Conto

Entretanto, no Estabelecimento Prisional de Évora…

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A cela estava fria e húmida, e o dia tinha acabado de dar o ar da sua graça com alguns raios de sol a furar as grades da janela. Sócrates acordou de mais um pesadelo horrível, em que tinha sonhado que estava detido numa prisão – assim que abriu os olhos, constatou que não se tratava de um pesadelo, mas sim da dura realidade e que tinha passado a noite em branco sem conseguir pregar o olho.

Sócrates sentou-se na cama e tocou no chão com os pés descalços, sentindo o frio e a humidade da cela a apoderarem-se lentamente dos seus pés e pernas. Não se importou, pois era uma forma de se sentir acordado e, mais propriamente, de se sentir simplesmente vivo.

— Mas o que foi que fiz, para merecer um fim destes, caramba! — disse Sócrates, sentindo um calafrio na coluna. Talvez fosse do frio ou da humidade que preenchiam a cela, que parecia já ter percorrido todas as suas pernas e chegado à coluna. Ou talvez não. Provavelmente seria devido ao facto de se sentir tão sozinho naquela cela, que isso lhe provocava arrepios constantes.

Como ainda faltavam algumas horas para o pequeno-almoço — altura em que os guardas prisionais abririam as portas —, Sócrates decidiu pegar naquilo que tinha sido a sua companhia desde que ali fora parar: um livro de Filosofia, de que era autor, e que era um dos seus maiores orgulhos — pois tratava-se da constatação pessoal de que a temporada passada em França tinha dado frutos. Ao fim ao cabo, teria obrigatoriamente de dar frutos, visto que ele teve de pedir um empréstimo bancário para conseguir viver minimamente bem em Paris, enquanto se esforçava para terminar o mestrado.

Sócrates abriu uma página do livro ao calhas, e leu um pequeno trecho do que estava lá escrito. Inspirou fundo, e soltou um pequeno sorriso orgulhoso.

— Raios, já fui muito bom… — disse, com a sua voz a sair-lhe um pouco amargurada.

— Na verdade, não eras assim tão bom quanto isso… — disse uma voz aguda, em resposta ao auto-elogio que Sócrates tinha proferido há poucos segundos atrás.

Sócrates parou imediatamente de ler, e pousou o livro no colo ficando alguns segundos a olhar em redor da sua cela, à procura de onde tinha vindo aquela estranha voz aguda. Mas não estava ninguém na cela para além dele. Isso só podia significar duas coisas; ou estava alguém do lado de fora da cela a zombar da sua pessoa, ou então tinha começado a ouvir vozes na sua cabeça — o que era algo que Sócrates tinha bastante receio que acontecesse, visto ter ouvido várias histórias de antigos presos que tinham simplesmente enlouquecido nas suas celas, e que passavam os dias a responderem a perguntas que vinham do interior da sua própria cabeça.

Levantou-se, calçou os chinelos que estavam à beira da cama, e dirigiu-se até à porta da sua cela. Espreitou pelo pequeno buraco rectangular que existia na porta, e constatou que não estava ninguém para lá da porta, que pudesse estar a fazer pouco dele. Abanou a cabeça e voltou para a cama, voltando a sentar-se.

— Meu Deus, aquilo que mais temia… — começou por dizer. — Estou mesmo a ficar louco! Já ouço vozes!

— Lamento, mas não estás a ficar louco… — voltou a dizer a voz aguda que o estava a importunar.

Sócrates ficou paralisado. Olhou mais uma vez em redor da cela, mas não viu ninguém. Então, decidiu optar por deixar-se levar pela loucura, visto que não tinha nada a perder. Ao fim ao cabo, sempre era melhor ter alguém com quem falar — mesmo que esse alguém fosse fruto da sua própria imaginação.

— Ora estou, sim senhor… Até já estou a ouvir vozes imaginárias! — disse, soltando um sorriso.

— Não estás a ouvir vozes imaginárias… Eu existo, e estou aqui mesmo ao teu lado! — disse a voz aguda.

— Pois, pois… Então por que raio não te vejo? — perguntou Sócrates à voz aguda.

— Não vês, mas podes sentir-me…

Sócrates sentiu uma enorme picada na perna, como se fosse uma espécie de mordida de algum insecto que estivesse a querer roubar-lhe um pedaço de carne.

— Autch! O que raio foi isto! — exclamou bem alto.

— Desculpa, mas foi mais forte do que eu… Sabes, é simplesmente o que eu faço: mordo. — justificou a voz aguda.

Sócrates ficou um pouco em silêncio, e aproveitou para examinar a perna, não encontrando nenhuma marca de mordida. Mas ele sentiu-a, disso tinha a certeza absoluta — ou teria sido mais um sinal de que estaria a ficar louco?

— Quem és tu?… — perguntou de forma receosa Sócrates, com medo da resposta.

— Sou o teu companheiro de cela. Chamo-me Zé Tó e sou uma pequena, mas simpática pulga. — disse a pulga.

— Meu Deus…

Sócrates não queria acreditar no que estava a ouvir. Uma pulga estava a falar com ele, e dizia chamar-se Zé Tó. E pior que tudo: ela afirmava que era sua colega de cela. Sócrates colocou ambas as mãos nas faces da cara, e esfregou-as violentamente numa tentativa de perceber se estava a sonhar ou se era, de facto, a realidade — ele estar a falar com uma pulga.

— Meu Deus…— começou por dizer Sócrates. — Era o que mais me faltava agora: estar a falar com uma pulga. Já não chega estar a sofrer desta forma injusta, em que já tive de vender o meu apartamento no Marquês de Pombal para pagar as dívidas; em que estou em risco de perder a amizade do meu amigalhaço Carlos Santos Silva; em que tenho um Juiz responsável pelo meu caso que quer ser o Robocop dos tempos modernos à minha custa; em que contratei um advogado que parece ter mais jeito para o stand-up comedy do que para a advocacia; e agora uma pulga que fala, a viver comigo na mesma cela!

Sócrates pegou no livro que estava em cima da cama, e colocou-o na sua minúscula mesa-de-cabeceira que tinha ao lado da cama — que era uma das poucas regalias que um ex-primeiro-ministro preso podia ter.

— Pois… É a vida, meu caro… — disse a pulga, com a sua voz aguda a irritar Sócrates.

— O que mais pode estar para acontecer, por Deus! — gritou Sócrates, não se importando de parecer desesperado perante o seu novo companheiro de cela.

— Muito mais está para acontecer, meu caro Sócrates… — disse a pequena pulga, soltando um pequeno sorriso.

— Como assim?

— Parece que o Paulo Pereira Cristóvão está cá também… Chegou ontem… O que deve ser terrível para ti, caro companheiro… Certo? — disse a pulga.

— Porque dizes isso? Por ele ter sido da Polícia Judiciária? Isto está cheio de ex-polícias e outros que mais…

— Não… Por ele ser do Sporting… Já percebi por que razão estás preso… Afinal não és assim tão inteligente quando isso… — disse a pequena pulga, soltando uma enorme e aguda gargalhada.

Sócrates não respondeu. Limitou-se a levantar-se da cama e dirigir-se a uma das paredes da cela fria e húmida, onde estava pendurado o cachecol do Benfica, que tinha sido oferta do seu grande amigo benfiquista, Barbas, que ele tanto prezava. Retirou-o da parede e dirigiu-se para a cama. Sem pensar, desatou às verdascadas aos lençóis, numa tentativa desesperada de matar Zé Tó, a pulga irritante. Mas em vão, porque quanto mais verdascadas nos lençóis ele dava, mais alto ouvia as loucas gargalhadas da pulga. Alguns minutos mais tarde, já estoirado e a suar, decidiu parar e deixou-se cair no chão em perfeita agonia… acabando por adormecer de cansaço.

Voltou a acordar com o barulho do destrancar da porta da cela, onde um guarda prisional abriu a porta e fez-lhe sinal para se levantar porque estava na hora do pequeno-almoço. Sócrates estranhou o facto de já não estar no chão, mas sim, deitado na sua cama e coberto pelos lençóis. Levantou-se, lavou a cara num pequeno lavatório que tinha na cela, vestiu-se e dirigiu-se para a porta. Antes de sair, disse:

— Zé Tó, vens?…

Mas ninguém respondeu. Sócrates encolheu os ombros, e saiu da cela…

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