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Hannah Epperson – Entrevista Exclusiva (Parte II)

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Se é leitor assíduo do Ideias e Opiniões por esta altura já se habituou às nossas entrevistas exclusivas. Ao longo dos últimos meses já por aqui passaram jovens valores nacionais e internacionais assim como grandes nomes com os quais sempre sonhámos ter a oportunidade de falar de forma tão directa e sincera.

Aquilo que vos trago hoje é a segunda, e última, parte de uma entrevista muito especial (que contém os capítulos III e IV desta longa interessante conversa). Foi concretizada por email, graças às maravilhas das novas tecnologias, tornando possível entrevistar uma cantora fenomenal que se encontrava a muitos milhares de quilómetros de distância.

Ela dá pelo nome de Hannah Epperson, vem do Canadá e é uma injustiça não ter sucesso, reconhecimento e fama à medida do seu talento. A ela endereçamos o nosso muito obrigado pois foi a sua extrema simpatia, e a disponibilidade total com que encarou o email de um desconhecido site português, que possibilitou esta entrevista!

Se não tinham planos para as próximas noites acredito que vão passar a ter. Porque depois de ler uma entrevista sem filtros e tão directa, profunda e sincera quanto esta é impossível não querer ver a Hannah Epperson ao vivo.

É com felicidade e muito orgulho que vos apresento a talentosa Hannah Epperson!

Capítulo III – A Mulher Atrás da Cantora 

Hannah planeia algum dia tornar-se professora de Geografia? Fazer uma digressão pela(o) Europa/Mundo, seria a melhor maneira de juntar duas das suas maiores paixões?

Eu penso quase todos os dias em voltar à escola para terminar um mestrado em Geografia Humana. Antes de eu fazer o Peak Performance Project, eu pensei que iria ser professora, e isso ainda é algo que eu considero, frequentemente. Eu sinto bastante a falta do ambiente académico. Mas, por agora, fazer digressões mundiais é um tipo diferente de educação experiencial, e eu valorizo isso de forma extraordinária.

Em que fase da sua vida é que o Frisbee se tornou algo sério? É que isto não é algo que esperemos encontrar na biografia de uma cantora: “representou o seu país no Campeonato do Mundo de Frisbee”… [Risos]

Joguei, competitivamente, durante toda a Universidade, e ainda estava a competir, até ao ano passado. Mas, infelizmente, já não sou capaz de coordenar a competição a um nível tão alto com ser uma artista em constantes digressões, mas tenho muitas saudades de tocar!

Hannah Epperson

“Eu não gosto de compor quando tenho serenidade e espaço.”

Está provado que a educação artística tem um grande impacto na formação de uma criança, mas, na maioria das vezes em que a criança/adolescente pretende tal coisa, alguém diz: “Devias ter uma profissão a sério, como ser advogado, ou médico”, desvalorizando, por completo, as técnicas e o processo criativo por trás da educação artística. Hannah não acha que numa sociedade cheia de músicos, cantores e bandas (onde a música se encontra presente em todo o lado, a todo o momento), não é estranho que a educação artística não seja vista com outros olhos, e seja alvo de um real e sustentado compromisso pela parte de mais escolas e países?

Penso que a educação das Artes e Humanidades é incrivelmente importante para o cultivo de pessoas compassivas, criativas e empáticas. Não penso, necessariamente, que toda a gente deveria ser um músico, ou um artista de “carreira”, mas toda a gente deve ter acesso ao desenvolvimento de instrumentos de expressão que permitam ter maior capacidade de se sentir ligado a outras pessoas e ao seu inerente ambiente emocional.

Poucas acções são tão profundas, e pessoais, como o acto de compor uma música/letra. Hannah, consegue planear uma boa canção/música, ou as suas melhores ideias surgem quando menos se espera?

Penso que, no meu caso, a composição vem quase sempre espontaneamente e perto da sua completude. Mas isto, talvez aconteça, porque muito do meu tempo passo-o concentrada em actividades e projectos que NÃO SÃO composição de música, e portanto a composição acontece quase como uma síntese de tudo aquilo que se vai passando na minha vida.

Falando, ainda, da sua veia criativa: Lembro-me de uma entrevista onde a Hannah disse que compõe melhor sob pressão do que quando tem total espaço e liberdade. Não é irónico que, tendo crescido na serenidade dos desertos de Utah, se sinta mais criativa quando está sob pressão?

Eu cresci em Salt Lake City, portanto, não corresponde, totalmente, à ideia romântica dos desertos que você tem em mente [risos]. Eu não gosto de compor quando tenho serenidade e espaço. O espaço é o lugar onde você vai para deixar que tudo se desenrolar e expandir, ao passo que a composição é mais o movimento oposto – recupera-se coisas dentro e comprimindo-as e consolidando-as numa pequena localização, a localização de uma música ou de um ensaio. Percebe o que eu quero dizer?

A sua música, e letras, tem uma mensagem muito forte e marcada. Num mundo cheio de canções vagas, sem qualquer conteúdo e irritantemente similares e repetitivas, em algum momento teve medo que o público não compreendesse, verdadeiramente, os seus ideais?

Eu acho que a maioria de nós passa a vida sentindo-se incompreendido, e, ou você pode se sente angustiado com isso ou você pode ter um sentido de humor. Está bom, para mim, se as pessoas reinterpretarem as coisas que eu exprimo… é inevitável. Isto é o que acontece quando você se abre para um diálogo, você entrega o seu controlo de uma ideia, e por isso não é mais tua, mas isso é o que lhe dá vida, acho eu.

Hannah

“Boa música é sempre boa música, e tu podes ser tocado por uma boa música em qualquer formato.”

A vida de um músico é feita de contrastes: da solidão que envolve criar e escrever músicas e letras em casa, ou no estúdio, até à apoteose e à loucura que podem estar no palco, em frente de centenas de pessoas, por exemplo. É fácil gerir os pensamentos, emoções e expectativas ou todos esses altos e baixos (e flutuações de adrenalina) fazem da sua profissão uma verdadeira aventura?

Claro que não é fácil! A vida não é fácil! Mas, meu Deus, é uma emoção. Eu acho que por mais profundamente que você esteja disposto a mergulhar na escuridão e na loucura, você pode ir, igualmente, para a outra direcção – para a luz, para o êxtase. Você não pode ter um, sem o outro. Não há serenidade, sem o potencial de existir o caos e a loucura; não existe alegria, sem a expressão simultânea do luto. É o belo, trágico e cósmico paradoxo da vida, que não pode ter sem a morte. E por isso não há serenidade, sem o potencial para o caos e a loucura; não existe alegria, sem a expressão simultânea de luto.

No Ideias e Opiniões somos curiosos por natureza, e gostamos muito de descobrir novos projectos e ouvir boa música. Assim, tenho que lhe perguntar Hannah: que novos talentos canadianos e norte-americanos temos que ouvir?

Big Thief, Aidan Knight, We Are The City, The Westerlies, Royal Canoe, Omhouse.

A que formato é verdadeiramente leal Hannah: vinyl, K7, CD ou o formato digital?

Penso que, na verdade, não tem importância. Boa música é sempre boa música, e tu podes ser tocado por uma boa música em qualquer formato. Ainda assim, eu tenho muito boas memórias de fazer gravações, em miúda, com cassetes, e existe esta característica industrial, mecânica, nelas, da qual eu gosto… Nada sumptuoso, um pouco heterogéneo, podemos gravar por cima, exige um pouquinho de trabalho para mudar de música… Não sei, penso que as cassetes são peculiares e eu adoro-as. Mas, hey, oiça, eu não sou uma snobe do formato! (Risos)

Falando sobre o formato digital…Vê o streaming como um aliado, ou um inimigo silencioso? O poder viral do streaming, e das redes sociais, é uma forma de realçar o seu trabalho, ou os poucos rendimentos que daí resultam, não chegam para compensar tal aposta?

Eu penso que esta obsessão com as coisas que se tornam virais é totalmente tóxica e completamente insustentável, e eu, pessoalmente, nunca tive o desejo ou a ambição de fazer música que se “tornasse viral”. Para mim, é muito simples: toca em muitos concertos, toma muito cuidado para ter integridade e confiar na beleza dos relacionamentos que tens com TODA A GENTE – os teus fãs, os teus parceiros comerciais, o teu agente de reservas, outros músicos, o teu condutor de autocarros, os porteiros nos concertos.

E, se fores uma boa pessoa, e se apresentares trabalho honesto, no qual trabalhaste no duro para fazer, e se adoras atuar, então as pessoas irão querer participar, e tu vais conseguir fazer dinheiro suficiente para sobreviver. É-me difícil preocupar-me com muito mais para além disso… há coisas muito maiores a acontecer no mundo, eu apenas não me quero deixar arrastar pelo drama e vitríolo associado com o streaming. Espero que isto não seja uma resposta evasiva.

Hannah Epperson

“Honestamente, eu nunca tinha sido introduzida à música portuguesa, mas penso que o estereótipo é de que é bastante dramática [risos].”

Se me emprestasse o seu Ipod/MP3, que bandas/músicas eu ficaria surpreendido por encontrar? Quais são os maiores guilty pleasures da Hannah?

Penso que ficaria surpreendido por ver quão pouca música tenho, honestamente. É quase embaraçoso. Tenho os discos de bons amigos, que eu adoro apoiar, e depois tenho sempre toda a música de Radiohead e Bjork. Acho que um dos meus maiores guilty pleasures são os discos de Miles David e Oscar Peterson… oh man, meter aqueles discos a tocar e fazer panquecas e café? Fica mesmo no ponto! (Risos)

As mulheres, no século XXI, ainda são discriminadas no mundo da música?

Eu tenho muita dificuldade em responder a esta questão, uma vez que eu sou muito ponderada sobre todos os tipos de pessoas com as quais trabalho e lido, e portanto tenho conseguido evitar ambientes onde tal preconceito é saliente o suficiente para falar sobre isso.

Pessoalmente, tive a sorte de crescer numa família que tomou todas as medidas para que eu soubesse que era igual a todos os meus três irmãos, o que, sem dúvida, me deu uma espécie de confiança na minha feminilidade que, talvez, eu tenha tomado por garantida, pela qual muitas outras mulheres tiveram que lutar, quer dentro delas, quer nas suas comunidades. Além disso, eu sou branca, com um corpo são, cisgender e de classe média, portanto, existe a porra de bajilião de formas de discriminação que eu nunca tive de confrontar na minha experiência da realidade. Percebes o que eu quero dizer? Tendo dito isto, penso que ainda existe muito trabalho a ser feito, no que respeita às mulheres serem consideradas e valorizadas, e não, apenas, no mundo da música.

Capítulo IV – Portugal e o Futuro

Hannah qual é a imagem que existe, no Canadá e nos EUA, de Portugal e da música portuguesa? O Fado continua como a nossa grande imagem de marca?

Portugal sempre me pareceu muito exótico… A sua posição geográfica, e eu ouvi, durante muitos anos, sobre quão robusta a cena criativa era em Lisboa. Honestamente, eu nunca tinha sido introduzida à música portuguesa, mas penso que o estereótipo é de que é bastante dramática [risos]. Não tinha tomado conhecimento sobre o Fado até ter visitado Portugal, no início deste ano!

Conhece algumas bandas ou artistas portugueses? Considera a possibilidade de cantar com algum artista português num álbum/música?

Agora que estive em Portugal e que estou TOTALMENTE apaixonada, estou bastante curiosa por aprender mais sobre os músicos que trabalham em Portugal. Iria, claro, considerar uma colaboração com um artista português, se encontrar a pessoa certo. DUH!

Fotografia da própria Hannah Epperson aquando a sua primeira passagem por Portugal, em Fevereiro de 2016.

Fotografia da própria Hannah Epperson aquando a sua primeira passagem por Portugal, em Fevereiro de 2016.

Esteve em Portugal em Fevereiro, contudo, já havia prometido regressar em Outubro. Como foi a sua primeira experiência no nosso país e quais são as expectativas que tem para as novas datas?

Eu adoro Portugal. O tempo que despendi aí, no início do ano, foi verdadeiramente fenomenal, e vim-me embora do país com a certeza de que voltarei. Existe um sentido de humor incrível no povo português. É brincalhão, mas existe a expectativa de nos rirmos de nós mesmos, neste país, o que eu penso que é uma das mais importantes qualidades numa pessoa, numa cultura.

Queria tanto ter mais tempo… Penso que eu gostaria de tentar encontrar uma morada em Portugal, onde eu pudesse estar várias semanas, ou mesmo meses, aí. Não lhe consigo dizer o quão entusiasmada e grata estou por poder regressar este ano, estou exultante!

Hannah antes e/ou depois do concerto em Espinho, teve a oportunidade explorar o nosso país? 

Eu, definitivamente, não tive tempo suficiente para explorar, nesta última vez, mas estive algumas horas a passear pela lindíssima Lisboa. Estou ansiosa por ter mais tempo para a conhecer melhor.

Quais são os seus projectos para o futuro Hannah? Porque não algo que misture música e geografia? Onde nos poderemos manter actualizados sobre a sua carreira?

Bem, existe o próximo disco, “Slowdown”, o qual estou muito contente por terminar, e muito trabalho a decorrer com uma companhia de dança, baseada em Brooklyn. Eu gostaria de tentar e reescrever o meu argumento e começar a trabalhar no roteiro, e ver se consigo, de facto, produzir um filme! E muitos segredos… Os quais lhe poderei revelar, a seu tempo, se se quiser juntar a mim, para uma jornada…

É fácil seguir-me em todas as plataformas de Social Media – Facebook, Twitter, Instagram, Tumblr e, claro, no meu website (na qual sou a PIOR a fazer atualizações): www.hannahepperson.ca.

Agradecimentos: Hannah Epperson (pela generosidade, simpatia e talento) e aos colegas e amigos Vasco Wilton e Viriato Queiroga (pela preciosa ajuda na tradução desta autêntica odisseia a que chamei de entrevista, sem eles seria impossível publicar de forma tão célere e perfeita esta entrevista).

 

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