Política

Educação: Que rumo?

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Na última década, como deverá ser do conhecimento do leitor, Portugal passou por um período de recessão económica, durante o qual foram impostas medidas de austeridade com forte impacto no funcionamento dos serviços públicos, dentro dos quais se inclui a educação.

Ora, numa democracia do século XXI, é imperativo que as fundações da mesma se sustentem num sistema público de educação de acesso universal, tendencialmente ou totalmente gratuito, no qual os membros de todos os estratos sociais, principalmente os mais desfavorecidos, possam receber uma educação de qualidade, que lhes assegure um futuro onde a perpetuação geracional das desigualdades sociais seja vista como uma mera memória de um passado sombrio.

Não é segredo que as diretrizes dos governos vigentes, neste período, tenham ido num sentido totalmente oposto ao mencionado em cima. Os sucessivos cortes no orçamento da Educação levaram a que as escolas tivessem que “fazer mais, com menos meios”, o que consequentemente levou a uma, tanto humanos como materiais, a um aumento do nº de alunos por turma, que como o leitor deve imaginar, torna ainda mais complicado o processo de aprendizagem para os alunos, bem como a planificação das aulas para os professores, que por sua vez se veem sobrecarregados, não só com aulas, mas também com trabalho burocrático e administrativo que lhes ocupa demasiado tempo.

A acrescentar a isto, temos ainda a constante obsessão dos governos na aferição de resultados escolares em termos quantitativos em vez de qualitativos, o que leva a que sejam ignorados indicadores socioeconómicos que são demonstrativos dos motivos que levaram muitos alunos a atingir resultados fracos ao longo do seu percurso escolar, bem como a imbecilidade que é a comparação de escolas através de rankings, onde todos os anos se cai na armadilha de comparar escolas públicas e privadas que não partilham a mesma tipologia de alunos, nem os mesmos recursos humanos, materiais e financeiros, e onde ainda se comparam escolas públicas entre si, onde a composição socioeconómica dos alunos tem disparidades enormes, levando a que seja passada uma imagem errada, não apenas das escolas, mas das comunidades que as compõem.

Tudo isto são exemplos sobre a forma como o Estado português tem posto em causa o seu papel enquanto responsável máximo das políticas educativas, bem como a sua credibilidade na resolução dos problemas estruturais do sistema público de educação.

O Fórum do Aluno organizado pela ES Alcochete é um excelente exemplo do que deve ser a participação comunitária no ensino. Fonte: Apolo XXI/BESAR

Hoje, mais do que nunca, é absolutamente necessário que:

1) Exista um envolvimento directo dos membros que compõem a comunidade escolar – alunos, pais, professores, assistentes operacionais, direcções – de forma a combater a crescente desresponsabilização do Ministério da Educação, que cada vez mais se desliga do seu papel enquanto autoridade máxima do sistema educativo. Este envolvimento pode ser feito através de reuniões entre os membros acima mencionados, tanto no início do ano lectivo, como também no final do mesmo, podendo até existir reuniões intercalares a meio dos períodos escolares (aliás, não muito longe do meu local de residência houve uma iniciativa semelhante à que proponho, sendo esta desenvolvida pelos próprios alunos).

2) Dar às escolas uma maior autonomia na flexibilização curricular no âmbito das competências transversais (ou soft-skills), mais concretamente no sentido de dotar os alunos com uma maior capacidade de resolução de problemas. Esta flexibilização teria que ocorrer dentro dos horários escolares definidos, já que a carga horária dos alunos é também ela uma questão a ter em conta. Uma das potenciais medidas seria os alunos desenvolverem um projecto de investigação livre com recurso ao método cientifico, pois não só os ajudaria a ter uma noção mais prática daquilo que aprendem no contexto de sala de aula, mas também seria uma valiosa ajuda educativa para os alunos que pretendam ir para o ensino superior.

3) Adoptar medidas estruturais que respondam de forma eficaz ao abandono escolar, que, segundo o relatório “Estado da Educação 2016”, se situa em 14%. As CM’s de Sesimbra e da Amadora desenvolveram projectos interessantes com resultados bastantes positivos e que poderiam ser a base para a criação de um plano nacional contra este problema.

4) Pensar no ensino profissional/vocacional não apenas como um rumo alternativo, mas sim como uma parte vital do sistema de educação, que permita a jovens qualificados ter entrada directa no mercado de trabalho. Seria importante que as escolas criassem eventos onde as crianças/jovens tivessem algum contacto pessoal com diferentes atividades económicas, de forma a terem um incentivo adicional para seguir este rumo. Também poderia ser-lhes dada a oportunidade de visitar algumas empresas do concelho.

5) Alterar a cultura burocrática vigente que se foca cada vez mais nos resultados quantitativos, e estimular o debate entre os membros da comunidade escolar e política de forma a que se consolide uma avaliação qualitativa do estado da educação, e que desta forma se leve a que os membros de ambas as comunidades pensem em soluções estruturais que solucionem os problemas do ensino público. A criação de um plano Simplex virado só para as questões burocráticas da educação facilitaria a vida, não apenas aos professores, mas a todos os profissionais da área.

6) Valorizar a profissão do professor e o seu papel enquanto membro essencial da comunidade escolar. Aqui o principal seria alterar a percepção da opinião pública através de ações de propaganda, pois uma grande parte das pessoas tem uma opinião bastante inflamada contra os professores, pois consideram que os mesmos são uma classe laboral privilegiada face às restantes.

7) Repensar no impacto dos exames nacionais na entrada para o ensino superior, bem como em formas alternativas de avaliação de potenciais candidatos que não se foquem apenas nas suas notas, mas também no seu papel enquanto membro integrante da sua comunidade. A adopção do modelo americano, no qual os candidatos são avaliados, não apenas pelas suas notas, mas também pelas suas atividades extracurriculares e em entrevistas é uma potencial solução.

 

Estas 7 medidas são, na minha óptica, as mais importantes para que se garanta a sustentabilidade futura do sistema público de educação (não obstante o facto de haver ainda espaço para dezenas de outras medidas).

É também importante mencionar, o papel que a sociedade civil deve ter no debate sobre o papel do Estado na educação, bem como no debate de ideias que solucionem os problemas da mesma. Independentemente da posição política pessoal de cada um, do seu estrato social, da sua profissão ou do seu rendimento, é essencial que todos nós percebamos que, nestes tempos conturbados em que cada vez mais o “eu” suplanta o “nós”, todos temos um papel ativo na defesa da educação pública e da sua qualidade. Cabe a cada um de nós compreender a importância que a educação tem, não só num prisma de valorização pessoal, mas também nos benefícios da mesma enquanto parte integral da vivência colectiva.

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