criaram-se sucessivamente “histórias de França”, segundo Michelet, Lavisse, Henri Martin, em que Joana é a heroína francesa, celebrada pelos autores, determinantes nas suas principais características simbólicas – a da santidade e a do patriotismo.

Diderot, Barbier, Poujoulat e Michaud, nos seus contributos em enciclopédia, dedicaram a Joana D’Arc artigos detalhados, onde se denota preocupação com leituras ideologicamente divergentes. Também em meados do séc. XIX, os processos editados e documentos anexos por Quicherat pesam na aclamação épica e de santidade do percurso de vida de Joana D’Arc. Mas não só em França, mas também noutros países da Europa, dentre os quais não poderia falhar o Reino Unido, se traçam retratos de Joana D’ Arc, uns elogiando e celebrando a sua vida e o mito em que se tornou, outros tomando contornos menos positivos, ou até denegrindo de alguma forma a imagem, que ia sendo passada por outros…Villon, Péguy, Anatole France, Shakespeare, Shiller, Bernard Shaw e Bretcht, tomam a personagem de Joana D’Arc, como sua personagem literária, tornando-a única de acordo com cada autor, numa dimensão absolutamente própria e com contornos apenas possíveis em brilhantes obras literárias.

A celebração de Joana D’Arc, na sua dimensão como mulher, guerreira e mártir, escolhida entre as demais, é reproduzida em praticamente todas estas obra e é esta vida e este mito, extraordinariamente símbolo, que percorre os séculos e os vários anos até à atualidade… Há, no entanto, algumas vozes dissonantes pelo caminho… dissonantes e que contradizem todo o simbólico, em que Joana D’Arc se transformou: é o caso de Beaumarchais, “Lettres Sérieuses et Badines” (1740), que transforma a personagem Joana D’Arc, numa manipulável figura, tristemente usada por um grupo de gente sem escrúpulos, munidos de alguma esperteza, destoando assim da mensagem, que ia sendo passada aqui e além…

Também Voltaire, no seu racionalismo brilhante, mas por vezes mordaz, vai encontrar em Joana motivo de sátira e do ridículo. La Pucelle d’Orléans (1762), é a obra em que Voltaire expressa a sua ferocidade contra o que Joana D’ Arc representa…a ridicularização é elevada ao seu expoente máximo, numa espécie de “bullying post-mortem” (expressão que agora crio, eu mesma, se me permitem), que destoa da maioria das vozes… Temos ainda Montesquieu, a contradizer a mensagem que chega aos nossos dias da história de Joana D’ Arc, considerando mesmo este autor que, a epopeia medieval retratada ao longo dos tempos não passa de um embuste fraudulento, digno de piedade e não mais do que isso…

Apesar disto, ou mesmo devido a estas contradições ao longo do tempo, a história de Joana D’ Arc, tem uma parte real – a da mulher que viveu e morreu em 1431, e uma parte que lhe vai sendo associada, fantasia ou não, que é transversal a várias obras e autores e que perdura até aos dias de hoje. Para a Igreja católica, a mesma que a condenou, ela passou a ser Santa, já no séc. XX, e a data da sua morte na fogueira em 1431, sinaliza o dia em que se lhe presta homenagem: 30 de Maio.

Por isso mesmo, hoje escrevo sobre Joana D’ Arc, pela proximidade desta data que assinala o tenebroso e cruel acto de matar na praça pública, quem de alguma forma falou “demais” e lutou pela liberdade… Mulheres, mais do que muitas, foram todas “Joana D’Arc” e para mim, acreditando e sinalizando a bravura e a coragem de Joana à sua época e lamentando a sua martirização pelas chamas de uma fogueira, que queimou tantas e tantos, por discordarem, simplesmente, daquilo que lhes era imposto, ou apenas porque sim, sem mais, este dia e o símbolo de Joana D’Arc são na verdade um dia em que, todas as mulheres da história são lembradas…Para mim, que aqui escrevo e não nego a história de Joana como um mito que viveu, como uma lenda viva, Joana representa um pouco todas as mulheres que podiam até ser queimadas apenas por uma palavra…apenas por uma convicção…apenas porque um dedo acusatório as denegria…As mulheres que apenas por serem livres e sem amarras eram silenciadas pelas chamas, pela tortura, pela dor…

Execução de Joana D'Arc

Execução de Joana D’Arc

Ao longo da história, não foi só Joana a mulher queimada viva, acusada de heresia e feitiçaria, foram tantas e tantas mulheres voluntariosas…nesta infeliz história da Europa em geral e da Igreja católica em particular… A sua santificação posterior pelos mesmos que a condenaram nessa época tenebrosa do catolicismo, a transformação da condenada em Mártir e Santa, não apaga o seu sofrimento…nem apaga o sofrimento de muitas mulheres verdadeiramente crucificadas na chama ardente, para exemplo da autoridade, a que estavam subjugadas…Mulheres e Homens, claro está…só que no caso das mulheres poderiam as mesmas ser queimadas vivas, só por desafiarem a autoridade castradora de quem mandava e este desafio no feminino poderia tratar-se apenas de querer combater, querer cortar o cabelo, querer pintar, querer falar e não dever obediência ao homem…Tornar séculos depois, uma condenada que se tornou um mito vivo entretanto, em propriedade da Igreja católica, pela sua santificação, não apaga tal borracha, o mal feito…e apenas toma como sua, uma transformação de um mito, que foi real e transportado até então pela literatura e pela arte em geral…

O mito e a história venceram a fogueira ardente da inquisição, séculos volvidos e a Igreja apenas adotou como seu, o que já se impunha como inevitável: a lenda Joana D’Arc. Esta constatação embora de alguma nobreza e justiça, não anula a morte, não se apagam mortes de tantas e de tantos, nas fogueiras de vida que se extinguia perante o olhar atento de quem detinha o poder inquisitório… Não, a beatificação ou santificação de Joana, não pode servir como uma diminuição da dor humana, nem pode servir tal exercício como uma retrospecção capaz de expiar todo o “pecado” da própria Igreja, nem dos homens que a representaram nesses séculos… Infelizmente não pactuo com esta “borracha” que santifica as suas mártires e não me parece que, quem mate quem quer que seja em nome de um qualquer “deus”, possa expiar a culpa desta forma. Vidas ceifadas de tal forma são dívidas que permanecem de forma inexorável, naqueles que as ceifaram e nas organizações que representavam e representam, sejam elas quais forem.

À parte desta pequena, mas algo densa reflexão, importa aqui salientar que Joana D’ Arc, mito vivo ou construído, foi alguém que existiu realmente…Tem a sua árvore genealógica construída e a menos que desconfiemos de tudo até ao limite do insano, esta parte aprece bem ser uma verdade irrefutável… No entanto, mesmo na realidade e à parte do Mito e do seu simbolismo, de resto um enriquecimento imenso do feminino e da sua representação em bravura, coragem e libertação, existem várias vertentes desta mesma história, das quais dou especial relevo a três delas, que na verdade até se poderão complementar e que passo a sintetizar seguidamente:

1- Joana D’Arc é real, a sua vida corresponde ao mito quase na perfeição, e terá nascido a 6 de Janeiro de 1412 no lugar de Domrémy, em França. Seria filha de Jacques d’Arc e Isabelle Romée, e teria tido três irmãos e uma irmã.

Segundo alguns historiadores ela não seria escolarizada, era humilde, ajudava os seus pais no trabalho da terra e na criação de carneiros. Joana teria sido educada de acordo com o dogma da fé católica e por volta dos 12, 13 anos de idade, afirmou ter tido visões do Arcanjo Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida e que os mesmos lhe teriam dado ordem para procurar o príncipe Carlos VII, tomar em suas mãos as batalhas que fossem necessárias e retirar do poder dos ingleses a cidade de Orléans, permitindo a sua libertação e a coroação de Carlos VII, o soberano de França. Reza a história, que a jovem teria então cortado o seu cabelo, recebido treino militar e teria tomado a frente de 3 dias de batalha violenta, que resultou efectivamente na libertação da cidade.Mais tarde, no entanto, na Batalha de Compiègne, os opositores franceses de Carlos VII, conseguiram capturar Joana e entregá-la aos ingleses.

Segundo esta versão, a jovem morreu no dia 30 de Maio de 1431,em Rouen, acusada de heresia e feitiçaria e condenada por um tribunal eclesiástico, a ser queimada viva na praça pública, o que terá acontecido.


2- A história e o mito de acordo com a corrente dos Bastardistas, séc XIX:

Esta corrente afirma que Joana teria existido sim, mas seria a última dos 12 filhos da princesa Isabel, que seria secretamente amante do Duque de Orléans. Nesta versão, Joana D’Arc foi entregue a vassalos, para a criarem fora da corte, para não ser descoberto que a última filha de Isabel era na verdade bastarda, como se chamava à época. A família de Joana D’Arc seria portanto “adoptiva” e não biológica, pois ela seria biologicamente filha da princesa Isabel e do seu amante.

Esta teoria é robustecida, pelo facto de que, foi concedida a Joana uma audiência sob a forma de conversa pessoal com o Rei, algo quase impossível à época, quando a ele se dirigiu para expor a sua “missão divina”. Além deste alegado facto, também fortalece esta corrente ainda outro, que é o de que a jovem terá saído em missão e ter-se-à imediatamente ocupado da libertação de Orléans, a cidade do seu alegado pai, assassinado pelos ingleses em 1407. Neste sentido seria atribuída uma motivação pessoal muito forte para esta primeira escolha da jovem.

3- A história de Joana de acordo com a corrente dos Sobrevivistas:

Esta corrente, iniciada no séc XIX, defende que Joana existiu e cruza o mito com a história real também, mas afirma que não teria sido ela a ser queimada viva naquele dia e naquele lugar. Teria então, de acordo com esta corrente, ocupado o seu lugar uma mulher “anónima” e a jovem Joana teria sido poupada, ou teria conseguido fugir desta condenação. Alguns detalhes são avançados para corroborar a teoria, como por exemplo, que as casas à volta teriam visto ser fechadas todas as janelas com vista para a praça, que o carrasco não terá acendido a fogueira, que terá sido a própria inquisição, posteriormente, a acender a fogueira e que teriam queimado a mulher em seu lugar, duas vezes, para que nada sobrasse de vestígios, que pudessem identificá-la com outra pessoa que não Joana. As cinzas teriam sido colocadas no rio Sena.

Curiosamente, esta corrente favorece as anteriores, porque corrobora que o mito é real e fortalece que o “sangue” de Joana podia ser da realeza e por isso a inquisição tê-la poupado a isso e procedido à sua substituição, pois acreditavam que o sangue real não queimava como o dos comuns mortais e precisavam de “queimar” Joana… Concluindo, Joana D’Arc existiu e foi uma personagem que se destacou na história, como tantas mulheres a quem a história apagou o rasto.

A Igreja silenciou-a, queimou-a, ou passou a mensagem de que o fez, como exemplo para todas as hereges e os hereges, que ousassem desafiar a lei da Igreja, a autoridade e a sua visão única. A mensagem era tão só a de que se deve obediência e vassalagem à Igreja da época e que quem a ousasse desafiar era queimado vivo…nada de novo…é realmente a história da Inquisição…lamentável, mas verdadeira.

sjdEsta grande mulher, ouso dizer, não foi apagada pela história, nem pela Igreja…foi imortalizada pelos séculos, pela literatura e pela arte, chegando a sua mensagem de coragem e liberdade até ao século XX. Nesta altura, em 1920, a Igreja tomou-a como sua Mártir e santificou-a, até hoje: Santa Joana D’Arc. Para mim, feiticeira ou santa, Mulher de uma imensa coragem e iluminação, símbolo rico do Feminino e da luta pela Liberdade, Joana D’Arc é não só ela…mas milhares de mulheres…Resistiu ao fogo que tudo apagou e silenciou…resistiu aos rótulos de quem a denegriu devido à sua fé em Deus…

Mas por entre as trevas do tempo, a sua imensidão enquanto ser humano dotado de extraordinário esplendor, trouxe-a até nós intacta em beleza exterior e interior, intacta em bravura, intacta na sua coragem…intacta na sua fé inabalável, a sua força de vontade, a capacidade de luta. Joana D’Arc é uma enorme Mulher, que nos lembra o Feminino e a conquista feita no feminino ao longo da história fala por muitas mulheres. Uma Mulher que luta, não é castrada para obediência, nem se deu a si mesma enquanto mártir por uma fé. Ela lutou sempre que conseguiu, resistiu enquanto foi capaz e sucumbiu perante a inquisição pelas chamas ardentes da fogueira que homens fizeram e onde a condenaram.

Santa para os católicos, é uma Mulher cuja luta vai para além de tudo isso… Padroeira de França, representa a sua pátria, mas é universal na luta e no símbolo do Feminino, na Liberdade da Mulher e na sua conquista nas sociedades patriarcais, uma conquista dura numa época em que as mulheres pagavam com a sua vida cada passo no sentido da emancipação…cada passo na evolução…Mulheres de sempre. Bem haja Joana D’ Arc, bem hajam todas as “Joana D’ Arc” apagadas pela história, mas que com toda a certeza contribuíram para que outras pudessem nela permanecer…e fazer a diferença.

Em jeito de nota pessoal, é claro que há muitas outras interpretações possíveis da história de Joana D’Arc…do ponto de vista psicológico, por exemplo…do ponto de vista espiritual, outro exemplo…Mas hoje, a minha reflexão passou realmente pelo valor e significado que quero dar a Joana D’Arc, não como mártir,muito menos pela santidade que lhe foi “conferida” pela igreja, mas como uma grande mulher, jovem lutadora, que chegou a lugares onde nenhuma mulher à época chegava e que com isto, teimosamente, não se deixou apagar pela história, conquistou um espaço fundamental para a causa e para a luta de afirmação e de direitos das Mulheres ao longo das épocas, uma conquista digna de registo.

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