Conto

Entretanto no Reino de Alvalade…

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        O dia tinha sido demasiado comprido para Bruno. Há horas que ele apenas desejava chegar a casa, abrir a sua melhor garrafa de whisky, vestir o robe e sentar-se no seu maravilhoso e confortável cadeirão em tons esverdeados em frente à ladeira. Este era um ritual que tinha adoptado desde que tomou posse da direcção do clube. Mas naquele dia, ele não queria apenas ficar ali por ficar, mas sim porque precisava tremendamente daquilo. De um momento a sós para colocar as ideias no lugar. O dia tinha-se relevado muito intenso e desapontante para ele. Todas a ideias que ele tinha para, no seu entender, melhorar o clube tinham saído goradas. Tinha sido a pior Assembleia do clube que já alguma vez tinha presidido.

         E quando deu por si já estava sentado no seu cadeirão, de copo na mão direita e charuto na esquerda, com os olhos a brilhar devido à intensa luz que provinha da lareira que ardia sem dó nem piedade.

         — Como é que é possível que me tenham feito frente daquela maneira? Quem é que eles pensam que são? — disse para si mesmo, bebendo de seguida um gole do seu precioso whisky. Engoliu e de seguida levou o charuto à boca, dando uma veemente bafada no mesmo.

       — Calma, dono… Não precisas de ficar assim… — disse um voz para Bruno.

         A voz era calma e as palavras pareciam sair ponderadas. Mas mesmo assim Bruno assustou-se, levando-o quase a entornar o whisky. Olhou para o lado e lá estava ele, completamente estatelado em cima da carpete de focinho quase enfiado dentro da lareira, tentando assim absorver ao máximo o calor que provinha da mesma.

         — Oh, Piruças… Estás ai? Tens de parar de aparecer assim desta maneira, leão d’um raio! — arrematou Bruno, após se aperceber que o seu leão de estimação também estava ali na sala a partilhar o mesmo espaço e o calor que a lareira emanava.

         — Por que estás assim, dono? — disse o leão, depois de soltar um enorme bocejo que fez Bruno sentir um ligeiro bafo a carne.

         Bruno olhou para a lareira, bebeu mais um gole de whisky e voltou a dar mais um bafo no charuto antes de falar:

         — Aqueles ingratos não aceitaram as minhas propostas de alteração aos estatutos do clube. Viraram-se contra mim!

         — Oh… Mas não fiques assim. Se quiseres eu vou lá dar-lhes uma valente lição para eles aprenderem que não devem meter-se com o meu dono.

         — Oh, Piruças… Se isso fosse assim tão fácil…

         O leão espreguiçou-se violentamente e de seguida sentou-se na carpete. Coçou o focinho antes de voltar a falar:

         — Mas estás a querer dizer que vais desistir? Tu não és assim…

         — Não sei o que fazer mais, Piruças. Eles não gostaram das minhas ideias e, embora eu não aprecie muito, eles é que votam. Não sei o que fazer agora. Ainda por cima… — Bruno parou de falar para voltar a dar mais uma bafada no charuto.

         — Ainda por cima o quê? O que foi que fizeste? — interrogou o leão.

         Bruno bebeu de um gole apenas o restante whisky que restava no copo e de seguida respondeu:

         — Ainda por cima disse que ia deliberar melhor, mas que o mais provável era demitir-me. Por que raio fui fazer isto? Eu pensava que tinha mais força junto daqueles energúmenos pobres e mal agradecidos. Esquecem-se rápido tudo aquilo que já fiz pelo Sporting Clube de Portugal.

         O leão soltou uma enorme gargalhada que até fez Bruno estremecer.

         — Isso foi a melhor coisa que podias ter feito! — disse o leão.

         Bruno não percebeu muito bem o que o leão queria dizer com aquilo. Ficou alguns momentos em silêncio, talvez decidindo se devia interrogar o leão sobre o que ele quereria dizer com tais palavras, mas acabou por quebrar o silêncio:

         — O que queres dizer com isso?

         — Quero dizer que os tens na mão a todos! — respondeu de imediato o leão.

         Bruno ficou ainda mais baralhado e confuso. Sentiu as faces da cara a ficarem cada vez mais quentes, sem perceber muito se tal facto se devia ao calor que emanava da lareira ou do whisky que tinha ingerido.

         — Como assim? Como é que podes dizer uma coisa dessas? Eu disse que me ia demitir!

         — Eu sei… E agora eles vão ficar todos a remoer nisso. Sim, de facto, muitos deles ficarão muito contentes após proferires tais palavras — o leão fez uma pausa nas palavras para lamber a pata direita dianteira —, não tenho dúvida nenhuma disso. Mas tu agora foste espicaçar aqueles que gostam realmente de ti. Aproveita isso. Continua a dizer que te vais demitir, se não aceitarem os novos estatutos que apresentaste, e vais ver que isso vai acabar por te ser mais benéfico.

 

Foto: Jornal Record

 

         Bruno pensou naquelas palavras que saíram da boca do leão durante uns largos momentos. Por um lado até fazia algum sentido tudo aquilo que o leão dizia, mas, por outro, ele tinha receio que não fosse bem verdade e que acabaria mesmo por ter de se demitir.

         — E se não for assim como estás a dizer? E se realmente não aceitarem as novas propostas que apresentei?

         — Isso não vai acontecer… — ripostou o leão num ápice.

         — Como podes ter tanta certeza disso?

         O leão abanou a cauda com tanta veemência antes de falar que acabou por embater com ela no cadeirão onde Bruno se encontrava sentado, de tal forma que Bruno até deu por si a dar um ligeiro salto.

         — Isto chama-se manipulação psicológica, meu caro. — avançou o leão — Fazes-te de coitadinho, e todos aqueles que gostam de ti vão ter pena de ti. E acabarão por fazer de tudo para que não te demitas.

         — Oh, mas isso não funciona assim, ó leão… O que sabes tu sobre manipulação psicológica? Tu não passas de um simples animal…

         O leão, após ouvir aquelas palavras que, no seu entender, não passavam de simples e básicas baboseiras, riu-se uma vez mais, levantou-se e colocou as patas dianteiras no braço do cadeirão onde bruno estava confortavelmente sentado em frente à lareira. E disse:

         — Estás a esquecer-te de quem sou? Eu não sou um simples animal… Eu sou o Rei da selva. O Rei de todos os animais. Eu sei do que falo. Eu próprio já tive de recorrer a este tipo de comportamento para colocar todos aqueles que, na selva, estão contra mim. Acredita no que te digo, as pessoas ou os animais comportam-se todos da mesma forma e são muito fáceis de manipular.

         As palavras do leão pareciam conter tanta certeza e poder, que Bruno acabou por se deixar levar por elas. E o facto de o leão estar ali, com o focinho quase colado ao seu, deixou-o um pouco inseguro naquele momento. De facto, era o Rei da selva que se encontrava ali, na mesma sala que ele. E por alguma razão ele era o Rei. Se calhar, pensou Bruno, deveria mesmo dar alguma importância às palavras que provinham da boca do animal.

         — O que propões…? — acabou por soltar Bruno.

         O leão sorriu. Voltou a sentar-se na carpete a olhar fixamente para lareira e disse:

         — Que continues a fazer o choradinho de que te vais embora. Irás ser criticado por tudo e todos, mas vais ver que acabarás por sair ainda mais forte do que pensas nesta história. Marca uma nova Assembleia. Continua a bater na mesma tecla: ou aceitam os novos estatutos ou demites-te. Ponto final. Tão simples como isto.

         — E se isso não resultar? — disse Bruno, algo receoso com a resposta que podia provir daquela pergunta.

         — Vai por mim… As pessoas são como animaizinhos indefesos. Gostam de levantar a voz, mas na altura dos acertos rebaixam-se tal e qual um animal indefeso.

         — Não posso acreditar nisso! — ripostou Bruno levantando a voz.

         O leão soltou um rugir tão barulhento e assustador que Bruno teve a impressão que as paredes da sua casa se tinham rachado todas. Encolheu-se na cadeira, com cara de assustado a olhar para o leão.

         — Viste? — disse o leão.

         — O quê? — respondeu Bruno, com a voz a tremer-lhe.

         O Leão sorriu de forma maliciosa e disse:

         — Viste a forma como te encolheste e te rebaixaste ao meu rugir? Levantaste a voz, querendo ser superior ao Rei da selva. Eu mostrei-te aquilo que te estava a dizer: tens de ser superior e mostrar que tu és o Rei da tua própria selva. Se te fizerem frente, tens de rugir para eles. Tens de mostrar quem realmente manda! Não sejas como um animal indefeso! Mostra aquilo que és!

O leão voltou a rugir, desta vez com mais força ainda e Bruno sentiu aquele rugido a entrar-lhe na alma por completo. Aquilo fez-lhe ganhar forças. Levantou-se do cadeirão como se tivesse levado um choque eléctrico, e disse:

— Tens toda a razão, Piruças! Eu sou o Rei daquela selva! Eu vou mostrar quem manda!

O leão acenou de forma afirmativa com o focinho, ao mesmo tempo que observava Bruno a sair da sala.

***

Alguns dias se passaram. Bruno estava de volta a casa. Mas desta vez, algo estava diferente. Bruno estava feliz. Tinha conseguido levar as ideias que tinha para o clube à avante, saindo vitorioso da Assembleia com uma larga vitória no que a percentagem de votos a seu favor diz respeito. Desta vez, Bruno não queria voltar a sentar-se no seu cadeirão em tons esverdeados, enquanto sentia o calor da lareira a aquecer-lhe as faces da cara ao mesmo tempo que bebia um gole do seu melhor whisky e dava largos bafos num charuto. Desta vez, ele só queria chegar a casa para encontrar o leão e dar-lhe um valente abraço de felicidade e agradecimento, mesmo que ele não gostasse muito desse tipo de demonstração de afecto. Não se importaria com qualquer que fosse a reacção do leão. Chegou a casa, apressou-se a deslocar-se para a sala mas não encontrou o leão. Olhou em redor, mas não o via em lado nenhum. Achou estranho… até que, olhou para a parede onde se encontravam vários quadros e outras coisas mais, e lá estava ele pendurado. Não o leão por completo, mas sim apenas a cabeça de um leão.

Bruno sorriu… abriu a garrafa do seu melhor whisky e encheu o copo. Pegou num charuto e acendeu-o. Sentou-se no seu cadeirão em tons esverdeados em frente à lareira, deu um valente gole no whisky, de seguida levou o charuto a boca e deu um bafo enorme. Abanou a cabeça, sorriu uma vez mais e disse:

— Tinhas razão… Eu sou mesmo o Rei da minha selva!

 

FIM

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