Especial Natal

“Um Natal nas Trincheiras” : Um conto de guerra e de paz

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Estamos em 1914, dia 25 de Dezembro…
Encontro-me nas trincheiras. Aqui neste campo de batalha a luta trava-se entre alemães e ingleses…
Adivinha-se a Primeira Grande Guerra… Soubemos esta semana, quando ainda havia alguma esperança de que a guerra pudesse terminar antes do Natal, que não iria acabar a Guerra tão cedo, muito pelo contrário… O conflito intensificara-se e previa-se agora uma guerra bem mais prolongada no tempo…
Seria a primeira de duas Guerras Mundiais tão sangrentas quanto odiosas, vergonhas para a espécie humana.
As mortes e as dores… As vítimas…

Tudo o que infelizmente mais de cem anos volvidos continuamos a ver…
Raios partam as armas, a guerra, a dor e miséria humana…
Raios partam os poderosos, os senhores da guerra, que enviam a morte aos outros para sua glória efémera e estupidificante.

Dos bastidores dominam tudo, ganham dinheiro com tudo isto, e atiram para a morte e para a miséria humana países inteiros, gerações várias, ao longo dos tempos…
Mas volto às trincheiras, 25 de Dezembro de 1914.

Vejo corpos caídos neste dia de Natal, uns ingleses, outros alemães, ainda vestidos e com as insígnias a que têm direito, não muitas, como devem calcular… Nas trincheiras onde se luta “mano a mano”, só os de menor patente se encontram… Já ouviram certamente a expressão “é carne para canhão”… É o que somos, literalmente.
E aqui estamos, uns e outros, sentindo o frio cortante que se faz sentir nesta quadra, que mata quase tanto como as armas… É aqui que chega a novidade, a ambos os lados das trincheiras, de que a guerra veio para ficar.
Do lado alemão da trincheira surge a mais fantástica reação a esta notícia: Fizeram-se “árvores de Natal”… É verdade… Pinheirinhos com decorações improvisadas trazem um cenário novo a este lado das barricadas…
Do lado inglês a reação é também ela inesperada: cientes de que as posições dos alemães estavam sinalizadas pelos pinheirinhos, e que eles tinham disso consciência plena, percebe-se que a intenção não era má, mas boa, e respeita-se esse espírito de Natal, essa luz, essa mensagem que dizia a todos que afinal podia ser o último Natal das suas vidas, e não o iam deixar de celebrar em paz…

Ali perdidos no meio do nada, os jovens soldados e os seus “superiores” no terreno, a quem deviam obediência, decidiram assim. O primeiro sinal de tréguas de ambos os lados.
Não iam, porque não queriam, lutar naquele Natal.
Chega o mágico dia 25 de Dezembro, e no silêncio que se fazia sentir desde a madrugada, lembrava-me da família que deixara no país de onde vinha… Tento cheirar a terra e a vegetação das proximidades, por entre o cheiro da pólvora e do sangue, enegrecido pelo tempo, que jaz no chão…
Maldita guerra…

Detenho-me nestes meus pensamentos, em devaneio e em segredo (não vá ser fuzilado pelos meus por traição à pátria, apenas porque não gosto da guerra, nem da morte, nem do cheiro fétido que ela me traz em cada manhã)…
Preferia bem mais estar entre amigos, e podiam ser ingleses e alemães, num qualquer bar onde fosse permitido estar em paz…

Nesse dia soube que todos, todos nós, assim pensávamos…
Preferíamos beber um copo, confraternizar, cantarmos músicas patetas de Natal até a noite cair… adormecer tranquilamente até o dia nascer outra vez… Aproveitar o tempo e caminhar por entre as árvores, apanhar lenha e palha sem medo de levar um tiro, de pé e com as costas direitas, cantando ou assobiando até enquanto se procede à recolha do que há-de fazer boa fogueira para nos aquecermos, antes que o frio nos leve mais depressa do que a guerra.
Sonhava acordado por entre o silêncio das trincheiras, encostado com a cabeça à terra fria, quando comecei a ouvir risos e vozes honradas, de sotaques fortemente ingleses e alemães, a uma só voz…
Levantei a cabeça e espreitei da posição onde estava, ligeiramente acima do monte de terra que me encobria, tal crocodilo quando espreita na água do rio onde aguarda a sua presa, só que neste caso a cautela e a prudência, tal como o ataque é mais fruto do medo do que de um qualquer instinto predador…
Só me podem ver os olhos, se olharem para ali, e ainda assim podem rebentar-me os miolos se o tiro for certeiro… Mas não rebentaram…Ninguém disparou!…

Olhei e vi dois soldados alemães e dois soldados ingleses no meio do terreno, entre as trincheiras, apertando as mãos e falando…
Disse quem viu que os dois alemães tinham saído da trincheira sem armas nas mãos e acenando, e os dois ingleses baixaram as armas e lá foram também ao seu encontro… Foi o cenário que presenciei… Muitos olhos iguais aos meus se levantaram por entre as trincheiras…

Já todos levantados, de um lado e de outro, acorremos sem as armas à terra de ninguém, algures por entre os corpos, ou partes deles, despojados de vida que forravam o chão, que já não nos culpam nem nos fazem chorar e que apenas olhamos com consternação e pesar, mas de alma dilacerada…

Somos nós que, naquela meia hora que nos foi oficialmente concedida para um forte abraço de tréguas, nos sentimos verdadeiramente vivos, talvez pela primeira vez desde que aqui chegámos…
Bem mais do que essa meia hora, foi um tempo em que tudo parou, fez-se mesmo uma partida de futebol, depois de limpo o terreno, entre ingleses e alemães, naquilo que é a representação da única forma saudável de luta e de competição: a que nos torna a todos melhores…e que nos faz passar momentos de pura alegria e partilha sincera…
Ah como joguei com alegria…
Naquele momento fomos todos os agradecidos rostos, de olhar brilhante de esperança e fé na humanidade, olhar que todos trazíamos connosco naquele encontro que, honestamente, durou toda a minha vida.
Fiquei sem celebrar o Natal seguinte, o único da minha vida que não celebrei…

Em 1915, dado ter sido reportado superiormente aquelas tréguas de Dezembro de 1914, naquelas trincheiras onde me encontrava, as ordens superiores enviavam para o terreno mais homens e intensificaram os ataques precisamente na semana antes do Natal. Malditos.

Depois fui dado como inapto e voltei para casa, vivo é certo, sem uma perna, de alma rasgada até ao centro de tudo o que sou, e jurei que todo o dia de Natal seria sempre por mim celebrado até morrer. Era a minha homenagem a este grupo de jovens soldados e seus superiores diretos, que tinham ousado desafiar ordens perversas e sórdidas e tinham decidido que não lutariam nesse dia. Nesse dia seria Natal.
E foi mesmo.
Nesse dia 25 de Dezembro de 1914 foi Natal nas trincheiras, quando eu, e todos nós, ingleses e alemães, vivemos um Natal de amor fraterno feito, de solidariedade entre os homens. Importa a esperança que em mim ficou para sempre, e para muitos dos que sobreviveram; não era já a esperança de que aquela guerra terminasse, mas a esperança numa humanidade diferente.

Neste dia de Natal, foi vivido um dos mais belos momentos que se pode viver numa guerra, o momento em que se faz a Paz.
Aquele forte abraço entre ingleses e alemães, foi para cada um de nós mais do que isso…
De repente mais perto de casa, um abraço que era dado ali, e que nos levava a muitas milhas de distância junto dos nossos…

Ao mesmo tempo, por estar tão lúcido no silêncio e na paz que me deixava livre o pensamento, dava-me conta do estupidificante paradoxo que a guerra é, que consegue trazer o que de mais tenebroso há no mundo, e também o melhor que há nos homens: aquele caloroso afeto que apaga a dor de um trago, que leva a solidariedade assim num repente ao irmão de armas que acudimos entre fogo cerrado, ou aquele que nos arrasta por entre os corpos, quando deixamos o rasto de sangue pela terra humedecida e gélida, enquanto nos coloca a salvo do lado certo da barricada…Melhor ainda quando somos acolhidos em qualquer um dos lados daquelas trincheiras, como naquele dia especial.

Um abraço que não olha a sotaques e a lados das trincheiras.
Este momento junta-nos, ingleses e alemães,também na dolorosa missão de recolha de todos os corpos que ali jazem, todos, sem olhar ao uniforme que envergam ainda, e que enterramos na vala que abrimos e que se torna o enterro mais digno que conseguimos naquele momento fazer pelos jovens que morreram dias antes…
Terminado o momento de partilha e alegria, dão-nos ordens para recolher outra vez, para cada um dos lados das trincheiras – malditos muros que dividem e destroem a humanidade, fronteiras da perversão! – e comigo de volta à barricada, volta a memória do pior que o humano tem, a miserável guerra, e a estupidez do desejo de conquista de uns sobre outros que levam quem manda a enviar os jovens, soldados à força como eu, para o terreno onde se mata e onde se morre…

Os senhores da guerra… Esses permanecem sentados nos seus luxuosos gabinetes, reunindo com as mais altas patentes militares de quando em vez para saber o que se vai passando, por vezes perdendo pouco mais do que trinta ou quarenta minutos do seu precioso tempo, por vezes menos, algures entre o seu almoço bem recheado, (enquanto a população vive racionando o que come, forçosamente, e só se o houver), e o jantar no sofisticado restaurante mais próximo ou no acolhedor salão das suas majestosas moradias, ou do amigo que convidou para o jantar, por vezes num caloroso momento, outras vezes marcado pelo protocolo, mas sempre na temperatura amena e reconfortante do conforto hipócrita daquele seu estatuto, que os protege enquanto lançam à mais tenebrosa miséria os que nada podem…
Imunes por um dia a esses senhores que atiravam com as nossas vidas para o inferno sombrio das trincheiras, fomos nós por uma vez senhores do nosso destino nesse dia: do inferno fizemos o nosso pequeno paraíso, e sentimo-nos gente de verdade só por isso.

Depois daquele abraço fraterno e humano, do aperto de mão vigoroso, da troca de presentes improvisada entre bebidas e charutos e outros bens que de ambos os lados pudemos arranjar e distribuir por todos, daquela partida de futebol ( a melhor da minha vida!), das fotografias que bem documentaram o caloroso momento, nada mais ficaria igual por aqueles dias. Durante esse dia andamos em paz, e não foram disparados mais tiros até ao dia seguinte.
Combinámos também o dia de ano novo que se aproximava… Afinal os ingleses iam revelar as fotografias tiradas e os alemães queriam vê-las tanto quanto os ingleses as queriam partilhar.

Decidimos mais esse dia de tréguas, onde matar e morrer não era permitido.
Nunca esqueci este Natal mágico.
No começo de um pesadelo que ceifaria muitas vidas, de muitos jovens, e que conduziria não só a Europa, mas o Mundo inteiro, àquela que foi a primeira grande chacina do século XX, partilhada um pouco por todo o mundo, sem tréguas e sem piedade, tinha acontecido um Natal de paz.

Foram quatro anos de terror. Para mim não chegaram a dois pela perda da perna.
Mas naquele dia no meio de tão dolorosa escuridão, nas trincheiras das trevas, a luz do amor fraterno entre os homens brilhou mais do que o barulho ensurdecedor dos tiros, dos disparos, dos gritos de dor que nos espezinham a alma e nos corroem as entranhas…

Não morri nesta guerra é certo, morri depois, já velho e cansado, rodeado dos meus.
A perna que lá perdi foi porque foi amputada, foi a gangrena impiedosa que a levou… ou isso ou levava-me a mim… E foi esta a perna que verdadeiramente nunca me deixou de doer…

Escapei a muito tiros que seriam certeiros… De que me queixo?… De nada!
Voltei e vivi. Envelheci porque tive essa sorte na vida. Amei porque pude.
Lutei o resto da minha vida contra a guerra. Essa nunca a percebi até à morte.
Nem a quero perceber, chamem-me estúpido se quiserem. Não me importo.
Sonhei até morrer com o dia em que soldados, como eu fui, homens e mulheres, se recusariam a lutar mais dessa forma estúpida, em nome dos senhores do poder que tudo ganham quando todos e todas nós perdemos. Perdem-se vidas, mesmo as do que a ela sobrevivem…perde-se a alma.

Esse dia não chegou. Mas ainda acredito que há-de chegar… Um dia esse será o meu milagre de Natal.
Do século XX onde vivi, recordo com pesar a guerra entre os povos, constante… Para além das duas Grandes Guerras, a das Coreias, a do Cambodja, a do Vietname, a Guerra do Ultramar ( guerra colonial de Portugal), os genocídios praticados em alguns continentes…

Lembro com dor tudo isto porque parte de mim tem alma inglesa, outra francesa, outra alemã, outra lusitana, porque parte de mim é europeia… e parte de mim tem alma africana, americana, asiática, australiana…Porque a minha alma é feita de gente…de tudo o que somos… pintada a traços largos por todos os continentes da Terra…
E todas as partes de Alma que tenho me dizem que a Guerra é um Inferno.
As trincheiras onde me encontrava naquela Primeira Guerra Mundial, são hoje tecidas de muitas formas e tons…
São as que separam homens e mulheres, pessoas de cor diferente, classes diferentes, sotaques distintos, diferentes religiões, culturas distintas, géneros, idades, cor política e partidária, etnias, convicções…
São as trincheiras da ignorância que não respeitam a diferença e não a toleram, formando muros em que a guerra é rainha e o terrorismo é rei…
Façamos das tréguas nas trincheiras naquele Natal perpétuo, as tréguas no Mundo…
As tréguas em que a Liberdade se conquista para todos e todas.
A Paz que nasce da diferença e nela se enriquece e se fortalece.
O Amor fraterno e solidário que eleva a humanidade, que zela e respeita os Direitos Humanos, Direitos das Minorias, Direitos das Mulheres e das Crianças…
A Solidariedade que é sempre plural, que acolhe a divergência e a diferença e a integra sem a amarfanhar, sem a oprimir jamais.

O meu milagre de Natal foi aquele dia de paz, de 1914, nas trincheiras onde o impossível se concretizou para o bem de todos os que ali estavam.
Fico a aguardar o dia em que os homens e as mulheres se recusem a lutar sempre que a luta obrigue a matar.
Neste Natal, que nem todos os povos celebram, que nem todos nem todas nós celebramos, celebre-se pois a paz entre todos os povos e entre todas as pessoas.
Que seja este o nosso milagre de Natal…À conquista de uma nova humanidade mais livre, mais justa e solidária.

* Nota da autora: Este é um conto ficcional inspirado na verdadeira história das tréguas nas trincheiras no Natal de 1914, bem relatada numa carta de um soldado inglês para a sua mãe, e apenas revelada quando da sua morte em 1974. Está bem documentada esta trégua, com fotos e relatos e vem descrita nos mais variados textos.
Este conto é no entanto absolutamente ficcional, tal como a personagem criada pela autora, mas tem por base os factos reais que fazem já parte da história da Segunda Guerra Mundial.

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