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Por falar noutra coisa…Surdez!

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A surdez remete à incapacidade de receber sons, sendo que pode variar pelo nível de duração (temporária/permanente), e pelo tipo de perda auditiva. Tal como outras incapacidades como o autismo, há um panorama vasto de situações específicas de deficiência auditiva.

De forma geral e considerada pelos audiologistas há cinco tipos de perdas auditivas: leve (que é imperceptivel sons distantes ou baixos), moderada (percetível a voz alta), severa (perceptivel apenas com uma voz forte à orelha) ; profunda (sons muitos altos próximo da orelha) e por fim, total (sem som).

Assim, no meu caso especifico é engraçado, a minha surdez é genética mas só descobriram aos três anos. Como é que comunicava? Como é que articulava as palavras? Como foi dizer a primeira palavra? E porquê tanto tempo? Bem, a resposta é simples, para tantas questões colocadas: leitura labial. O que é isto? A leitura labial, como o nome indica, aplica uma forma de emitir palavras pelos movimentos dos lábios.

É uma forma de interpretação bastante prática sobretudo em sítios de extremo ruído. Voltando ao meu caso, eu ”enganei” sem o querer os médicos e a família. Eu respondia e fazia tudo o que uma pessoa supostamente ouvinte fazia. No entanto, havia um sintoma que era alusivo à perda auditiva: o equilíbrio.

Eu desequilibrava-me muito, mas na época foi atribuído a um problema nos ossos, ou problemas nos pés. Na verdade, desde que nasci, tive pés muito pequenos relativamente aos outros bebés. No entanto, os diagnósticos indicaram que era saudável em termos ósseos. De seguida, em Coimbra fui a uma consulta de um especialista reconhecido no ramo de otorrinolaringologista (levem tempo a soletrar, não faz mal, eu também levei muito tempo) e foi finalmente diagnosticada a minha surdez. De seguida, passei a ser seguida, algo que continua até hoje, no Hospital Egas Moniz.

Durante 22 anos a minha incapacidade denominava-se pelo seguinte: surdez severa no lado esquerdo e surdez total no lado direito. Era apoiada no lado esquerdo por um aparelho auditivo da WIDEX. No lado direito, não era justificável de acordo com os médicos também ser apoiada, dado que nesse lado a surdez era total.

O meu aparelho auditivo dava mais 15% à audição que tinha. No entanto ao longo destes anos, os próprios aparelhos auditivos foram melhorando. No entanto, nem sempre significa que melhores aparelhos resultem em melhor audição e, nem sempre era “ouro sobre azul”. A adaptação de cada aparelho auditivo depende de pessoa para pessoa e tem de ser afinado à medida da necessidade e capacidade. No meu caso, quanto mais evoluía, mais difícil era a adaptação. Porquê? A fiabilidade do som foi aumentando cada vez mais e, no nosso dia-a-dia, estamos constantemente rodeados de sons inesperados. A adaptação durava entre três dias a uma semana.

Actualmente, de forma inesperada, perdi a audição que tinha no meu lado esquerdo. Uma perda gradual e significativa e resultou em grande impacto aquando do diagnóstico por parte do Hospital Egas Moniz. Percebi que a minha situação de incapacidade piorou. Passei a ter surdez total, sendo que foi reconhecida a rapidez do implante coclear. Passou um ano desde que fui operada e os sons são completamente diferentes. Cada dia é diferente e aparece sempre algo desconhecido. De momento, considera-se que estou com uma recuperação acima do espectável depois de um ano de utilização do implante coclear, sendo considerado que estou com uma audição quase “normal”.

Por fim, penso que é importante relatar dez notas relativamente a pessoas surdas e ouvintes. Se bem que, eu tive sempre contacto com a comunidade ouvinte, e somente há poucos meses é que obtive contacto com outras pessoas da comunidade surda.

  • Eu falo português. Escrevo português. Diálogo em Português.

Uma pessoa surda não está empiricamente proíbida de falar. Uma pessoa surda não recebe sons. Há diversos tipos de surdez, que podem afectar a fala (afectar, não quer dizer que não tenha a capacidade de falar). Muitos surdos, para além de serem acompanhados por um otorrinolaringologista são também acompanhados na terapia da fala.

2 –  Como é que acordas para ir à escola/faculdade/trabalho?

Cada som tem uma vibração. Se puser o telemóvel no som máximo e pôr na cómoda de madeira, vibra e faz luz no quarto.  Ou então, como eu fazia no Ensino Secundário, para irritar, punha o despertador no máximo para acordar os meus pais. Consequentemente acordavam-me a mim! Há sempre imaginação!

4 – Como é que contactas as pessoas?

Usualmente utilizo a prática das mensagens, no entanto, também realizo chamadas. As chamadas são efectuadas, dependendo do local que as efectuar, se estiver no Metropolitano de Lisboa, não utilizo.

5- Não é obrigatório saber LGP (Língua Gestual Portuguesa)

Durante muito tempo, as pessoas pensavam que eu utilizava LGP para comunicar. É uma ideia completamente errada, eu fiz todo o percurso académico sem utilizar a comunicação gestual. Eu sabia algumas palavras e gestos, por querer aprender. Recentemente, por interesse, estou aprender LGP de forma mais aprofundada.

6 –  Falar pausadamente, com clareza

A ideia generalista para dialogar com um surdo é falar alto… e está completamente errada. Falar pausadamente, com clareza, é a medida certa para a comunicação, pois permite que a pessoa surda faça a leitura labial. Aos sorridentes, façam um esforço para fazer menos movimentos. Aos carrancudos, permitem que a pessoa perceba o que quer dizer, entoe as palavras, fazendo os movimentos.

7 – Que cuidados tens de ter?

De momento carregar todos os dias as pilhas de bateria, para poupar as baterias de recurso (parecidas às pilhas do relógio) As de recurso são utilizadas em última instância e também são um pouco caras, dependendo da altura do ano. Tenho de realizar a limpeza 1 vez por semana ao aparelho externo do implante coclear numa espécie de caixa, carregada à tomada durante a noite. O principal cuidado a ter é a água/chuva. Não se pode molhar.

No Verão sou mais sensível à presença do sol, tenho que me resguardar. A sensação quando estou demasiado tempo ao sol é a seguinte: todos nós temos um telemóvel, e se fica muito tempo ao sol, aquece muito e faz impressão ao toque. Esta é situação que eu utilizo para explicar a sensação de utilizar implante em horas de extremo calor.

8 –  Como ouves músicas?

Todos os fios de fones que tinha foram todos para os meus pais. Já não vou utilizar. Tive que comprar um adaptado para o meu implante coclear. A sensação de ouvir com os fones adaptados é de estar dentro da música, ouve-se tudo. Estamos num “concerto”!

9 – É visível o implante coclear?

O aparelho externo é visível, dependendo do tipo de estilo e penteado que a pessoa tiver. No meu caso, nos primeiros 5 meses era visível, e era constrangedor. As pessoas quando não conhecem tendem a olhar fixamente como se fosse um ET. De momento, o penteado que tenho permite-me esconder e proteger o aparelho.

10 –  Surdez é uma incapacidade, não uma perda de tempo.

Derivado às circunstancia que tive ao longo do meu percurso académico, houve muita falta de adaptação à minha necessidade de aprender. Era necessário haver repetições por parte dos professores. Durante muito tempo a questão “Desculpe, pode repetir novamente?” era tida com uma afronta para alguns, e como perda de tempo. Mas não é! Simplesmente levamos mais tempo a interpretar e compreender determinadas matérias.

Por fim, há a necessidade plena de evoluir as mentalidades. Precisa-se urgentemente do cultivo do respeito, da aceitação, da apreciação e valorização das qualidades do próximo e de seus direitos.

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