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Entrevista a Rui Sinel de Cordes

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O Ideias e Opiniões continua a sua forte aposta nas entrevistas exclusivas trazendo, sempre que possível, profissionais talentosos das mais variadas áreas que merecem a nossa atenção e destaque. Desta vez trazemos uma entrevista com um dos maiores nomes do humor português, alguém que gera amor e ódio em igual medida.

Senhora e senhores é uma prazer, e uma honra, trazer-vos uma entrevista exclusiva com Rui Sinel de Cordes.

No teu espetáculo “Cordes Out” referiste que uma piada para sê-lo só precisa que uma pessoa no Mundo se ria. Existe um grande preconceito na mente das pessoas que não aceitam que certos assuntos sejam abordados, porque mexe com elas, ou é ainda a mentalidade conservadora dos portugueses que faz com que o humor negro em Portugal ainda esteja muito limitado a um grupo restrito de comediantes?

Existe um preconceito e uma falta de inteligência emocional em algumas pessoas, fruto de uma herança cultural e religiosa frágil e cinzenta que impede que riam de certos assuntos. Felizmente há muitas outras, suficientes para a existência de humor negro em Portugal, que vêem para além disso e gostam de rir de qualquer tema, desde que tenha piada. Essas chegam-me para ser feliz, não me queixo.

No “Cordes Out” afirmaste também que não existe stand-up comedy em Portugal, dado que apenas tu e nomes como o Luís Franco Bastos, o Rui Cruz, o Salvador Martinha, o Paulo Almeida e poucos mais, o fazem. Porque é que o stand-up ainda é apenas algo em desenvolvimento? E quando achas que este panorama pode mudar?

Eu não disse que não existia stand-up comedy – existe e muito – disse que não existia um mercado, uma indústria, um conceito geral de stand-up comedy que permita a esses humoristas que citaste e outros construir uma carreira com a mesma facilidade que têm os humoristas americanos ou britânicos.

Um sistema que vai dos comedy clubs, aos festivais, às reviews, aos media dedicados a humor, aos shows de TV de painel de comédia, terminando nos especiais de TV, entre tantas outras coisas. O que alguns conseguem fazer em Portugal, apesar desse handicap, é um milagre.

O teu espetáculo “Cordes Out” teve uma melhor adesão por parte dos teu fãs do que os anteriores. Sentes que isso se deve ao facto de estares preste a ir para outro país, ou é porque os teus fãs te consideram mais maduro?

Primeiro, eu não tenho fãs. Eu tenho pessoas que esporadicamente gostam de aparecer para me ver trabalhar. Qualquer gajo que diga “os meus fãs” não está bom da cabeça. Este último espectáculo teve um pouco de mais adesão em termos de quantidade, mas teve a mesma boa energia dos últimos.

Talvez o facto de me ir embora tenha tornado algumas noites mais quentes e emotivas, mas o principal motivo está relacionado com uma ideia que se está a generalizar de que podemos rir de temas mais sombrios e não somos piores pessoas por isso. Está a desaparecer a vergonha de rir de humor negro e isso era uma coisa que seria normal acontecer com o passar do tempo e com o aparecimento de mais humoristas a fazer esse estilo.

Que espetáculo teu consideras como o melhor? Porquê? Entre todos os teus espectáculos consegues eleger o preferido, ou isso é tão difícil quanto os pais da Maddie estarem cinco minutos a tomar conta dos filhos?

Consigo saber bem de quais gosto mais. Para mim, o melhor é sem dúvida este último, mas não tenho problemas em que alguém prefira um dos outros. O “Cordes, Out” é o meu espectáculo mais maduro, verdadeiro e engraçado, na minha opinião. Felizmente muitas pessoas a partilham.

Fala de problemas universais e aventuras pessoais, pode ser traduzido para qualquer língua que funcionará, não tem bashing. Gosto mais deste tipo de humor do que o que fiz no Black Label ou no Sassetti. O normal é que um humorista, enquanto cresce como homem, desenvolva com naturalidade o seu estilo de humor. Facilmente vemos isso no Louis CK ou no Jim Jefferies ao longo dos anos. São menos crus agora, mas possivelmente mais negros.

Mas voltemos ao início da tua carreira. De onde nasceu o gosto pelo humor negro? Quando percebeste que era isto que querias fazer da vida?

É fácil. Quando vemos que o que mais nos faz rir, são piadas negras, ou grandes doses de sarcasmo, é natural que quando começamos a tentar ter piada, seja esse humor que nos agrade fazer. Quando na faculdade, através desse humor, se começaram a ouvir gargalhadas na sala de aula, percebi que era isso que queria fazer.

Fotografia retirada do Facebook de Rui Sinel de Cordes

Lembras-te da primeira vez que pisaste um palco? Onde, e como, foi essa experiência?

Estava muito bêbado. Lembro-me pouco, felizmente. Não tinha a noção do que estava a fazer. Mas o texto tinha piadas que ainda hoje podia usar. Pelo seguro, não as uso.

Já te arrependeste de alguma piada que fizeste? Se sim, qual?

O facto de estar a ver o Thames da janela da minha casa, faz-me ter a certeza que não. Se eu queria ir atrás na minha vida e mudar alguma coisa? Com esta vista? Hell no!

Qual foi a melhor piada que já escreveste para um espetáculo? E qual foi a que gerou a pior reacção?

Não consigo eleger a melhor. Ainda bem, acho eu. A pior reacção foi uma piada sobre a Maddie três dias depois do desaparecimento dela, num Tivoli esgotado de pessoas que não sabiam quem eu era. Partiu a sala ao meio, autenticamente. Metade odiaram-me na hora. É o que eu chamo uma peneira de grunhos. Adorei.

Sentes que tens muito boa gente a torcer…para que falhes lá fora?

Espero que não… por elas. Hoje em dia não tenho praticamente contacto algum com esses grunhos que te falei. Eu não ando nas redes sociais habitualmente, não leio comentários nem oiço opiniões. Tenho demasiado amor à minha volta para perder tempo a pensar em ódios alheios.

Se esta aposta no mercado internacional resultar tão bem quanto desejas corremos o risco de perder o Sinel de Cordes para sempre ou queres sempre voltar aos palcos nacionais?

Isto acima de tudo é uma experiência que queria ter há 10 anos. É difícil correr mal porque o principal objectivo é aprender mais e melhorar e isso vai sempre acontecer, com maior ou menor sucesso aqui no Reino Unido. Agora, voltar, voltarei sempre. Não sei quando volto a viver em Portugal, mas no início de 2018 estou de volta para uma nova Tour.

Qual foi o melhor momento da tua carreira? E o pior?

O melhor é neste preciso momento que te escrevo. O pior foi quando fui para a +TVI (altura em que me foi oferecido mais dinheiro, tirem as vossas conclusões). Tive boas milestones: Gente da Minha Terra: Europa; Punchliner, Je Suis Cordes no Coliseu, Very Typical e a tour Cordes Out.

O que esperas encontrar na experiência no estrangeiro? Quais são as expectativas para esta aventura?

É isso, acima de tudo melhorar, aprender mais e entrar numa indústria que existe há mais de meio século. E claro, conseguir fazer rir alguém num palco a falar inglês.

A que personalidade portuguesa ou estrangeira gostarias de fazer um roast?

Ao Drake.

Portugal é aquele país que por muito que queira nunca vai aceitar verdadeiramente o conceito do roast, não é?

Não concordo e o Roast da Radical foi prova disso.

Rui Sinel de Cordes durante o roast à SIC Radical, o ano passado

Quem são as tuas maiores influências, a nível nacional e internacional, no mundo da comédia?

Jim Jefferies, Bill Hicks, Louie CK, Bill Burr, Jimmy Carr, Frankie Boyle, Anthony Jeselnik, Daniel Tosh, Dave Attell e Bo Burnham.

Se te fosse dada a oportunidade de trabalhar com qualquer humorista (nacional ou estrangeiro) com quem gostarias de trabalhar? E porquê?

Os humoristas não trabalham assim tão bem juntos. É raro um projecto colectivo entre grandes humoristas, se reparares. Arriscava as minhas chances com o Bill Burr ou o Jeselnik.

Da nova geração de comediantes qual/quais crês que vai/vão ter um futuro mais risonho?

Os que saíram dos meus workshops! Ahaha

A facilidade com que um simples estado/imagem se torna viral nas redes sociais pode levar os mais jovens a encarar a profissão de humorista como algo “fácil”?

E é fácil. Nós inventamos piadas, vamos a um sítio dizer e as pessoas aparecem para rir. O que é que isto custa? Difícil é acartar merdas ou ter horário fixo.

Tendo em conta as desigualdades e as incongruências em todas as religiões, Deus, se existir, é claramente adepto de humor negro, certo?

Deus, se existir, é o maior produtor de humor negro de sempre!

Sentes que ainda és perseguido pelo humor que fazes e que existem muitas pessoas que não conseguem distinguir o Rui Sinel de Cordes – Humorista e o Rui Sinel de Cordes – Pessoa?

Honestamente, faço piadas a que acho piada e gosto quando as pessoas se riem. Não tenho nenhum interesse na opinião que as pessoas têm de mim como pessoa. Para isso temos tantos outros humoristas, certo?

Os Social Justice Warriors são uma praga para qualquer humorista?

São uma praga para qualquer pessoa com neurónios.

Quantas variações do teu nome já ouviste?

Não tantas quantas vou ouvir a partir de agora em Londres.

Onde é que te vês daqui a 10 anos?

Espero que morto, a minha paciência já não dá para muito mais.

 

O Ideias e Opiniões agradece a simpatia e disponibilidade do Rui Sinel de Cordes assim como a melhor das sortes para esta grande aventura no estrangeiro. Podem acompanhar o trabalho do Sinel de Cordes aqui.

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