Conto

Concentração Motards de Faro – Uma Viagem Alucinante!

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— Martim! Martim, filho! Onde estás? — gritava loucamente a mãe de Martim, enquanto vasculhava todas as divisões da casa à procura do seu filho. Mas, apesar da forma tresloucada como gritava, o seu precioso Martim não respondia — o que deixava ainda mais nervosa a pobre da mulher.

        Depois de percorrer todas as divisões da casa, eis que a mãe ouve um barulho ensurdecedor vindo da garagem. Um barulho que mais parecia um tractor com problemas no escape. Dirigindo-se rapidamente para a garagem, a mãe de Martim já não chamava pelo nome do seu precioso filho. Bastava aquele barulho ensurdecedor para descansar o seu pobre coração: pois tinha a certeza que se tratava do seu filho a mexer na mota do seu pai.

            — Martim! Ah, estás aqui… — disse a mãe, ao abrir a porta que dava acesso à garagem. O barulho da mota não permitia que Martim se apercebesse da presença da sua mãe. Foi necessário ela se aproximar dele, e colocar-lhee a mão no ombro esquerdo para que ele se apercebesse que não estava sozinho na garagem.

            — Ah… Olá, mãe. Precisas de alguma coisa? — gritou Martim, tentando assim abafar o som ensurdecedor da Harley Davidson, que outrora fora do seu pai.

            — Toma, filho! Fiz para ti! — disse a mãe, enquanto esticava orgulhosamente no ar um casaco de cabedal, algo agastado do tempo. — É para tu levares na viagem, meu filho.

            Martim desligou o motor da mota, para assim ser possível ouvir de forma nítida as palavras que saiam da boca da mãe que, derivado do barulho ensurdecedor do motor a trabalhar, mais lhe pareciam uma verdadeira cacofonia descontrolada e sem nexo.

            — O que é isso, mãe? Isso… isso é o casaco de cabedal do pai? — disse Martim, sentindo os olhos a começarem a arder, e tentando evitar ao máximo que as lágrimas resolvessem aparecer de uma forma desenfreada e impossível de controlar.

            — Sim, filho… É o casaco do teu pai… Aliás, era o casaco do teu pai. Agora é teu, meu querido…

            — Não, mãe… Eu não posso… O pai adorava esse casaco… — disse Martim, tentando esconder a minúscula lágrima que não conseguira impedir que se soltasse e começasse a escorrer lentamente pela sua face.

            — Sim, eu sei, meu querido… Mas tenho a certeza que ele iria adorar que tu o usasses, e tenho a certeza que te assenta tão bem como assentava a ele, sempre que o vestia e ia dar a sua volta diária na sua Harley Davidson.

            Martim ficou largos segundos a fitar a sua mãe, tentando descobrir na sua mente a imagem do seu pai montado em cima da sua preciosa Harley Davidson, com o seu casaco de cabedal vestido e com o vento a bater-lhe violentamente nas suas bochechas, enquanto esboçava um pequeno sorriso e se afastava lentamente pela estrada afora.

            — Ok, mãe… Eu fico com o casaco, em memória do pai…

            — Ainda bem, meu filho. Fico muito feliz por isso. Para além de que será uma forma de o teu pai te acompanhar nessa tresloucada viagem de mota que vais fazer. Tens a certeza que queres mesmo fazer isso, filho?

            — Sim, mãe… tenho. Agora mais do que nunca. Era o sonho do pai. Um sonho que ele não conseguiu concretizar… mas que eu a irei fazer em sua memória.

            — Mas, filho… Não é preciso fazeres já esta viagem… Podes muito bem a fazer mais tarde, com um grupo de amigos e assim já não ires sozinho… Ainda são muito quilómetros daqui até Faro, Martim…

            — Mãe… Já discutimos este assunto um milhar de vezes. Eu já decidi que vou fazer esta viagem em memória do pai. Eu vou até Faro, ficar lá os três dias da concentração e depois regresso de consciência tranquila de que consegui concretizar o sonho do meu pai. Tenho a certeza que ele me irá acompanhar durante a viagem. O espírito dele está em mim, nesta mota e até neste casaco, mãe… — disse Martim, enquanto examinava o casaco. — O que é isto, mãe? “Darko”? Foste tu que coseste este nome nas costas do casaco?

            — Sim, filho… — começou por responder a mãe, enquanto limpava com as costas da mão, as lágrimas que lhe escorriam pela face abaixo — eu sei como essas concentrações podem ser muito duras. O teu pai passava a vida a falar delas, apesar de nunca ter conseguido ir a uma. Ele contava histórias mirabolantes da guerra entre os clãs de motards, apesar de eu achar que ele estava era demasiado influenciado pelos documentários sobre motards que ele passava a vida a ver nos canais americanos. Mas, mesmo assim, é preferível teres um “nome de guerra” no casaco, que cause alguma espécie de intimidação. E, apesar de eu adorar o teu nome, meu filho, Martim não intimida ninguém, quanto mais um grupo de motards…

            Martim conseguiu esboçar um pequeno sorriso para a mãe, apesar da profunda tristeza e vazio que sentia dentro de si. Apressou-se a vestir o casaco, apercebendo-se imediatamente que lhe ficava um pouco comprido nas mangas, mas não era nada que impedisse de o usar.

            — Obrigado mãe… — disse Martim, aproximando-se da sua mãe, e dando-lhe um abraço forte. — Vai tudo correr bem, velhota. Tens de compreender que esta é a minha forma de fazer o luto pela morte do meu pai. Ele não merecia desaparecer deste mundo tão cedo, com ainda tantos planos e objectivos de vida por concretizar. Esta viagem é em sua memória. Eu sei que, ele, esteja onde estiver, vai ficar muito feliz por eu realizar um dos seus sonhos.

            — Eu sei, meu querido… Eu sei que sim… — soluçou a mãe de Martim, ao mesmo tempo que virava costas ao filho e saía da garagem em direcção ao interior de casa.

            O falecido pai de Martim tinha uma paixão enorme por motas, mais especificamente pelas Harley Davidson. Durante toda a vida lutara contra tudo e contra todos, para conseguir levar a avante um dos sonhos de infância: ser o proprietário de uma Harley Davidson. Sonho esse que conseguira concretizar, após juntar dinheiro durante largos anos, com o intuito de adquirir a mota dos seus sonhos, e poder participar na mítica concentração motard de Faro, no Algarve. Derivado das inúmeras vicissitudes da vida, nunca conseguira fazer a tão ansiada viagem até Faro, acabando por falecer tragicamente vitima de um ataque cardíaco, a poucas semanas de poder cumprir esse sonho e após ter finalmente adquirido a sua Harley Davidson.

            Agora o seu filho Martim, iria fazer essa viagem em sua memória sentado na Harley Davidson do pai. Seria uma espécie de homenagem ao seu velhote, que tanto quis incutir-lhe o bichinho pelas motas, mas que fracassara sempre. E agora, depois de ter desaparecido deste mundo, finalmente conseguira a proeza de fazer o seu filho sentar-se em cima de uma Harley Davidson.

            Pena que já não pudesse presenciar tal feito…

***

            Eram sensivelmente sete horas da manhã, quando Martim se sentou em cima da Harley Davidson, de casaco de cabedal com o seu “nome de guerra” (Darko) vestido, luvas pretas igualmente de cabedal e um capacete de um negro baço que fora obviamente do seu pai. Ligou o pequeno GPS portátil que tinha comprado propositadamente para a viagem, e ligou a ignição. Deu duas estrondosas aceleradelas — como que a medir a força da máquina que tinha nas mãos — e, antes de arrancar, olhou para trás e piscou o olho à mãe, que o observava através da janela da sala, completamente lavada em lágrimas.

            E deu início à viagem até Faro.

            Depois de passar a Ponte 25 de Abril, “Darko” decidiu parar no posto de combustível mais próximo, para comprar uma garrafa de água, e abastecer a moto. Um dos problemas da viagem seria o valor que iria gastar em combustível, visto que a Harley Davidson era uma mota que consumia muito. Mas Martim não se importava com esses pequenos pormenores, porque o facto de estar a realizar o sonho do seu falecido pai, bastava para compensar toda e qualquer perda financeira.

            Apesar de só ainda estar a andar à meia-hora, Martim já sentia o rabo completamente dorido. Mas teria de ser forte… Pelo seu velhote, teria de suportar tudo. Abasteceu o depósito e seguiu viagem em direcção a Faro.

            A viagem estava a correr bem. Estava a circular a uma boa velocidade, e não estava a encontrar muito trânsito. “Isto vai ser canja, velhote!”, pensou Martim, olhando para o céu em busca de algo que o fizesse lembrar o pai. Subitamente, Martim começou a ouvir um barulho muito estranho. Parecia uma espécie de som de uma mota, mas uma mota muito, muito velha. Não tanto como uma Casal Boss, mas mais como uma… Vespa. Olhou para um lado e depois para outro, e nada viu senão os campos verdejantes do Alentejo. E foi então que tudo se passou de uma forma bastante rápida e brusca.

            Algo passou por Martim, de forma tão rápida que o obrigou a agarrar o volante da mota com a força de um titã, caso contrário perderia o controlo da mota e tombaria no asfalto. Depois de andar aos ziguezagues durante uns breves segundos — que mais pareceram “eternos segundos” a Martim —, lá conseguiu equilibrar a fera e prosseguir caminho.

            “Mas o que seria aquilo que acabou de passar por mim, caramba?!”, pensou Martim, ainda algo ofegante derivado da força que teve de fazer para conseguir equilibrar a mota.  Olhou em frente, e viu um vulto verde a distanciar-se de si no asfalto. Mas ainda estava suficientemente perto para que Martim conseguisse descortinar o que lhe tinha feito tal malvadez de ultrapassagem que quase o ia atirando ao chão. Tratava-se de uma mota Vespa verde e montada nela seguia um homem vestido de calças de cabedal pretas e um casaco igualmente preto e de cabedal, com as palavras “Vespa Powa”.

            Subitamente, uma sensação de raiva invadiu o corpo de Martim. “Como é possível que isto tenha acabado de acontecer?!”, pensou Martim. “Como é que fui ultrapassado e quase derrubado por uma Vespa. O que deverá estar a pensar o meu pai, se me estiver a ver neste preciso momento?! Deve estar cheio de vergonha do filho que tem… que deixou-se ser ultrapassado por uma Vespa. Uma simples Vespa… Isto não pode ficar assim! Isto é um ultraje para a nação motard. Uma Vespa…? Não, eu não vou admitir tal coisa!”, pensou Martim, enquanto acelerava a Harley Davidson do seu pai, para alcançar o mais rápido possível aquela maldita Vespa.

            Por mais incrível que parecesse, quanto mais acelerava, mais se distanciava de Martim a pequena Vespa. Durante uma hora seguida, Martim tentou a todo o custo alcançar a maldita Vespa, mas sempre sem sucesso. A maldita perseguição que encetara, acabara por obrigar Martim a abastecer a mota no próximo posto de combustível — o que confirmava que aquela viagem iria custar mais do que tinha inicialmente planeado. Alguns minutos mais tarde, lá surgiu o posto de combustível no campo de visão de Martim. E assim que entrou no posto de combustível, uma mancha verde invadiu-lhe o campo de visão, soltando uma raiva interior que Martim desconhecera até então: era a maldita Vespa verde.

            Martim parou ao lado da Vespa, e começou a examiná-la de uma ponta a outra, interrogando-se sobre como seria possível que aquele monte de ferro-velho pudesse tê-lo ultrapassado — e quase derrubado! — e conseguisse fugir-lhe durante uma hora seguida. Alguns segundos mais tarde, Martim é interrompido pela voz grave de um homem:

            — Queres comprar, é? — disse o dono da Vespa.

            — Comprar? Ah, ah, ah! — respondeu Martim.

            — Disse alguma piada, eu?

            — Claro que disseste! Mas tu achas que alguém quer comprar um monte de ferro-velho como esse? — disse Martim, enquanto soltava o descanso da sua mota.

            — Ah, ah! Com que então, um ferro-velho, hein…? — começou por dizer o dono da Vespa, ao mesmo tempo que colocava o capacete na cabeça. — Um ferro-velho que deu uma abada nessa espécie de mota que trazes aí… Gostaste de sentir o ventinho na cara? Gostaste de sentir um vulto verde a passar por ti?

            — Mais respeitinho, seu sucateiro! Isto é não é uma simples mota: trata-se de uma Harley Davidson! É uma mota mítica! Não é esse monte de sucata verde que tens ai! — vociferou Martim, ainda montado em cima da mota do seu pai.

            — Caso não tenhas reparado, esta sucata verde que tenho aqui, dá uma abada nessa “mota mítica” num abrir e fechar de olhos.

            —Vê-se mesmo que não percebes nada de motas… És mesmo um sucateiro de meia-tigela…

            — Ai sou…? Pois muito bem, então vamos fazer uma aposta! — disse o dono da Vespa, com uma expressão de gozo na cara. — Pela tua vestimenta, deduzo que estás a caminho da concentração motard de Faro, correcto?

            — Sim, estou… E porquê, ó sucateiro?!

            — Porque eu também estou!

            — Ah, ah! Vais para uma concentração motard munido de um amontoado de sucata? Isso é um ultraje para todos os motards, pá! Tem vergonha nessa cara, dá meia-volta e volta para casa!

            — O primeiro a chegar a Faro, ganha a aposta. — disse o dono da mota, esticando a mão na direcção de Martim.

            — Estás a gozar, certo? — respondeu Martim, olhando alternadamente para a mão e para a cara do dono da Vespa.

            — Nunca falei tão a sério na minha vida!

            — Ah, ah! Vamos a isso, então!

            — Espera… Falta saberes qual é o prémio da aposta…

            — Não quero saber! Vamos a isto! Eu vou ganhar-te de olhos fechados… — disse Martim, apertando a mão do homem.

            O dono da Vespa sorriu, e subiu para cima da Vespa verde. Martim sorriu de volta, e ligou a ignição da Harley Davidson do seu pai. E sem mais conversas, lá seguiram os dois viagem em direcção a Faro.

            Por mais incrível que pudesse parecer a Martim, o raio da Vespa nunca largava a sua roda traseira. Fosse a descer ou a subir, a Vespa estava sempre colada a si, chegando a tornar-se algo perturbador e muito desconcertante. Depois de duas horas a ser perseguido pela Vespa, Martim olhou para o GPS a fim de verificar quanto tempo faltava para chegar a Faro. E, para sua surpresa, o GPS indicava que estavam muito pertíssimo de Faro. Martim nem se apercebera de quantos quilómetros tinha andado, porque tinha passado as duas últimas horas concentrado em não deixar a Vespa ultrapassá-lo. “Estamos a chegar a Faro… Tenho de fazer algo para o enganar… “, pensou Martim, enquanto estudava o GPS sem nunca perder a noção de onde se encontrava o seu perseguidor. O GPS começou a piscar, informando Martim que, daí a dois quilómetros, teria de virar à esquerda. “Ah, já sei: vou abrandar, obrigando-o a abrandar também para não embater em mim, depois acelero bruscamente, e assim vou conseguir distanciar-me dele o suficiente para poder virar à esquerda para Faro. E ele, como virá a acelerar que nem um louco para me apanhar, nem irá reparar que tinha de virar à esquerda… E assim eu vou chegar primeiro a Faro, e ganho o raio da aposta!”, pensou Martim, soltando um pequeno esgar de malvadez.

            Assim o pensou, assim o fez.

            Foi por um triz que o dono da Vespa não embateu em Martim, levando-o quase a despistar-se. Mas o plano correu às mil maravilhas para Martim, que conseguira distanciar-se o suficiente da maldita Vespa, para chegar primeiro a Faro. Após virar à esquerda, seguindo as indicações do GPS para chegar a Faro, segundos depois ouviu a Vespa a passar a uma velocidade estonteante pela saída para Faro, fazendo Martim rir às gargalhadas por ter conseguido enganar o dono da Vespa, acabando por ganhar assim aquela aposta.

            Chegou a Faro e estranhou o facto de a cidade estar tão calma. Quase não se via ninguém nas ruas, mas rapidamente se mentalizou que deviam estar todos na grande concentração de motards. Deu voltas e mais voltas à cidade, e estranhou o facto de ela lhe parecer tão pequena. Farto de andar às voltas, optou por encostar a mota junto a um senhor que estava sentado num banco, à beira da estrada, de cajado na mão e boina na cabeça. O homem ressonava à sombra de uma árvore, que estava ao lado do banco, lhe fornecia.

            — Olhe… Desculpe… Psst! Eh pá, acorde! — gritou Martim, já algo exasperado.

            A muito custo, o homem lá abriu calmamente os olhos, piscou-os várias vezes como se estivesse a adaptar-se à claridade, e disse:

            — O que é?!

            — Amigo, peço desculpa por estar a interromper o seu sono, mas pode-me dizer como é que vou para a concentração de motards?

            — Concentração de quê…?

            — De motas… A grande concentração de motards de Faro.

            — A grande quê…? Ah, já sei… Eu li qualquer coisa sobre essa coisa das motas ontem no jornal aqui da vila…

            — Vila…?

            — Sim, homê! O jornal aqui de Faro…

            — Mas Faro não é uma vila… é uma cidade!

            — Ó meu amigo… Olhe que eu acho que vossemecê está um pouco equivocado, pá!

            — Não estou nada! Faro é uma cidade e não uma vila!

            — Mas vamos lá a ver uma coisa… O mê amigo pensa que está onde, mais propriamente dito?

            — Então… em Faro, no Algarve!

            — Ah… Olhe que nã está, não…

         — Hum?! O que é que você está para aí a dizer, pá?! — Martim já estava a ficar muito irritado com aquele homem, e uma súbita vontade de lhe bater começou a surgir na sua mente.

            O homem ajeitou a boina, retirou um palito do bolso da camisa, colocou-o no canto da boca e disse:

          — Eh, amigo… Você nã está no Algarve! Você está em Faro, sim senhor, mas é do Alentejo. Você está em Faro do Alentejo, vila que pertence a Cuba. No Alentejo, pá. Não no Algarve…

            Martim ficara, por breves momentos, boquiaberto a olhar para aquele homem. Depois de tantas horas a tentar fugir daquela maldita Vespa, e acabara por ser enganado pelo próprio GPS. Depois de tantos dias a preparar aquela viagem para homenagear a memória e o grande sonho do seu falecido pai, e acabara por se enganar e não conseguir chegar a Faro… no Algarve. Martim sentiu uma mescla de sentimentos; tristeza, amargura, desolação e vergonha. Martim sentia vergonha por ter desiludido o seu pai. Mas, acima de tudo, Martim sentia uma revolta interior que o começou a consumir intensamente. E essa revolta devia-se a uma simples questão: afinal, qual seria o prémio do raio da aposta?

FIM

 

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