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Exclusivo – Entrevista a Lemoskine

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O Ideias e Opiniões tem o prazer de trazer até aos seus leitores uma entrevista exclusiva com o cantor brasileiro Lemoskine! Esta entrevista foi realizada por email e apenas foi possível graças à disponibilidade e à ajuda da Music in My Soul, e do próprio Lemoskine, a eles o nosso Muito Obrigado!

Comecemos pelo princípio: qual era a sua relação com a música durante a infância e a adolescência? Que referências musicais tinha nessa altura?

Fui criado num ambiente em que a música sempre esteve presente de alguma forma. Fosse meu pai a tocar seu violão, ou minha mãe a cantarolar pela casa… Eles ouviam muitos discos de música brasileira da década anterior: Elis, Gilberto Gil, Chico, Clube da Esquina…
Durante a infância, no Rio de Janeiro dos anos 80, lembro de um episódio que me marcou bastante:  meu pai chegava em casa após 2 anos trabalhando fora do Brasil e me trazia um teclado Yamaha; desses em que era possível tocar sobre uma batida pré estabelecida. A partir daí, comecei a experimentar os primeiros acordes, conhecer as notas, etc. Meu pai inclusive tem gravações K7 minhas dessa época; mega constragedoras!

Em que momento é que percebeu que queria mesmo seguir uma carreira no mundo da música?

No início dos 90s, lembro de presenciar a transmissão do show do Nirvana no festival Hollywood Rock, no Brasil. A rede Globo não poderia estar mais infeliz. Aquela bagunça toda promovida pelo Kurt Cobain chocava meus familiares, mas estimulava a mim e a minhas primas, já adolescentes. Acho que ali eu comecei a supor que poderia reunir uma banda.

Mas entre o querer e o fazer vai uma longa distância…como surgiram os Poléxia?

A Poléxia foi uma banda que existiu a partir de uma amizade minha e do Eduardo Cirino (compositor e tecladista), que era meu vizinho. Eu e meus pais tínhamos mudado para Curitiba e eu passava aquela fase de adaptação ao colégio, às amizades da rua, etc. Nesse contexto, nos juntamos ao Raphael (baixo) e ao Juninho (bateria) e mesmo com nossas discrepâncias musicais (percebam: eu gostava de Nirvana, o Eduardo, de Michael Jackson) começamos a tocar e compôr canções próprias ainda muito cedo (tínhamos entre 18 e 22 anos) e, até hoje, sinto que nunca tive um parceiro de composição com quem as idéias fluíssem tão naturalmente. Nós fomos muito próximos à essa altura e colocávamos menos filtros críticos com a nossa experiência musical. Acho que foi isso, somado à nossa performance ao vivo, que tornou a banda tão querida de quem acompanhou a cena indie brasileira da década passada.

No currículo o Lemoskine também apresenta passagens pelos Sabonetes, pelos Mordida, pela Banda Mais Bonita da Cidade e ainda por Naked Girls and Aeroplanes. Conte-nos tudo sobre este quatro projectos.

Lemoskine

Bem, os Sabonetes são – para além da música – meus grandes irmãos. Na época, eles estavam passando por dificuldades com a formação e me convidaram para tocar baixo elétrico e ser parceiro nas composições da banda. Foi um período fixe, de noites divertidíssimas (com muitas raparigas a comparecer aos shows) e que nos aproximou, resultando mais recentemente no Naked Girls and Aeroplanes, projecto acústico que levo com os ex-Sabonetes Artur Roman e Wonder Bettin. A experiência com a Mordida foi muito breve, porém intensa. À epoca em que o Paulo de Nadal me convidou (logo após o término da Poléxia), eu já me considerava um grande fã da banda. Então, poder participar de alguns shows e gravações da Mordida tocando órgão e teclas, que nem são meus instrumentos oficiais!? Quem imaginaria?
Mas o que viria a seguir, estaria pra dar uma virada em minha vida de forma mais contundente. De forma inesperada, os anos com A Banda Mais Bonita da Cidade foram os mais representativos na minha carreira, sem dúvida. A minha ligação inicial se deu muito naturalmente pois eu e a Uyara (vocalista) éramos namorados desde 2009; ano em que os primeiros concertos aconteceram.

Falemos um pouco da sua participação na Banda Mais Bonita da Cidade. O videoclipe do tema “Oração” tornou-se rapidamente num fenómeno mundial, ao qual Portugal não escapou, graças à sua letra cativante e ao seu plano de sequência de áudio e vídeo. Esperavam atingir tanto sucesso online tão rapidamente? Todas as visualizações, gostos, comentários e partilhas ajudaram a catapultar a banda para um patamar superior na cena musical brasileira ou o fenómeno acabou por se esfumar com o passar do tempo?

Não poderíamos imaginar que o vídeo de “Oração” tomaria proporção mundial. No entanto sabíamos, sim, do potencial da canção do Léo (Fressato). Eu acredito que, fosse uma canção parva, não teríamos o mesmo resultado satisfatório apenas pelo plano de sequência do vídeo. O fenómeno de viralização, de uma maneira geral, tem natureza inexata… Então, o que viria a seguir, era difícil de se prever. Pois, àquela altura, ficamos felizes em poder atender a uma demanda espontânea de concertos em várias capitais do Brasil, assim como em outras cidades do mundo (Buenos Aires, Montevideo, Lisboa, Braga, Estarreja, Paris e Madrid). Enquanto lançávamos o primeiro álbum, ainda em 2011, choveram propostas ruins de contrato para edição e distribuição.

Não queríamos aquilo. Queríamos continuar usando a rede para falar directamente com as pessoas. Houve essa espécie de “filtragem” do público virtual. As pessoas que permaneceram interessadas após “Oração”, passaram a conhecer o repertório da banda em sua totalidade… Mas isso também resultou num período de desinteresse por parte do mercado fonográfico. O segundo álbum, “O Mais Feliz da Vida” (2013), apesar de bem recebido pelos fãs e pela crítica musical, não ganhou os mesmos holofotes da mídia. No próximo dia 18 de maio (em que faço minha primeira apresentação solo em Lisboa), completam 5 anos do lançamento do vídeo; e o balanço que faço (agora que me afastei da formação, sem me afastar da amizade) é de que a banda vai bem como está. Com seu público seleto e fiel, estão a fazer muitos concertos no Brasil – numa época em que até artistas de gravadora major enfrentam dificuldades – e preparam um novo lançamento.

Porque se aventurou numa carreira a solo depois de ter colaborado com diversos projectos musicais? E sendo este um projecto a solo porque não adoptou o seu próprio nome? Qual a história por detrás do nome Lemoskine?

Creio que senti que havia chegado a hora de me dedicar a isto. Eu já tinha lançado este projecto oficialmente em 2010, antes mesmo da experiência com A Banda Mais Bonita… Então foi como retomar um livro que ficou por escrever. O nome é um trocadilho envolvendo meu sobrenome e o famoso caderno de anotações Moleskine, pois.

Sentiu necessidade de criar um primeiro disco centrado em si, e no que viveu e sentiu, antes de dar largas à imaginação e partir para outro patamar de criação artística?

– Vejam a resposta seguinte –

Capa do disco "Pangea I | Palace II" do cantor Lemoskine

Capa do disco “Pangea I | Palace II” do cantor Lemoskine

O que distingue este “Pangea I Palace II” (de 2015) de “Toda a Casa Crua” (de 2012)?

Creio que a pergunta anterior acaba por responder esta. Não poderia dar resposta mais acertada! O primeiro “Toda a Casa Crua” é uma compilação de histórias pessoais, sim. Neste novo lançamento, estou a pensar mais no momento actual… Em nós, enquanto humanidade.

O seu mais recente disco tem um título e uma imagem muito peculiar (nomeadamente no videoclip do tema “Pedra Furada”). Lemoskine, sentiu necessidade de adequar a parte visual aos temas que aborda no álbum?

Certamente. A imagem da capa é uma obra (“Galáxia”, de 2014) de um artista plástico curitibano chamado Gustavo Francesconi. Já havíamos trabalhado em parceria com o lançamento do single de “Pedra Furada” em compacto de 7 polegadas; ocasião em que o Gustavo serigrafou cada uma das cópias.

Para si a experiência de lançar um novo álbum termina quando ele é editado ou é precisamente quando ele chega às mãos, e aos ouvidos, de quem o segue que começa a aventura?

Creio que a experiência apenas começa com as etapas que citou, avançando com os concertos. No palco, a canções ganham novas possibilidades…

É justo afirmar que mais do que para dançar a sua música é criada para fazer pensar?

Acho que sim. É mais “da cintura pra cima”, mas o álbum novo Pangea I Palace II é bem rítmico e já faz com que esse conceito se misture…

O que aproxima, e o que separa, o Rodrigo Lemos dos Poléxia do Rodrigo Lemos que encara o mundo a solo enquanto Lemoskine?

A Poléxia já havia criado uma identidade de banda. Nunca me considerei “band leader” já que tinha ali uma química muito específica entre os membros participantes. Neste sentido, percebo que agora a atenção se volta pra mim; por serem canções minhas, uma estética minha… Os músicos continuam a ser parte fundamental desta química – sobretudo no palco – mas o caráter criativo incide sobre mim, com êxitos e fracassos.

Existe um Rodrigo Lemos cantor e um Rodrigo Lemos produtor ou são uma e a mesma pessoa? Sente-se mais confortável dentro do estúdio, na cadeira de produtor, ou em pleno palco, como a voz e o corpo do Lemoskine?

As duas situações me realizam em igual tamanho. Na prática, mal racionalizo essa alternância.

Imagine que encontra uma lâmpada mágica e que essa lâmpada lhe permite pedir um desejo muito particular e que lhe garante que nunca ninguém saberá que a usou. Com um estalar de dedos o génio da música pode fazer com que três músicas (de qualquer cantor/músico do mundo, de qualquer era e de qualquer língua) passem a ser uma criação sua (com todo o prestígio, reconhecimento, lucros e fama que isso traria, claro). Que músicas escolhia e porquê?

“My Favorite Things”, “Yesterday” e “Panis et Circensis”… Porque sim, ora.

No Ideias e Opiniões somos curiosos por natureza e gostamos tanto de descobrir jovens projectos quanto de ouvir música por isso impõe-se colocar a seguinte questão: que jovens talentos brasileiros nós, portugueses, temos mesmo de ouvir?

Trombone de Frutas, O Terno, Baleia, Simonami, MC Sofia, Ventre, são alguns nomes que vêm recebendo destaque e que vos recomendo.

Lemoskine...em palco!

Lemoskine…em palco!

No Brasil a música portuguesa ainda é vista como “fado e pouco mais” ou a internet (e as redes sociais em particular) vieram mudar um pouco essa visão?

O Brasil é muito diverso. Existem muitos Brasis. A imagem geral que se tem da música portuguesa certamente é a do fado – como sendo o nosso samba. Não há nada de errado… É folk, tradicional. Mas creio que o público dos sites de música indie é mais interessado em acompanhar o que passa em vosso país agora. Tempos atrás, tivemos o Projeto Visto, por sinal muito bom, promovido pelo site Scream & Yell, em que bandas brasileiras e portuguesas interpretavam umas às outras!

Projectos como a Banda do Mar e a anunciada colaboração de Emicida e Rael com os lusitanos Valete e Capicua (projecto para já sem nome, mas com álbum prometido para 2016) vieram finalmente provar que é possível transportar a proximidade cultural, e musical, de Brasil e Portugal para álbuns e digressões vencedoras? Considera a hipótese de colaborar com músicos e/ou cantores portugueses no futuro?

Totalmente. Acho que esse intercâmbio faz cair por terra qualquer engano histórico que possa ter se colocado entre nossos países… Brasil e Portugal só têm a ganhar com colaborações como estas que citou. Eu, por exemplo, adoraria apresentar e colocar no palco meus amigos percussionistas à formação de PAUS. Seria bruto – no melhor sentido da expressão!

Lemoskine conhece alguns artistas/bandas portugueses? Se sim, quais?

Conheço vozes novas do fado: Ana Moura e Carminho. Acabo de rodar a A1 ouvindo um álbum de cada… Vão muito bem com a estrada. Também pude assistir artistas incríveis como PAUS, como já citei. Os vi tocando dentro do metro Avenida, na ocasião do Mexefest. Um concerto memorável. Outros dos quais sou fã, mas não tive a oportunidade de assistir: Capitão Fausto, Ornatos (sei que não existem mais, e que o Manel Cruz a solo tem o Foge Foge Bandido) e os Clã.

Vai actuar pela primeira vez em Portugal. Quais as expectativas para os concertos em Lisboa, Porto e Braga?

Eu tenho carinho imenso por Portugal. Estou sentindo aquele “nervoso bom”, sabe? Espero que os concertos me tragam a chance de compartilhar esse momento feliz com bastante gente.

Onde nos podemos manter actualizados sobre a sua carreira?

Mantenho a fan page pelo facebook (facebook.com/CurtaLemoskine) e também tenho o site oficial, em que reúno trabalhos meus para outras áreas tal como  dança, performance, cinema e produção musical de outros artistas (lemoskine.com).

 

Esta é a agenda de concertos de Lemoskine em Portugal:

18.05 | Musicbox, Lisboa

19.05 | Lisboa, local a anunciar

20.05 | Convento do Carmo, Braga

21.05 | Meu Mercedes, Porto

22.05 | Concerto Secreto, Lisboa

Agradecimentos: Music in My Soul e Lemoskine.

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