Conto

Ladrão no modo de silêncio

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Ao ranger tenebroso da porta do quarto, seguiu-se o barulho dos passos de um sujeito a caminhar lentamente na minha direção, como se o não pudesse surpreender o meu gesto de acender repentinamente a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira para revelar a sua identidade.

Deitara-me cedíssimo, com um par de meias de lã calçado e uma camisola interior de alças que era insuficiente para manter quente o meu corpo, que jazia na cama paralisado sobretudo do medo de que alguém descobrisse que eu era um cobarde.

Vestira por cima da roupa interior, um pijama de flanela, grosso como a pelagem de um urso e, para manter o peito aquecido com o meu bafo, cobrira antecipadamente de vergonha, a cara com a dobra do lençol ainda impregnado do cheiro da água-de- colónia barata que tinha oferecido à minha mulher na passagem do seu trigésimo quarto aniversário.

Devia ser um homem alto, pensei. Sentia que as passadas eram largas e deviam deixar vincadas na alcatifa, as marcas do seu corpo acrescido do peso do cutelo que usaria para me degolar.

Engoli em seco e naquele momento fui incapaz de uma reação. Pus-me a pensar, mas não tinha memória de, ao longo da minha ainda curta existência, ter feito inimigos que me quisessem dar o mesmo destino que a um vitelo que se leva para abate.

Senti pendente sobre mim o seu olhar, como uma ameaça de mau tempo que está prestes a concretizar-se. Nem me atrevi a respirar, muito menos a mexer nem que fosse um dedo sob a capa do edredão, onde não parecia real a ameaça sobre mim que pairava à superfície. Foi quando senti inundar-me a testa um suor frio que me dilatava o medo, como se para vê-lo diminuir de tamanho, tivesse o efeito contrário ao de derramar um balde de água gelada num ferro em brasa.

Nessa altura, vindo do lado em que se encontrava, um toque de telefone soou ao clarim de uma brigada de infantaria que vinha socorrer-me quando eu mais necessitava de ajuda. Serviu para travar-lhe o passo e talvez tenha recuado na intenção de perpetrar o crime que se avizinhava. Ouvi-o, à pressa, abafar, enfiando a mão no bolso, o som do aparelho, que no caso de ter a janela aberta atiraria para longe, só para o não voltarem a incomodar quando com uma mão não me conseguisse imobilizar e precisasse da outra para me desferir o golpe fatal.

De repente, tive vontade de o confrontar com a situação de ilegalidade em que incorrera. Sem me conhecer de parte alguma tinha invadido a minha casa e a pretexto de me assaltar, tinha planeado o meu assassinato como se fosse natural lutar com ele para defender o direito de eles continuarem a pertencer-me.

Deu-me vontade de destapar a cara e revelar a sua identidade, de olhá-lo fixamente nos olhos como se quisesse obriga-lo a devolver algum objeto de maior valor que já tivesse guardado dentro do bolso. Queria ver de que lado estava para avaliar a possibilidade de sucesso numa fuga à pressa em direção ao corredor e dali para a porta de saída em direção à rua. Não sabia se vinha acompanhado. Nesse caso, teria de ter o dobro da velocidade. Para escapar, da tentativa de um me agarrar com as mãos e ao esforço do outro de com os pés me pregar uma rasteira que me fizesse estatelar no chão.

Calculei que seriam umas onze horas. Escutava à hora do costume, a cama do casal do andar de cima a ranger como se fosse das molas estarem tão gastas que já nem quando simplesmente se sentavam para descalçar as meias, deixava de se escutar o barulho metálico que devia incomodar toda a vizinhança. A mulher, que era desengonçada a andar, chegara cedo a casa e em diversas ocasiões ouvia-a caminhar na cozinha de botas como se andasse à chuva, antes de decidir-se a levar o cão a passear na rua, que de estar há tanto tempo à espera há muito devia morrer de vontade de espalhar cocós e xixis pela casa.

Receoso, dei por mim receoso de que por circular no quarto às cegas, o tal sujeito, que no mínimo devia andar armado com uma faca de um talhante a quem tinha aproveitado para roubar uns bifes, pudesse derrubar da mesa um portátil que tinha comprado com a maior parte do subsídio de Natal que, pela lei geral do trabalho, só tinha o direito de receber dali a dois meses.

Sem tempo para pensar num plano de fuga, tomei a resolução de abrir os olhos e espreitar para ver se o motivo por que não tornara a ouvir o toque do telemóvel, seria ele tê-lo posto no modo de silêncio ou simplesmente ter-se definitivamente afastado, temendo ser descoberto se eu repentinamente acordasse.

Fez-se luz no meu pensamento quando abri os olhos à clarividência das minhas ideias. Antes de terem trocado tiros as duas personagens do filme que estava a dar na televisão, percebi que incorrera num erro grave ao interpretar mal o que se estava a passar, o que de resto era muito frequente nas pessoas com imaginação fértil como a minha.

Adormecera com o aparelho aceso e acordei por acaso, num momento de suspense anterior à cena em que só uma delas escaparia ao violentíssimo tiroteio que estava prestes a iniciar-se. Levado pelo medo, interpretei tudo ao contrário, quando o ruído dos passos de um deles a aproximar-se do outro, me fez pensar que o alvo daquele forasteiro que tinha entrado no quarto era eu e que eram os meus bens que ele ia roubar para vender ao desbarato, sabe-se lá a quem.

Espero que não se torne vulgar, dar-me sono quando me deito a ver um filme e só acordar dali a um par de horas sem ter assistido ao final. Era como quando dantes me dava sonolência de estar à espera que a minha mulher se arranjasse para sair de casa ou simplesmente saísse das lojas em que entrava nos centros comerciais, com o pretexto de andar a mexer em trapos para ficar a par das últimas modas.

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