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Dia Mundial do Serviço Social – Entrevista à Assistente Social Maria João Pena

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Caro leitor, hoje comemora-se o Dia Mundial do Serviço Social! Estamos na 3ª terça-feira do mês de Março!

A origem da profissão remonta ao período ditatorial, quando em 1935 surge a primeira Escola de Serviço Social em Portugal. Mas, só em 1989 se dá um reconhecimento da Licenciatura em Serviço Social. E passados 6 anos, em 1995, dá-se o reconhecimento do Mestrado em Serviço Social.

Mas, mais do que falar em datas, temos que falar em pessoas! E é a isso que me propus este ano: falar com profissionais de Serviço Social, os Assistentes Sociais! Eles existem e tem algo a dizer sobre a prática, mais do que a teoria, e sobre as mudanças que constantemente tem vindo a surgir (e ainda em curso) na profissão!

Eles tem nome! Eles exercem a sua profissão! Eles são Assistentes Sociais!

Para hoje apresento-lhe, Maria João Pena, a Diretora da Licenciatura do Curso de Serviço Social no ISCTE-IUL! Tem 49 anos, é natural de Lisboa, licenciada pelo Instituto Superior de Serviço Social em 1991, mestre em Sociologia da família pelo ISCTE-IUL e doutorada em serviço social pelo ISCTE-IUL. Trabalhou como assistente social no Instituto de Apoio à Criança desde 1992 até 2016. Começou a lecionar em 1996 no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, depois no Instituto Superior de Serviço Social de Beja e na Universidade Lusíada de Lisboa até integrar a equipa de Serviço Social do ISCTE-IUL em 2011, onde está agora em regime de exclusividade!

Antes de mais, a Professora Doutora Maria João Pena tem uma mensagem para deixar aos alunos finalistas de Serviço Social, enquanto docente e profissional a trabalhar na área:

“A formação teórica e metodológica que recebem na formação em serviço social habilita-os a um desempenho profissional sustentado, mas o grande desafio far-se-á na operacionalização desses conteúdos, na forma como cada um define a profissão, no quotidiano da relação profissional, com os sujeitos e com os colegas de trabalho. O desafio é considerar o outro na sua dignidade, no respeito e na aceitação das diferenças. Que a simpatia e a empatia nunca sejam confundidas!”

O que faz o assistente social dentro do local de trabalho onde exerce a sua profissão?

Neste momento eu estou no ISCTE-IUL, na direção do curso de licenciatura em serviço social, mas até há muito pouco tempo estive ligada ao Instituto de Apoio à Criança, na linha telefónica SOS Criança, pelo que vou centrar-me neste último para efeitos desta questão.

A linha inicia o funcionamento às 9.00 assim como o serviço de chat, pelo que tudo deve estar conectado nessa hora. Caso estivesse de serviço na linha dependia dos apelos que surgissem, que podem ser pedidos de informação, orientação para outro serviço, ou então uma situação em que é necessário um atendimento mais centrado na pessoa, compreender o problema, construir com a pessoa a interpretação desse mesmo problema, para depois, no âmbito dessa relação de ajuda, podermos definir algumas ações. As situações apresentadas são diversas, indo de casos de crianças desaparecidas às denuncias de situações de risco e perigo. A segunda parte do trabalho dos técnicos é indireto, na articulação com as instituições de proteção na comunidade, quer a nível da recolha de dados, PSP, centros de saúde, escolas, ou de solicitação da intervenção, sobretudo as CPCJ.

Para além disso as reuniões inter-institucionais, de equipa, os atendimentos presenciais, a representação da organização nas parcerias nacionais e internacionais, em seminários e projetos de investigação.

No desempenho das suas funções faz intervenção directa ou indirecta? Quais as vantagens e desvantagens que encontra no desempenho dessa função?

Penso que, como quase todos os assistentes sociais combino os dois tipos de intervenção. Mesmo na intervenção indireta é fundamental ser precedida pelo contacto com a pessoa, grupo ou comunidade para compreender as suas necessidades, mas também a sua vontade, construir o diagnóstico e planear a intervenção. O importante é que essa análise, das vantagens e desvantagens, seja feita por cada assistente social na situação concreta, para decidir com o sujeito o que fazer e como fazer.

Dentro da população utente com a qual intervêm, quais são as maiores dificuldades que encontra?

Há uma questão que eu gostava de salientar, os desafios com que hoje a família é confrontada e o facto de ser muitas vezes impotente para lhes responder, por questões internas e externas. As sinalizações e as denuncias que chegam aos diferentes serviços demonstram a necessidade de definição de uma política de família, que permita uma abordagem mais integrada, possibilitando depois aos serviços um verdadeiro acompanhamento e não apenas atividades paliativas.

Qual é o enfoque de necessidades que encontra maioritariamente? Qual a razão dessa/dessas necessidades?

Há todo um cenário de vulnerabilidade social, num contexto de pobreza e exclusão que constituem territórios de intervenção dos assistentes sociais, mas este é tão vasto e tem sido alimentado pela crise económica e pelas desigualdades sociais, que faz com que facilmente identifiquemos a intervenção com as situações limite, com respostas sociais pontuais e assistencialistas. Mas a essência da profissão passa pelo desenvolvimento, pela capacitação, que são processos e, muitas vezes, começam por estas respostas, mas vão mais longe, procuram a autonomia, a tomada de decisão, o poder da sua própria vida. E esse é o desafio do assistente social, olhar mais longe, procurar mais alto, ajudar cada um e a comunidade a procurar o seu bem-estar.

Ao nível dos serviços, o Serviço Social é uma profissão que está um pouco por toda a parte na sociedade. Dentro desse prisma, qual a opinião que, no seu ponto de vista, a sociedade tem do Assistente Social?

De acordo com a minha experiência não podemos falar de uma opinião, mas de várias, de acordo com os contextos em que estamos inseridos. O assistente social intervém numa diversidade de campos, com diferentes profissionais, e a sua afirmação não é, para já, igual em todos eles. Mas, de uma forma genérica, penso que é reconhecido pelas pessoas com quem trabalhamos o valor da profissão que desempenhamos, sejam elas os utentes ou os outros profissionais, cabendo a cada um de nós fazer com que os outros reconheçam este domínio científico, no desempenho quotidiano nas organizações e na academia.

É de conhecimento geral que o género que predomina na formação em Serviço Social é o feminino, embora já exista, cada vez mais, profissionais do género masculino. Na sua opinião porque é que o Serviço Social sempre foi encarado como uma profissão feminista?  

Inicialmente as funções que eram desempenhadas eram específicas do género feminino, se pensarmos na organização da sociedade do início da formação, daí a profissão ter ganho esta representação, que vem sendo progressivamente alterada, tendo em conta também a igualdade de géneros que hoje se defende, não só na profissão, como na organização da sociedade. Claro que, por ser uma profissão sobretudo ligada ao género feminino, foi conotada muitas vezes com o feminismo, mas são questões diferentes. Nem todas as mulheres defendem esta abordagem na compreensão da realidade, mas claro que está presente no serviço social, por exemplo nas situações de violência doméstica.

Seria importante a criação de uma Ordem Profissional para os Assistentes Sociais? Porquê? 

Uma profissão que cobre uma diversidade de campos e de setores beneficia pela existência de uma entidade que possa regular a profissão. Os desafios que se impõem a cada um de nós e à profissão no seu todo, serão respondidos de forma mais global e concertada pela Ordem, não apenas nacional como internacionalmente. A existência da Ordem beneficia não apenas os assistentes sociais, como também as pessoas com quem trabalhamos, assegurando que o caminho da profissão será o dos direitos humanos e o da justiça social.

 

Em nome de toda a equipa do Ideias e Opiniões, endereço os maiores agradecimentos à Professora Doutora Maria João Pena, pela sua disponibilidade e colaboração.

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